Posts Tagged ‘Carlos Motta’

São Paulo: Um freio na PM

13 de janeiro de 2013
Agora, somente a equipe do Samu poderá atender os acidentados nas ruas.

Agora, somente a equipe do Samu poderá atender os acidentados nas ruas.

Carlos Motta em seu blog

A Polícia Militar paulista não se conforma com a norma baixada pelo governo do Estado que a proíbe de prestar atendimento a vítimas graves. Com essa resolução fica mais difícil para os PMs mexerem na chamada “cena do crime”, prática que era muito comum e que visava isentá-los de qualquer complicação posterior à ocorrência.

O que os jornais cansaram de noticiar era que, depois de trocar tiros com a polícia, o meliante, ferido, era “socorrido” pelos PMs e, infelizmente, chegava sem vida ao hospital.

O que se sabe é que, sob o pretexto de “socorrer” as vítimas, os PMs acabavam por executá-la. A ocorrência era registrada nas delegacias como “resistência seguida de morte”.

Agora, atendendo a pedido da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, a Polícia Civil de São Paulo não vai mais registrar ocorrências de homicídios cometidos por policiais como “resistência seguida de morte”.

Assim, casos em que pessoas são mortas após supostos conflitos com a força pública de segurança deverão ser registrados como “morte decorrente de intervenção policial”. A recomendação da SDH foi feita no início de dezembro como forma de evitar a manipulação dos registros policiais.

O esperneio da PM, portanto, tem seus motivos: as novas resoluções permitem que as ocorrências com feridos ou mortos sejam devidamente investigadas. Antes, bastava apenas a palavra dos policiais para dar o caso por encerrado, já que a vítima do confronto havia morrido “a caminho do hospital”.

A segurança pública tem sido o calcanhar de aquiles do governo de Geraldo “Picolé de Chuchu” Alckmin, que, recentemente, trocou toda a cúpula do setor.

Essas medidas são, claramente, para mostrar à tropa que existe um comando externo. Podem não ser suficientes para mudar a mentalidade dos policiais militares paulistas, que ainda vivem como se estivessem na ditadura, mas servem como um recado para que mudem seu modo de agir, incompatível com o atual estágio da democracia brasileira.

Quem sabe agora a PM refreie, um pouco que seja, a fúria de seus cães de caça.

São Paulo ou filme de faroeste

5 de novembro de 2012

Crônicas de Carlos Motta

Os jornalões, como por um passe de mágica, finalmente descobriram que em São Paulo se trava uma guerra aberta entre polícia e bandidos, no mais acabado estilo dos filmes de faroeste.

A situação está assim faz tempo, mas, como nos encontrávamos em tempo de eleição, não era de bom-tom dar destaque a coisas que poderiam deslustrar as qualidades do candidato situacionista, apoiado, pelo menos formalmente, pelo governador, e ele mesmo ex-governador do Estado mais rico da federação – que, vergonhosamente, não consegue prover as mínimas necessidades da população.

Além dos jornalões, também quem mora em bairros de classe média, como eu, está vendo agora que a polícia anda nervosa, ou pelo menos saiu às ruas, não sei se em missão preventiva ou apenas para mostrar às pessoas que ela está trabalhando. O fato é que as viaturas estiveram rodando pela vizinhança, ostensivamente, algo que as periferias da cidade devem estar cansadas de assistir.

Não sei se isso é bom ou ruim. Eu, por mim, quero distância dessa polícia que atira antes de perguntar, que mata como se isso fosse a coisa mais natural do mundo, que passa por cima dos mais elementares direitos dos cidadãos e descumpre as leis mais triviais porque tem certeza da impunidade.

Outro dia, uma parente minha que estava com amigos e parentes passeando de carro numa cidade do interior foi abordada pelos brutamontes da fatídica Rota, de armas em punho, como se estivessem perseguindo perigosos marginais. Segundo ela, a tragédia não se consumou por pouco.

Acho muito triste estes tempos em que nós, pessoas comuns, temos tanto de temer a ação dos bandidos quanto a da polícia.

Numa sociedade menos doente que a nossa, avistar uma farda deveria dar ao cidadão um sentimento de alívio, de segurança, não de temor ou medo.

