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O jornalista que expôs a corrupção da CBF

2 de maio de 2013
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Andrew Jennings, jornalista britânico, combate a corrupção na Fifa.

O repórter que acabou com a roubalheira de Havelange e Teixeira não é brasileiro, e isso conta muito sobre a mídia nacional.

Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo

Andrew Jennings, jornalista britânico, combate o bom combate quando o assunto é corrupção. Recentemente, num artigo sobre transparência no esporte, Jennings citou uma grande frase do barão da mídia Lorde Northcliff: “Notícia é tudo aquilo que alguém não quer que seja publicado. O resto é publicidade.”

Cabelos brancos, lépido ainda aos 68 anos, escocês desde cedo instalado em Londres, Andrew Jennings é o maior jornalista investigativo do mundo na área do futebol.

São fruto do trabalho persistente, obstinado, brilhante de Jennings as denúncias que você leu sobre as milionárias propinas recebidas por Ricardo Teixeira e João Havelange ao longo de muitos anos pelas mãos de uma falecida empresa de marketing esportivo chamada ISL.

Na terça-feira, 30/4, João Havelange foi notícia ao renunciar a seu cargo de presidente de honra da Fifa porque a Fifa, essencialmente, reconheceu todas as denúncias de Jennings. Elas estão contidas num documentário de 30 minutos passado, no final de 2010, na BBC. É uma lição de jornalismo, além de uma peça formidável na luta contra a corrupção no futebol.

Vale a pena interromper a leitura para ver esta lição de jornalismo.

Jennings simplesmente irrompe com suas perguntas francas, desconcertantes, certeiras. Seu jeito clássico de agir é ficar à espreita de algum personagem do mundo sujo da Fifa e aparecer subitamente diante dele com suas questões diretas, feitas num tom suave, elegante e direto.

Uma vez, Jennings esperou num aeroporto a chegada de Jack Warner, então vice-presidente da Fifa, envolvido em múltiplos casos de corrupção. Warner está andando em direção ao carro quando Jennings o aborda. Um cinegrafista está filmando.

“Se eu pudesse cuspir em você, eu cuspiria”, diz Warner.

“Por quê?”

“Porque você é um lixo.”

Antes que Warner entrasse no carrão que o aguardava, Jennings faz mais uma pergunta sobre propinas.

“Pergunte a sua mãe”, diz Warner.

“Bem, eu até que gostaria, mas minha mãe está morta”, responde, com bom humor e sempre no mesmo tom de voz, Jennings.

Jack Warner acabaria, pouco depois afastado da Fifa, sob o peso das denúncias de Jennings. “Renunciou voluntariamente”, segundo a Fifa.

Você vê Jennings em ação, compara com o que vê na mídia brasileira e sente vontade de chorar. Por que nenhuma grande empresa jornalística no Brasil levou aos brasileiros o mundo abjeto, corrupto, cínico da CBF de Ricardo Teixeira e João Havelange?

Nos dois anos passados desde o magnífico trabalho de Jennings na BBC, nada se fez no Brasil. Entendo que a Globo não faria nada, dada sua ligação suja com a CBF, com Havelange e com Ricardo Teixeira.

Mas e Folha, por exemplo, o que fez para investigar?

A Globo aparece, nominalmente, na papelada jurídica relativa a pagamentos à ISL. Era a partir da ISL que o dinheiro acabava indo parar na conta de Havelange e Teixeira.

Circula na internet uma fala de Merval Pereira sobre a saída de Ricardo Teixeira da CBF. Nela, Merval – exemplo de homem público, segundo Ayres Brito, hahaha – lamenta o ocorrido com Ricardo Teixeira.

Em conversas com amigos – leia-se ele mesmo, Merval – Teixeira, ficamos sabendo por Merval, está atormentado e se sente injustiçado.

Disse Merval:

“Teixeira se revelou a amigos angustiado mesmo foi com o fim de seus sonhos. A realização da Copa do Mundo no Brasil era o sonho de Ricardo Teixeira para chegar à Presidência da Fifa, o reconhecimento público de seu trabalho era uma ambição que alimentava.

Achava que, finalmente, iriam dar valor ao que fizera nesses 23 anos à frente da CBF.

Na nota de renúncia, ele abordou o tema dizendo que suas vitórias foram subvalorizadas e os erros superdimensionados.

Não tinha mais interlocução com a presidente Dilma Rousseff e nem com o presidente da Fifa Joseph Blatter. E via a cada dia os trabalhos para a realização da Copa mais e mais atrasados.

Temia que a culpa final recaísse sobre ele, tinha medo de se transformar no bode expiatório dos dois lados, governo e Fifa.”

A culpa, vemos em Merval, era do atraso das obras. E pobre Ricardo Teixeira, hoje com vida nababesca em Miami, frustrado em seus sonhos. O jornalismo só sobrevive porque a cada Merval existe um Jennings, e porque a cada Globo existe uma BBC.

Num desdobramento que é revelador da justiça brasileira, Jennings foi condenado a pagar uma indenização por “danos morais” que Ricardo Teixeira moveu contra ele. Isso depois que o programa da BBC fora ao ar com provas torrenciais.

