Posts Tagged ‘Complexo de vira-lata’

Cadu Amaral: A Globo, o complexo de vira-lata e a Copa do Mundo no Brasil

4 de fevereiro de 2014

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Cadu Amaral em seu blog

A Globo divulgou uma orientação para seus repórteres de que pautas positivas sobre a Copa do Mundo do Brasil não são notícia. Matérias sobre o impacto econômico que o evento da Fifa terá em comerciantes, especialmente os mais próximos dos estádios não serão produzidas.

É uma tentativa de esconder a relação do maior grupo de mídia do país com a principal entidade de futebol no planeta. Além é claro de alimentar mal-estar sobre a realização do evento no Brasil.

Aos que ecoam esse anticlímax sobre a Copa do Mundo é comum repetir, isso desde que se iniciaram as obras – de que aqui no Brasil tudo se atrasaria e sairia mais caro do que o previsto. Bem, sobre uma obra ser executada acima da previsão, não é exclusividade brasileira nem de países em desenvolvimento. Principalmente em obras gigantescas que envolvem uma série de fatores como as da Copa do Mundo.

Nem de longe se tenta pôr panos quentes em atrasos, superfaturamentos ou coisa que o valha. Mas passar a ideia de que a coisa toda será um caos é, no mínimo, safadeza.

Em 2006, a Alemanha, país mais forte economicamente da Europa, Que hoje dita as regras do continente, alçando Ângela Merkel à condição de chefe de todos os países – se não de direito, de fato – gastou 50% a mais do previsto na construção e reforma dos estádios. Além dos atrasos na inauguração das arenas esportivas.

Sete dos doze estádios atrasaram. Em Stuttgart se deu o maior deles. Sua entrega estava prevista para agosto de 2001, mas só foi entregue no final de 2005.

O total dos gastos alemães com estádios da Copa em 2006 foi de R$4,2 bilhões. No Brasil, o gasto com estádios é de 4,1 bilhões. O gasto é o mesmo!

Outra sensação falsa passada pelos veículos da imprensa grande é o risco que corremos de “passar vergonha” com atrasos em aeroportos. Além das quedas de energia. Afinal, o país vive um risco de apagão desde 2003, segundo a imprensa grande.

Basta uma simples busca no Google sobre atrasos de voos em aeroportos da Europa e Estados Unidos e uma série de reportagens aparece com as motivações mais diversas sobre o motivo que ocorreram.

No mês de janeiro diversos voos por toda a Europa foram cancelados devido às condições do tempo. Mas se fizermos uma busca sobre o mês de julho do ano passado, portanto no verão, notícias de atrasos também são recorrentes.

A Organização Europeia para a Segurança na Navegação Aérea (Eurocontrol) divulgou uma lista com os 20 aeroportos com mais atrasos em voos. Marselha encabeça a lista dos 20 aeroportos europeus com mais atrasos, com 3028 atrasos registrados em julho do ano passado, seguido de Barcelona e Varsóvia, com 2406 e 2321 atrasos, respectivamente.

Entre os principais motivos estão a falta de capacidade dos sistemas de controle aéreo para providenciar serviços de navegação e problemas com o pessoal capacitado.

Sobre as quedas de energia o procedimento é o mesmo. Basta uma busca rápida no principal site de busca da internet e voilá. Percebe-se que os problemas que muita gente pensa que só acontecem no Brasil, ocorre em todo lugar. Sugiro que faça a busca em inglês. Use o tradutor do próprio Google.

Você pode achar a Fifa uma m****; os gastos com estádios acima do orçamento e seus atrasos também. Você pode até se questionar se o Brasil possui aeroportos que não vão deixar as pessoas dormindo em corredores ou mesmo se vamos ficar às escuras diante do mundo. Mas não pense que isso só acontece por aqui. Jogue seu espírito de vira-lata na lata do lixo. Faça esse favor a você mesmo(a).

