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Pelo menos 51 mortes ocorreram dentro do DOI-Codi/SP, diz Comissão da Verdade

30 de maio de 2013

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Informação rebate tese de que as mortes aconteceram somente em combate ou por suicídio, como defendeu em depoimento o coronel Ustra, ex-chefe do DOI/Codi em São Paulo. Documentos apontam que ao menos 47 mortes aconteceram enquanto Ustra era o chefe do aparato repressivo.

Vinicius Mansur, via Carta Maior

A Comissão Nacional da Verdade (CNV) publicou na terça-feira, dia 28, dados retirados de documentos secretos que comprovariam que pelo menos 51 pessoas foram mortas no Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna / 2º Exército (DOI/Codi de São Paulo) sob os comandos de Carlos Alberto Brilhante Ustra e seu sucessor, Audir Santos Maciel.

As informações foram encontradas pela CNV em uma monografia apresentada à Escola de Comando e Estado-Maior do Exército pelo já falecido coronel Freddie Perdigão Pereira, um quadro destacado da repressão no Rio de Janeiro, com passagem pelo Serviço Nacional de Informações.

Em anexo à monografia está o que Perdigão chamou de “levantamento dos resultados obtidos pelo DOI/Codi/2º Ex desde sua fundação até 18 de maio de 1977”, uma espécie de “estatística da repressão”. O documento aponta que de 2.541 pessoas presas pelo DOI, 1.001 foram encaminhadas ao Dops para o processo, 201 encaminhadas a outros órgãos, 1.289 liberadas e 51 mortas.

Outro documento, identificado como ACE 4062-80 no Arquivo Nacional, aponta que desde a criação do DOI/Codi, em 1970, até outubro de 1973, 1.786 pessoas foram presas e 45 mortas. No mês seguinte, novembro, a estatística é atualizada e indica 1.804 prisões e 47 mortes.

“Patenteado está, sem sombra de qualquer dúvida, que 51 pessoas foram mortas, estando presas no DOI/Codi do 2º Exército, sendo que (2) dessas mortes aconteceram em novembro de 1973”, afirma o integrante da CNV, Cláudio Fonteles, em texto.

Ustra foi o chefe do DOI/Codi do 2º Exército entre 29 de setembro de 1970 e 23 de janeiro de 1974.

Desmentindo Ustra

As informações publicadas na terça-feira, dia 28, pela CNV já haviam sido mencionadas por Fonteles durante a tomada pública de depoimentos ocorrida no último dia 10. Porém, o depoente Ustra negou os dados, sustentando que as mortes aconteceram em combate e fora da sede do órgão de repressão. Confira aqui o trecho.

Na ocasião, o coronel afirmou, bastante irritado, que os militares sempre admitiram que houve mortos na ditadura, mas, além dos suicídios de Vladimir Herzog e Manuel Filho – disse ele –, as mortes foram em combate. “No meu comando, meu senhor doutor Fonteles, ninguém foi morto lá dentro do DOI, todos foram mortos em combate. E os que senhor diz que foram mortos dentro do DOI, não é verdade, eles foram mortos pelo DOI em combate, ora, na rua, dentro do DOI nenhum. Repito que o senhor não está certo no que está dizendo, está aqui publicado”, encerrou socando a mesa e referindo-se ao seu livro “A verdade sufocada”.

Logo após a resposta enérgica de Ustra, os ânimos se acirraram, provocando um bate-boca generalizado no local, o que levou Fonteles a encerrar a sessão.

Filho de Jango se disfarçou para descobrir verdade sobre morte do pai

28 de maio de 2013
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Documentos exclusivos do Arquivo Nacional mostram que Jango (marcado com o nº 3) era vigiado pelos militares, inclusive em momentos privados, como durante a festa de aniversário em que comemorou 55 anos.

João Vicente Goulart revela suspeitas envolvendo a morte do presidente deposto e de que agentes secretos teriam se infiltrado em sua casa como empregados.

Via Portal Terra

Desde o enterro do ex-presidente João Goulart, o Jango, no final de 1976, a família do presidente da República deposto pelo golpe militar de 1964 levanta suspeitas sobre sua morte, já que o caixão não pôde ser aberto “sob hipótese alguma” por ordem dos militares que acompanharam toda a cerimônia, segundo relata João Vicente Goulart, filho de Jango, em entrevista ao Terra. “A certidão de óbito não dizia nada com nada, apenas ‘muerte por enfermedad’ (morte por doença) e, o mais grave de tudo, que não foi feita a autópsia dos restos mortais, nem na Argentina e, tampouco, em nosso País”, afirma.

