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Cavalo não desce escada, jabuti não sobe em árvore e Alckmin não combate o crime

16 de outubro de 2013

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Luciano Martins Costa, via Observatório da Imprensa e lido no SQN

Reportagem de O Estado de S.Paulo apresenta, na edição de sexta-feira, dia 11, os resultados de uma ampla investigação do Ministério Público Estadual paulista sobre a organização criminosa chamada PCC – Primeiro Comando da Capital. O retrato é assombroso, não apenas porque revela o poder de uma quadrilha que domina os grandes presídios de quase todo o país e atua até mesmo em países vizinhos, mas porque dá uma ideia clara de sua sofisticada organização e da facilidade com que atua.

Trata-se da maior operação já realizada pelo Ministério Público, que exigiu três anos e meio de trabalho e da qual resulta a apresentação de 175 denúncias e pedidos de internação de 32 presos em regime disciplinar mais rigoroso. Foi juntando evidências, gravações de conversas telefônicas, depoimentos de testemunhas e dados esparsos sobre apreensões de drogas e armas que os investigadores compuseram o corpo principal do inquérito.

O organograma do poder no crime organizado, que o jornal paulista publica em meia página, revela a estrutura de uma grande empresa, contando até mesmo com uma espécie de conselho de administração.

Num dos trechos de gravações revelados pelo Ministério Público, o chefe da organização se vangloria de haver disciplinado as execuções de inimigos e dissidentes, destacando o papel moderador da quadrilha em disputas entre criminosos, e acusa o governador Geraldo Alckmin de se apropriar dos indicadores de queda da violência. “Então quer dizer que os homicídios caíram não sei quantos por cento e aí vejo o governador chegar lá e falar que foi ele…”, diz o chefão.

Mesmo com os cuidados demonstrados pelos criminosos em suas conversas telefônicas, o trabalho minucioso de organização dos conteúdos permitiu aos investigadores traçar um mapa desse poder paralelo. Ainda assim, não há garantias de que esse trabalho resulte em uma ação mais efetiva do Estado contra os criminosos.

Primeiro, porque o Judiciário não acompanha necessariamente o empenho do Ministério Público em desarticular o bando, já que a Justiça precisa analisar individualmente as 175 acusações e isso leva tempo, dando vantagens aos advogados dos bandidos. Segundo, porque, conforme revela a própria investigação, a quadrilha conta com muitos aliados dentro do aparato policial.

Jabuti não sobe em árvore

Esse é o ponto em que se percebe uma fissura na reportagem de O Estado de S.Paulo, muito provavelmente originada na carência de informações sobre esse aspecto fundamental do fenômeno social chamado crime organizado.

São poucas as possibilidades de se consolidar, sob os narizes da polícia, uma organização tão poderosa e sofisticada, sem que um contingente importante do setor de Segurança Pública tenha se omitido ou contribuído para isso. Portanto, uma investigação desse porte não se completa se não desvendar as relações entre o crime e o poder público.

Como se diz popularmente, se o jabuti está no alto da árvore, foi porque alguém o colocou lá.

Segundo a reportagem, o Ministério Público Estadual flagrou toda a cúpula do PCC “numa rotina interminável de crimes” – ordenando assassinatos, encomendando armas e toneladas de cocaína e maconha. São crimes que se produzem continuamente, como parte do dia a dia desses personagens, sob o rigoroso comando dos chefes que se encontram reclusos em presídios de alta segurança.

Como explicar que possam agir com tanta organização e eficiência? Cavalo não desce escada, como diria o falecido colunista Ibrahim Sued, do Globo, para argumentar que certas coisas nunca mudam.

Relações deletérias entre o crime e a polícia são quase uma marca dos sistemas de segurança em todo o mundo. Na Itália, foi preciso criar uma verdadeira operação de guerra, que acabou sacrificando alguns dos melhores quadros da polícia e do judiciário, para colocar sob algum controle o poder paralelo da máfia. No Brasil, a corrupção de agentes públicos pelo crime organizado é uma chaga que contamina a eficiência de todo o aparato da polícia e da Justiça.

