Posts Tagged ‘Economia’

Com nova lei na economia cubana, Brasil é o principal parceiro

14 de abril de 2014

Ricardo_Santana01_ApexDaniel Mori, via Jornal GGN

A Assembleia Nacional de Cuba aprovou recentemente, por unanimidade, uma nova lei que abre o país a investimentos estrangeiros. A lei ainda não permite mudanças profundas, como a autorização para que empresas de outros países possam contratar mão de obra local sem intermédio do governo, mas tornam mais atrativos os investimentos externos ao diminuir de 30% a 15% a tributação de lucro, além de aumentar para oito anos a isenção tributária de novas iniciativas.

O governo cubano afirma que necessita de mais de US$2 bilhões por ano em investimentos estrangeiros diretos para atingir a meta de crescer 7%. Mas, graças ao embargo, Cuba não conta a parceria do principal investidor do mundo, os EUA. E foi nesse sentido que o Brasil viu a oportunidade de investir e conquistar o mercado consumidor do país. Dessa forma, o governo brasileiro, através da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), uniu dezenas de empresas nacionais dispostas a conhecer e mergulhar na economia cubana.

O diretor de Negócios da Apex-Brasil, Ricardo Santana (foto), defende a iniciativa do governo brasileiro de investir na construção do Porto de Mariel, com dinheiro do BNDES e que isso representará vantagens para o empresariado brasileiro. “Isso reduzirá o custo de operações logísticas para o Brasil, até pelo aspecto de poder atender a outros países da região”.

Para Ricardo Santana, a localização geograficamente estratégica fará de Cuba um polo concentrador na região. “Pode ser um hub para países do Caribe, principalmente ao considerarmos o crescimento das economias na América Central, como Panamá, Honduras, El Salvador, Costa Rica e Guatemala. Em 2013 o PIB cubano foi o maior de toda a América Central e o Caribe, exceto pelo território estadunidense de Porto Rico. E o país é também o segundo maior destino das exportações brasileiras nessa região, atrás apenas do Panamá”.

Só no ano passado, a corrente de comércio Brasil-Cuba totalizou US$624,8 milhões, com incrementos de 9,2% com relação a 2008. Desse montante, US$528,2 milhões corresponderam à exportações brasileiras. Vendemos para o país: óleo de soja refinado, arroz, milho, carne de frango, café, papel, calçados, máquinas agrícola, móveis e há oportunidades para muito mais, como produtos de higiene e beleza, autopeças e outros.

Por mais que haja uma preocupação dos investidores ao redor do mundo acerca do modelo político-econômico cubano, o país apresenta hoje uma economia em expansão, uma população de 11 milhões de habitantes e um turismo pujante. Segundo o diretor da Apex-Brasil, não há obstáculos para o sucesso das relações comerciais entre os dois países. “Cuba oferece um porto com capacidade de movimentação de 1 milhão de contêineres, uma Zona Especial de Desenvolvimento, uma boa localização, proximidade cultural, necessidades por produtos que o Brasil fabrica, ou seja, condições promissoras e que oferecem oportunidades oportunas para empresas brasileiras”, disse Ricardo.

Só em 2013, 324 empresas brasileiras exportaram para Cuba: carne de franco, café, arroz, farelo e óleo de soja, massas alimentícias, papel, fumo, máquinas agrícolas, fios sintéticos, produtos de borracha, reboques, veículos de carga, resina. Ricardo Santana avalia que há também espaço para produtos de higiene, limpeza e cosméticos, autopeças, aparelhos mecânicos e elétricos, calçados, chassis, confecções, ferramentas e talheres, aparelhos de ótica, plástico, cerâmica, confeitaria, produtos químicos e farmacêuticos, vidro e muitos outros.