Recentemente, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) acatou o pedido da família de Jango de exumar o corpo para investigar qual foi a verdadeira causa da morte. Para conseguir indícios fortes de que seu pai foi assassinado, João Vicente chegou a se disfarçar para conseguir arrancar a verdade do ex-agente do serviço secreto uruguaio Mário Neira, preso no Rio Grande do Sul, na entrevista concedida para um documentário produzido pela TV Senado, em 2006.

“[Ele] disse que a família não tinha motivos de interesse pelo acontecido […]. Nesse momento eu disse a ele: ‘Olha, Mário, eu sou João Vicente, não sou repórter, e vim aqui para conhecer a verdade.’ Foi nesse momento que ele abriu o verbo sobre sua atuação na operação que havia culminado com a morte de meu pai”, diz, referindo-se a Operação Escorpião, montada para matar Jango.

A exumação ainda não tem data para acontecer, mas uma comissão com peritos brasileiros e estrangeiros está sendo montada, para atender as condições feitas pela família, para garantir a idoneidade do processo.

Confira os principais trechos da entrevista:

Terra – Desde quando a família pleiteava a possibilidade da exumação do corpo de João Goulart?

João Vicente Goulart – As suspeitas se remontam aos primeiros dias após a morte de Jango. Em seu enterro teve todo um aparato repressivo, soldados, seguranças à paisana, ordens e contra ordens que vieram até a derrubar o coronel Sólon, então chefe da Polícia Federal em Uruguaiana, após autorizar a passagem do cortejo por terra [a ordem era que só entraria por avião direto a São Borja com proteção militar do aeroporto ao cemitério], a não autorização de abrir o caixão sob hipótese nenhuma, certidão de óbito que não dizia nada com nada, apenas “muerte por enfermedad” e, o mais grave de tudo, que não foi feita a autópsia dos restos mortais, nem na Argentina e, tampouco, em nosso País. Era um ex-presidente da maior nação latino-americana, exilado, perseguido há 12 anos no exílio e tentando voltar ao Brasil para forçar uma anistia e abertura.

Além do depoimento do agente uruguaio, vocês tinham indícios de que a morte do presidente poderia ter sido provocada pela repressão?

O depoimento de Mário Neira só veio à tona em 2006. Fui a uma penitenciária de segurança máxima [Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas, no Rio Grande do Sul], pois foi feito um convênio entre o Instituto Presidente João Goulart e a TV Senado, para produzir o documentário Jango em 3 atos. Eu fui disfarçado de jornalista com a equipe para tomar o depoimento de Mário Neira. Foi quando em certo momento ao dizer que sabia das circunstâncias da morte de Jango, pois havia participado da operação [Escorpião] que o vitimou, disse que a família não tinha interesse pelo acontecido… Nesse momento eu disse a ele: “Olha Mário, eu sou João Vicente, não sou repórter, e vim aqui para conhecer a verdade.” Foi nesse momento que ele abriu o verbo sobre sua atuação na operação que havia culminado com a morte de meu pai.

No exílio, como estava a saúde de Jango? Exigia cuidados ou os problemas de saúde estavam controlados?

Jango, no exílio, vivia imerso nas suas saudades do Brasil. Dizia que o exílio era uma invenção do demônio, pois matava a pessoa deixando-a viva a olhar dentro do desterro, à distância, a Pátria amada deixada para trás, dos familiares e dos amigos… Trouxe a ele também, junto as suas amarguras, as feridas no coração, um enfarte produzido pela distância e pela saudade de seu povo. Mas ele se cuidava, periodicamente ia à França fazer tratamento com seu cardiologista, professor Fremont, em Lyon. Estava com a saúde em dia, dentro dos cuidados que um cardiopata necessitava. Agora, permitam abrir aqui um parênteses sobre o que alguns “opinicionistas” de plantão falam a esse respeito. Dizem eles: “Jango era um cardiopata, fumava, bebia, pelo que, é claro, morreu de enfarte”. Só por que era portador de uma enfermidade, não pode ter sido alvo de um assassinato? Das 40 mil vítimas do terrorismo de Estado praticado pelas ditaduras latino-americanas vocês acham que todos eram atletas de saúde impecável? Ninguém desse contingente será que tinha uma doença preexistente? Nosso grande poeta Neruda tinha câncer na próstata quando foi conduzido sob escolta a uma clínica, após o golpe, e eliminado em circunstâncias a serem investigadas, exumado recentemente. O ex-presidente Frei Montalva estava em um hospital para uma cirurgia simples, de uma doença preexistente, quando foi transferido de andar no hospital, trocaram os médicos, proibiram visitas e, uma semana depois, morreu de uma gravíssima infecção. Exumado e comprovado o seu envenenamento por agentes estranhos. Hoje, a investigação conduz a pegadas brasileiras: o composto teria sido produzido no Instituto Butantã. Ora, convenhamos, esse tipo de afirmação de que pessoas com patologias preexistentes não podem ser vítimas de atentados é história para boi dormir, como dizemos no Rio Grande do Sul.

No exílio, seus pais haviam relatado desconfiança ou medo de estarem sendo espionados pelos militares?

Sim, sem dúvidas sabiam desse monitoramento. Em Montevidéu, onde fomos exilados, aconteceu o laboratório da maior vergonha ocorrida no nosso diplomático Itamaraty. Lá, através da criação do Ciex [Centro de Informações do Exterior], invenção perversa de nada menos que Manoel Pio Correa, embaixador que atuava no Uruguai monitorando os exilados brasileiros, a diplomacia brasileira foi transformada em um centro de colaboração com a ditadura, que depois veio a fazer parte da Operação Condor, que trocava pessoas para morrerem nos países de origem sem extradição, sem Justiça, sem nada. Em nossa casa havia empregadas do SNI [Serviço Nacional de Informações], agente “B” da ditadura brasileira, que subtraía documentos de forma clandestina [hoje comprovado pelos documentos desclassificados em poder do Instituto João Goulart] e que se subtraíam esses papéis da gaveta do quarto de meu pai. Tranquilamente poderiam ter substituído um comprimido do coração por um comprimido de cianeto de potássio, não poderiam?

Quando vocês tiveram acesso a informações que deixaram evidente a hipótese de envenenamento? Existem documentos que indicariam que isso aconteceu?

As informações não param de chegar… As evidências vêm sendo liberadas e dão veracidade às suspeitas após o depoimento do agente uruguaio. Por que não houve autópsia, por que não deixaram abrir o caixão, por que o agente “B” estava dentro do nosso apartamento subtraindo documentos, por que Kissinger [Henry Kissinger, diplomata norte-americano], através de telegrama, enviado da África, dava instruções precisas ao seu embaixador [Harry] Schlauderman de que o Departamento de Estado norte-americano tinha conhecimento das operações de assassinatos seletivos envolvendo o Brasil, Uruguai e Argentina, e que tinha ordenado a ele [embaixador] que não se metesse nesses assuntos, deixando acontecer. São inúmeros os documentos que fornecem indícios. É lamentável que vários deles ainda estejam tarjados de preto escondendo nomes , principalmente de agentes do Estado brasileiro.

Quem teria sido a pessoa que ordenou a morte de Jango no exílio?

O relato do agente é claro. Houve uma reunião em Montevidéu, em princípios de agosto de 1976, na Jefatura General de La Policía, no porão do edifício situado nas ruas San José y Yí, onde estariam presentes o general [Luis Vicente] Queirolo, chefe da inteligência das forças armadas uruguaias, Frederick Latrash, chefe da CIA no Uruguai, Carlos Milles, médico patologista do Uruguai e colaborador do serviço secreto uruguaio, que detinha o codinome Capitán Adonis, e o delegado Sérgio Paranhos Fleury, já conhecido no Uruguai por suas incursões em Montevidéu anos antes, para monitorar os movimentos dos brasileiros que colaboravam com o MLN Tupamaros nas eleições. Fleury, portanto, foi quem teria levado a ordem para que a operação de monitoramento exercida sobre Jango [chamada de La Gaivota] se transformasse na eliminação física do ex-presidente, através da Operação Escorpião.

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João Vicente Goulart se disfarçou para conseguir ouvir depoimento de agente secreto uruguaio. Foto de Elza Fiúza/Agência Brasil.

Como foi a vida da família após deixar o Brasil? Quais eram os planos dos filhos e de Jango para quando voltassem?

No começo foi muito tranquilo. O Uruguai, para onde rumamos no começo, tinha uma tradição democrática enorme, não tinha tradição golpista há muito tempo. Começamos a viver uma vida normal no âmbito familiar. Os uruguaios tinham orgulho de terem recebido Jango, “El presidente democrático del Brasil”. O que se supunha em 1964 é que o golpe no Brasil era transitório, como em outras quarteladas acontecidas na história republicana de nosso País. Mas, ao contrário do que se supunha, foi um golpe planejado, executado milimetricamente com orientação do Departamento de Estado norte-americano, que, pelo Brasil, começaria o planejamento para derrubada da democracia em todos os países latino-americanos, e é exatamente na década posterior que nenhum país da América do Sul tem governos democráticos; todos são ditaduras impostas! É aí, então, que a coisa mudou de figura para aqueles exilados que lutavam pelo retorno do Estado de Direito, da liberdade, e pela democracia. Na verdade, o exílio é uma luta constante para o retorno à Pátria, mas o retorno para aqueles lutadores não era somente atravessar a fronteira para submeter-se ao regime que os havia deposto, era a volta para a reconquista da liberdade e da justiça social, o não entreguismo das instituições aos interesses internacionais. Por isso representavam perigo para os ditadores. Não eram apenas homens, eram transportadores de ideais libertários e democráticos.

Essa investigação que está sendo feita pela Comissão Nacional da Verdade traz, ao menos, algum tipo de conforto para a família por investigar o que realmente possa ter acontecido?

Para nós, que, do exílio, nos acostumamos a esperar, é um primeiro grande passo. Depois de seis anos em que o Instituto Presidente João Goulart entrou com o pedido de abertura de ação civil pública para que o Estado brasileiro investigasse a morte de seu ex-presidente, é um primeiro grande passo, ou seja, o Estado concordou; tardiamente ou não, não vem ao caso. Devemos fazer o dever de casa para que outros não venham a fazer nossas obrigações. É uma obrigação da família, que tem lutado, em uma desproporcionalidade gigantesca, no que tange os meios de investigação. Como por exemplo, os pedidos de oitivas de agentes norte-americanos, como Michael Townley, que vive sob a proteção de testemunhas do governo norte-americano [apesar de ter detonado uma bomba nas avenidas de Washington, produzindo o primeiro ato terrorista antes do 11 de Setembro, matando o ex-chanceler chileno Letellier], Frederick Latrash e outros. Sabemos que só um juiz pode fazer esse pedido com uma petição especial através do governo brasileiro pelo Itamaraty, pois só ele teria essa prerrogativa. Estamos esperando. Na verdade, não existe conforto enquanto existam dúvidas a respeito da morte de nosso pai, por parte da família; a respeito da morte do presidente constitucional derrubado pelo golpe, entendo ser uma questão de Estado, e aí a vontade é política do governo, que determina a ato de fazer.

Por que a família fez essa exigência da participação de peritos de fora na exumação de Jango? Existe o medo de que alguém possa influenciar nos resultados, ou é por uma questão de conhecimento técnico e tecnologia?

É uma preocupação de mostrar à sociedade brasileira, que acompanha o caso, em outorgarmos nesse procedimento a maior transparência possível. Já temos outros exemplos nada confiáveis em nosso País, quando nos referimos a peritos individuais contratados para um caso específico, Alagoas, São Paulo etc. Quando se trata de uma ação supostamente executada pela Operação Condor, por uma ação em conjunto com a “cooperativa do terror”, que se havia instalado na época, e que teria sido executada pelos serviços secretos de trás das cortinas de três ditaduras, é lógico que os peritos desses países, que também investigam o mesmo caso, sejam convidados a participar dessa investigação. Até por que Jango morreu na Argentina, e nós não queremos, amanhã ou depois, passar novamente por essa dor ao receber outro pedido de exumação da Argentina por não ter participado. E melhor ainda, termos três ou quatro laudos independentes dando mais credibilidade e independência à investigação, nos trará mais certeza na credibilidade e sucesso técnico na divulgação desses resultados.

Existem preocupações da família sobre a saúde da dona Maria Teresa com a exumação?

Ela sofreu demais durante todos estes anos, mas é uma lutadora incontestável. Depois de tanto sofrimento, ela quer passar por isso mais uma vez, mostrando sua têmpera diante de seu destino… estar mais uma vez ao lado de Jango e da história deste País.

Extermínio e tortura tiveram aval dos presidentes militares

9 de maio de 2013

Ditadura_Militar07Via Diário do Centro do Mundo

Paulo Sérgio Pinheiro, coordenador da Comissão Nacional da Verdade, afirmou estar surpreso com os documentos e informações que revelam a participação da cúpula do regime: “A estrutura do aparelho de repressão vinha desde as alturas do poder até os executantes”.

Autoridade com assento na ONU e coordenador da Comissão Nacional da Verdade, o cientista político e professor da Universidade São Paulo, Pinheiro diz que documentos e informações revelam a participação dos presidentes militares nas ações que resultaram na tortura, extermínio e ocultação dos corpos de militantes de organizações armadas que enfrentaram a ditadura.

Ao contrário da história oficial, segundo ele, a máquina repressiva não funcionou descolada do Palácio do Planalto. À exceção de Castelo Branco e de João Batista Figueiredo, todos os outros generais que se revezaram no poder sabiam e ordenaram os horrores.

A comissão aguarda apenas a conclusão da autópsia dos restos de João Goulart para revelar que o presidente golpeado em 1964 teria morrido, em 1976, na Argentina, em decorrência de envenenamento, e não de ataque cardíaco, como consta no atestado de óbito.

Pinheiro diz que são normais as críticas de familiares sobre a lentidão das investigações, mas garante que a CNV vai apontar o paradeiro dos corpos de militantes de esquerda desaparecidos.

Serão esclarecidos também os casos de 20 brasileiros exilados na Argentina. Nesse grupo se encontra o pianista Francisco Tenório Júnior, o Tenorinho, sequestrado em 1976, a poucos metros do hotel onde se encontravam seus companheiros de excursão, Vinicius de Morais e Toquinho.

A comissão já listou 250 agentes da repressão envolvidos em tortura e mortes. Eles serão chamados a depor. Caso não atendam a intimação, serão levados à força pela Polícia Federal e ainda responderão na Justiça por desobediência.

A máquina envolvida diretamente nos 437 casos de mortos e desaparecidos tinha cerca de 1.500 militares e policiais. As investigações apontam que o Judiciário brasileiro aderiu “gostosamente” ao arbítrio, sem que fosse necessário alterar ou criar legislação de exceção. “Dá para contar nos dedos das mãos os [juízes] que resistiram”, afirma Pinheiro.

A CNV também já tem indícios de que várias empresas e instituições financeiras de peso na economia financiaram a repressão que aniquilou as organizações de esquerda. O relatório, segundo o coordenador, vai propor a revisão na Lei da Anistia.

Governo brasileiro quer a verdade sobre Jango e Plano Condor

7 de maio de 2013

Jango06Darío Pignotti, via Carta Maior

Depois das evidências sobre o envenenamento do ex-presidente chileno Eduardo Frei Montalva, em 1982, e das suspeitas sobre outro assassinato bioquímico que pode ter matado o poeta comunista Pablo Neruda, em 1973, logo após a derrubada de Salvador Allende, o governo brasileiro decidiu apoiar, politicamente, a exumação do ex-presidente João Goulart, falecido há 27 anos na Argentina, aparentemente após ingerir uma pílula cuja procedência está sob suspeita. Está provado que o ex-presidente deposto em 1964 esteve na mira no Plano Condor, do qual a ditadura brasileira foi uma peça crucial, e a menos investigada da região até aqui, talvez porque Emilio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel fossem os generais de maior confiança de Henry Kissinger, o verdadeiro fiador da caçada multinacional.

Por meio de uma iniciativa inédita no Brasil, cujos governos civis não quiseram investigar o Plano Condor, a presidenta Dilma Rousseff resolveu tomar a iniciativa no assunto, através de suas principais colaboradoras na área, a ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário, e Rosa Cardoso, que foi sua advogada nos anos da resistência à ditadura e integra hoje a Comissão Nacional da Verdade. A Carta Maior falou com ambas no sábado, dia 4.

Goulart morreu no dia 6 de dezembro de 1976 na província argentina de Corrientes e as primeiras suspeitas sobre a causa do falecimento surgiram no dia 7, quando o regime de Ernesto Geisel autorizou o ingresso do corpo no Brasil sob a condição de que não fosse realizada uma autópsia.

Ministra Maria do Rosário, quais são as probabilidades de se descobrir vestígios tóxicos em um cadáver antigo?

Já se passaram tantos anos que talvez agora a perícia não consiga chegar a uma demonstração conclusiva de que ele foi envenenado. Mas a exumação é só uma parte de nosso trabalho de buscar a verdade sobre o que ocorreu.

Depois de muita investigação da Comissão da Verdade e da família do ex-presidente Goulart, estamos convencidos de que a perseguição que se fez contra ele durante tantos anos demonstra claramente que havia a decisão de ataca-lo da forma mais vil por partes das ditaduras que atuavam associadas. Ele era um alvo dessas ditaduras que estavam associadas na ideia de eliminá-lo.

Se a pesquisa não obtiver resultados isso pode dar argumentos aqueles que boicotam a investigação do passado?

Não creio que seja assim, porque temos informações muito consistentes que nos permitirão seguir outras pistas. Há uma determinação de trabalhar para que este caso seja esclarecido. A presidenta Dilma solicitou a mim e a Comissão da Verdade, que está realizando um trabalho muito importante, que avancemos tudo o que for possível com o caso João Goulart e com todos os outros casos de vítimas do Condor. Estamos investigando há tempo a perseguição que o presidente Goulart sofreu durante seu longo exílio no Uruguai, na Argentina e em outros países. Além de ter sido deposto pelo golpe de 1964, ele foi seguido quase que cotidianamente por agentes brasileiros articulados com os serviços de inteligência dos demais países do Cone Sul. Nós já temos isso muito bem documentado.

A intoxicação de Frei e a exumação de Neruda reforçaram a pista do envenenamento?

As experiências de crimes ocorridos em outros países como o Chile, com estes dois casos que você está citando, nos fazem reforçar nossa pesquisa sobre o que aconteceu com João Goulart. O certo é que houve, em geral, uma perseguição implacável e ataques aos dirigentes e presidentes como foi o caso do próprio presidente Salvador Allende.

A presidenta Dilma viajará este ano a Washington. Ela pedirá que Obama libere documentos secretos?

Temos buscado e obtido muitos documentos e acreditamos que sempre deve haver colaboração entre nações democráticas. A entrevista concedida por Maria do Rosário à Carta Maior já é, em si mesma, uma confirmação de que Dilma Rousseff recomendou a sua ministra de Direitos Humanos para que se envolvesse plenamente na reconstrução da odisseia vivida por Goulart e seu eventual assassinato, além das possíveis tentativas fracassadas. Um dado político nada desprezível. A família de Jango, que assumiu a pesada tarefa de investigar o caso solitariamente durante anos, apoia a tese de que o plano para eliminá-lo foi urdido com a participação direta do escritório da CIA no Uruguai, para onde teria sido enviado o repressor brasileiro Sérgio Paranhos Fleury. Além de algumas evidências e documentos, os herdeiros do ex-presidente citam, para sustentar a ideia do envenenamento, o testemunho do ex-membro do serviço de inteligência uruguaio, Mário Neira Barreiro, atualmente encarcerado em um presídio de segurança máxima em Charqueadas, Rio Grande do Sul, que declarou ter sido parte da operação pela qual teriam sido colocadas pílulas letais entre os medicamentos de Goulart. A advogada Rosa Cardoso, integrante da Comissão Nacional da Verdade, conversou no sábado com a Carta Maior, sobre o relato do uruguaio com quem conversou há alguns meses.

Você atribui credibilidade às declarações do ex-agente?

Todos temos nossas reservas sobre Neira Barreiro, é verdade, mas considero que uma parte do que nos disse pode ser verdadeira e, além disso, coincide em alguns pontos com o que a família Goulart já descobriu e com o que nós levantamentos na investigação que estamos realizando.

Você acredita que Goulart foi assassinado?

Essa é uma possibilidade que tem que ser ponderada. Não podemos assegurar nada até investigar mais e a exumação pode aportar algo ou não, porque o estado de decomposição pode ser muito avançado. Exumar o corpo e fazer a pesquisa é um trabalho que demora um longo tempo, temos que ser pacientes.

Convidaram a equipe de antropologia forense argentina para acompanhar esse trabalho?

Certamente o faremos, assim como também outros especialistas internacionais.

Goulart e Perón vigiados

Nascido formalmente em 1975, o Plano Condor já atuava como rede de espionagem multinacional, sem levar esse nome de rapina, desde alguns anos, e uma de suas presas mais cobiçadas era João Goulart, informado papéis secretos encontrados por Carta Maior. Um desses documentos, com detalhes de uma conversa entre Goulart e o ex-presidente argentino Juan Perón, em 1973, traz o rótulo de “secreto” e o selo do Serviço Nacional de Informações brasileiro (SNI) e do Ciex, o aparato de inteligência montado na época pelo Itamaraty. Outros relatos mencionam que a Argentina de 1973 era uma plataforma de articulação política para o ex-mandatário “populista”.

“Estes documentos do período em que Goulart era perseguido e espionado na Argentina, dos quais você me fala, mostram que houve um plano perverso contra os democratas e aqueles que ameaçavam a permanência da ditadura”, observa a ministra Maria do Rosário.

Setores do governo brasileiro sustentam a hipótese de que Goulart era um moderado capaz de encabeçar uma coalizão pela restituição democrática, representando uma ameaça ao modelo de transição vigiada concebido, e finalmente aplicado, por Ernesto Geisel. Goulart e Juscelino Kubitschek, outro ex-presidente falecido em um acidente nebuloso em 1976, assim como o chileno Orlando Letelier, assassinado no mesmo ano, poderiam se fortalecer com a vitória do democrata Jimmy Carter.

O Plano Condor via com horror o retorno de líderes apoiados por Washington, como conta em uma correspondência de agosto de 1976, descoberta há 20 anos, enviada pelo então chefe da DINA chilena, Manuel Contreras, a seu colega na época, João Batista Figueiredo, depois promovido a presidente de fato.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

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Dilma cobra mais resultados do trabalho da Comissão da Verdade

30 de março de 2013

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Lido no Conversa Afiada

Presidente quer ações e depoimentos que sensibilizem a opinião pública.

Júnia Gama

Vítima de tortura durante a ditadura militar, a presidente Dilma Rousseff não está satisfeita com os resultados alcançados até agora pela Comissão Nacional da Verdade e cobrou uma mudança de rumos nos trabalhos do colegiado. Em conversas recentes com integrantes do grupo, Dilma exigiu mais resultados concretos e que sensibilizem a opinião pública, já que pouco do que está sendo feito vem sendo divulgado. A principal intervenção da presidente foi no sentido de pedir que a comissão investisse mais nos depoimentos públicos de familiares, como forma de promover uma “catarse nacional”. Alguns focos de resistência na comissão a esse tipo de atuação desagradaram ao Palácio do Planalto, que acompanha de perto os trabalhos. Só este ano, Dilma já teve reuniões reservadas com Cláudio Fonteles e com Paulo Sérgio Pinheiro.

O próximo passo da comissão, que deverá causar comoção nacional, será atuar junto à Justiça brasileira para que autorize a exumação do corpo do ex-presidente João Goulart, deposto e exilado pelo golpe militar. A exumação já foi autorizada pelos familiares de Jango, que acusam os governos militares na América do Sul, no âmbito da Operação Condor, de terem assassinado o ex-presidente em 1976. Um juiz uruguaio requisitou a exumação, e o governo brasileiro concordou com o pedido.

“Igrejas legitimaram golpe militar”, afirma pesquisador

29 de janeiro de 2013
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Padilha: “A Igreja Católica rompeu com a ditadura após o AI5 e a institucionalização da tortura no País.” Foto de José Patrício/Estadão

Via Blog do Roldão Arruda

Um grupo de 11 pesquisadores, especialistas em questões religiosas e ligados à Comissão Nacional da Verdade, vem se reunindo desde novembro em São Paulo. Eles se dedicam a pesquisar as relações entre as igrejas brasileiras e a ditadura militar.

Sob a coordenação de Anivaldo Padilha, metodista e membro do Conselho Latino-Americano de Igrejas, o grupo trabalha neste momento com a revisão da literatura já existente sobre o tema. Também estão sendo iniciadas pesquisas em arquivos públicos. Numa segunda etapa serão colhidos depoimentos.

Padilha – que militou na organização de esquerda Ação Popular (AP), foi perseguido, encarcerado e obrigado a se exilar – diz que a literatura existente destaca sobretudo o papel da resistência da Igreja Católica à ditadura. Mas essa seria apenas uma parte da história. Entre as lacunas existentes e que devem ser pesquisadas pelo grupo, aparecem as questões do apoio que as igrejas deram à ditadura, principalmente antes de 1968, e o papel dos protestantes – ou evangélicos – naquele período histórico.

“As igrejas ajudaram a preparar o clima político que levou ao golpe militar de 1964”, diz Padilha. Na avaliação dele, só houve rompimento com a ditadura em 1968, quando ocorre a institucionalização da tortura e padres começam a ser presos. A seguir, alguns dos principais trechos da conversa com o coordenador do grupo.

O relatório do grupo vai focalizar as perseguições que a Igreja Católica sofreu na ditadura?

Já existem muitas pesquisas e informações sobre os setores da Igreja Católica que resistiram à ditadura e sofreram perseguições por causa disso. Temos pouca coisa, porém, sobre a resistência entre os protestantes. Vamos procurar mais informações sobre essa questão.

As igrejas sempre se opuseram à ditadura?

Não. Houve um período em que elas apoiaram. Esse apoio aparece de forma evidente no material sobre a preparação do golpe militar de 1964. Com o clamor anticomunista imposto ao Brasil naqueles dias, as igrejas foram utilizadas como instrumento político a favor do golpe. Ajudaram a preparar o clima que levou à derrubada do governo constitucional. As manifestações da Marcha da Família com Deus pela Liberdade foram o melhor exemplo disso. Ingenuamente, ou deliberadamente, as igrejas ajudaram a legitimar o golpe. Deram legitimidade religiosa.

E após o golpe?

Os estudos apontam que logo após o golpe não houve diferença entre as ações das igrejas protestantes e a católica: todas continuaram contribuindo para a legitimação da ditadura. Por meio de pronunciamentos e atos oficiais, bispos e cardeais apoiaram os golpistas até o final de 1968, com a promulgação do Ato Institucional nº 5 e a institucionalização da tortura como método sistemático de interrogatório, a prisão de padres e a implantação de um estado de terror. Foi nesse momento que a hierarquia católica reagiu de forma firme contra a ditadura.

E os protestantes?

As principais lideranças das igrejas protestantes continuaram apoiando o regime mesmo depois do AI-5. Foi só a partir de um determinado momento, já na década de 1970, que começa a haver um fortalecimento da oposição em setores protestantes e a sua aproximação com os católicos. De maneira geral, tanto os católicos quanto os evangélicos, em termos de instituição, tiveram posições dúbias em relação à ditadura. Não se deve ignorar, porém, que desde antes do golpe existia um setor ecumênico que apoiava as reformas de base que vinham sendo discutidas no Brasil e que se opunham à intervenção militar. É preciso aprofundar a análise de todos esses aspectos.

A hierarquia católica na Argentina também apoiou a ditadura. Foi diferente daqui?

Na Argentina, a Igreja Católica manteve seu apoio à ditadura militar do início até o final dela. Houve uma colaboração muito forte com o regime ditatorial, especialmente por meio das capelanias militares. Lá não houve só conivência ou omissão: foi sobretudo colaboração. Os protestantes, talvez pelos sérios conflitos que tinham com as instituições católicas argentinas, se opuseram ao golpe e depois tiveram um papel importante na resistência à ditadura.

Quais as dificuldades do trabalho do grupo de pesquisadores?

Nosso campo de pesquisa e investigação é muito amplo. Não vamos ter condições de cobrir essa amplitude, nem do ponto de vista geográfico, nem temático, dentro do prazo previsto. As igrejas estavam presentes em toda a extensão territorial do País. Teremos de fazer escolhas, buscar os casos emblemáticos, mais representativos do comportamento das igrejas.

O senhor foi perseguido?

Sou metodista e participei do movimento ecumênico que, desde a década de 1950, vinha discutindo politicamente reformas para o Brasil. Eu defendia as reformas de base reivindicadas em 1964. Por causa de minhas posições políticas e de minha militância na AP, fui preso em 1970 e permaneci um ano na prisão. Após ser libertado, tive de viver na clandestinidade, quando o cerco se fechou e fui obrigado a sair do Brasil. Passei pelo Uruguai, Argentina, Chile. Com o apoio do mundo ecumênico internacional, mudei para os Estados Unidos, onde vivi durante quase oito anos e, depois para Genebra, passando a atuar no Conselho Mundial de Igrejas.


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