Falta um trecho importante no texto do jornal paulista, que talvez esteja sendo guardado pelo Ministério Público para uma ação mais eficiente no futuro: aquelas informações sobre o lado oficial do crime, onde se conta a história das omissões do Estado e parcerias com agentes públicos.

Talvez numa próxima reportagem.

Como se sabe, jabuti não sobe em árvore e cavalo não desce escada.

Mauro Santayana: O crime organizado pelos banqueiros

16 de julho de 2012

Mauro Santayana em seu blog

A invenção da moeda, contemporânea à do Estado, foi um dos maiores lampejos da inteligência humana. A primeira raiz indo-europeia de moeda é men, associada aos movimentos da alma na mente, que chegou às línguas modernas pelo verbo sânscrito mányate (ele pensa). Sem essa invenção, que permite a troca de bens de natureza e valores diferentes, não teria havido a civilização que conhecemos.

A construção das sociedades e sua organização em estados se fizeram sobre essa convenção, que se funda estritamente na boa-fé de todos que dela se servem. Os estados sempre foram os principais emissores de moeda. A moeda, em si mesma, é neutra, mas, desde que surgiu, passou a ser também servidora dos maiores vícios humanos. Com a moeda, vale repetir o lugar-comum, cresceram a cobiça, a luxúria, a avareza – e os banqueiros.

A moeda, ou os valores monetários, mal ou bem, está sob o controle dos estados emitentes, que se responsabilizavam pelo seu valor de face, mediante metais nobres ou estoques de grãos. Nos tempos modernos, no entanto, a sua garantia é apenas virtual. Os convênios internacionais se amarram a um pacto já desfeito, o Acordo de Bretton Woods, de 1944. A ruptura do contrato foi ato unilateral dos Estados Unidos, sob a presidência Nixon, ao negar a conversibilidade em ouro do dólar, moeda de referência internacional pelo acordo.

Essa decisão marca o surgimento de uma nova era, em que o valor da moeda não se relaciona com nada de sólido. Os bancos, ao administrá-la, deveriam conduzir-se de forma a merecer a confiança absoluta dos depositantes e dos acionistas, e assegurar essa mesma confiabilidade às suas operações de crédito. O papel social dos bancos é o de afastar os usurários e agiotas do mercado do dinheiro. Mas não é desta forma que têm agido, sobretudo nestes nossos tempos de desmantelamento dos estados. Hoje, não há diferença entre um Shylock shakespereano e qualquer dirigente dos grandes bancos.

Na Inglaterra, o escândalo do Barclays, que se confessou o primeiro banco responsável pela manipulação da taxa Libor, provocou o espanto da opinião pública, mas não dos meios financeiros que não só conheciam o deslize, como dele se beneficiavam.

Segundo noticiou El Pais, os dois grandes executivos da Novagalícia, surgida da incorporação de duas instituições oficiais da província galega – a Nova Caixa e a Caixa Galícia – e colocada sob o controle de Madri em setembro do ano passado, pediram desculpas a seus clientes, por ter a instituição agido mal. Entre outros de seus malfeitos, esteve o de enganar pequenos investidores mal informados, entre eles alguns analfabetos, com aplicações de alto risco, ou seja, ancoradas em débitos podres – as famosas subprimes –, adquiridas dos bancos maiores que operam no mercado imobiliário do mundo inteiro.

Além disso, os antigos responsáveis por esses desvios, deixaram seus cargos percebendo indenizações altíssimas. E os novos administradores tiveram sua remuneração reduzida, por serem as antigas absolutamente irracionais. Com todas essas desculpas, a Novagalícia quer uma injeção de 6 bilhões de euros, a fim de regularizar a sua situação.

Este jornal reproduziu artigo de The Economist, a propósito da manipulação da taxa Libor, por parte do Barclays, e disse, com a autoridade de uma revista que sempre esteve associada à City, que não há mais confiança nos maiores bancos, do mundo, como o Citigroup, o J.P.Morgan, a União de Bancos Suíços, o Deutschebank e o HSBC. Executivos desses bancos, de Wall Street a Tóquio, estão envolvidos na grande manipulação sobre uma movimentação financeira total de US$800 trilhões.