O alvo principal de Jennings não é nem Havelange e nem Ricardo Teixeira, assim como não era Warner. É Sepp Blatter, o suíço que substituiu Havelange no comando da Fifa.

Neste caso, há ainda um caminho a percorrer. Blatter tenta se apresentar como um “reformador de costumes” na Fifa, um agente anticorrupção.

Mas quem acredita nisso, para usar as palavras imortais de Wellington, acredita em tudo.

No auge de torturas e prisões, Marin louva Fleury

21 de março de 2013

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Em registro recuperado pelo 247, de 1976, o então deputado estadual da Arena e hoje presidente da CBF elogia o “delegado de polícia Sérgio Fleury”, conhecido por liderar caçadas políticas e torturar pessoalmente opositores do regime militar. “Queremos, nesta oportunidade, prestar nossos melhores cumprimentos a um homem que, de há muito, vem prestando relevantes serviços à coletividade, embora nem sempre tenha sido feita justiça a seu trabalho”, iniciou José Maria Marin. O jornalista Vladimir Herzog fora morto no Doi-Codi paulistano um ano antes.

Via Brasil 247

Na semana passada, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin, usou o site da entidade para responder a acusações de que teria contribuído para a morte do jornalista Vladimir Herzog, durante a ditadura militar. A simpatia pelo delegado Sérgio Fleury, contudo, Marin não pode mais negar. Em registro recuperado pelo 247, o então deputado estadual por São Paulo cumprimenta “um homem que, de há muito, vem prestando relevantes serviços à coletividade, embora nem sempre tenha sido feita justiça a seu trabalho”.

Marin segue seus elogios ao homem que coordenava torturas durante o regime militar: “Dizemos isto depois de verificar, mais uma vez, seu trabalho na solução de um crime que abalou não só o Estado de Mato Grosso, mas, temos certeza absoluta, todo o Brasil. E nós, que conhecemos de perto sua personalidade, não só como exemplar chefe de família, como homem cumpridor de seus deveres e, acima de tudo, com uma vocação das mais raras, das mais elogiáveis, que é o cumprimento de seu dever como polícia, nos sentimos na obrigação, neste momento em que todo o país toma conhecimento da solução desse crime que abalou todo o Brasil, de fazer aqui a devida justiça ao delegado Sérgio Fleury e à sua valorosa equipe”.

Leia o discurso na íntegra:

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Futebol e ditadura: Filho de Vladimir Herzog cria petição online para tirar Marin da CBF

28 de fevereiro de 2013
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Petição online espera recolher 100 mil assinaturas para pressionar Marin a deixar o comando da CBF. Foto: José Cruz/ABr

Gabriel Bonis, via CartaCapital

Cresce na internet um novo movimento anti-José Maria Marin, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Desde o início da semana, mais de 6 mil internautas assinaram uma petição online para tentar remover o dirigente do cargo (acesse aqui), em um protesto criado por Ivo Herzog, filho do jornalista Vladimir Herzog, morto por agentes da ditadura. Durante a repressão, o ex-governador biônico de São Paulo integrou o Arena (partido criado pelos militares) e mostrou simpatia por figuras como Sérgio Fleury, torturador de dissidentes do regime.

A petição, que visa recolher 100 mil assinaturas, repercutiu de forma rápida. “Fiquei impressionado”, conta Ivo a CartaCapital. O presidente do Instituto Vladimir Herzog diz saber que a ação pode não ter a influência pretendida por ser direcionada a uma entidade privada. “Não podemos interferir, mas vai ficar cada vez mais pública essa indignação das pessoas em ter o Marin como o anfitrião do Mundial. Temos que registrar o nosso protesto e criar situações de incômodo para que ele saia ou ao menos deixe o Comitê Organizador da Copa”.

Segundo Ivo, a decisão de lançar o movimento ocorreu após ver o blog do jornalista Juca Kfouri ser acionado na Justiça para explicar a reprodução de uma “convocação” para um escracho a Marin, organizado pela Articulação Estadual pela Memória, Verdade e Justiça, e um texto sobre um discurso do dirigente contra a TV Cultura. A emissora era acusada por ele de ter “comunistas” infiltrados. Um deles seria o então editor-chefe de jornalismo, Vladimir Herzog.

As críticas à estatal paulista, e também os elogios a Fleury, ficaram registrados no Diário Oficial do Estado (Leia aqui e aqui). Em 9 de outubro de 1975, na Assembleia Legislativa, o então deputado estadual José Maria Marin pediu “providências” contra a emissora. “É preciso mais do que nunca uma providência, a fim de que a tranquilidade volte a reinar não só nesta Casa [TV Cultura], mas principalmente nos lares paulistanos”, disse Marin. Duas semanas depois, Herzog foi assassinado no DOI-Codi e teve o suicídio forjado pelo regime.

A petição enfatiza os laços de Marin com a ditadura e destaca que seus discursos apoiaram “movimentos que levaram a tortura, morte e desaparecimento de centenas de brasileiros. O caso mais notório é do jornalista Vladimir Herzog”. “Não podemos permitir que Marin viva a glória de estar à frente do maior evento mundial da nossa história”, diz o texto.