Lembrando a frase: “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil.”

28 de setembro de 2013
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Juracy Magalhães, o precursor do vira-latismo.

Paulo Moreira Leite em seu blog

O primeiro embaixador brasileiro em Washington, depois do golpe de 64, Juracy Magalhães entrou para a história com uma frase famosa: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.”

Hoje, costuma-se justificar uma postura de submissão até risível diante dos Estados Unidos, naquela época, pelo contexto da Guerra Fria. Não era. Havia países que procuravam uma alternativa que não fosse nem alinhamento automático pró-Moscou nem pró-Washington. Antes do golpe, o Brasil era um desses países, com uma política externa que procurava ser independente, iniciada por Jânio Quadros e assumida por João Goulart.

Lembro da frase lendária do embaixador para tentar entender a reação de muitas pessoas ao discurso de Dilma Rousseff na ONU. Até a imprensa internacional deu um tratamento respeitoso ao pronunciamento, uma forma de reconhecer sua importância.

Entre observadores brasileiros, cheguei a ouvir comentários em tom de ironia. Com aquele jeito de quem sabe de realidades ocultas que escapam a mim e a você, ouvi dizer que nos Estados Unidos ninguém mais dá importância a denúncias dessa natureza. A sugestão é que isso é coisa de gente atrasada – ou de político demagogo, populista…

Há bons motivos para suspeitar que se pretende, com essa atitude, ressuscitar o espírito do embaixador Juracy Magalhães. O segredo dessa postura é nunca inverter a ordem dos fatores e perguntar, por exemplo, se o que é bom para o Brasil é bom para os EUA.

Na verdade, é difícil acreditar que o tratamento seja tão descontraído assim, digno de piadinhas. Bradley Manning, o soldado que cedeu documentos secretos da diplomacia norte-americana para o WikiLeaks, acaba de ser condenado a mais de 35 anos de prisão. Julian Assange, que publicou o material, vive há mais de um ano trancafiado na embaixada do Equador, em Londres, sob o risco de ser expatriado para os EUA. Edward Snowden conseguiu refúgio na Rússia pelo receio do que poderia lhe acontecer se fosse capturado pelo Exército norte-americano. O presidente da Bolívia, Evo Morales, chegou a fazer um pouso forçado, na Europa, porque se suspeitava de que pudesse estar levando Snowden para fora do velho mundo.

A espionagem é assunto tão grave e tão sério nos EUA como em qualquer outro lugar. Até mais, na verdade. Acusados de trabalhar como espiões para a União Soviética, o casal Julius e Ethel Rosemberg foi condenado a pena de morte, na década de 1950. Vinte anos depois, Richard Nixon foi forçado a renunciar em função do escândalo Watergate, uma história de espionagem interna, quando operadores do partido republicano tentaram fotografar documentos e instalar sistemas de escuta para captar os planos e diálogos dos adversários.

Conclusão: ao contrário do que procuram nos fazer acreditar, a população norte-americana sabe muito bem onde se encontram seus interesses – e não trata com piada assuntos que são sérios de verdade. A soberania nacional e o direito à privacidade estão entre eles, vamos combinar.

A reação dos vira-latas ao discurso de Dilma na ONU

28 de setembro de 2013

Cachorro_Vira_LataCadu Amaral em seu blog

O discurso da presidenta Dilma Rousseff na abertura da 68ª Assembleia-Geral das Nações Unidas ainda repercute, especialmente nas redes sociais. E o que se vê, em boa quantidade, infelizmente, é o complexo de vira-lata arraigado em muita gente, aliado a quem tenta, de uma forma ou de outra, desmerecer a postura de nossa presidenta.

É pertinente levantar que espionagem acontece em todos os países; também o é questionar a espionagem interna, feita por indivíduos – esses dotados de algum poder, empresas e até pelo próprio Estado Brasileiro. Mas esses são problemas de ordem doméstica e, sim, devem ser tratados e resolvidos. Mas daí a negar o papel cumprido por Dilma na ONU é uma pouco demais.