Li na semana passada que o comandante da PM de São Paulo acha desnecessária que tropas do Exército, como aconteceu no Rio, ajudem nessa guerra contra a bandidagem. De acordo com ele, a Polícia Militar paulista tem cerca de 100 mil homens e a Polícia Civil, mais uns 30 mil, o que, na sua opinião, é mais do que suficiente para vencer os criminosos.

Se formos considerar apenas os números, é verdade. O efetivo da tropa é maior que o de muitos exércitos do mundo. O problema, porém, é outro: a polícia paulista tem muito músculo e pouco cérebro, e dessa forma, atua da pior maneira possível contra o crime organizado.

Quem acompanha, pelo menos superficialmente, o noticiário policial, fica com a impressão de que os “efeitos colaterais” na população dessa forma ostensivamente violenta de agir são muitos maiores que os danos inflingidos aos criminosos.

Isso sem contar que, pelo próprio noticiário dos jornalões, a polícia paulista está irremediavelmente contaminada pela bandidagem, que, ou simplesmente age dentro da própria instituição, vestindo a sua farda, ou então a coopta, pagando pesadas propinas, para poder desenvolver seus “negócios” mais tranquilamente.

A situação da segurança pública paulista está ruim demais e parece não haver expectativa de que vá melhorar.

Como bem disse o poeta Chico Buarque num de seus belos sambas:

Acorda amor

Que o bicho é brabo e não sossega

Se você corre o bicho pega

Se fica não sei não

Atenção

Não demora

Dia desses chega a sua hora

Não discuta à toa não reclame

Clame, chame lá, chame, chame

Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão

(Não esqueça a escova, o sabonete e o violão)

A lógica peculiar de Serra

26 de agosto de 2012

Carlos Motta em seu blog de crônica

É muito estranha a situação de José Serra nesta campanha eleitoral. Com a rejeição batendo, segundo Ibope e Datafolha, na casa dos 40%, ele vive o dilema de, se aparecer muito na propaganda de rádio e TV, aumentar ainda mais a antipatia dos eleitores por ele. Talvez por isso seus marqueteiros tenham preferido trocá-lo por bonecos em algumas peças.

São estranhas também as justificativas de Serra para algumas coisas. Sobre o Metrô superlotado, por exemplo, ele disse que isso é consequência de seu bom funcionamento.

Sobre ter abandonado a Prefeitura de São Paulo para concorrer ao governo do Estado, depois de, na campanha, ter jurado que iria cumprir o mandato até o fim, afirmou que o povo aprovou a sua atitude, tanto que o elegeu governador.

Sobre a sua altíssima rejeição, ele disse que ela significa que mais de 60% dos eleitores o aprovam.

Como se vê, a lógica corriqueira, o raciocínio normal, passam longe de José Serra.

Como se vê, ele é um tipo raro. Daqueles que são capazes de, contrariando os fatos, seguir adiante em busca de determinado objetivo. Mesmo que, neste caso, ele signifique seu suicídio político e um golpe profundo na agremiação que o abriga.

Porque está mais que evidente que, como diz o populacho, a vaca foi para o brejo, o caldo entornou, deu zebra, danou-se, ou, resumindo com o mais baixo calão, extremamente explicativo de sua situação, fodeu.

O negócio está tão feio para Serra que nem para o céu ele pode mais pedir ajuda: esse departamento, tão importante em campanhas eleitorais, rendeu-se, tudo indica, ao charme explícito de seus mais forte adversário, Russomano, o especialista em consumo.

Pensando bem, não poderia ser de outro jeito: hoje em dia a fé não é vendida em qualquer esquina, como um objeto qualquer?

A piada do Gurgel

5 de agosto de 2012

Carlos Motta em seu blog de crônicas

E então, eis que meus olhos cansados se deparam com o seguinte parágrafo em uma notícia da Agência Brasil:

“Gurgel concordou que há provas pouco robustas contra quem chamou de ‘principal figura de tudo que apuramos’ e ‘o grande protagonista’ do “mensalão”, mas atribuiu o fato ao papel de liderança que Dirceu exercia. ‘Como quase sempre ocorre com chefes de quadrilha, o acusado não aparece nos atos de execução do esquema’, justificou.”

Só para esclarecer: Gurgel é o procurador-geral da República, Roberto Gurgel; Dirceu é José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula.

