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2013 foi o ano em que os venezuelanos disseram sim ao chavismo sem Chavez

26 de dezembro de 2013
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Chavistas em campanha pró-Maduro depois da morte de Chavez.

Via Diário do Centro do Mundo

O texto abaixo foi publicado originalmente no site El Pais. O autor, Alek Boyd, trabalhou em 2006 como assessor de campanha do então líder oposicionista venezuelano Manuel Rosales.

Não eram poucas as interrogações que existiam sobre a viabilidade do chavismo. Especulava-se. Dizia-se que “uma vez que não esteja Chavez isto cai como um castelo de cartas”.

O chavismo sem Chavez, como passou a se chamar essa figura, era algo que existia na bruma do futuro. Intangível e insondável. A crença era de que só Chavez tinha o carisma, a ascendência e presença para carregar seu movimento político nas costas.

Durante sua vida, ninguém lhe fez sombra na política venezuelana, muito menos dentro do chavismo. Os colaboradores que manteve a seu redor eram vistos como simples fofoqueiros, garotos de recado, indivíduos sem poder nem discernimento para tomar decisões de relevância alguma.

Quando se soube da sua enfermidade fatal, muitos na oposição, mesmo sem admitirem publicamente, se regozijaram. Começaram a salivar, acreditando que o desaparecimento físico do caudilho levaria a sua “Revolução Bolivariana” à breca.

Começaram a contar com os ovos dentro da galinha. Convenceram-se de que o momento havia chegado. Sem Chavez em cena, nenhum de seus escudeiros conseguiria manter o chavismo unido, por questão de gravidade, ou falta dela.

Nem Maduro, nem Cabello, muito menos o supostamente todo-poderoso presidente da PDVSA, Rafael Ramirez, eram vistos como “homens de Estado” no estilo de Hugo Chavez. Ao menos essa era a crença.

Mas, desde a morte de Chavez, houve uma série de eleições que não deixam lugar a dúvidas. O chavismo se consolidou em 2013 como a força política preferida da maioria dos venezuelanos.

Já não se trata de um líder que exalava carisma, atuando como o porta-aviões de uma plataforma política repleta de mediocridades e de personalidades cinzentas que não despertam nem mesmo um mau pensamento. Não. Estamos na presença de um movimento que, com ou sem um líder galáctico, derrota eleitoralmente qualquer um que a oposição decidir lançar à arena.

A oposição considerou que estava dando uma aula de democracia quando organizou eleições primárias para escolher o adversário de Chavez. Henrique Capriles venceu essa disputa, e basicamente é o único que a vence desde então.

Mas já foi derrotado três vezes, em curta sucessão, por Chavez e por Nicolas Maduro. Como líder da oposição, não conseguiu abalar em nada a popularidade do chavismo.

Por isso, é preciso reconhecer, sem rodeios, que este ano prestes a terminar foi o ano em que o chavismo nasceu como força política. O encantador de serpentes, o líder supremo, já não está mais por aí, e no entanto seus delfins demonstraram, no mínimo, que a oposição em qualquer das suas formas é minoritária.

Devido à singularidade da correlação de forças políticas e do poder real na Venezuela, essa nova realidade prenuncia um futuro bastante incerto para a Venezuela, mas não para o chavismo.

E, antes que se esgrima o argumento de oportunismo do Governo em matéria eleitoral, no que seria uma justificativa para as recorrentes derrotas eleitorais da oposição, é imperativo recordar que a oposição tem como pilar ideológico não questionar seriamente a forma pela qual se realizam os processos eleitorais na Venezuela, nem as autoridades que administram e organizam tais processos.

Portanto, se esses processos são bons para reivindicar vitórias, também devem sê-lo para reconhecer que o chavismo, com ou sem Chavez, é uma plataforma viável, e é a preferida pela maioria dos venezuelanos. Disso já não resta dúvida.

Todos contra o chavismo

9 de outubro de 2013
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Mamá e Dudu criaram a “Frente itaú-guarani-kaiowá-naturassocialista-pentecostal dos últimos dias”. Foto de Dida Sampaio/Estadão.

Via Jornalismo Wando

Como todos já devem saber, nossa guerreira itaú-guarani-kaiowá não conseguiu emplacar o sonho da terceira via, a Rede Sustentabilidade, o partido apartidário. Motivo? Um megacomplô arquitetado pelos cartórios governistas em conluio com o espírito imortal de Hugo Chavez.

Foi aí então que todos saíram à caça do apoio do Itaú e dos 16% de Marina nas pesquisas de Marina e seu projeto político diferenciado. O ecológico PEN se ofereceu todo, o conservador PTB flertou, o quase-tucano PPS implorou. Mas quem acabou conquistando o coração de Marina foram os olhos verdes de Eduardo Campos do PSB. Sim, o PSB, uma legenda que leva socialismo no nome, mas que é ligada ao agrobusiness, à família Bornhausen, ao Ronaldo Caiado, ao Heráclito Fortes e a toda uma turma do bem que vem fazendo a diferença na política nacional.

Definida a decisão do TSE, nossa guerreira passou a mão no telefone e ligou para Dudu:

Eduardo, você está preparado para ser presidente do Brasil? Eu vou ser sua vice e estou indo para o PSB”, contou Marina, relatando ainda que Campos ficou mudo, mas muito eufórico.

A euforia do socialista é compreensível se levarmos em conta o esforço que tem feito para se desvincular do governo – do qual fez parte por uma década – e criar uma candidatura capaz de impedir a reeleição de Dilma.

Além dos quase 20% de intenções de voto, Campos traz pro partido toda a força política e econômica incorporada por Marina na Rede, ou seja: o Itaú, a Natura, os artistas globais, os amantes da natureza, alguns tucanos, alguns psolistas, os ursinhos carinhosos e todos os usuários da tag #AcordaBrazil.

O cenário vai ficando cada vez mais complicado para o governo que contava com a fatura liquidada no 1º turno, como apontavam as pesquisas. Essa grande frente oposicionista, que batizei de “Frente itaú-guarani-kaiowá-naturassocialista-pentecostal dos últimos dias”, tem tudo pra levar a decisão pro 2º turno.

Apesar de não cumprir regras válidas para todos os partidos, Marina, fera ferida, caiu atirando e discursou como uma clandestina política, vítima da máquina governista:

“Nós [Rede] somos o primeiro partido clandestino criado em plena democracia. […] E o PSB é um partido sério. A minha briga, neste momento, não é para ser presidente da República, é contra o PT e o chavismo que se instalou no Brasil.”

Eduardo_Campos13_Lula_Chavez

Eduardo Campos instalando o chavismo no Brasil.
Foto de Ricardo Stuckert/PR.

O curioso é que, há uma semana, Zé Serra externou a mesmíssima preocupação:

“A minha prioridade é derrotar o PT, cuja prática e projeto já comprometem o presente e ameaçam o futuro do Brasil.”

Incrível como nossos oposicionistas estão afinados na reginaduartização do discurso, não? Mas o que mais me espanta em Marina é a forma corajosa com que afirma:

“A decisão foi de assumir posição, e a posição é programática não é pragmática.”

Marina combate o pragmatismo político levando a Rede pro colo do ex-governista PSB, um partido ligado ao agronegócio tão combatido pela turma da… Rede. Também combate o chavismo se aliando a um histórico parceiro político e econômico de… Chavez. Tá aí o Raul Jungman (PPS) que não me deixa mentir com esse tuíte de 2010:

Raul_Jungmann04_TwitterAo insistir que a aliança não é pragmática, Marina fez muitos se lembrarem de Wanderney, o antigo personagem do Casseta & Planeta que, ao ser flagrado na sauna gay, gritava: “Eu não sou gay! Eu não sou gay! Juro que não sou!”

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9 de outubro de 2013

Marina_ImpacienciaVia O Globo

Numa reunião que terminou às 4h30m da madrugada de sábado, dia 5, com muito choro, a ex-senadora Marina Silva comunicou a seus seguidores que seu sonho de ser presidente da República teria de ser adiado, e que seu projeto, agora, é acabar com a hegemonia e o “chavismo” do PT no governo. Acusada pelo deputado Alfredo Sirkis (PV/RJ) de ter um processo de decisão “caótico”, Marina chegou à reunião dizendo que tinha tomado uma decisão sem volta: seria candidata a vice na chapa presidencial do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e sua posição era inegociável. Na reunião, ela não ouviu, só falou. Mas depois houve uma choradeira geral. Marina então relatou sua conversa com Campos ao telefone:

“Eduardo, você está preparado para ser presidente do Brasil? Eu vou ser sua vice e estou indo para o PSB”, contou Marina, relatando ainda que Campos ficou mudo, mas muito eufórico.

Ela disse que ia ouvir a todos, mas que não voltaria atrás, porque estava sem alternativa. Todos ficaram contra, cada um com seus argumentos. Seu braço-direito da vida inteira, Pedro Ivo Batista, seu maior conselheiro, estava por fora do acordo.

“Eu fiz esse acerto com o Eduardo Campos porque chegou a um ponto que eu não tinha outra alternativa. E o PSB é um partido sério. A minha briga, neste momento, não é para ser presidente da República, é contra o PT e o chavismo que se instalou no Brasil”, disse Marina.

“Mas você sabe que se fizer isso vai ter de abrir mão do sonho de ser presidente”, ponderou Pedro Ivo.

“Esse sonho vai ficar para outro momento. Vou ser vice do Eduardo e acabar com essa hegemonia do PT na Presidência, disse Marina, mostrando ressentimento com o que considera que foi feito para barrar a criação do Rede.

Ela disse que a combinação é para que a coligação seja PSB/Rede, para que o Rede se incorpore tão logo seja criado. Marina reclamou muito de perseguição dentro do governo e do PT contra ela. Disse que seria muito pior se fosse para um nanico como o PEN ou PMN.

“Eu seria desossada com muito mais facilidade. Seria tratorada. Eu sei que tem mais de 2 mil pessoas pagas com dinheiro público para acabar comigo nas redes sociais, disse Marina.

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8 de outubro de 2013
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O povo pobre venezuelano na morte de seu líder.

Paulo Nogueira, via Diário do Centro do Mundo

Que Marina quis, exatamente, dizer com “chavismo”? Bem, coisa boa não foi. Chavez foi usado por ela mais ou menos como Zé Dirceu por Serra num debate com Haddad na disputa pela Prefeitura de São Paulo.

“Você é amigo do Dirceu, não é?”, perguntou Serra, uma, duas vezes. Ele parecia achar que o eleitor de São Paulo é um fundamentalista cujo Corão é a Veja. Deu no que deu a estratégia de Serra para derrubar Haddad à base de uma amizade.

Marina demonizar Hugo Chavez é algo que diminui não a ele, que já entrou na história como um homem que não se conformou em ver seu país ser tratado como quintal pelos Estados Unidos e mudou isso com coragem, abnegação, sacrifícios e colossal integridade. Diminui a ela, porque mostra – se não oportunismo baixo, como foi o caso de Serra – falta de compreensão histórica.

A Venezuela era boa, até Chavez, para uma minúscula elite que vivia em Miami. O petróleo venezuelano acabava fazendo coisas como asfaltar Nova Iorque e inflar a fortuna de uns poucos nativos – pouquíssimos, é mais apropriado.

Os chamados 99% – no caso venezuelano, 99,99% – eram desprezados e mantidos numa pobreza abjeta comparável à das periferias brasileiras.

Chavez acabou com isso.

Colocou os pobres no topo das prioridades quando chegou ao poder, pelas urnas. Os recursos do petróleo passaram a ser canalizados para os próprios venezuelanos, o que valeu a ele um ódio sem limites – e golpista – da parte dos Estados Unidos.

Chavez chegou a ser vítima de um golpe orquestrado pelos americanos e mais a plutocracia contrariada venezuelana, mas dois dias depois voltou ao poder por pressão popular.

Chavez pôs foco na educação e na saúde pública. Deu petróleo a Cuba, e em troca médicos cubanos não apenas foram atender venezuelanos pobres que jamais tinham visto um consultório como também passaram a lecionar em escolas de Medicina.

As urnas consagraram Chavez repetidas vezes. Foi tamanho o impacto de Chavez na Venezuela que Caprilles, o principal líder da oposição, assegurou que manteria os programas sociais chavistas caso vencesse as eleições presidenciais.

No ano passado, uma pesquisa sobre os países mais felizes do mundo colocou os venezuelanos no topo na América do Sul. Chavez elevou a autoestima de um povo que era invisível para seus governantes.

Um esplêndido documentário mostra o que foi o chavismo: “A revolução não será televisionada”. Recomendo vivamente que seja visto. Ele está no pé deste artigo.

As cenas de devoção e tristeza do povo pobre da Venezuela em sua morte foram extraordinariamente tocantes. Jornalistas de todo o mundo se perguntavam: onde se veria tal comoção na morte de um líder? Na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos?

Pausa para rir.

No Brasil, Chavez foi submetido a um linchamento criminoso e incessante por uma mídia que temia acima de tudo que Lula combatesse privilégios – a começar pelos dela, mídia – com a intensidade de Chavez.

O chavismo é um marco fundamental na nova atitude dos líderes sul-americanos diante da predação centenária dos Estados Unidos.

Se Marina não sabe disso, é ignorante. Se sabe, é uma oportunista que está em busca dos afagos da mídia como os políticos dos quais ela diz ser diferente. Fora dessas duas hipóteses, existe a possibilidade de que ela seja uma mistura de ambas as coisas.

Vitória apertada, mas vitória: Sobre a eleição de Nicolas Maduro na Venezuela

15 de abril de 2013

Venezuela_Nicolas_Maduro14Gilberto Maringoni, via Blog da Boitempo

UM
O resultado: 50,66% para Nicolas Maduro e 49,07% para Henrique Capriles. Em números absolutos, 7.505.338 contra 7.270.403 de votos, diferença de 234.935 sufrágios. Mínima, mas real.

Democracia é assim: quem tem mais votos leva, mesmo que seja 50% mais um. Numa ditadura, isso não é possível. Ditaduras prescindem do outro lado e da oposição. Maduro venceu apertado, mas venceu. Na ponta do lápis, a questão está resolvida: o chavismo continua sem Chavez.

Mas o resultado tem de ser examinado além das planilhas.

DOIS
O governo não estava preparado para essa diferença. Possivelmente Capriles – que cogitou não concorrer, logo após a morte de Chavez – também não.

Os chavistas avaliaram que dariam uma lavada na oposição, repetindo ou aumentando a diferença de 12% (56 a 44%) das eleições de outubro, quando Capriles enfrentou Chavez em sua última disputa.

Agora, o governo contava com o clima emocional disseminado no país, após a morte do Comandante, e os inegáveis avanços sociais de seu governo.

Pesavam contra a situação a persistência da inflação, da violência e a burocracia estatal a prejudicar o desenvolvimento dos serviços públicos. Não são problemas criados pelo chavismo, mas que continuaram nos últimos anos.

TRÊS
Havia certa tensão no ar nos jardins do Palácio de Miraflores na noite quente do domingo, dia 14, em Caracas. As ruas estavam desertas e praticamente não havia bares ou restaurantes abertos. Cerca de 2 mil pessoas aglomeraram-se à espera do resultado oficial do Conselho Nacional Eleitoral, que seria projetado em um telão.

Eram quase 23 horas quando o órgão anunciou a totalização.

O clima foi de espanto geral. A expectativa de um passeio não se concretizara. Cinco minutos depois, um locutor anuncia a presença de Maduro.

QUATRO
Maduro estava visivelmente na defensiva. Em 43 minutos, reafirmou várias marcas da campanha, denunciou planos desestabilizadores, exaltou Chavez, a Constituição e justificou o resultado eleitoral citando a vitória de George W. Bush em 2000. Lembrou que naquele processo – turvado por somas contraditórias em varias regiões da Flórida – a diferença fora também mínima. Chamou os presentes a cantar o hino nacional, voltou a denunciar a desestabilização, falou do socialismo, da democracia “protagônica”, alertou a oposição de que não deveria contestar a voz das urnas e tornou a falar de Chavez.

Não parecia haver roteiro prévio.

CINCO
Cotejando o resultado final com as pesquisas de dez dias atrás – as últimas que puderam ser divulgadas –, pode-se constatar que o candidato situacionista viu uma margem de até 12% de diferença apertar-se para 1%. Ou seja, Maduro estaria em queda e Capriles em ascensão. A derrota era um risco real para o governo, não considerada como hipótese séria em alguns de seus círculos.

SEIS
Henrique Capriles faz o que qualquer candidato em sua situação faria: esperneia. Pede recontagem dos votos e diz não reconhecer o resultado. Ficou por vários minutos na televisão, em coletiva com a equipe de campanha, a dizer que “o grande derrotado foi Maduro”, numa evidente forçação de barra.

Se Maduro não sair da defensiva, a argumentação de Capriles pode prosperar. A imprensa – venezuelana e internacional – aumentará o cerco, buscando deslegitimar o mandato do novo presidente. Não lhe dará folego algum.

SETE
As falas de Maduro na campanha – corretamente – se apoiaram no legado de Chavez e na história de seus mandatos, com especial destaque para o golpe de 2002. É importante, mas o presidente pouco comenta do futuro, dos planos, dos projetos. Tem seu farol apontado para trás, o que pode dificultar a criação de uma imagem própria para a população.

OITO
Em abril de 2002, três semanas após o golpe, vim pela primeira vez à Venezuela. No hotel em que me hospedei, perguntei a uma camareira como estava o país. Ela respondeu: “Quiseram quitar Chavez, pero no conseguiram. Chavez és nuestro y por iso no lo quierem”. A frase me espantou pela síntese. Os pobres queriam seu líder.

Corte. Onze anos depois, chego ao hotel onde estou hospedado na capital venezuelana. Pergunto ao rapaz que leva minha bagagem até o quarto em quem ele votaria. “Em Capriles, claro! Hay que cambiar”.

Entre os mais de 7 milhões de votantes em Capriles, a maioria seguramente é constituída por pobres.

Olhando as planilhas de outubro passado, uma conclusão inicial pode ser feita (lembrando que Chavez teve 8.191.132 votos e Capriles 6.591.304). Em seis meses, a oposição ganhou cerca de 680 mil votos, enquanto o governo perdeu ao redor de 700 mil. Pode ter havido uma migração de um lado para o outro.

Saber onde e por que isso aconteceu é vital para a continuidade e estabilização do governo Maduro.

NOVE
Os próximos dias e semanas serão um duro teste para o presidente Nicolas Maduro. Terá de enfrentar uma direita interessada em desestabilizá-lo e um cerco midiático avassalador. A situação obrigará também a uma reflexão e redefinição dos rumos e ritmos da ação governamental.

Por fim, há algo que não pode ser colocado em xeque. Maduro ganhou. Leva.

Democracia, como já dito, é assim.

Chavez fez a Venezuela deixar de ser um quintal dos EUA

7 de março de 2013

Hugo_Chavez18_Eleicoes

O país avançou extraordinariamente sob o governo do líder bolivariano.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

A América Latina foi infestada, a partir dos anos de 1950, por militares patrocinados pelos Estados Unidos. Eles transformaram a região num monumento abjeto da desigualdade social e impuseram com a força das armas sua tirania selvagem e covarde.

Pinochet foi o maior símbolo desses militares, aos quais os brasileiros não escaparam: Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo foram capítulos lastimáveis da história moderna nacional.

Hugo Chavez rompeu, espetacularmente, com a maldição dos homens de farda a serviço dos norte-americanos e de uma pequena elite predadora e gananciosa.

Paraquedista de formação, coronel na patente, Chavez escolheu o lado dos excluídos, dos miseráveis – e por isso fez história na sua Venezuela, na América Latina e no mundo contemporâneo.

Chavez foi filho do Caracaço – a espetacular revolta, em 1989, dos pobres venezuelanos diante da situação desesperadora a que foram levados na gestão do presidente Carlos Andrés Perez.

Carne de cachorro passou a ser consumida em larga escala por famintos que decidiram dar um basta à iniquidade. A revolta foi esmagada pelo exército venezuelano e as mortes, segundo alguns, chegaram a 3 mil.

Uma ala mais progressista das forças armadas ficou consternada com a forma como venezuelanos pobres foram reprimidos e assassinados. Hugo Chavez, aos 34 anos, pertencia a essa ala.

Algum tempo depois, ele liderou uma conspiração militar que tentou derrubar uma classe política desmoralizada, inepta e cuja obra foi um país simplesmente vergonhoso.

O levante fracassou. Antes de ser preso, Chavez assumiu toda a responsabilidade pela trama e instou a seus liderados que depusessem as armas para evitar que sangue venezuelano fosse vertido copiosamente.

Chavez aprendeu ali que o caminho mais reto para mudar as coisas na Venezuela era não o das armas, mas o das urnas.

Carismático e popular, Chavez se elegeu presidente em 1998. Pela primeira vez na história recente da Venezuela, um presidente não dobrava a espinha para os Estados Unidos.

Isso custou a Chavez a perseguição obstinada de Washington. Mas entre os venezuelanos pobres – a esmagadora maioria da população – ele virou um quase santo.

Chavez comandou projetos sociais – as missiones – que retiraram da miséria milhões de excluídos. Alfabetizou-os, ofereceu-lhes cuidados médicos por conta de médicos cubanos – e acima de tudo lhes deu autoestima. Os desvalidos tinham enfim um presidente que se interessava por eles.

O tamanho da popularidade de Chavez pode se medir num fato extraordinário: um grupo bancado pelos Estados Unidos tentou derrubá-lo em 2002. Mas em dois dias ele estava de volta ao poder, pela pressão sobretudo, dos mesmos venezuelanos humildes que tinham protagonizado o Caracaço.

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Venezuelanos choram a morte de Chavez.

Quanto ele mudou a Venezuela se percebe pelo fato de que, nas eleições presidenciais de outubro passado, a oposição colocou em seu programa os projetos sociais chavistas que, antes, eram combatidos e ridicularizados.

Chavez teve tempo de pedir aos venezuelanos que apoiassem Nicolas Maduro, seu auxiliar e amigo mais próximo. Maduro provavelmente se baterá, em breve, com Henrique Caprilles, principal nome da oposição. As pesquisas indicam, inicialmente, vantagem clara para Maduro.

Se o chavismo sobrevive sem Chavez é uma incógnita. O que parece certo é que a Venezuela, pós-Chavez, jamais voltará a ser o que foi antes dele: um quintal dos Estados Unidos administrado por uma minúscula elite que jamais enxergou os pobres.


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