Nunca chefes de estado brasileiros se manifestaram contra o caudilhismo estadunidense. FHC era capacho, Sarney fingia que não era com ele e os militares, bem, os militares se tornaram chefes de estado graças ao apoio logístico e financeiro dos EUA para executar o golpe de 1964. Para ficarmos apenas desse período até hoje.

Desde os governos de Lula que o Brasil não mais pede a benção dos senhores da guerra – grande papel dos presidentes dos Estados Unidos – e a postura de Dilma reafirmou a nova postura internacional do País. Imaginem se a notícia fosse ao contrário: descoberta espionagem brasileira em ligações telefônicas e e-mails de Barack Obama. Com o perdão do termo chulo, mas isso seria um “jabuzão” daqueles bem descompensados, ou não?

Alguns que tentam desqualificar o discurso de Dilma na ONU, o fazem para tentar mostrar um ar de “independência” ou mesmo de sobriedade. Como se independência opinativa não fosse meramente questão de convencimento individual. Acreditar no que se defende, isso é o que vale e pronto. O resto é linguiça.

Agora dilema vive a nossa autoproclama “grande imprensa”, ou parte dela: ou defende os interesses do Brasil contra os desmandos dos EUA ou, mais uma vez, se assumem subalternos do império.

O Estadão chegou a defender o discurso de defesa de nossa soberania, mas criticou a proposta de garantias à neutralidade de rede porque, segundo o periódico da família Mesquita, China e Rússia não vão aceitar. Parece que só se pode defender algo se for consenso. China e Rússia não emitiram uma única nota de rodapé sobre o assunto.

Veja assumiu de vez o que realmente é: uma revista vira-lata escrita para vira-latas. Em seu site, Veja acusou Dilma de fazer discurso eleitoral. Numa tentativa de diminuir a importância de sua fala perante representação da maioria de países do planeta. Ao contrário de veículos do mundo inteiro que trataram o assunto como foi: Dilma reage à espionagem dos Estados Unidos, considerando-a uma afronta.

Para os adoradores da terra do Tio Sam, vale lembrar que suas guerras são motivadas pelo acesso a petróleo. O Brasil tem sua camada pré-sal que, estipula-se, em 2017 chegará à produção de um milhão de barris por dia.

É também evidente que o discurso de nossa presidenta por si só não reverterá a correlação de forças na geopolítica internacional, mas ele faz parte dos esforços de nações que não mais aceitam o jugo dos EUA – cada um a seu jeito – e entre eles está o Brasil.

Ser contra a fala de Dilma na ONU é sim, por qualquer ângulo que se Veja, ser contra o nosso país. Sua fala defende nossa soberania, mas não esconde e nunca se pretendeu, esconder problemas domésticos. Isso é besteira de que quer desqualificar a presidenta.

Receita diária para nutrir nossos vira-latas

31 de maio de 2013

EUA_Bandeira_CachorroWeden Alves, lido no Esquerdopata

Compare a saúde pública do Brasil com a inglesa. Mas não a compare com a dos EUA.

Compare nosso ensino público com o da França. Mas não o compare com o do Chile.

Compare nosso PIB com o da China. Mas não o compare com o da Grécia.

Compare nossa política com a da Dinamarca. Mas não a compare com a da Itália.

Compare nossos empregos com a Alemanha. Mas não os compare com os da Espanha.

Compare nossas casas e apartamentos cada vez menores e mais caros com os da Holanda. Mas não os compare com os do Japão.

Compare nossa democracia com a Suécia. Mas não a compare com o que existe na China.

Compare o Brasil com países de alto padrão de vida (!), mas esqueça os outros 150 países do mundo.

Assim terá a certeza de que está num inferno.