Posto isso, o distinto público há de reparar que existe uma certa semelhança física entre o nosso Gurgel e o apresentador de televisão Jô Soares, que já foi, muito tempo atrás, um celebrado comediante.

Está certo, também, que o julgamento do tal “mensalão” pelo Supremo Tribunal Federal está mais para um show televisivo do que para uma sessão tradicional da mais alta corte judiciária do país.

Nem por isso, creio, nosso distinto Gurgel deveria, como se diz, “entrar no clima”, e tentar transformar algo que se supõe sério numa pantomina descarada.

Uma coisa é parecer com Jô Soares; outra, bem diversa, é agir como ele.

Pois não há como não encarar como uma piada o seu argumento de que ele, procurador-geral, acusador-mór, não conseguiu reunir provas robustas contra quem denomina “principal figura de tudo que apuramos” e “grande protagonista” do tal “mensalão” pelo simples fato de que tal personagem é o “chefe da quadrilha”.

Se uma lógica dessas, fico pensando, fosse aplicada pelos tantos procuradores que existem por aí, as prisões estariam vazias.

Afinal, como na piada de Gurgel, seria impossível reunir provas contra os chefões dos crimes porque eles não gostam de se expor publicamente, preferem o anonimato, não vivem dando entrevistas sobre as suas atividades, não andam por aí distribuindo cartões de visita com seus nomes e funções no bando destacados em letras gravadas a ouro.

Pela lógica do nosso Gurgel, só é possível reunir provas contra os chefões do crime se eles não forem os chefões.

É de morrer de rir.

“Mensalão” deu traço de audiência

4 de agosto de 2012

Carlos Motta em seu blog de crônicas

Fazia tempo que eu não via tanta gente reunida para ver televisão. Foi no lugar onde trabalho, ontem [2/8] à tarde. As pessoas levantavam de suas cadeiras, e iam, apressadas para a frente de um dos dois pequenos aparelhos colocados displicentemente sobre mesas. Escondiam o nervosismo fazendo piadas, rindo, até que, em certo momento, depois de vários “vai, vai, vai” de incentivo, se dispersaram e voltaram ao trabalho, decepcionadas.

Não, não foi o início do julgamento do tal “mensalão” pelo Supremo Tribunal Federal, acontecimento mais noticiado em toda a história recente do País, que levou o pessoal em frente à pequena e velha TV de 14 polegadas, mas sim a prova de 200 metros medley dos Jogos Olímpicos de Londres, na qual o brasileiro Thiago Pereira concorria, com boas chances de beliscar uma medalha. Se na piscina seu desempenho não foi satisfatório – ele ficou em quarto lugar –, pelo menos lá onde eu passo meus dias na labuta, durante intermináveis segundos ele foi imbatível, soberano, único.

Na televisãozinha ao lado daquela onde Thiago frustrou nossa ambição por medalhas olímpicas, os ministros do Supremo davam seu show tão aguardado por uma certa parcela da sociedade brasileira, discutiam picuinhas naquela língua inacessível aos pobres mortais, se tratavam por “excelência”, tentavam, com todo o esforço, brilhar para as câmeras e se tornar astros de um episódio que passará para a história menos por sua importância ética, moral ou jurídica, mas muito mais por mostrar que a hipocrisia é um dos componentes mais fortes da personalidade humana.

Não creio que o lugar onde trabalho seja o mais representativo do universo brasileiro. Há poucos pobres e negros ali, há muitos brancos de classe média, quase todos de nível universitário. Apesar disso, 99,9% deles ignoraram o show do tal “mensalão”. Na verdade, só o assistiu quem, por absoluta necessidade, precisava saber o que ocorria naquele mundo paralelo do Supremo Tribunal Federal.

Para quem não sabe, sou jornalista, passo meus dias numa redação. Por isso, porque meu olhar poderia estar contaminado pelo comportamento de uma parcela insignificante da sociedade, sou obrigado a recorrer ao depoimento de quem esteve nas ruas ontem à tarde e pôde observar a reação das pessoas ao início do retumbante espetáculo do tal “mensalão”, há tantos anos aguardado e tão anunciado nesses últimos dias.

