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Natal: Como “grande mídia” transformou em crise 5% de crescimento nas vendas

28 de dezembro de 2013
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Folha e Estadão esmeraram-se em tratar as vendas de Natal como um fracasso.

Luis Nassif, via Jornal GGN

Manchete da Folha: “Comércio tem o pior resultado no Natal em 11 anos”.

Manchete do Estadão: “Com crédito contido e juros altos, vendas de Natal decepcionam”.

Ambos os jornais trabalham em cima de dados da Serasa Experian e da Alshop, a associação dos lojistas de shoppings.

Vamos a alguns erros de manchetes e de análises.

1. Erro de manchete: Se em 2013 vendeu-se mais do que em 2012, como considerar que foi o pior resultado em 11 anos?

2. A Serasa trabalha especificamente com pedidos de informação para crédito. Houve retração no crédito, mas a maior ferramenta de vendas têm sido o parcelamento (em até dez vezes) em cartões de crédito e de loja. Os jornalões trataram os dados da Serasa como se representassem o universo total de vendas.

3. As vendas em shoppings deixam de lado o comércio para classes C e D – justamente as que mais vêm crescendo. Mesmo assim, os jornalões trataram os dados como se representassem o todo.

4. A Alshop informou que as vendas cresceram 6% no Natal. O problema maior foi o aumento do número de lojas, que fez com que as lojas mais antigas permanecessem com o mesmo faturamento. Ora, o que expressa o mercado são as vendas totais. A distribuição entre lojas novas e antigas é problema setorial, que nada tem a ver com a conjuntura.

5. Os jornalões deixaram de lado o comércio eletrônico – que tem sido o principal competidor das lojas de shopping. Em 2013 os shoppings centers venderam R$138 bilhões, 8% a mais do que em 2012. O comércio eletrônico vendeu R$23 bilhões, ou 45% a mais do que em 2012. Somando a venda dos dois segmentos, saltou de R$151 bilhões em 2012 para R$161 bilhões em 2013, aumento de expressivos 12%.

6. Os jornais falam em “decepção”, porque a Alshop esperava crescimento de 10% nas vendas de Natal e conseguiu-se “apenas” 6%. Esperar 10% de crescimento com uma economia rodando a 2% é erro clamoroso de análise. Mas, para os jornalões, o erro está na realidade, que não acompanhou os sonhos.

Se não houvesse essa politização descabida do noticiário econômico, as análises estariam em outra direção: a razão do consumo ainda não ter se acomodado mesmo com dinheiro mais caro, o crédito mais escasso, com a competição de Miami, com o PIB andando de lado etc. E suas implicações sobre as contas externas brasileiras. Estariam questionando também que raios de política monetária é esta, na qual aumenta-se a Selic para supostamente reduzir a demanda agregada, e ela continua crescendo.

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Natal: Como transformar 5% de crescimento nas vendas em crise

Via Jornal GGN

As vendas em Shoppings Centers aumentaram 5% em 2013, segundo a associação do setor, próximo aos 6% de crescimento em 2012. Foram abertas novas lojas e, portanto, as vendas distribuídas entre mais lojas. Mesmo com o aparecimento de novas lojas, o faturamento das lojas antigas ficou estável Ou seja, a expansão do consumo foi suficiente para garantir a entrada de novas lojas sem afetar o faturamento das anteriores.

Abaixo, a manchete do G1 ressaltando o crescimento das vendas totais.

Em seguida, da UOL, anunciando o pior Natal em cinco anos, com base na seguinte declaração: “Esse foi o pior Natal em cinco anos. Se não fosse o crescimento orgânico dos shoppings e as expansões, não teria havido crescimento nenhum”, diz Nabil Sahyoun, presidente da Alshop.

Ou seja, se o faturamento não tivesse aumentado e os shoppings não tivessem crescido, não teria havido crescimento algum. Durma-se com essa qualidade de informação.

Natal2013_G1

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2008: O ano que a mídia esqueceu

11 de novembro de 2013

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Quando a tempestade neoliberal despencou, em 2007/2008, o Brasil resistiu ao naufrágio com boias que exigiram gastos fiscais da ordem de R$400 bilhões.