Isso não é um surto nacionalista. Mas é preciso ser um pouco mais cauteloso nas comparações que, geralmente, são muito pouco eficazes. Pensar nossos problemas dentro de nossas realidades talvez fosse melhor.

Que tal?

Vira-latas fracassam e a Copa de 2014 avança

23 de dezembro de 2012

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Lembrando o “complexo de vira-lata” criado por Nelson Rodrigues, uma turma não se cansou de repetir que o Brasil passaria vergonha na organização de um evento como a Copa do Mundo. Em apenas uma semana, inauguração de dois estádios reformados e concessão de aeroportos, que receberão bilhões em investimentos, mostram que as coisas estão avançando. Quem disse que o Brasil não pode organizar um evento mundial com êxito?

Heberth Xavier, via Brasil 247

Há não mais do que um ano, uma turma de “esclarecidos” não cansava de bradar que o País seria um fracasso na organização da Copa de 2014. O berro era tão repetitivo e alto que passava até a impressão de que eles torciam, no íntimo, pelo malogro brasileiro. “Eu te disse, eu te disse, eu te disse”, era o que a turma mais desejava – e deseja –, repetindo o bordão chatíssimo daquela motoquinha do desenho animado.

Eles representavam uma versão moderna e, digamos, um pouco mais sofisticada, do que Nelson Rodrigues chamava de complexo de vira-lata brasileiro, expressão, por sinal, criada pelo dramaturgo graças ao futebol (Nelson se referia ao trauma brasileiro depois da derrota, em pleno Maracanã, para o Uruguai, na final da Copa de 1950). Anos se passaram, Nelson até virou ídolo de vários desses vira-latas, mas eles nunca conseguiram chegar sequer perto de sua influência. Um deles, tentando também virar bordão, trocou as bolas e escreveu um estranho livro chamado… Contra o Brasil. Nelson Rodrigues se esbaldaria com tamanho vira-latismo…

Mas não é que os vira-latas têm tudo para fracassar? Nos últimos meses, e sobretudo últimos dias, uma série de boas notícias parecem indicar que o Brasil pode, sim, organizar uma excelente Copa do Mundo. Longe de isso significar, é claro, fechar os olhos para o feudo da CBF, ou a pouca transparência em alguns gastos, ou o uso pequenamente político do evento… Tudo isso é real – e, sejamos justos, não é novidade em países que organizaram copas ou olimpíadas no mundo moderno –, mas é, também, muito pouco.

No início da semana passada, a presidente Dilma Rousseff inaugurou o primeiro estádio para a Copa, o Castelão, em Fortaleza, agora apelidado Arena Castelão. Enquanto arriscava, meio bisonhamente, é verdade, dar uns chutinhos na bola no centro do campo, Dilma discursou: “O Brasil conquistou o respeito do mundo porque conquistou o respeito de si próprio.”

Na sexta-feira, dia 21, foi a vez de a presidente inaugurar o segundo estádio para a Copa, o Mineirão, em Belo Horizonte. Em sua terra natal, ela se soltou e cantou enquanto discursava: “Ôôô, o Mineirão voltou, o Mineirão voltou”.

Apenas um dia antes, o País conheceu as regras de concessão de dois novos aeroportos, o Galeão, no Rio, e Confins, em BH. No total, os dois empreendimentos receberão R$11,4 bilhões em investimentos. Com regras mais rígidas, o leilão vai exigir de quem ganhar o direito de administrar cada aeroporto o bom atendimento ao usuário, principalmente nos momentos de alta demanda, como será a Copa.

No mesmo dia, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, garantiu que os seis estádios da Copa das Confederações, em 2012, estarão prontos a tempo. A Copa das Confederações será disputada em Salvador, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza e Recife. Para o prato principal – a Copa 2014 –, além delas, receberão jogos São Paulo, Manaus, Cuiabá, Curitiba, Natal e Porto Alegre.

Sim, é claro que, no discurso oficial, tudo é mais belo. Mas não significa que o contrário é o correto, como parecem supor os vira-latas de plantão. Sim, aos poucos, a Copa no Brasil avança, e contra os últimos fatos não há argumento ou torcida que resistam.

O golpe, a democracia e a vira-latice

26 de junho de 2012

Miguel do Rosário em seu O Cafezinho

Em nota, o Itamaraty chamou o impeachment relâmpago de Fernando Lugo, agora ex-presidente do Paraguai, de “ruptura da ordem democrática”, o que é uma expressão diplomática para designar um golpe de Estado.

A reação do governo brasileiro ao golpe do Paraguai, portanto, foi dura, e desde o início, ao determinar o envio urgente do chanceler Antonio Patriota à Assunção, para tentar reverter a decisão dos parlamentares do país de promoverem a derrubada, em tempo recorde, de um presidente eleito; e articular com seus vizinhos a expulsão do Paraguai do Mercosul.

Digo isso porque estou chocado com o fanatismo antigovernamental de alguns segmentos da ultra-aquecida brasileira, que perante uma situação de tamanha gravidade, ao invés de protestar contra o golpismo, reagiu – açodadamente – com críticas ao Brasil e mesmo à Lugo.

A dura resposta do Brasil, de retirar seu embaixador, emitir uma nota onde fala explicitamente em “ruptura do processo democrático”, ou seja, golpe, e usar o verbo “condenar”, o mais agressivo do vocabulário diplomático, além da expulsão do Mercosul, é especialmente louvável porque o Brasil é o país que, em tese (e numa visão medíocre e de pouca visão), mais poderia lucrar com a deposição de Lugo.

Por outro lado, o Brasil, justamente por seu peso político, precisa tomar um cuidado extremo para que suas ações não sejam interpretadas como intervenção estrangeira, ou violação do princípio da autodeterminação dos povos. Por isso achei tolo o artigo de Fernando Rodrigues, em seu blog, dizendo que temos “medo de sermos imperialistas”, e elogiando (claro!) a ação assertiva dos EUA em casos como esse. Ora, a ação do Brasil nunca vai agradar a todos, e sempre haverá interpretações variadas para o que nós fazemos, mas a preocupação em respeitar a soberania do Paraguai é também um princípio da Constituição brasileira. Analiso o texto de Fernando Rodrigues ao final do post.

Os “brasiguaios”, brasileiros com nacionalidade paraguaia, constituem hoje uma das classes mais ricas do país, atuando sobretudo na produção de soja. Apesar de Lugo jamais ter tocado na economia de soja, ele defendia uma reforma agrária que poderia eventualmente prejudicar os interesses dos grandes produtores.

O novo presidente do Paraguai, Federico Franco, sabe disso, naturalmente, e tentou uma jogada torpe. Suas primeiras declarações se dirigiram ao Brasil e à presidenta Dilma, a quem bajulou de maneira vergonhosa, e em seguida disse que o novo governo daria tratamento “privilegiado” aos brasiguaios. Ou seja, Franco tentou subornar os princípios democráticos da política externa brasileira, com vistas a nos convencer a aceitar um golpe de Estado em troca da estabilidade financeira de fazendeiros brasileiros estabelecidos no Paraguai.

Nunca vi nada tão odioso. O Brasil não quer que o Paraguai dê tratamento “privilegiado” a nenhum brasileiro. Brasileiros não são melhores que ninguém, a começar por latifundiários de soja. Queremos que o governo paraguaio seja respeitoso com os brasileiros em seu território, e aja com justiça. Por exemplo, se há necessidade de uma reforma agrária no Paraguai, e tudo indica que há, para que o país possa se desenvolver econômica e socialmente, e se para isso for necessário fazer algum tipo de desapropriação em terras ocupadas por brasileiros, então que se faça. Um governo sério, e Lugo é um cara sério, evidentemente não faria nenhum tipo de violência contra fazendeiros.

Entretanto, o interesse estratégico do Brasil não é transformar o Paraguai numa grande fazenda de soja, e sim num país desenvolvido socialmente, até para ser um mercado para nossos produtos industrializados e culturais.

Há setores das elites, brasileiras e em toda América do Sul, que não entenderam ainda que o desenvolvimento social é condição necessária para o desenvolvimento econômico. Elas precisam deixar que o capitalismo da América do Sul complete tranquilamente sua evolução de um estágio medieval, pré-revolução burguesa, para uma etapa superior. Daí sim, poderemos brincar de ser liberais ou socialistas, a depender da escolha soberana do povo. Antes disso, precisamos superar o subdesenvolvimento.

Sobre os aspectos jurídicos do golpe paraguaio, estamos assistindo agora, mais uma vez, o espetáculo das máscaras em queda. Todos aqueles furiosos defensores da democracia, que passaram os últimos anos chamando presidentes eleitos de ditadores, agora se apressam em chamar um político sem voto, alçado ao poder através de uma tramoia parlamentar, de “presidente”.

Em sua coluna de ontem [24/6], Merval Pereira adere alegremente ao golpe. Arnaldo Jabor exala um insuportável mau hálito golpista em comentário na CBN. O Estadão de hoje também exalta a constitucionalidade do impeachment.

É sempre assim: depor o presidente eleito e mandar o exército recolhê-lo em sua casa e expulsá-lo do país, como fizeram em Honduras, é democrático. Decidir um impeachment de um presidente, sem lhe dar direito a defesa, em 36 horas, é democrático. Mas eleger um presidente, eleger um Congresso, aí é ditadura.

A inversão de valores atingiu o paroxismo na América Latina. Mas uma coisa não mudou. As corporações de mídia continuam, como sempre fizeram, apoiando golpismos. Vale lembrar que todo golpe de Estado se fantasia de constitucional. O golpe de 64 também teve aparência constitucional. Os tanques na rua foram só propaganda. O golpe mesmo veio na forma de articulações políticas, decididas em reuniões entre oficiais militares, governadores, parlamentares e barões da mídia.

O Estadão, por exemplo, tenta legitimar o golpe através do argumento de que não há manifestações gigantescas no país. Ora, se fosse um golpe contra um governante de quem o Estadão gostasse, qualquer aglomeraçãozinha de cinco pessoas numa praça ganharia a primeira página de todos os sócios da mafiosa Sociedade Interamericana de Imprensa, com a manchete: “Paraguaios saem às ruas contra golpe contra democracia”. Como não é o caso, não importa que milhares de paraguaios se manifestem. A mídia os ignorará, assim como tentou fazer a Globo com as Diretas Já.

Também no Brasil não aconteceram, num primeiro momento, grandes manifestações contra o golpe militar, e ele deixou de ser golpe por causa disso? A população reage com perplexidade e inclusive timidez quando toma um susto. Em geral, conjugam-se em favor dos golpistas o temor da população, traumatizada por outras ocasiões em que os mesmos partidos que hoje assumiram o poder no Paraguai protagonizaram genocídios; o monopólio da mídia, em geral consolidado justamente durante períodos de ditadura; a falta de esperança e a resignação de um povo acostumado a ser explorado. Esses fatores, contudo, apenas tornam golpes, brancos ou não, ainda mais perversos.

Interessante ainda notar que a mídia brasileira se revela mais conservadora do que governos de direita, como Colômbia e Chile, cujas chancelarias condenaram o golpe. O que aliás é previsível. A estrutura de nossos meios de comunicação é a herança mais pesada, mais maldita, da ditadura que vivemos. Sua reação ao golpe no Paraguai, por isso mesmo, tem uma positiva consequência didática. Na política, assim como na literatura, a melhor forma de conhecer um personagem, é observar como se porta no dia a dia.


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