Vamos ler, então, um trecho da reportagem do Valor Econômico, de Vandson Lima, que saiu para ver se a metrópole havia parado na quinta-feira, dia 2, à tarde:

Na fachada das lojas populares de eletrodomésticos do centro de São Paulo, grandes televisores, cuja compra pode ser parcelada em até 24 vezes, dividiam-se na programação do dia. A animação Monstros S.A. e a transmissão dos Jogos Olímpicos em Londres ocupavam com grande vantagem as telas, com exceções dedicadas a programas de culinária e uma apresentação da banda norte-americana Bon Jovi. Nenhuma mostrava o primeiro dia do histórico julgamento da Ação Penal nº 470, vulgo “mensalão”.

Seguindo pelo Vale do Anhangabaú, palco de manifestações que reuniram milhões na reivindicação por eleições presidenciais diretas e pelo impeachment do ex-presidente Fernando Collor, nenhum sinal, cartaz ou manifestação sinalizava que se iniciara o julgamento da década. Na lanchonete anexa ao Centro Acadêmico “11 de Agosto”, representação estudantil da Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP), um telão exibia a derrota da seleção brasileira de vôlei para os Estados Unidos por 3 sets a 1. Mas os futuros bacharéis se mantinham ligados via internet no embate que corria no Supremo. Quatro dos atuais ministros passaram pela instituição. […]

No Twitter, o termo #mensalao foi bastante utilizado por repórteres e sites noticiosos. Ao fim do dia, entretanto, sequer aparecia entre os tópicos mais citados.

Nas tevês instaladas no Metrô, as notícias eram sobre a primeira rodada da Copa Sul-Americana de Futebol, na qual Palmeiras e São Paulo venceram seu jogos. Mas ganhou a atenção dos passageiros a pesquisa que apontou que 7% dos brasileiros acima dos 18 anos já experimentou maconha. Em 15 minutos de trajeto, nenhuma notícia de “mensalão”. A Olimpíada também dominou os televisores nas lanchonetes das faculdades Politécnica, de Economia e Administração, na Escola de Comunicação e Artes e na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Na mesma edição do jornal, outra notícia, de Sergio Ruck Bueno, atestava o fracasso dessa hercúlea tentativa da oposição de defenestrar do Palácio do Planalto o PT e aliados:

Apesar da ampla divulgação que o caso já ganhou e continuará recebendo nos meios de comunicação, o julgamento do “mensalão” terá pouca influência no desempenho do PT na eleição municipal deste ano. Com a possível exceção de São Paulo, onde o partido pode sofrer maiores prejuízos por conta do antipetismo local mais forte e da polarização com o PSDB, os eleitores votarão com pragmatismo, mais interessados na preservação das condições econômicas pessoais e menos preocupados com questões éticas. A avaliação é da professora de ciência política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Helcimara de Souza Telles, e da diretora-presidente do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari Nunes.

Para Márcia, o grande estrago que o “mensalão” poderia causar para o PT já aconteceu em 2005, logo depois do estouro do escândalo. “Naquele momento ele [o PT] perdeu o diferencial de ética que tinha em relação aos outros partidos e se igualou aos demais. Hoje estão todos no mesmo barco”, entende. “Se [na eleição de 2012] tiver algum efeito, será em São Paulo, e só.”

Além disso, o próprio eleitor é “cúmplice”da corrupção quando, por exemplo, compra produtos piratas ou tenta subornar agentes de trânsito para não ser multado. Some-se isto ao nivelamento por baixo da imagem dos partidos em questão de moralidade e o discurso ético já “não cola” tanto, acredita a pesquisadora…

“O ‘mensalão’ vai resvalar como discurso de campanha apenas em algumas capitais, mas não terá efeito em todas justamente por causa do cinismo e do consumismo das pessoas” diz Helcimara. “Como diz um aluno meu, são eleitores que preferem o ‘voto geladeira’: votam naquele que dá condições de pagar o carnê da geladeira.” Ela também vê uma possível exceção em São Paulo, por conta da predisposição antipetista mais forte na cidade.

Bem, é isso, acho que já falamos demais de um programa de televisão que deu traço de audiência, que faz companhia a tantas outras produções tão pretensiosas quanto impopulares que ninguém sabe por que existem.

Como deu para perceber, o povo gosta de se distrair vendo outras coisas. Ficção por ficção, novela por novela, ele prefere atores profissionais, mesmo os mais canastrões, os mais mequetrefes.


%d blogueiros gostam disto: