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Opera Mundi: Dez personalidades que marcaram 2013

1 de janeiro de 2014

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Presidentes e delatores de programas norte-americanos estiveram entre destaques do globo neste ano.

Via Opera Mundi

O ano de 2013 foi marcante, sobretudo no Brasil, devido às manifestações de junho e todo o embate ideológico que as cercou. A pauta – mais atuação do estado nas áreas de transporte urbano, saúde e educação – era tipicamente de esquerda, mas a direita também foi às ruas. Mas o ano, em que morreram Hugo Chavez e Nelson Mandela, também foi significativo nas relações internacionais, sendo que algumas figuras tornaram os últimos 363 dias especialmente relevantes. Vamos a elas:

1. José Mujica

O presidente do Uruguai pode festejar em 2013 duas grandes conquistas políticas: implementou a liberação do aborto e aprovou a liberação da maconha. O velho combatente tupamaro, que se dá ao respeito e vai à posse de ministro usando uma humilde sandália, coerente com o calor do verão de Montevidéu e com seu “carro oficial”, um fusca, será lembrado pelas próximas décadas pelo pioneirismo em questões comportamentais, sem ter deixado de fazer um governo também popular em outras áreas.

2. Bradley Chelsea Manning

Quando ainda atendia pelo nome de Bradley, e vivendo um inconformismo com a violência que o país que defendia como militar espalhava pelo mundo, Manning divulgou segredos que constrangeram o governo dos Estados Unidos. Após a condenação por uma corte marcial, Manning novamente demonstrou extrema coragem, ao anunciar ao mundo que sua prisão ocorreu quando estava em processo de mudança de sexo e que agora é uma mulher e se chama Chelsea. A postura firme representa um exemplo para as questões referentes aos direitos de gênero.

3. Edward Snowden

O agente da NSA revelou para o mundo uma série de documentos que mostram a capacidade gigantesca de monitoramento das redes de computadores. Ninguém que escreve uma singela mensagem no comunicador instantâneo acha que dispõe de alguma privacidade. Aliás, nem quem usa cartão de crédito ou telefone celular. A vida de todo mundo alimenta negócios e decisões estratégicas de governos. Aliás, se você está lendo este texto, saiba que gente muito poderosa pode estar sabendo.

4. Papa Francisco

Visto exteriormente, e considerando o papel que desempenhou recentemente na Argentina, Mário Jorge Bergoglio parecia ser apenas uma promessa de mais conservadorismo na Igreja Católica, ao ser escolhido papa, em março. Seu pontificado tem sido marcado, no entanto, por mudanças significativas de rumo: primeiro, o afastamento da velha guarda das instituições financeiras católicas; segundo, o diálogo permanente com nomes da teologia da libertação, até então perseguida pelo antecessor, Bento 16; terceiro, por declarações no cenário internacional – como a crítica à possível ação militar na Síria – que contrastam com a postura anterior de suposta neutralidade do Vaticano. Uma das máximas mais famosas do Barão de Itararé é: de onde menos se espera… é de lá que não vem nada mesmo. Será que Francisco vai contrariá-la?

5. Nicolas Maduro

Nenhum governante foi colocado tanto em xeque como o atual presidente da Venezuela em 2013. Com a morte do popularíssimo Hugo Chavez, Maduro teve, primeiro, de confirmar seu papel de vice-presidente e assumir o cargo; segundo, de enfrentar e vencer uma dura eleição presidencial. Contra a escalada dos preços, promoveu um congelamento. Encarou outra votação, para a prefeitura dos municípios. Venceu de novo. Não vai ter um 2014 fácil, mas saiu vitorioso de um ano particularmente espinhoso.

6. Michelle Bachelet

Michele Bachelet, no Chile, pôs fim aos quatro anos de impopularidade de Sebastian Piñera, com a complexa missão de criar um ensino público gratuito e de qualidade, contrariando o atual governo, que transformou esse direito em negócio – e quebrou gerações de famílias. Terá quatro anos para fazer um governo realmente reformador.

7. Ana Paula Maciel

A ação da brasileira Ana Paula Maciel, que subiu na plataforma de petróleo russa junto com uma centena de ativistas ambientais ligados ao Greenpeace (assim como a do militante José Bové quando Jacques Chirac presidia a França que fazia testes nucleares no Pacífico), manteve a questão ecológica em pauta no cenário internacional. A crise mundial, que se arrasta desde 2008, e o método de fissura hidráulica para a prospecção de xisto nos EUA tornam cada vez mais esquecidas as questões do aquecimento global e a da substituição das fontes de energia fósseis. Mas esse é um assunto que não nos abandonará tão cedo.

Leia também: Cuidado com a ativista Ana Paula. Ela é contra o pré-sal

8. Vladimir Putin

Ele ofereceu uma saída a Bashar Al-Assad, aproximou-se do papa Francisco, viu o ano se encerrar com a liberação das garotas da banda Pussy Riot e dos ativistas do Greenpeace. O presidente russo liderou em muitos momentos a diplomacia internacional e por pouco não conseguiu vender caças ao Brasil. Dentro de casa, no entanto, de olho no eleitorado conservador, fez feio, alimentando perigosos fantasmas da homofobia na Rússia.

9. Bashar Al-Assad

Quando a Primavera Árabe parecia varrer todo o Oriente Médio, Bashar Al-Assad era visto só como mais um presidente a ser derrubado. Assad resistiu a rebeldes financiados pelos Estados Unidos, muitas vezes promovendo massacres, num país em que alianças étnicas e religiosas dificultam leituras tradicionais. Acusado em 2013 de usar armas químicas, o que parecia ser o golpe fatal e a abertura definitiva para um ataque dos EUA e/ou de Israel, Assad baixou a guarda da diplomacia e aceitou a oferta de destruir seu arsenal de armas não convencionais. Numa situação para lá de delicada, conseguiu safar-se e paralisar, pelo menos momentaneamente, seus inimigos internacionais.

10. George Clooney

A situação do Sudão do Sul mostra que o apoio a causas independentistas é algo mais sério do que fazer comercial de café expresso. De boas intenções de celebridades, os conflitos sanguinários estão cheios.

Lula: Com Bachelet, América Latina terá “três grandes mulheres” na presidência

17 de dezembro de 2013
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Em nota, Lula afirmou que a política chilena é uma das mais competentes que ele conhece. Foto de Ricardo Stuckert/Instituto Lula.

Ex-presidente considera que região terá momento único com Dilma, Cristina e Bachelet. Brasileira telefona para chilena para celebrar “ótimo desempenho” e confirma presença em posse, em março de 2014

Via RBA

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva emitiu na segunda-feira, dia 16, nota de saudação à vitória de Michelle Bachelet na disputa presidencial no Chile. No comunicado, publicado na página do Instituto Lula na internet, o petista destaca que a América Latina viverá um momento único a partir de agora.

“A América do Sul teve uma boa notícia hoje, e ainda mais o Chile, com a eleição e a volta à presidência da minha querida Michelle Bachelet, uma das políticas mais competentes que eu conheço”, afirmou o ex-presidente. “Nossa região viverá um momento único em sua história, com três grandes mulheres governando ao mesmo tempo países tão importantes como o Brasil, a Argentina e o Chile. Tenho certeza de que Bachelet contribuirá muito para o avanço da parceria e integração entre nossos países.”

A Argentina é comandada por Cristina Fernández de Kirchner. O Brasil, por Dilma Rousseff, que hoje telefonou a Bachelet para cumprimentá-la pela vitória obtida ontem. Segundo o Blog do Planalto, a presidenta saudou o “ótimo desempenho nas eleições presidenciais chilenas”.

Segundo a assessoria de imprensa do Planalto, a ligação durou cerca de cinco minutos e Dilma manifestou o desejo de que o “Brasil e Chile possam trabalhar juntos por uma América do Sul cada vez mais forte”. De acordo com o Blog do Planalto, a presidenta brasileira também confirmou presença na posse de Bachelet, marcada para 11 de março de 2014. “Bachelet agradeceu o telefonema e disse que pretende trabalhar em estreita parceria com o Brasil após assumir a Presidência do Chile”, informa o blog.

No começo de novembro, antes do primeiro turno, Lula gravou um vídeo de apoio a Bachelet e esteve em Santiago debatendo a campanha da ex-presidenta, que comandou o Palácio de la Moneda entre 2006 e 2010. Agora retorna para um novo mandato à frente da Nova Maioria, que substitui Concertação, coalizão formada na reta final do governo de Augusto Pinochet e que comandou o país durante duas décadas. Ela alcançou vantagem de 62,2% a 37,8% sobre Evelyn Matthei, candidata do atual presidente, Sebastian Piñera.

Entrevista: Moniz Bandeira analisa os 40 anos do golpe militar no Chile

11 de setembro de 2013
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Moniz Bandeira

Via Portal do Partido dos Trabalhadores

Dia 31 de agosto chegou às livrarias a edição alemã do livro de Moniz Bandeira: Wachstumsmarkt Brasilien – Der deutsche Wirtschafts und Handelsbeitrag in Geschichte und Gegenwart (Brasil – mercado em crescimento– A contribuição econômica e comercial da Alemanha na história e no presente), publicada por uma das maiores editoras da Alemanha, a Springer Gabler.

O livro já está anunciado na Amazon e será apresentado na Feira do Livro de Frankfurt, da qual o Brasil será este ano o país-tema. A apresentação será feita pelo economista Wolfgang Müller e pelo sociólogo Gilberto Calcagnotto, no dia 10 de outubro, às 10h45, na Halle 4.2, Fórum Fachmedien. Em seguida, Springer Gabler Verlag, em seu estande, oferecerá uma recepção. Está prevista a presença da ministra da Cultura, Marta Suplicy.

A 2ª edição em português, lançada pela Editora Unesp, tem o título O “milagre alemão” e o desenvolvimento do Brasil.

O lançamento dessa obra na Alemanha é da maior importância, num momento em que o Brasil e o governo de nossa presidente Dilma estão a sofrer um ataque especulativo, contra o real e sua economia, movido pelo sistema financeiro internacional e sob influência dos Estados Unidos.

Também de Moniz Bandeira, saiu na China a edição em mandarim de Formação do império americano. O livro foi publicado há dois anos pela Casa das Américas (Cuba), assim como na Argentina, há mais tempo.

Entrevista ao Portal do PT

Luiz Alberto Moniz Bandeira concedeu, por e-mail, uma entrevista ao Portal do PT onde ele analisa os 40 anos do golpe militar no Chile que derrubou o presidente Salvador Allende, as manifestações de junho ocorridas no Brasil e fala também sobre seu novo livro A segunda guerra fria – Geopolítica e dimensão estratégica dos EUA (das rebeliões na Eurásia à África do Norte e Oriente Médio).

Confira a íntegra abaixo:

No próximo dia 11 de setembro, o golpe de Estado contra o presidente Salvador Allende completará 40 anos. Quais são, na sua opinião, as reflexões que devemos fazer nesta data, que nos sejam úteis na atual conjuntura latino-americana e mundial?

A principal reflexão que se pode tirar da tragédia do Chile é a de que não se pode cobrar da história uma fatura que ainda não venceu. Marx expôs, no prefácio de Zur Kritik der Politschen Ökonomie, que os resultados de suas pesquisas mostraram que uma formação social nunca desmorona sem que as forças produtivas dentro dela estejam suficientemente desenvolvidas, e que as novas relações de produção superiores jamais aparecem, no lugar, antes de que as condições materiais de sua existência sejam incubadas nas entranhas da própria sociedade antiga. E essa não era a situação do Chile, um país cuja economia se baseava fundamente na exploração do cobre, que dependia do mercado mundial, sob a regência do sistema capitalista. Nem Marx nem Engels nem Lenin jamais conceberam o socialismo como via de desenvolvimento ou modelo alternativo para o capitalismo, o único modo de produção que se expandiu globalmente. Logo na primeira parte do Manifesto Comunista, de 1848, Marx e Engels salientaram que a indústria havia criado o mercado mundial, mediante o qual burguesia deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo de todos os países, retirando da indústria sua base nacional. As antigas indústrias nacionais – salientaram Marx e Engels – foram destruídas ou estavam sendo cotidianamente destruídas ou suplantadas por novas indústrias, cuja introdução se convertia em questão vital para as nações civilizadas, por indústrias que não mais empregavam matérias primas domésticas, e sim matérias primas oriundas de distantes regiões, e seus produtos não só eram consumidos no próprio país, porém, ao mesmo tempo, em todas as partes do mundo. Essa lição mostrava a inviabilidade projeto socialista da União Popular, ademais dentro do contexto do Conflito Leste-Oeste, em que a CIA efetuava uma terrível guerra psicológica, visando a aterrorizar o povo e fraturar ainda mais a sociedade chilena. Se o presidente João Goulart, cujas reformas pretendidas tinham apenas caráter reformista e nacional-desenvolvimentistas, os Estados Unidos não toleraram e trataram de derrubar seu governo, é evidente que fariam o mesmo ou mais contra o governo do presidente Salvador Allende, que se alinhara com Cuba e a União Soviética.

Ainda sobre o Chile, a experiência do governo da Unidade Popular parece ter antecipado alguns dos dilemas estratégicos enfrentados, hoje, por várias governos progressistas e de esquerda latino-americanos. Em sua opinião, o que aquela experiência tem de atual, para os partidos de esquerda que dirigem ou participam de governos eleitos em nossa região?

A situação atual é muito diferente da que existia nos anos 1960, quando os Estados Unidos sustentaram e encorajaram o golpe militar no Brasil – e 1970-1973. Àquele tempo, quando promoviam o ignominioso golpe no Chile, estavam a perder a Guerra do Vietnã. Todo seu poderio militar não bastou para dar-lhes a vitória sobre forças que viviam no seu próprio habitat, na mais perfeita simbiose com a natureza e sobreviviam nas condições mais primitivas, combatiam extremamente bem, com eficiência e recebiam o mais amplo suporte da população, em todos os lugarejos do Vietnã do Sul. E, desde 2001-2003, os Estados Unidos estão chafurdados nas guerras no Afeganistão e no Iraque, onde os ataques e atentados terroristas mais do que se intensificaram e quadruplicaram e dos quais não conseguem retirar totalmente suas tropas. E os Estados Unidos, chafurdados ainda em profunda crise econômica, tornaram-se uma superpotência dependente. Dependem de tudo, inclusive de capitais e financiamentos, que foram possibilitados pela compra de bônus do Tesouro norte-americano pela China, Brasil e outros países. Como bem observaram Bill Bonner e Addison Wigging, “a nação mais rica, mais poderosa do mundo, depende das poupanças dos países mais pobres”. O poderio militar dos Estados Unidos defronta-se, portanto, com severos limites econômicos e financeiros. Mas Washington, quer seja George W. Bush ou Barack Obama o presidente, jamais tolerou, evidentemente os governos progressistas que emergiram na América do Sul, contra os quais promovem operações de guerra por meio da mídia nacional e internacional e outros métodos, através de ONGs, financiadas pela NED [National Endowment for Democracy], e entidades civis, como Freedom House, o Open Society Institute [renomeado a Usaid, Open Society Foundations, OSF, em 2011], e outras organizações não governamentais, com o objetivo de promover golpe de estado. A Open Society Foundations, a NED e a Usaid financiaram alguns movimentos e certos veículos da mídia, encorajando a denúncia de fraudes reais ou não nas eleições de vários países, como Sérvia, Geórgia e Ucrânia – nos quais encorajaram nonviolent revolutions, levando a oposição às ruas, por meio de ativistas, muitas vezes remunerados em manifestações contra o governo. O livro básico para a formação desses ativistas é From Dictatorship to Democracy, do professor do Gene Sharp, que ensina como intervir em eleições estrangeiras sob a máscara de interesse imparcial. Segundo ele explica a luta não violenta é travada por vários meios, tais como a guerra psicológica, social, econômica e política, aplicados pela população e pelas instituições da sociedade. Tais meios são, e.g., protestos, greves, não cooperação, deslealdade, boicotes, marchas, desfiles de automóveis, procissões etc. É o modelo do pós-moderno coup d’etat patrocinado Estados Unidos, adaptado às condições pós-comunismo, uma forma de cold war revolutionary, conforme definiu o coronel David Galula as atividades subversivas desenvolvidas dentro da legalidade. Aliás, já nos anos 1980, William Colby (1920-1996), então diretor da CIA, declarou que muitas operações, antes conduzidas de forma encoberta [covert actions] pela CIA, poderiam doravante ser realizadas pelas ONGs (um terço das cem maiores estava baseado nos Estados Unidos), abertamente e sem questionamento.

Seguindo na mesma toada, como você avaliou os eventos de junho no Brasil e em que medida isto se conecta com as dificuldades vividas, não apenas no Brasil, pelos governos progressistas e de esquerda?

Desde o início, vi os eventos de junho com suspeita. O Brasil não está a sofrer grave crise econômica e social. As contas públicas não estão insolventes Não há risco de default, de um calote na dívida interna e externa. Pelo contrário. O balanço de pagamentos não está em crise. Entretanto, enquanto o governo passou a enfrentar enorme dificuldade para conter a ameaça inflacionária, ocorreu forte desvalorização do real frente ao dólar, provocada, em larga medida pela expectativa de mudança da política monetária norte-americana, e pelo fato de que o real se valorizara mais do que as outras moedas em 2008. No entanto, ao mesmo tempo em que o ataque especulativo aproveitava tais circunstâncias, ocorreram, simultaneamente, manifestações de protestos, chegando até mesmo à violência, em diversas cidades, sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo. Os motivos existem, são muito antigos; são problemas antigos, de várias décadas, gerados, em parte, durante o regime militar, e agravados com o neoliberalismo, que incentivou ainda mais a privatização como, e.g., da saúde e educação, pelos governo de Collor de Melo e Fernando Henrique Cardoso. Causas reais, inegavelmente, havia. Porém, foram largamente ultrapassadas pela intensidade e continuidade das manifestações, que buscaram desmoralizar as instituições, os governos e o país, prejudicando sua economia e imagem no exterior. Se possivelmente elas foram (em parte) espontâneas, não se pode desconsiderar que houve e há uma tentativa de solapar a estabilidade e a força econômica, política e militar, sem recorrer ao uso da força, provocando violentas medidas, a serem denunciadas como truculência do governo. A divulgação de informações falsas ou verdadeiras, através da mídia nacional e internacional, teve como objetivo solapar a credibilidade e a confiança não somente no governo como no Brasil. Quem leu e conhece a doutrina que o general Collin Powel estabeleceu, em 1992, como chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas [The Military Strategy of the United States, US Government, Printing Office, ISBN 0-16-036125-7, 1992, p. 7], que os Estados Unidos, após o colapso da União Soviética, tratariam de preservar sua credible capability to forestall any potential adversary from competing militarily, impedindo a União Europeia de tornar-se potência militar, fora da Otan, a remilitarização do Japão e da Rússia, e desencorajando qualquer desafio à sua preponderância ou tentativa de reverter a ordem econômica e política internacionalmente instituída, deviam consistir tão somente em manter uma capacidade militar necessária para autodefesa, combater o narcotráfico e exercer atividades policiais. Os Estados Unidos empenham-se, naturalmente, em criar as maiores dificuldades para o Brasil na medida em que ele se encaminha para tornar-se uma potência global e forma com a China e Índia um grupo de resistência à sua full-fledged dominance.

Finalmente, você está lançando um novo livro: A segunda guerra fria – Geopolítica e dimensão estratégica dos EUA (das rebeliões na Eurásia à África do Norte e Oriente Médio). Falemos dele.

Esse novo livro – A segunda guerra fria – Geopolítica e dimensão estratégica dos EUA (das rebeliões na Eurásia à África do Norte e Oriente Médio) – aprofunda, desdobra e atualiza minha outra obra – Formação do império americano – que este ano foi lançada na China e, em 2011, em Cuba. Nele, tratei de demonstrar, com documentos e informações, procedentes das mais variadas fontes, que as chamadas “revoluções coloridas”, na Sérvia, Ucrânia, Georgia e em outras repúblicas da extinta União Soviética, bem como nos países da África do Norte e Oriente Médio – comemoradas como Primavera Árabe – não foram nem espontâneas, ainda que condições domésticas houvesse para que elas ocorressem, nem democráticas. O papel dos Estados Unidos, assim como da França e da Grã-Bretanha, foi fundamental na promoção da agitação e da subversão, por meio do envio de armas e de pessoal, direta ou indiretamente, através do Qatar e da Arábia Saudita. Além das intervenções da Otan, abertas, como no caso da Líbia, ou veladas, as organizações não governamentais (ONGs) e dissidentes ativistas treinados pela Middle East Partnership Initiative (MEPI), como parte da freedom agenda, constituíram uma das armas empregadas para promover a political warfare, mobilizando multidões, com o pretexto de fomentar o desenvolvimento da democracia, o que significava regime change, i.e., subverter governos e instalar regimes favoráveis aos investimentos e interesses estratégicos do cartel ultra-imperialista, formado pelos Estados Unidos e seus aliados da União Europeia, contrapondo-se ao advento da China e à recuperação da Rússia, sob a direção do presidente Vladimir Putin. Os brasileiros devem estar atentos para que a possibilidade de que os interesses imperiais também não tentem fragmentar o Brasil como parece ser o objetivo de redesenhar o Oriente Médio e, de certo modo, fragmentar partes da China (Xinjiang) e da Rússia (Tchetchênia e outras regiões). As ameaças existem, conquanto possam parecer remotas. Como várias vezes adverti, o perigo que representa uma grande potência, tecnologicamente superior, mas com enormes carências, sobretudo de energia, pode ser muito maior, quando ela está a perder a preeminência, e quer mantê-la, do que quando expande seu império. Ela respeita a lei internacional, senão entre as potências cujas forças se equilibram. Neste momento estou indignado com a armação que os Estados Unidos e os chamado rebeldes armaram para a intervenção na Síria. Crianças não constituem alvo militar. Crianças atacadas com gás tóxico só servem para efeito de propaganda contra o regime, através da exibição de vídeos pela mídia, ecoando e endossando as acusações da guerra psicológica. É preciso denunciar isto em alto e bom som. Pode usar minhas palavras. Trata-se de outra trágica encenação armada pelos salafista-al-Qa’ida-Estados Unidos e seus aliados ocidentais.

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Aniversário de 40 anos do golpe militar no chile divide forças políticas do país

Aniversário de 40 anos do golpe militar no Chile divide forças políticas do país

11 de setembro de 2013

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Monica Yanakiew, via Agência Brasil

Quarenta anos depois do golpe militar e em plena campanha para as eleições presidenciais de novembro, o Chile continua dividido. Dois atos, na segunda-feira, 9, marcaram o aniversário de 40 anos da derrubada do governo eleito de Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, em movimento militar liderado pelo general Augusto Pinochet – que governou o país com mão de ferro durante 17 anos.

Um dos eventos, convocado pelo presidente Sebastián Piñera, o primeiro eleito pela centro-direita desde o retorno do país à democracia há mais de duas décadas, ocorreu no palácio presidencial. Outro, no Museu da Memória e dos Direitos Humanos, encabeçado pela ex-presidenta Michelle Bachelet – candidata pela coalização de centro-esquerda Nova Maioria e grande favorita nas pesquisas de opinião.

Na cerimônia no Palácio La Moneda, Piñera condenou o sangrento golpe (na época apoiado por muitos simpatizantes e integrantes de seu governo), que resultou na queda e no suicídio de Salvador Allende – primeiro socialista eleito na América Latina, em meio à Guerra Fria. Durante o golpe de 1973, o próprio palácio presidencial foi bombardeado.

Piñera criticou o silêncio daqueles que sabiam das atrocidades sendo cometidas e que até hoje não se manifestaram. Mas, apesar de considerar as violações aos direitos humanos “injustificáveis”, ele disse que as responsabilidades pelos acontecimentos do passado precisam ser compartilhadas. “O governo da Unidade Popular [de Allende] reiteradamente rompeu a legalidade e o Estado de Direito no Chile”, disse Piñera, justificando a intervenção militar.

Horas antes, em ato no Museu da Memória e dos Direitos Humanos, Michelle Bachelet descartou qualquer possibilidade de reconciliação sem que o Chile termine de investigar os crimes do passado e punir os culpados. “Não existe reconciliação que se construa diante da ausência da verdade, da justiça e do luto”, disse ela.

Segundo Bachelet – cuja família foi vítima da ditadura – “injustificáveis” são os argumentos da direita, de que os militares atuaram para colocar um fim à crise econômica e política que dividia o país. “Para dar continuidade à democracia, era necessário ter mais democracia, não um golpe de Estado”.

A polarização, acentuada pelo aniversário do golpe e pela campanha presidencial, tornou-se evidente nos dois atos. Nenhum dos outros quatro ex-presidentes que governaram o Chile desde 1990 aceitou o convite de Piñera para a cerimônia em La Moneda. Todos são da chamada Concertação – uma aliança de centro-esquerda que ficou no poder durante duas décadas consecutivas, e que este ano mudou de nome para Nova Maioria e incluiu, pela primeira vez, o Partido Comunista.

Os ex-presidentes Eduardo Frei e Ricardo Lagos optaram pelo ato convocado por Bachelet, no museu que ela inaugurou durante seu mandato presidencial.

Apenas três dos nove candidatos às eleições presidenciais estiveram presentes em La Moneda. Entre eles, a candidata de Piñera, Evelyn Matthei, da Aliança, formada pelos partidos conservadores Renovação Nacional (RN) e União Democrática Independente (UDI). Não é a primeira vez que os caminhos de Evelyn e Michelle se cruzam. Ambas são filhas de generais (a mais alta patente) da Forca Aérea chilena que eram amigos até o golpe de 1973.

Alberto Bachelet, pai de Michelle, foi assessor de Allende. Foi detido e torturado depois do golpe e morreu na cadeia. A mulher e a filha também foram levadas a campos de concentração, mas conseguiram sair do país como exiladas. Na época do golpe e da morte de Alberto Bachelet, Fernando Matthei estava em Londres com a família. Voltou para o Chile quando Michelle e a mãe já estavam na Europa e tornou-se membro da junta de governo de Pinochet, que ficou no poder até 1990.

No domingo, dia 8, milhares de chilenos saíram às ruas (como fazem todos os anos) para protestar contra o golpe, em marcha que foi reprimida pela polícia. “Existem ainda 1.300 processos abertos durante 40 anos, sem que saibamos onde estão os desaparecidos e mortos”, disse Alicia Lira, presidente da organização de familiares de políticos executados na ditadura.

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11 de setembro de 2013

Em 11 de setembro de 1973, o mundo perdia Salvador Allende.

A América Latina teve duas experiências populares decisivas na segunda metade do século 20. Um delas foi a Revolução Cubana, em 1959, que inspirou os latino-americanos a acreditar na revolução armada a partir do foco guerrilheiro como alternativa para derrubar ditaduras ou para implantar governos populares. A outra foi a vitória do médico Salvador Allende no Chile. Pela primeira vez, uma aliança de partidos de esquerda chegava ao poder na América Latina pela via eleitoral.

De acordo com seus amigos, El Pije (elegante), como Allende era conhecido, já discutia política aos 15 anos com a malícia de um veterano. Seus primeiros contatos com essa atividade aconteceram no colégio, quando conheceu o anarquista italiano Juan Demarchi, que lhe indicava leituras.

Allende estudou Medicina na Universidade do Chile e, em 1927, foi eleito presidente do Centro de Alunos. Em 1933, foi um dos fundadores do Partido Socialista Chileno, dele fazendo parte até 1946. Em 1937, foi eleito deputado e, dois anos depois, nomeado ministro da Saúde, função que exerceu até 1942. No ano seguinte, assumiu a direção do partido. Em 1945, foi eleito senador, cargo que ocupou durante 25 anos.

Salvador Allende perdeu por três vezes as eleições presidenciais, em 1952, 1958 e 1964, mas conseguiu eleger-se presidente do Chile em 1970, como candidato de uma coligação de esquerda, a Unidade Popular. Sem fuzis, sem guerrilhas, os partidos Comunista e Socialista, na Unidade Popular, em 1970, deu às esquerdas mundiais a esperança de que a luta de massas também conseguiria chegar ao poder. Assim, Allende entrou para a história da política mundial como o primeiro marxista a chegar ao poder por meio das urnas.

Allende assumiu a presidência no dia 3 de novembro de 1970 e durante seu governo nacionalizou as minas de cobre, a principal riqueza do país. Além disso, passou as minas de carvão e os serviços de telefonia para o controle do Estado, aumentou a intervenção nos bancos e fez a reforma agrária, desapropriando grandes extensões de terras improdutivas e entregando-as aos camponeses.

Desde que assumiu o poder, Allende tinha em mente o projeto de construir um “caminho chileno para o socialismo”. Assim provocou a oposição da direita e do governo norte-americano, que uniram suas forças para prejudicar sua política. Em 4 de setembro de 1972, Allende denunciou em vão, nas Nações Unidas, as tentativas norte-americanas de desestabilização do Chile.

A situação econômica tornou-se catastrófica. O governo de Allende sofria com a direita golpista. Sabotagens dos empresários, que escondiam gêneros de primeira necessidade, e dos EUA davam mais combustível para as campanhas golpistas da direita.

Apesar das graves dificuldades econômicas, a Unidade Popular obteve 43% dos votos nas eleições de 1973. Em junho desse mesmo ano, porém, ocorreu uma frustrada tentativa de golpe de Estado. Três meses depois, no dia 11 de setembro, o governo de Allende foi derrubado pelo exército, liderado pelo general Augusto Pinochet.

Decidido a não entregar o poder, ele teria se suicidado na sala da presidência, com um tiro na cabeça de fuzil automático AK-47, presente do amigo cubano Fidel Castro. Há quem sustente que ele foi morto pelos militares. De qualquer modo, naquele dia, aos 65 anos, Allende tornou-se uma das primeiras vítimas da ditadura militar chilena, que durou 17 anos e deixou pelo menos 3 mil mortos ou desaparecidos.

Texto recebido por e-mail.

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O Brasil de Pinochet

4 de setembro de 2013
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Ditador Pinochet.

Roberto Simon, via Agência Estado

O expediente no Itamaraty já havia terminado quando, às 20h30 de 13 de setembro de 1973, diplomatas chilenos foram recebidos na chancelaria esvaziada, em Brasília. O presidente Emílio Garrastazu Médici estava em São Paulo, de onde telefonara dando ordens expressas para que o Brasil se tornasse o primeiro país a reconhecer a junta militar que derrubara o governo de Salvador Allende. Um avião com “20 toneladas de medicamentos” estava a caminho de Santiago.

“É certo dizer que o novo governo do Chile encontrará no Brasil um poderoso aliado”, escreveu, emocionado, no primeiro telegrama à junta militar, o encarregado de negócios chileno em Brasília, Rolando Stein – o embaixador de Allende no País, o jurista Raul Rettig, que décadas depois chefiaria a comissão da verdade chilena, havia renunciado naquela manhã. Stein acertou na mosca.

Com base em arquivos brasileiros, já se sabia que o governo Médici deu amplo apoio aos conspiradores chilenos antes, durante e depois do golpe que este mês completa 40 anos. Empresários brasileiros enviaram dinheiro a grupos de direita no Chile, o embaixador em Santiago, Antônio Cândido da Câmara Canto, atuou como pôde para minar o governo Allende e, dias após a queda dos socialistas, agentes brasileiros foram enviados ao Estádio Nacional e a outros centros de repressão para prestar “consultoria” a colegas chilenos.

O Estado, porém, teve acesso a centenas de telegramas diplomáticos secretos do Chile recentemente liberados – e inéditos no Brasil – que revelam novas informações sobre o grau e as formas de participação do governo Médici na derrubada do governo da Unidade Popular (UP).

Uma das revelações mais impressionantes dos documentos chilenos é que, logo após chegar ao poder, o governo Allende recebeu informações precisas sobre as atividades da ditadura brasileira contra o Chile – incluindo planos para derrubar à força a UP. Segundo um telegrama “estritamente confidencial”, um jornalista chileno vinculado ao ex-presidente Jorge Alessandri, de direita, alertou o embaixador de Allende em Brasília que havia sido procurado “por um general brasileiro amigo”. O militar lhe propôs ajuda para “organizar no Chile um movimento de resistência armada […], estruturado em forma de guerrilha, […] contra o ‘perigo vermelho’.”

No mês seguinte, a embaixada recebeu novas e mais detalhadas informações sobre o plano de insurgência no Chile. Desta vez, porém, o alerta partiu de um informante altamente improvável: um oficial brasileiro, “com ideias políticas de esquerda”, vinculado ao serviço de inteligência do Exército.

Por meio de um intermediário, o militar fez chegar a um secretário da embaixada chilena a informação de que, dentro do Ministério do Exército, no Rio de Janeiro, funcionava uma sala de operações, com maquetes da Cordilheira dos Andes e mapas, para estudar e planejar uma guerrilha anticomunista no Chile. Brasileiros participariam apenas como instrutores e os combates seriam travados por civis chilenos. Mais: como parte dos preparativos, o Exército do Brasil teria enviado “diversos agentes secretos, que entraram no Chile como turistas”.

Um cidadão chileno que viva em São Paulo “e merece toda confiança” também afirmou à missão diplomática que um “corpo do Exército nessa cidade estaria procurando voluntários chilenos para empreender uma aventura bélica” no Chile. A articulação estaria sendo feita com ajuda de integrantes da Fiducia – equivalente chilena à Tradição Família e Propriedade (TFP) – que haviam se mudado para São Paulo.

Embaixador suíço

O militar brasileiro, cuja identidade não é revelada nos documentos, passou outro recado importante ao governo Allende. Entre os 70 “subversivos” brasileiros que foram ao Chile no ano anterior, trocados pelo embaixador suíço, Giovanni Bucher, havia dois espiões do Exército brasileiro. A governo Médici havia deliberadamente atrasado a negociação para libertar os presos políticos com o objetivo de colocar os infiltrados em território chileno. Lá, eles deveriam coletar informações e se comportar como “agentes provocadores”.

À época, cerca de 5 mil exilados brasileiros viviam no Chile, onde conduziam intensas atividades de denúncia à ditadura. Os documentos chilenos mostram que o embaixador do Brasil em Santiago, Antônio Cândido da Câmara Canto, várias vezes apresentou protestos formais ao governo em razão de artigos e declarações de opositores brasileiros à imprensa local. Vários brasileiros que estiveram no Chile, consultados pelo Estado, disseram que muito provavelmente eles eram monitorados por meio de espiões.

O embaixador de Allende no Brasil chama atenção para o caso de duas senhoras brasileiras, parentes de exilados, que foram presas pela Aeronáutica no Aeroporto do Galeão, no Rio, ao desembarcarem do Chile, no dia 19 de janeiro daquele ano. Elas traziam cartas de brasileiros exilados, incluindo uma mensagem de Almino Afonso, ex-ministro do governo João Goulart, ao deputado Rubens Paiva. O embaixador chileno em Brasília acreditava que elas haviam sido delatas por informantes da ditadura entre os brasileiros em Santiago. No dia seguinte ao caso no Galeão, Rubens Paiva foi preso em sua casa por agentes que se diziam da Aeronáutica.


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