Saul Leblon, via Carta Maior

As notícias contraditórias que chegam dos EUA, em recuperação, e da Europa, sob a ameaça de uma deflação que obrigou o Banco Central a derrubar o juro na sua mínima histórica, evidenciam a profundidade de uma desordem financeira que não cederá tão cedo, nem tão facilmente.

A consciência dessa longa travessia é um dado fundamental para a ação política em nosso tempo. É imprescindível abrir o olhar ao horizonte mais largo das determinações ofuscadas pelo alarido imediatista da mídia conservadora. A agenda do arrocho fiscal e monetário bate seu bumbo outra vez. Com objetivos explícitos e implícitos.

De um lado, determinar a natureza das respostas à dura transição de ciclo de desenvolvimento vivida pelo país. De outro, encurralar a sucessão de 2014 em um ambiente contaminado pela represália iminente das agências de risco e dos investidores à “derrocada fiscal”.

É o palanque pronto para aqueles que prometem fazer mais e melhor, restaurando o “tripé”, recita a cristã-nova do apocalipse, Marina Silva. Mudam as moscas. Resgata-se o enredo de 2002.

Na sexta-feira, dia 8, na Folha, colunistas já apregoam a necessidade de se voltar aos bons preceitos da Carta aos Brasileiros, bem como aos mandamentos do Consenso de Washington: “Não é que não deu certo; não foi bem aplicado.”

Tudo se passa como se setembro de 2008 nunca tivesse existido no calendário do país e do planeta. O movimento de expansão do capital financeiro, cuja supremacia determina a dinâmica da economia em nosso tempo, e o faz com a imposição de dramáticos constrangimentos à soberania das nações e às escolhas do desenvolvimento, antecede e explica a crise que o conservadorismo apagou.

Não há economicismo nessa constatação.

A política contribuiu de maneira inestimável para o modo como essa lógica se impôs, a velocidade com que ela se consolidou, a virulência de sua hegemonia e a agonia sem data para terminar de seu poder prevalecente. A espoleta da maior crise do capitalismo desde 1929 foi o recuo desastroso do controle da democracia sobre o poder do dinheiro.

Seu vetor: o desmonte das travas regulatórias impostas ao sistema financeiro no pós-guerra. De novo: a regressão não foi obra do acaso. Recuos e derrotas acumulados pela esquerda mundial desde os anos de 1970, sobretudo a colonização de seu arcabouço pelos interditos neoliberais, alargaram os vertedouros ao espraiamento de uma dominância financeira que se tornou ubíqua em todas as esferas da vida.

A queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989, sancionou-a no imaginário social como uma segunda natureza. Era o fim da história, diziam os áulicos. Não era, mostrou setembro de 2008. Mas a sociedade que cedeu a soberania ao suposto poder autorregulador dos mercados comprometera fortemente a sua capacidade política de gerar antídotos ao algoz.

A atrofia ideológica dos partidos progressistas, por exemplo. Com ela corroeu-se a principal fonte de restauração do interesse público sobre a supremacia do dinheiro. A combustão não foi espontânea.

Um jornalismo rudimentar no conteúdo, ressalvadas as exceções de praxe, mas agressivo na abordagem, capturou o discernimento histórico com uma camada de verniz naval de legitimidade incontrastável. Durou décadas. Deformou toda uma geração de jornalistas e de lideranças políticas. Irradiou descrédito e desinteresse na política e no debate do desenvolvimento.

A economia tornou-se um templo sagrado, dotado de leis próprias, revestido de esférica coerência endógena, avesso ao ruído das ruas, das urnas e das aspirações por cidadania plena. Alguma dúvida sobre o ventre de origem da revolta Black Bloc?

A crise mundial açoitou impiedosamente a sabedoria excretada nessa endogamia religiosa entre o circuito do dinheiro especulativo e o noticiário conservador. Para dizê-lo de forma educada, a pauta dos mercados autorregulados revelou-se uma fraude. Gigantesca.