Para entender a extensão da falcatrua, o PIB mundial do ano passado foi calculado em cerca de US$70 trilhões, menos de 10% do dinheiro que circulou escorado na taxa manipulada pelos grandes bancos. A Libor, sendo a taxa usada nas operações interbancárias, serve de referência para todas as operações do mercado financeiro.

O mundo se tornou propriedade dos banqueiros. Os trabalhadores produzem para os banqueiros, que controlam os governos. E quando, no desvario de sua carência de ética e falta de inteligência, os bancos investem na ganância dos derivativos e outras operações de saqueio, são os que trabalham, como empregados ou empreendedores honrados, que pagam. É assim que estão pagando os povos da Grécia, da Espanha, de Portugal, da Grã-Bretanha, e do mundo inteiro, mediante o arrocho e o corte das despesas sociais, pelos governos vassalos, além do desemprego, dos despejos inesperados, das doenças e do desespero, a fim de que os bancos e os banqueiros se safem.

Se os governantes do mundo inteiro fossem realmente honrados, seria a hora de decidirem, sumariamente, pela estatização dos bancos e o indiciamento dos principais executivos da banca mundial. Eles são os grandes terroristas de nosso tempo. É de se esperar que venham a conhecer a cadeia, como a está conhecendo Bernard Madoff. Entre o criador do índice Nasdaq e os dirigentes do Goldman Sachs e seus pares, não há qualquer diferença moral.

Os terroristas comuns matam dezenas ou centenas de cada vez. Os banqueiros são responsáveis pela morte de milhões de seres humanos, todos os anos, sem correr qualquer risco pessoal. E ainda recebem bônus milionários.

São Paulo à mercê dos bandidos

27 de junho de 2012

Via Crônicas do Motta

Policiais militares estão sendo executados barbaramente, os números do crime crescem no Estado de São Paulo, e a cúpula da segurança pública teme uma repetição dos ataques promovidos pelos criminosos do PCC em 2007.

Cinco anos se passaram desde os dias em que a capital foi transformada numa praça de guerra e parece que nada mudou: a PM continua com sua política de execução de suspeitos, os bandidos mostram que ainda estão organizados, e a população se sente cada vez mais aterrorizada com a situação.

Os arrastões nos restaurantes se tornaram rotina. O governador e as autoridades policiais, impotentes, jogam a responsabilidade para a solução do problema nas vítimas: elas devem se organizar para combater os assaltantes, dizem, com um cinismo inacreditável.

Antes, havia no cidadão comum uma sensação de insegurança no dia a dia na metrópole. Hoje, para infelicidade de todos, a insegurança é real e, pior, ela cresce assustadoramente.

É impossível não lembrar que o mesmo grupo político manda e desmanda em São Paulo há décadas – e estamos falando do Estado mais rico da federação, que exibe números dignos de um país do Primeiro Mundo.

A conclusão só pode ser que ou esse grupo político não liga a mínima para o exercício de suas funções ou é absolutamente incompetente.

Seja qual for o caso, é muito estranho que ninguém entre aqueles que têm autoridade para isso, faça nada para imputar a tais pessoas a responsabilidade pelo que ocorre nas terras bandeirantes.

Sem direito de defesa

Há uma clara tentativa de justificar o golpe que destituiu o presidente paraguaio Fernando Lugo usando o fato de que seu governo era uma porcaria e não tinha mais apoio popular. A Constituição do país permite que maus presidentes passem por um processo de impeachment – e esse foi justamente o caso de agora.

Mas ninguém que condenou o golpe está dizendo que Lugo era um bom presidente. Ninguém está fazendo esse juízo de valor. A destituição de Lugo se caracterizou como um golpe porque ele teve apenas duas horas para se defender das acusações e todo o processo durou só 24 horas. Nem por mágica ele teria alguma chance de apresentar uma defesa sequer razoável.

Lugo pode mesmo ter feito um governo ruim, pode mesmo ter traído as promessas que o levaram à vitória na eleição, pode mesmo ter perdido todo o apoio do povo. Isso não importa. O que interessa é que um dos pilares da Justiça numa democracia é o amplo direito de defesa – que foi negado a ele.

Só por isso, apenas por isso, ele não sofreu um impeachment constitucional, mas foi vítima de um golpe parlamentar.


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