Para Ivo, o dirigente representa “o mais grave do sentido da impunidade”. Sua presença no comando da Copa do Mundo, acredita, vai reforçar para “a percepção de que o Brasil é um país da impunidade e que muitas vezes ela é recompensada da pior forma possível”.

CartaCapital contatou Marin por meio de sua assessoria de imprensa, mas não recebeu resposta.

Jornalista que investigou Ricardo Teixeira é condenado sem conhecer acusação

16 de fevereiro de 2013

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Via CartaCapital

Levantamento publicado pelo Jornal do Brasil mostra que o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira conseguiu na Justiça o arquivamento de todos os inquéritos nos quais era acusado de crimes como lavagem de dinheiro e recebimento de propina. As ações corriam no Tribunal Regional Federal da 2ª Região.

A única condenação, de acordo com a reportagem, ocorreu na Justiça estadual do Rio. A decisão, no entanto, é favorável a Ricardo Teixeira, que foi chamado de “corrupto” pelo jornalista inglês Andrew Jennings (foto), da BBC, e conseguiu R$10 mil por danos morais. A declaração do jornalista, que levantou as primeiras suspeitas sobre o cartola – como a de que teria recebido R$15 milhões de propina da agência de marketing esportivo ISL – foi feita ao blog do deputado federal Romário (PSB/RJ). Jennings foi condenado à revelia e, em entrevista ao Jornal do Brasil, classificou a decisão como “absurda”.

“Não faz o menor sentido, eu nem sabia que tinha esta acusação formal contra mim”, disse.

A decisão do juiz Augusto Alves Moreira Júnior, da 3ª Vara Cível do fórum regional da Barra da Tijuca, foi publicada em 22 de novembro do ano passado e só veio à tona após a reportagem. Cabe recurso.

Na decisão, o magistrado escreveu que “os danos morais restaram caracterizados porque os fatos imputados pelo réu ao autor abalaram sua honra bem como sua imagem perante a sociedade”. Ele considerou que a culpa do jornalista ficou caracterizada em razão de sua ausência no julgamento.

“Isso tudo é um absurdo. O Teixeira é um cara que fugiu do Brasil, ele é notoriamente corrupto, renunciou todos os cargos e assumiu que participou do esquema de corrupção. Como posso ter prejudicado a imagem de uma pessoa assim? Como eu posso ter ofendido o caráter dele? Ele é corrupto, já estava com a imagem suja”, disse Jennings ao JB.

Globo não revela seus codinomes no relatório da propina a Ricardo Teixeira

14 de julho de 2012

Helena Sthephanowitz, via Rede Brasil Atual

Quando o Tribunal Federal da Suíça autorizou a divulgação da documentação do caso ISL/Fifa, onde aparecem as propinas pagas a Ricardo Teixeira e João Havelange, exigiu que todos os nomes dos não acusados fossem trocados por códigos. Assim, o documento divulgado pela promotoria usa codinomes para empresas e pessoas que aparecem apenas citadas, mas não foram acusadas no processo.

O presidente da Fifa, Joseph Blatter, concedeu entrevista e disse que o “P1” era ele, e não via necessidade nenhuma de ver seu nome e de outros trocados por códigos, até porque não era acusado e qualquer um deduz que P1 era ele, pelo contexto em que é citado, como presidente da Fifa e sucessor de Havelange.

A Globo e a Globosat são citadas como “Company 2” e “Company 3”, o que também é fácil de deduzir pelo contexto, citadas como detentoras dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002 e 2006 para o Brasil.

No entanto, a TV Globo se sentiu envergonhada e fugiu de se identificar quando deu a notícia em seus noticiários.

Na versão dos telejornais da emissora, Ricardo Teixeira e João Havelange apenas receberam “comissões” do grupo ISL, e responderam por gestão fraudulenta. Esconderam do telespectador o motivo da propina: a venda dos direitos de transmissão dos jogos da Copa do Mundo de 2002 e 2006 para tevês. E no Brasil todo mundo sabe que a compradora foi a Globo para a TV aberta, e a Globosat para TV por assinatura.

Ora, se a Globo não é acusada, pois oficialmente apenas pagou à ISL, e foi esta quem pagou a propina a Teixeira e Havelange, a emissora deveria noticiar de forma indignada, pois teria sido vítima ao comprar os direitos de transmissão com a propina embutida no preço. Se preferiu esconder essa parte da notícia do telespectador, é porque talvez não se sinta exatamente como vítima, e talvez Teixeira e Havelange, se atacados, pudessem vir a revelar segredos que trouxessem embaraços à emissora.

Outro trecho do relatório do promotor suíço, ajuda a entender o motivo para a Globo preferir se manter oculta na notícia, pois diz que Ricardo Teixeira, como presidente da CBF, exercia influência no contrato de licenciamento para o Brasil.

A Fifa publicou a íntegra do documento em seu site. Até o momento em que esta nota foi escrita, foi possível constatar se o link para o documento foi divulgado nos portais da Globo, com as devidas identificações.


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