Seus pressupostos, os valores por ela veiculados adernam junto com o seu objeto há cinco anos. Muito pouco, todavia, seria colocado em seu lugar. Persiste na democracia um vácuo de representação e escrutínio que renova ao mercado a prerrogativa de pautar o país.

É imperioso resgatar as folhas arrancadas do calendário. Em setembro de 2008, após um ciclo de fastígio da liquidez e do financiamento barato, a ponto de sancionar os famosos créditos ninjas, que bancavam aquisições de imóveis para cidadãos sem renda, sem emprego e sem garantias, deu-se o sabido.

O dominó começou a quebrar pelas sub-primes, lastreadas na evanescente solvibilidade dos mencionados ninjas. Graças à sofisticação atingida pela engenharia rentista, esse estoque tóxico fora fatiado e reempacotado em “produtos financeiros” negociados em escala global.

O artifício destinado a “diluir os riscos” acentuaria a sua natureza sistêmica, transformando-se em um dos canais de irradiação da crise que alcançaria todas as praças do mundo. Inclusive essa que no presente momento está sob o ataque das manchetes terminais da atilada mídia conservadora.

Disposta a tudo para acuar o governo, ela fustiga o demônio do descontrole fiscal para obriga-lo a aceitar a talagada do veneno que há cinco anos entubou o mundo na UTI gastrofinanceira. Os bons modos corporativos desaconselham. Mas é forçoso dizê-lo nos dias que correm.

Aqueles que hoje ministram extrema-unção diária ao país – “se não for hoje, de amanhã o Brasil não passa” – são os mesmos sacerdotes da santa inquisição neoliberal que, durante décadas, transformaram o jornalismo econômico numa obsequiosa prestação de serviço ao dinheiro graúdo.

Vigiar e punir quem ousasse afrontar os interesses dos mercados financeiros e das agências de risco internacionais era (é) a sua pauta de estimação. Para isso são regiamente retribuídos. E fazem jus ao diferencial.

O primeiro impulso do jogral midiático quando a tempestade se instaurou, em 2007/2008, foi instar o Brasil a aderir ao afogamento coletivo. De preferência com os pés amarrados a uma bola de chumbo de juros altos; as mãos decepadas pelos cortes de um virulento arrocho fiscal.

O BC brasileiro, dirigido pelo comodoro Henrique Meirelles, aquiesceu de bom grado. Na noite de 10 de setembro de 2008, quando a água invadia os mercados urbi et orbi, o país era informado de que a operosa autoridade monetária, a mão firme no leme, subira a taxa de juro, já um colosso de 13%, para graúdos 13,75%.

Arrancou aplausos do jornalismo tupiniquim, o mesmo que agora pede bis. Cinco dias depois quebrava o Lehman Brothers. Na época, o quarto maior banco dos EUA. O buraco de US$3,9 bilhões na instituição de 159 anos marcaria simbolicamente a temporada de esfarelamento das verdades graníticas com as quais a emissão conservadora tutelava o país até então.

Após o desastroso ato pró-cíclico do BC, o governo Lula soube aproveitar a margem de manobra ampliada pela desmoralização plutocrática e inverteu a ênfase. Em vez de trazer a crise mundial para dentro do Brasil, como pedia a mídia isenta, ergueu diques para afrontá-la na porta.

Um vigoroso acervo de medidas de extração contracíclica foi acionado. Ampliou-se o crédito ao consumo, programas sociais foram expandidos, desonerações favoreceram o investimento produtivo, fomentou-se um gigantesco plano de habitação, articulou-se uma fornada de urgentes inversões em infraestrutura e logística social.

Enquanto o mundo se liquefazia na maré do desemprego, o país continuou a crescer e a expandir seu mercado de trabalho. Calcula-se que entre subsídios, renúncia fiscal e incentivo ao investimento, ademais de ações sociais, a resistência ao naufrágio tenha acumulado gastos da ordem de R$400 bilhões.

É em torno dessa conta que se afina a partitura da tragédia fiscal iminente, anunciada agora pelo jornalismo econômico. Esponja-se na fronteira do acerto de contas.

Os que incitavam o governo a jogar o país ao mar em 2008, retrucam que o custo de não tê-lo afogado na hora certa acarretou custos insustentáveis.

Tucanos, de sabedoria econômica comprovada pelos resultados diante de outras crises, endossam o clamor pela eutanásia.

FHC: “Os governos petistas puseram em marcha uma estratégia de alto rendimento econômico e político imediato, mas com pernas curtas e efeitos colaterais negativos a prazo mais longo. O futuro chegou…” (Estadão, 3/11/2013)

Recomenda-se vivamente beber a cota do dilúvio desdenhada irresponsavelmente em 2008. A politização do debate econômico –que o governo não fez a tempo, abrindo os canais para tanto, e o PT vocaliza de modo delicado– é o primeiro passo para livrar a agenda da crise desse garrote infernal.

A persistir a hesitação, a hegemonia falida ditará as regras à superação da própria falência, coisa que nem o código de falência do capitalismo permite. O resultado, aí sim, jogará o Brasil no abismo contornado há cinco anos.

Não há, nunca houve, solução sem custo para os desequilíbrios intrínsecos a um processo de desenvolvimento. Desenvolvimento exige projeto, força e consentimento.

À democracia compete libertar a economia da fraudulenta camisa-de-força “técnica” que circunscreve as alternativas aos limites intocáveis dos interesses dominantes. Desmoralizada pelos mercados, a política ficará refém dos Black Blocs de máscara e aqueles, muito mais perigosos, de gravata de seda. As escolhas a fazer não são singelas.

O país precisa do investimento público e privado para adequar uma infraestrutura planejada para a 1/3 da população ao mercado de massa nascido nos últimos anos. Estamos falando de proporções épicas: em vidas humanas e recursos financeiros. Nada que se harmonize do dia para a noite.

O crucial é erguer as linhas de passagem, pactuar seus custos, os ganhos e prazos. A persistir a livre mobilidade dos capitais, do lado externo, e a captura dos fundos públicos para os juros da dívida, no plano doméstico, a travessia fica vulnerável à chantagem rentista. Sobra uma pinguela estreita e oscilante. Não cabe o Brasil.

Um ano de juro da dívida equivale a 71 anos de merenda escolar diária para 47 milhões de crianças e adolescentes da rede pública brasileira. É só uma ilustração. Mas também é a síntese das proporções em jogo na arquitetura que será preciso escolher.

A crise desnudou o fatalismo econômico que estruturou a narrativa dominante nas últimas décadas. Mas alguém precisa dizer que o rei está nu. E, sobretudo, erguer mirantes de pluralidade para que o país possa enxerga-lo como tal. E a partir daí reescrever a sua própria história.

Um recorde após outro: E a Petrobras está em crise?

2 de junho de 2013

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Fernando Brito, via Tijolaço

A “crise” da Petrobras, que insistentemente tem sido propagandeada pela mídia, é real?

É apenas uma jogada de negócios.

Na semana passada, a empresa apresentou resultados extraordinários, que pouca repercussão teve na imprensa. A produção de petróleo cresceu 4,2%, recuperando a redução provocada, no mês anterior, por paradas de manutenção em algumas plataformas, um processo que não terminou e que é vital para a segurança operacional dos campos.

O pré-sal bateu recorde de produção com 311 mil barris diários. E que logo irá cair também, com a entrada em operação plena do navio Cidade de Paraty, este da foto, que vai interligar e colocar em produção os poços do campo de Lula Nordeste, que progressivamente atingirá 120 mil barris diários de petróleo. Mais 11 novas plataformas entrarão em operação para a produção do pré-sal até o fim de 2016 e a produção de petróleo operada pela Petrobras na camada pré-sal, em 2017, passará de um milhão de barris de petróleo diários.

E o refino, que depende de forma vital da conclusão do Comperj, em Itaboraí, e da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, também atingiu recorde, com 2,17 mil barris/dia processados, sem aumento nas plantas de produção.

O discurso entreguista, que não funcionou em relação ao petróleo em 60 anos, agora apela para uma suposta “partidarização” da Petrobras, que a estaria tornando ineficiente.

Mas ineficiente em que diante de seus resultados?

O jogo é outro e visa enfraquecer o controle brasileiro sobre o pré-sal, que está garantido (clique aqui), e que representa uma galinha dos ovos de ouro em que todos querem botar a mão.

Vídeo: A crise do capitalismo

30 de maio de 2013

Via Blog Brasil Acadêmico

No vídeo, estão as várias explicações para a crise mundial do capitalismo. O formato de apresentação é muito dinâmico e as legendas tornam-se insuficientes. Assim, topamos o desafio de adaptar as legendas à dublagem em português (desculpe o amadorismo) para a melhor compreensão desse importante tema a ser debatido em escala global.

Chipre: Um paraíso fiscal que virou pesadelo para toda a Europa

26 de março de 2013

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José Carlos de Assis

Em algum momento algo como a crise de Chipre teria de acontecer para expor ao mundo, de forma pedagógica, a monstruosidade que se tornou o sistema financeiro internacional. Chipre é uma ilha insignificante do Mediterrâneo com um PIB de pouco mais de €10 bilhões. Nada que tenha acontecido ali deveria, em tese, abalar o sistema bancário europeu, mesmo que o montante de seus ativos financeiros especulativos atinja cerca de oito vezes o PIB. Contudo, a estupidez alemã transformou a crise nessa ilha de fantasia, nada mais que um paraíso fiscal para magnatas russos, num bumerangue com potencial de reverter sobre a Europa e o mundo.

Foram os alemães como mandantes nos bastidores da troika – Comissão Europeia, BCE e FMI – que tiveram a ideia fantástica de exigir como garantia de um empréstimo de €10 bilhões para estabilizar o sistema bancário cipriota um imposto excepcional sobre depósitos em seus principais bancos. O imposto deveria atingir inclusive a parte dos depósitos coberta por seguro (€100 mil) o qual protege depósitos de todos os países que aderiram ao euro. Considerado o tamanho de Chipre, o efeito seria irrelevante. Considerado o precedente, é como uma pequena gravidez: a insegurança está instalada em toda a zona do euro, sobretudo no sul da Europa.

Trata-se de um confisco que vai assustar a todos os investidores e especuladores nas suas relações com os bancos europeus já fragilizados pela crise financeira e fiscal. Alguém pode esfregar as mãos e dizer: ótimo, que os bancos de Chipre paguem pelos seus pecados, principalmente pelo pecado de lavar dinheiro ilegal russo. Bem, tivemos algo similar com o Lehman Brothers: o secretário do Tesouro norte-americano decidiu fazer jogo duro em nome do liberalismo e, como resultado, pagamos ainda hoje sob a forma de cinco anos de virtual estagnação no mundo industrializado avançado e grande oscilação nos países em desenvolvimento.

O fato é que os alemães, como árbitros da troika, estão conduzindo a política europeia de repressão fiscal como um aspecto de seus preconceitos morais calvinistas, e não como uma questão financeira. Fizeram assim na Grécia, na Irlanda, em Portugal, na Espanha e agora na Itália. Em todos esses países estão impondo políticas extremamente restritivas do ponto de vista fiscal impedindo qualquer possibilidade de volta do crescimento. São cinco anos seguidos de crise. A esses países se somou a Inglaterra, que mesmo tendo moeda própria, filiou-se ao clube da repressão fiscal, para entrar, também ela, na fila da recessão permanente.

Com Chipre, porque parece suficientemente pequeno para não poder esboçar qualquer reação, a troika a serviço de Merkel deu um passo avante, no sentido de sinalizar a todos os depositantes em bancos na Europa que, na medida do avanço da crise, poderão ser confiscados. É claro que todo mundo que tem dinheiro, se tiver um mínimo de bom senso, retirará suas poupanças dos bancos das economias mais vulneráveis para depositá-las em bancos alemães e, em último caso, norte-americanos. Teremos muito provavelmente uma reedição em alguma escala – não sei se muito grande, ou muito pequena, pois a incerteza está instalada – do Lehman Brothers.

Não importa que hoje ou amanhã a decisão da troika seja revertida ou transformada em algo mais palatável. O mal está feito. É que, num determinado momento, as maiores autoridades financeiras e econômicas da Europa concordaram com a medida antes impensável de tributar depósitos bancários. Não só concordaram, mas a impuseram. Portanto, em situações similares no futuro, em qualquer país cujos bancos estiverem em grande dificuldade, poderão voltar a exigir a mesma medida. Se isso não for um expediente caviloso para liquidar com os bancos do sul da Europa e alimentar os gatos gordos do norte é difícil ver outro propósito.

Talvez no fim disso tudo haja um lado bom: a progressiva liquidação de bancos de paraísos fiscais como Chipre à medida que os aplicadores tomem consciência dos riscos de colocarem seu dinheiro em instituições que não passam de bases especulativas para lavagem de dinheiro. Logo depois do início da crise, em 2008, França e Alemanha se alinharam no sentido de acabar com os paraísos fiscais. Depois não se viu falar mais nisso, mesmo porque os norte-americanos não se moveram. Com algumas quebras nos paraísos a partir de Chipre, talvez o melhor aconteça.

José Carlos de Assis é economista, escritor e professor de Economia Internacional da UEPB.

Contra a crise, mais emprego

15 de março de 2013

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Crônicas de Carlos Motta

Enquanto vários economistas neoliberais (ou ortodoxos, como queiram) apresentam, sem o menor pudor, diariamente, nas páginas dos jornalões, a vil receita de mais desemprego para combater o que já chamam de “estagflação” – inflação em alta combinada com baixo crescimento –, a Organização Internacional do Trabalho, órgão da ONU, manda fazer exatamente o contrário.

A OIT acredita que a crise econômica internacional está longe de acabar. E manda um recado explícito para os governos da América Latina: estimulem o mercado de trabalho.

É o que o governo brasileiro tem feito, desde bem antes da eclosão da crise.

E por isso tem sentido seus efeitos de maneira bem menos grave do que esses próprios economistas tão queridos pelos jornalões previam.

A íntegra da matéria da Agência Brasil sobre a sugestão da OIT é a seguinte:

OIT recomenda que América Latina aposte na geração de empregos

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) alertou que a América Latina deve se preparar para eventuais consequências da crise econômica europeia estimulando o mercado de trabalho na região. O alerta foi feito por meio de um estudo divulgado terça-feira, que aponta os desafios da América Latina no atual cenário econômico. “É necessário fortalecer uma série de instituições laborais, para evitar que isso se reflita em uma deterioração dos mercados de trabalho na América Latina”, disse a OIT.

A organização recomendou que os países que têm seguro-desemprego procurem aumentar a cobertura do benefício. “Alguns países da região têm seguro-desemprego, que desempenha um papel de estabilizador automático diante das flutuações da atividade econômica e de emprego”, diz o estudo.

Para a diretora regional da OIT para a América Latina e o Caribe, Elisabeth Tinoco, a Europa está longe de voltar a seus melhores dias. “Consolida-se a perspectiva de que a economia mundial deverá conviver com uma Europa estagnada por vários anos”, disse.

Como exemplos da influência negativa advinda da crise, o estudo citou o “fraco crescimento nos Estados Unidos, uma desaceleração do crescimento da China, enquanto o Japão está entrando em uma nova recessão”.

A publicação fez uma análise das taxas de desemprego e aumento salarial no Brasil. “O crescimento do PIB [Produto Interno Bruto] brasileiro em 2012 se manteve graças a uma demanda interna vigorosa”, informou. A OIT lembrou do Bolsa Família, programa brasileiro de transferência de renda, criado pelo governo Lula em 2003, e atribuiu a ele e aos benefícios de seguridade social uma “queda significativa” dos índices de extrema pobreza.

A OIT destacou o aumento dos índices de emprego formal e do salário mínimo nos últimos 12 anos, mas alertou que “o baixo nível de desemprego gera escassez em muitos setores, particularmente de mão de obra qualificada”.


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