“Pelos questionários que as empresas brasileiras responderam na Missão Empresarial, enviada a Cuba, há uma perspectiva de negócios para os próximos 12 meses de US$37,5 milhões. Creio que vale apontar que para nós, a expansão da economia cubana representa mais negócios para o Brasil e para a região da América Latina. O nosso crescimento econômico está relacionado ao fortalecimento da região”, concluiu o diretor de Negócios da Apex-Brasil.

***

Leia também:

EUA querem transferir prisioneiros de Guantânamo para América Latina

Cuba denuncia outra rede social dos EUA criada para desestabilizar governo

EUA criaram conta no Twitter para tentar desestabilizar governo cubano

O dedinho de FHC, o porto de Cuba e as hidrelétricas do Aécio

Dilma Rousseff: Mais Médicos leva saúde a 46 milhões de pessoas

Cinco heróis cubanos: René Gonzalez é vítima de uma nova farsa política

Cuba aceita proposta da EU para abrir negociação do diálogo político

Eric Nepomuceno: Cuba e a renovação da Revolução

Mais Médicos supera meta e garante atendimento a mais de 51 milhões de brasileiros

Mais do que camisa verde-amarela, Lula leva a Fidel apoio do Brasil à Revolução

Justiça nega liminar à desertora do Programa Mais Médicos

Com Raul Castro, Lula visita Porto de Mariel e considera obra “referência” para o continente

Cinco heróis: Sai da prisão mais um antiterrorista cubano preso nos EUA

René Gonzalez, herói cubano: “Foi muito difícil deixar o país e ficar como traidor.”

Boa hora de a Dilma colocar em debate a democratização da mídia

Em Cuba, Lula e Raul Castro consolidam o projeto de integração latino-americana

Boato coxinha: Tornozeleira de preso não será usada em médicos cubanos, mas sim em médicos de Minas

Quem vê cubanos como escravos nunca se indignou com escravos de verdade

Mauro Santayana: Pearl Harbor e Mariel

Dilma e o porto em Cuba: A diferença entre jornalismo e discurso panfletário

PSDB diz que é escândalo emprestar dinheiro a Cuba. Esqueceram de perguntar por que FHC emprestou

Vídeo: O diretor da Fiesp e por que o Brasil está certo ao investir em Cuba

Por que investir em Cuba? E na África e na América Latina? Não é caridade ideológica, é negócio

Beto Almeida: O porto de Mariel, Brasil, Cuba e o socialismo

Em Cuba, Dilma agradece por Mais Médicos e diz que bloqueio é injusto

Embaixada dos EUA ajudou cubanos a deixar o Mais Médicos

Mais Médicos: Evasão de brasileiros é 20 vezes maior que a de cubanos

CFM quer que cubanos “escravos” não atendam doentes e sirvam cafezinho

Ronaldo Caiado é agente de Fidel?

Cadê o Gilmar Mendes: Médica cubana está em apartamento da Câmara e recebe vaquinha do DEM

Você sabia que os EUA têm um programa para fazer médicos cubanos desertarem?

Caiu a máscara: Médica cubana montou farsa para encontrar namorado em Miami

Cubana usa Caiado para ir morar em Miami com o namorado

Máfia de branco cria site contra Mais Médicos

O salto no IDH das cidades e o Programa Mais Médicos

Em 2013, Mais Médicos atendeu 2.177 municípios em todas as unidades da federação

Porque o médico Juan Delgado é o homem do ano de 2013

Se ainda tinha algum, Veja perde o pudor e prega vaia contra cubanos

Dilma: Mais 23 milhões de brasileiros terão acesso ao Programa Mais Médicos

Por isso eles são contra o Mais Médicos: Marajás de jaleco

Por que os médicos cubanos são tão queridos?

Mais Médicos: Padilha peita presidente do Conselho Federal de Medicina

Quem não está acostumado, estranha: Pacientes se assustam com visita de médico cubano em casa

Primeiro médico cubano chegou em 1995 no interior de São Paulo

Coxinha preso por só bater ponto fazia campanha contra o Mais Médicos

Mais Médicos: Eduardo Campos é acometido de amnésia súbita

Dilma sanciona Mais Médicos e entrega registro a médico cubano

Dilma pede desculpas em nosso nome, doutor Juan

Pesquisa CNT: 74% da população é favorável a vinda de médicos estrangeiros

Entenda por que os médicos cubanos não são escravos

Médicos cubanos recebem flores um dia após as agressões

Paulo Moreira Leite: Quando os corvos vestem branco

Médicos cubanos: Quem são os responsáveis pelo corredor polonês em Fortaleza?

Quem são e o que pensam os médicos cubanos

Janio de Freitas: A reação aos médicos cubanos é doentia

Preconceito: Jornalista diz que médicas cubanas parecem “empregadas domésticas”

Vídeo: O dia que os médicos brasileiros envergonharam o País

Dez informações sobre a saúde e a medicina em Cuba

Médicos cubanos: Como se desmonta uma farsa de jaleco

Médicos cubanos: Os primeiros já chegaram ao Brasil

Médicos de Cuba, bienvenidos camaradas!

Vinda de médicos cubanos reforça ódio ideológico ao PT

Mais de 70% dos médicos cubanos vão para o Norte e Nordeste

Mais Médicos: Alheias ao embate ideológico, pequenas cidades comemoram vinda de médicos cubanos

Paulo Moreira Leite: O extremismo dos doutores

Eliane Brum: Ser doutor é mais fácil do que se tornar médico

Breno Altman: Conservadorismo de branco é atraso

Médico que diz que estrangeiros são enganação tem dois filhos “importados” de Cuba

Programa Mais Médicos, o Bolsa Família da saúde

Queremos médicos suecos!

Carta para Micheline Borges, a jornalista preconceituosa

Ministério da Saúde chama de “xenofobia” protesto contra médicos no CE

Médicos brasileiros, o orgulho branco da nação

Recordar é viver: Quando FHC trouxe cubanos, Veja aplaudiu

Médicos cubanos: Avança a integração da América Latina

Coxinhas de branco: A vergonha da nação

Conheça o médico cearense que liderou os xingamentos contra os cubanos

Nobel de Economia diz que “sonho norte-americano” é um mito

11 de abril de 2014

Joseph_Stiglitz02A

Progresso dos cidadãos nos EUA depende dos estudos custeados por seus pais, diz Stiglitz.

Via Portal Terra

O economista norte-americano Joseph Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel em 2001, afirmou na terça-feira, dia 8, durante uma palestra no 7º Fórum Mundial de Cidades, que os Estados devem desempenhar o papel que lhes corresponde no planejamento das cidades ao considerar que o sonho norte-americano, modelo que deixa as urbes nas mãos dos mercados, é um mito.

“O Estado tem de desempenhar um papel importante. O que me preocupa é que nos últimos 20 anos perdemos esse equilíbrio entre o papel do Estado e o do mercado”, disse Stiglitz durante a palestra no fórum que acontece na cidade de Medellín, na Colômbia.

Para o economista, as cidades norte-americanas de Detroit e Gary – lugar onde nasceu – são urbes “que fracassaram porque os governos não fizeram o que tinham que fazer” e as consequências da desindustrialização, de automóveis e aço respectivamente, as condenaram. “Os mercados não tratam bem a reestruturação urbanística”, disse.

Além disso, questionou o sonho norte-americano, que chamou de “mito”, já que o progresso dos cidadãos nos Estados Unidos depende dos estudos custeados por seus pais, enquanto na Europa, com modelos considerados “mais rígidos”, a educação é universal.

Stiglitz contrapôs o modelo dessas cidades norte-americanas com a asiática Cingapura, “onde o Estado teve um papel fundamental em seu desenvolvimento”; a inglesa Manchester, reconvertida em polo musical, cultural e estudantil após sua desindustrialização; e a própria Medellín.

“Em muitos países querem copiar o modelo norte-americano e eu quero chamar a atenção sobre isso: tenham cuidado com o que desejam, os EUA alcançaram o maior nível de desigualdade de todos os países desenvolvidos”, disse Stiglitz, que atribuiu esse fenômeno a decisões políticas e não só a “forças econômicas”.

Durante a manhã de ontem, em entrevista coletiva, Stiglitz alertou sobre as consequências para a Colômbia da assinatura de um Tratado de Livre-Comércio (TLC) com seu país: estes acordos “são elaborados para o interesse dos Estados Unidos e a favor de outros países avançados”, disse o economista.

“Se seguimos as regras do jogo dos EUA terminamos com seus resultados negativos”, acrescentou o economista. Além disso, Stiglitz pediu que o setor público pensasse nos pobres na hora de planejar a remodelação das cidades ou de construir novas urbes porque “o Produto Interno Bruto (PIB) não é uma boa medida do bem-estar”.

“São os pobres que sofrem com uma cidade mal planejada: os pobres sofrem com os transportes ruins, com a falta de parques públicos e de habitação”, disse. O Prêmio Nobel foi um dos convidados principais do 7º Fórum Mundial de Cidades de Medellín, que tem como objetivo buscar soluções para diminuir a crescente desigualdade nas cidades dos cinco continentes e reverter essa tendência para a promoção de um desenvolvimento mais igualitário.

“No Brasil, o governo focou na educação, na alimentação, na pobreza e é muito surpreendente como essas políticas provaram ser adequadas”, disse Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia

OsAntiPira: Para Abílio Diniz, crescimento da economia não depende só do governo

3 de abril de 2014

Abilio_Diniz03A

Depoimento de Abílio Diniz

Ao longo da minha vida, sempre procurei fazer tudo o que depende de mim e não ficar esperando que os outros façam isso ou aquilo. Se alguma coisa dá errado, eu olho no espelho, não pela janela.

Não procuro buscar desculpas ou culpados pelos erros. Pergunto sempre: será que eu fiz certo aquilo que depende de mim? Essa é a maneira que eu encaro a vida.

Hoje, no nosso país, vejo uma grande quantidade de pessoas se queixando do governo e dos governantes. Não nego que existam motivos para descontentamentos. Muita coisa poderia ser feita de forma diferente, e os brasileiros se sentiriam mais satisfeitos.

Mas, embora existam muitas razões para nos queixarmos dos governantes, estou sempre indagando: será que estamos fazendo aquilo que depende de nós?

Não quero minimizar os problemas brasileiros, eles precisam ser enfrentados. Mas, se continuarmos apontando os erros dos governantes enquanto fizermos a nossa parte, o Brasil poderá ter mais crescimento e mais desenvolvimento.

O caminho para esse desenvolvimento é o aumento da produtividade, com mais gestão, mais investimentos e mais capacitação dos trabalhadores.

Foi o que sempre procurei fazer ao longo da minha vida, primeiro no Grupo Pão de Açúcar e agora na BRF. São duas empresas muito diferentes, atuando em setores distintos. Mas, como ensino a meus alunos do curso de liderança da Fundação Getulio Vargas, todas as empresas são, na essência, gente e processo, processo e gente. Ter os processos mais adequados de gestão e produção aplicados pelas pessoas mais capacitadas.

Seguindo essa fórmula, simples, mas não necessariamente fácil, a produtividade aumenta, a empresa prospera, os investimentos dão retorno. É disso que as empresas precisam, é disso que a economia brasileira precisa.

Nos últimos anos, o Brasil desfrutou do bônus da estabilização econômica e política e de uma conjuntura global favorável, combinação que nos permitiu dar um salto de desenvolvimento com inclusão social. Dezenas de milhões de pessoas entraram no mercado consumidor, milhões de empregos foram criados. A taxa de desemprego, que iniciou o século acima dos 10%, caiu para menos de 6% hoje em dia.

O alto desemprego no início da estabilização e a capacidade de produção ociosa forneceram mão de obra e meios relativamente baratos para as empresas expandirem a produção. Mais emprego trouxe mais renda, que aumentou a demanda por produtos, expandiu o mercado e estimulou novos investimentos.

Este círculo virtuoso, porém, atinge seus limites, e a produtividade é o caminho para sustentar o desenvolvimento, como mostra estudo recente do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

De autoria dos economistas Regis Bonelli e Julia Fontes, a pesquisa mostra como a economia e a produção brasileira cresceram absorvendo aquele enorme contingente de desempregados – principalmente no setor de serviços, intensivo em mão de obra –, sem precisar aumentar a produtividade média do trabalhador de forma significativa, como ocorreu em outros países.

Mas, com o Brasil rodando praticamente a pleno emprego e a transformação demográfica que reduziu o número de filhos por família, não é possível mais crescer via aumento do emprego e do consumo interno. O Ibre aponta que, mesmo mantido o atual (e insatisfatório) ritmo de crescimento da economia, faltaria trabalhador no mercado, como já ocorre em algumas áreas.

O caminho para o crescimento agora passa necessariamente pelo aumento da produção média de cada trabalhador, não mais pelo aumento do número de trabalhadores.

Não é um caminho fácil, mas é um caminho claro. Não depende só das empresas e dos trabalhadores. Entre os maiores entraves à produtividade brasileira estão a precariedade da infraestrutura e a baixa qualidade da educação em todos os níveis.

Há, portanto, um papel fundamental dos governos nesse esforço indispensável pela produtividade. Podemos criticá-los e devemos cobrá-los nesse sentido. Mas podemos fazer muita coisa dentro de nossas empresas, com os processos certos e as pessoas certas.

Aprendi na minha vida que fazer traz muito mais resultado do que esperar e criticar. A corrida da produtividade já começou, e quem sair na frente terá mais chance de chegar lá.

Paul Krugman e Banco Mundial avaliam o Brasil apesar da sonegação

25 de março de 2014

Paul_Krugman01

O Nobel de Economia, Paul Krugman, na abertura do Fórum Brasil em São Paulo, destacou a visível e duradoura vitalidade de nosso parque econômico.

José Carlos Peliano, via Carta Maior

A semana passada foi especialmente rica em declarações sobre a economia brasileira. De 17 a 21 de março fontes insuspeitas e diferenciadas apontaram pelo menos dois pilares que sustentam o desempenho do país e, apesar disso, um vírus que tenta desarticular as contas públicas. Tudo isso a mercê dos vendavais que vira e mexe sacodem as expectativas, as previsões e as manchetes.

De início, o Nobel de Economia, Paul Krugman, na abertura do Fórum Brasil em São Paulo, destacou a visível e duradoura vitalidade de nosso parque econômico. Este o primeiro pilar de sustentação. Contrariamente aos arautos oposicionistas de catástrofes iminentes, registrou em especial a capacidade de adaptação da economia brasileira aos trancos e barrancos da crise mundial e às opções e aos rumos seguidos pelo mercado interno. Chamou-lhe a atenção em particular a flexibilidade demonstrada pela política econômica e pela economia em responder aos cenários negativos. E se sair bem.

Enumerou o economista norte-americano três vantagens em relação às demais economias em crise que não se recuperam mesmo em cenários de juros baixos e inflações no chão tampouco conseguem estimular investimentos.

A primeira vantagem é a nossa menor exposição aos riscos cambiais por conta de uma dívida externa levada a rédeas curtas. E de uma reserva cambial sólida e crescente. O lado externo, portanto, não assusta mais como em décadas anteriores.

As duas vantagens complementares são a inflação controlada e a política fiscal bem administrada. De fato, esses pilares econômicos têm mantido nosso país resistindo a ataques especulativos, a reduções de exportações e a pressão de importações. O lado interno vira gente grande em contraste com administrações federais de períodos passados.

O único senão anunciado por Krugman foi a dinâmica econômica da China cujo motor pode eventualmente desacelerar mais e afetar negativamente nossa pauta de exportações de commodities. E daí conturbar a balança de pagamentos. Enquanto a economia mundial não voltar a crescer, todo o cuidado com a expansão chinesa é pouco. No mais, segundo ele, pista livre para os motores de nossa indústria, serviços e agricultura permanecerem ligados e operando nos limites de suas capacidades.

Nessas condições, portanto, o lado econômico de nosso país caminha bem e ainda com fôlego para continuar roncando motores pelas pistas mesmo experimentando terrenos difíceis e muitas vezes velocidades menores. Mas ainda assim à frente dos motores em ritmo de tartaruga da maioria das demais economias.

E o lado social? O lado social igualmente vai indo bem e com bons resultados. Este o segundo pilar de sustentação. Repisando caminhos anteriores, o Brasil conseguiu reduzir marcadamente a desigualdade nos últimos 10 anos. Um dos elementos fundamentais dessa conquista foi a retirada de famílias da pobreza para inserção nos mercados de trabalho e consumo. Intento sem precedentes na histórica econômica do país e sem comparação no mundo moderno.

Esse intento foi lembrado também na semana anterior quando ocorreu o lançamento no Rio de Janeiro do Fórum de Aprendizagem Sul-Sul sobre política social. Ministros de 70 países, cerca de 200 responsáveis de políticas públicas e mais peritos internacionais participaram do evento intitulado Mundo Sem Pobreza. A ideia é de viabilizar um Portal Virtual para a obtenção de informações sobre programas e projetos para a redução da pobreza e da desigualdade social.

Apoiado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e Banco Mundial, o encontro destacou-se pela apresentação da experiência brasileira com o Programa Bolsa Família que conseguiu viabilizar a entrada na sociedade de consumo de cerca de 50 milhões de pessoas possibilitando melhoria de renda e obtenção de trabalho.

A ministra de Solidariedade Social de Djibouti destacou ser a ferramenta virtual um dos instrumentos mais importantes para a construção de sistemas de proteção social. Já a diretora do Banco Mundial no Brasil, Deborah Wetzel, afiançou ter sido oferecida uma oportunidade para acelerar e expandir as lições de aplicação de política social no país.

Por fim, a menção ao vírus completa os destaques da semana anterior, quando o Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional (Sinprofaz), através da campanha “Quanto custa o Brasil para você?”, divulgou que em quase 100 dias neste ano o país perdeu cerca de R$106 bilhões com a sonegação de impostos. Muito dinheiro fora dos cofres públicos que ficou nos caixas de empresas e bolsos dos cidadãos.

O tamanho da sonegação, o Sonegômetro, placar que registra o quanto de tributos devidos não chega aos cofres públicos pelo recolhimento dos contribuintes (pessoas físicas e jurídicas), calculou que em 2013 o total atingiu cerca de R$415 bilhões, o que representa perto de 8,6% do PIB.

Argumenta o sindicato com razão que o dinheiro sonegado, que poderia vir a ser investido na saúde ou educação, sai pelo ralo e perde uso coletivo. A administração pública não consegue ir atrás dos grandes devedores sacrificando assim cada vez mais os pobres e a classe média.

Dos três eventos citados acima sobre o desempenho da economia brasileira fica a lição: apesar dos sonegadores minarem os cofres públicos, ao reduzir os recursos que poderiam ser aplicados em ampliação de programas sociais e reforços de gastos de custeio e de investimentos, o país segue economicamente seguro e socialmente responsável. Cumpre bem seu papel entre os países emergentes e dá lição de competência na administração econômica e na proteção social. Mas como santo de casa não faz milagres, é preciso que os de fora tratem o país como gente grande, exemplo a ser referenciado e parceiro confiável.

Imagine se o sonegômetro viesse a registrar valores menores de ano a ano, a economia brasileira continuasse a resistir à crise mundial e a desigualdade social mostrasse uma cara menos sofrida e mais saudável? Com certeza teríamos condições seguras e razoáveis de pensar em nos mostrarmos ao mundo como sociedade mais justa e igualitária e nação mais forte e exemplar.

Eleições 2014: Quem dá mais?

22 de fevereiro de 2014
Dilma_Dedo01

Dilma precisa bater forte no “deus mercado” para que o Brasil não perca os avanços sociais conseguido até agora.

O que de pior poderia acontecer ao Brasil nesse momento seria reduzir a eleição de outubro a uma gincana para a escolha do melhor amigo dos mercados. Na semana passada, Eduardo Campos abriu seu baú e mostrou um pedaço dos dotes que pretende oferecer à praça.

Em troca de apoio e indulgência dos mercados, o neto que envergonharia o avô quer entregar um mandato fixo ao Banco Central, com metas plurianuais de inflação e superávit fiscal. Uma espécie de outro país dentro do Brasil.

Ao lado de um presidente da República escolhido pelo voto direto, teríamos um presidente da República do dinheiro. Com autonomia e dotado de ferramentas calibradas e com abrangência suficiente para induzir e condicionar o destino do desenvolvimento, os limites da democracia, a sorte da sociedade.

Assessores do tucano Aécio Neves, sendo o economista Edmar Bacha o mais loquaz entre eles, não deixam por menos. Um revival do PSDB no poder faria tudo isso e muito mais, asseguram pregoeiros de bico longo. Por exemplo: deflagraria um choque de “eficiência” com a derrubada em série de tarifas sobre importações. O que sobrasse da indústria local e do emprego seria de primeira linha, garantem.

Outro arquiteto de países paralelos, o tucano Pérsio Arida, acha pouco a independência do BC. Para ir além, sugere a independência da própria moeda nacional em relação ao governo. Seu projeto, antigo fetiche do neoliberalismo verde-amarelo, é assegurar a conversibilidade automática do real em relação ao dólar.

Viraria um anexo do dólar. Terceirizar a moeda de uma nação é o equivalente econômico a renunciar ao monopólio da força por parte do Estado: abdica-se de um dos instrumentos cruciais na defesa do interesse público para entregar a sua gestão ao apetite privado. A política monetária vira uma espécie de Ucrânia nas mãos dos francos atiradores dos mercados.

O governo Dilma, sob as turquesas das agências de risco e da guerra de expectativas da mídia e do capital financeiro, falou a língua que eles entendem na quinta-feira, dia 20. A oito meses das eleições, o governo cortou R$44 bilhões em investimentos, rebaixou a expectativa de crescimento do PIB para 2,5% e fixou o superávit fiscal em 1,9% do PIB.

O monólogo que anuncia “tempos difíceis” vai impondo sua ordem unida na frente da produção, do dinheiro, do emprego e da própria política. Por tempos difíceis entenda-se a ampliação da margem de manobra dos capitais especulativos, que passam a ter na cambaleante recuperação das economias ricas um ponto de fuga adicional.

Graças a ele, amplificam seu já robusto poder de chantagem sobre nações, governos e candidatos do mundo em desenvolvimento. Ninguém sabe exatamente qual o fôlego ou a consistência da dita recuperação.

Depois de quase sete anos de colapso da ordem neoliberal, os indicadores mostram um saldo de terra arrasada no emprego e nos índices sociais e saneamento financeiro. Por exemplo: hoje os fundos de investimento e de pensão tem 31% mais dinheiro do que o saldo anterior à crise. Com uma bolada equivalente a 75% do PIB mundial, eles detém um poder de comando apreciável sobre bolsas, moedas, governos e economias carentes de capitais, de um modo geral.

A narrativa conservadora faz o resto ao festejar o poder coercitivo adicional dessa alavanca, a cada suspiro na “recuperação” das economias ricas. O cheiro da virada de ciclo já basta. Massas monstruosas de capitais se movimentam pelo mercado, ou apenas ameaçam fazê-lo, “precificando” hoje um amanhã que ninguém tem a certeza de quando virá nem como será. Não importa: a incerteza é a água dos cardumes especulativos.

Governos, povos e nações precisam de chão firme: planejamento, regulação, metas de investimento, planos de crescimento de longo prazo. O dinheiro grosso e os magos da arbitragem, ao contrário, respiram melhor debaixo do oceano da incerteza. Ao não se confrontar as duas lógicas sanciona-se um esbulho.

O do jornalismo econômico, por exemplo, que mantém intacta a fé nas virtudes do laissez-faire, como se 2007/2008 nunca tivessem existido no calendário econômico mundial.

A crítica cerrada ao Brasil por “ter abandonado” as reformas amigáveis abafa uma pergunta básica: “Onde estaria o país hoje se sua condução na crise tivesse sido obra dos sábios tucanos, por exemplo?”

O espelho europeu oferece a inquietante pista de que seríamos agora um grande Portugal. Ou uma dilatada Espanha – um superlativo depósito de desemprego, ruína fiscal e sepultura de direitos sociais, com bancos e acionistas solidamente abrigados na sala VIP do estado mínimo (para os pobres).

Incorporar os imperativos das agências de risco, sem abrir uma discussão com a sociedade sobre os desafios da transição em curso no desenvolvimento brasileiro, pode gerar no imaginário social o efeito de uma gigantesca empresa demolidora.

Marretas sabidas golpeiam dia e noite a confiança erigida ao longo de uma década de construção negociada da democracia social no país. O desafio progressista é fazer o contraponto desse desmonte.

Mesmo ao ceder no varejo – quando inevitável – é crucial reafirmar as linhas de passagem no atacado e distinguir um projeto de desenvolvimento da mera contabilidade pró-mercados.

O quadro latino-americano e mundial sinaliza uma inflexão de tempo histórico. Não por acaso o site de O Globo de quinta-feira, dia 20, editava como irmãs siamesas as imagens dos conflitos em Caracas e em Kiev. A mensagem é nada sutil: afrontar o mainstream leva ao caos.

Não por coincidência, no mesmo dia, Obama emitia ordens imperativas a Maduro e ao governo da Ucrânia. Mitigada a crise no front interno das nações ricas, cuida-se de restabelecer a ordem nos quintais indóceis.

É nesse ponto que o timing das ações do governo – de qualquer governo – faz enorme diferença na reordenação em marcha da correlação de forças. Cada gesto, cada decisão, cada anúncio adquire uma dimensão estratégica; a forma como as providências são comunicadas, ademais de sua projeção e escopo mais geral, sobre o qual não pode pairar dúvida, ganha importância decisiva na disputa pelos corações e mentes da sociedade.

Uma crise de incerteza tem um tempo certo para ser abortada, ou derrotará o governo – a produção, o emprego e o imaginário social. Os tempos são outros; a globalização tornou tudo mais difícil, alega-se.

E é verdade. Mas é verdade também que a lógica dos mercado não vai resolver os problemas que ela mesma criou. Não se pode amesquinhar o único espaço no qual esse poder imperial se defronta com um outro de igual para igual: a luta política na democracia.

O governo Dilma disse aos mercados na quinta-feira, dia 20, como pretende zelar pelos seus interesses. É preciso que diga, a partir de agora – e de forma contundente na campanha –, como um novo mandato progressista vai construir hegemonia dos interesses sociais mais amplos na travessia para o novo ciclo de desenvolvimento brasileiro.


%d blogueiros gostam disto: