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Mino Carta: Uma capa resume tudo

29 de setembro de 2013

Veja_Capa_180913Veja não surpreende. Espanta quem acredita nela entre privilegiados e aspirantes ao privilégio

Mino Carta, via CartaCapital

Legenda: “Estarrece que larga porção da sociedade acredite nas interpretações de Veja e repita seus pareceres mirabolantes”

Berlusconi é o político mais bem-sucedido da Itália dos últimos 20 anos. Como se sabe, foi um desastre, e não espanta que tenha sido, com o condão de pagar agora pelas mazelas cometidas. Espanta, isto sim, que metade dos italianos tenha votado nele. Passo a falar de Brasil. A capa de Veja desta semana é o símbolo irretocável de um singular humor em que se misturam má-fé e estupidez. A revista da Abril mesmo assim não nos surpreende, já sabemos do que é capaz de longa data. Estarrece que larga porção da sociedade nativa, privilegiados e aspirantes ao privilégio, acredite nas interpretações de Veja e repita passagens dos seus pareceres mirabolantes.

O espetáculo midiático proporcionado na cobertura do chamado “mensalão” é, em geral, estarrecedor ao revelar em toda a sua evidência o atraso intelectual e cultural dos tais cidadãos a que me referi, jornalistas e seus patrões, leitores, espectadores, ouvintes. Todos unidos na demonstração de uma parvoíce movida a raiva, ódio de classe, medo, preconceito, hipocrisia, inveja, abissal ausência de espírito crítico.

A tigrada dita de classe média (média até agora não sei por quê) é, aliás, a própria, definitiva, irremediável prova da incapacidade de cumprir o papel que compete à burguesia. Aquele, digamos, de precipitar a Revolução Francesa. Pelo contrário, aí está a provar a ignorância, mau gosto, provincianismo, pavor da mudança. Dizia Lévi-Strauss ao definir os senhores paulistanos 80 anos atrás: “Eles se têm em alta conta e não sabem como são típicos”. Illo tempore, os senhores viam em Paris o umbigo do mundo. A tipicidade aumentou, e hoje, ao comporem uma categoria muito mais vasta, substituem a Ville Lumière por Miami.

Pouparei os amáveis frequentadores deste espaço das minhas considerações a respeito das gravatas amarelo-ouro ou da descoberta do vinho que alguns carregam aos restaurantes em bolsas apropriadas. De couro cru, para o desconforto de quem sonha com estes luxos e ainda não chegou lá. Citarei a leitura escassa ou mesmo nula: há mais livrarias em Buenos Aires do que no Brasil todo. O estudo precário, a péssima lida com o vernáculo, a eterna expectativa do favor dos amigos ou do arreglo por baixo do pano.

Cabe evocar tudo aquilo que certifica a mediocridade da turma. O caos arquitetônico, isento de módulos e linhas mestras, frequentemente inspirado em Gotham City, quando não entregue à imitação de modelos de outros cantos do mundo, escolhidos conforme a veneta do dia, sem excluir telhados normandos na previsão da neve. Ou mesmo a certeza, tipicamente local, de que São Paulo é capital gastronômica do planeta, alimentada por quem até ontem mastigava espaguete regado a uísque.

Vezos burgueses, amparados em tradições seculares, ou em modismos momentâneos, carecem de maior importância, está claro. Resta o fato desta ferocidade desvairada, para não dizer demente, diante de um episódio, embargos infringentes justificados pelas leis, e que tanto podem abrandar as penas dos condenados quanto agravá-las, conforme esclareceu em vão o ministro Celso de Mello. Cresce, na moldura do evento, a desinformação generalizada, o desconhecimento do código e do quem é quem.

Ocorre-me um amigo que eu chamava de samurai, Luiz Gushiken, ministro de Lula no primeiro mandato, primeira vítima do “mensalão” sem qualquer culpa em cartório, de fato aquele que percebeu o papel devastadoramente daninho do banqueiro Daniel Dantas, visceralmente envolvido no processo e tão chegado a petistas de outro naipe, como Márcio Thomaz Bastos, José Dirceu, Luiz Eduardo Greenhalgh, sem contar o atual ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Gushiken morreu dia 13 passado, honrado e, receio, infeliz.

Outro injustiçado é José Genoino, que, segundo Veja, gargalha com o voto de Celso de Mello. A malta não sabe que Genoino é um herói brasileiro, esperançoso e iludido até as últimas consequências, acreditou que o Araguaia seria a Sierra Maestra brasileira, e, ao lado de 80 companheiros, lutou contra 10 mil soldados da ditadura. Torturado brutalmente, ressurgido das cinzas, ainda espera que o Brasil deixe de ser o país da casa-grande e da senzala. Ao contrário do que afirmam seus inquisidores a pretendê-lo “mensaleiro”, não sabe onde cair morto, se me permitem a linguagem rasteira.

Morte de Chavez: “Época” e “Veja” entre facciosismo e demonização

13 de março de 2013

Hugo_Chavez84_Epoca_Veja

Mauro Malin, via Observatório da Imprensa

As duas revistas semanais brasileiras com maior circulação – Veja (13/3) e Época (11/3) – coincidiram em dedicar a capa ao antichavismo, embora se trate de reportagens diferentes. Na Veja, insulto, desprezo, panfletarismo truculento (“Chavez, a herança sombria”; “A maldição da múmia”). Na Época, um tom mais comedido, apuração menos superficial, embora o título da reportagem, no interior da revista, seja uma patacoada verbal metafórica: “À sombra de um corpo embalsamado”.

Em ambas, uma foto semelhante na capa: só a metade direita do rosto de Chavez visível. Em ambas, a mesma finalidade: apresentar os anos Chavez como uma espécie de catástrofe que se abateu sobre a Venezuela, o presidente como um tirano, o povo como massa ignara. Em ambas, ausência total de background histórico.

Por exemplo, menciona-se, como fizeram os jornais, a tentativa de golpe militar contra o presidente Carlos Andrés Pérez liderada por Chavez em fevereiro de 1992 (houve uma segunda, em novembro, conduzida por partidários dele). Mas não se informa que Andrés Perez havia tomado medidas de arrocho, entre elas um aumento do preço da gasolina e, em consequência, das passagens de ônibus, que provocaram a revolta urbana conhecida como Caracazo (27 e 28/2/1989), reprimida pelas forças armadas. O número de mortos oscila segundo as fontes entre 400 e 3.500. Menos ainda se informa que Perez foi deposto em 1993 pela suprema corte do país e teve que se exilar para não ser preso por corrupção.

Governo castrense

Ignorar o passado, como faz Enrique Krauze em entrevista à Veja (“Ele foi o último caudilho”), é tão pouco sério como seria ignorar que Chavez, depois de limpar as forças armadas de enclaves oposicionistas, fez um governo castrense, como castrenses foram vários governos com aprovação popular na América Latina, entre eles, notoriamente, os dois primeiros de Juan Domingo Perón, na Argentina (1946-1955), e os dos generais Velasco Alvarado, no Peru (1968-1975), e Juan José Torres (1970-1971), na Bolívia.

Perón teve amplo apoio de sindicatos e, durante a maior parte do tempo, da igreja católica. Alvarado chefiou um golpe militar, mas sua política foi nacionalista e de inspiração reformista. Torres foi levado ao poder por uma revolta popular de operários, camponeses e estudantes. Nesses países, como na Venezuela, e, como no Brasil durante boa parte de sua vida republicana, as forças armadas tiveram um peso político excepcional.

O continente tem arraigada tradição golpista. Se Chavez tivesse se tornado o tirano que pintam, ou que dizem desejava ser, isso mostraria antes de tudo que a Venezuela ainda não conseguiu chegar ao estágio presumivelmente alcançado pelo Brasil. Mas, pergunta-se, que país no continente conseguiu?

E mais: se Chavez tivesse conseguido arrochar a imprensa como teria pretendido, não se compreende que o oposicionista Henrique Capriles tenha derrotado Diosdado Cabello nas eleições para o governo do estado de Miranda em 2008 e tenha obtido, nas eleições presidenciais de outubro, 44,3% dos votos (ante 55% de Chavez).

A força das coisas

Com isso não se pretende amenizar os impulsos autoritários do coronel. O que para alguns parece difícil entender é que nos processos políticos os líderes tanto comandam como são governados pelas circunstâncias. O que De Gaulle chamava “la force des choses”.

Desse ponto de vista, Chavez, que sacudiu a Venezuela, país vítima da maldição do petróleo manipulada por uma elite mesquinha, não foi deliberadamente um caudilho: na verdade, só conseguiu manter-se no poder usando mecanismos caudilhescos, principalmente devido a uma política econômica inepta – sobretudo porque não reduziu, antes agravou, a dependência exclusiva do petróleo – e a uma administração pública precária. Diante, é preciso dizê-lo, de uma oposição raivosa como é não raro a oposição a Lula e a Dilma.

Preocupante, no episódio, é as revistas terem mais uma vez subordinado a cobertura jornalística a um alinhamento político-ideológico que o duopólio PT-PSDB alimenta de maneira rasteira. Se o campo político-informativo for inteiramente ocupado pelo maniqueísmo, o país estará conduzindo suas novas gerações à repetição de erros que custaram caro.

O PIG quer fazer mais um presidenciável: O caçador de “petralhas”

6 de outubro de 2012

Com o Collor e Demóstenes, o PIG quebrou a cara. Porém, as palavras do senador cassado – “Só nos sobrou o Supremo” –, parecem guiar o PIG para encontrar outro presidenciável.

Joaquim Barbosa chegou lá. Veja, que lidera a oposição no Brasil, acaba de lançá-lo à Presidência da República com sua capa sobre “o menino pobre que mudou o Brasil”, numa operação editorial semelhante à do “caçador de marajás”. Transformado em herói como o “vingador” que levou o PT à prisão, aplaudido em bares como o Bracarense e chamado de “nosso Batman” nas redes sociais, o ministro do Supremo Tribunal Federal é a alternativa que resta à oposição para tirar o PT do poder. Ele conseguirá?

Via Brasil 247

Joaquim Barbosa para presidente! É o berro que salta da capa da revista Veja desta semana, sobre “o menino pobre” que relatou a Ação Penal 470 e será lembrado como o responsável por colocar o PT na cadeia. José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil, José Genoíno, ex-presidente do PT, e Delúbio Soares, ex-tesoureiro do partido, estão prestes a ser condenados. Nas próximas sessões do Supremo Tribunal Federal, o “vingador” Joaquim Barbosa defenderá que os três sejam presos ao fim do processo. Também nesta semana, ele pode se tornar presidente da corte, caso prevaleça a tradição da casa, que prevê a entrega do comando ao ministro mais antigo, que ainda não tenha sido presidente.

Chamado de “nosso Batman” nas redes sociais, Joaquim Barbosa é o herói quase perfeito. Talvez, o único capaz de rivalizar com o ex-presidente Lula no que diz respeito às possibilidades de mistificação. Barbosa tem origem tão ou mais humilde do que a do ex-presidente, mas ascendeu graças ao estudo. Graduou-se, fez doutorado fora do País e está prestes a assumir um dos três poderes da República. Um símbolo, portanto, da chamada “meritocracia”, uma palavra tão em voga ultimamente.

No STF, Barbosa agiu de maneira implacável – e ainda que seus métodos e a consistência de seus argumentos sejam questionados, ele é sucesso inegável de público. Nas redes sociais, ele é o “nosso Batman”, super-herói responsável por colocar à beira da prisão aquele que era tido como o “capitão do time” de Lula. E mesmo seus defeitos, como a intolerância e a postura irritadiça diante dos colegas, podem ser tratados como virtudes. No país do homem cordial e conciliador, Barbosa seria o juiz intransigente diante da corrupção. E que costuma ser aplaudido em bares e restaurantes, como o Bracarense, no Rio de Janeiro.

O risco dessa operação editorial, no entanto, é a desmoralização completa do próprio Supremo Tribunal Federal. Se Joaquim Barbosa vier a abraçar um projeto político, o próprio julgamento da Ação Penal 470 poderá vir a ser considerado no futuro como um julgamento político – e não técnico. Aliás, Batman era um justiceiro que agia fora da lei. E por isso mesmo era sempre mandado de volta para a caverna.

Para Veja, no entanto, pouco importa. Em sua cruzada contra o PT, o que vale é encontrar o presidenciável que seja capaz de derrotar um projeto político que, até recentemente, era tido como hegemônico. No passado, Veja lançou o “caçador de marajás” e o final da história é conhecido. Agora, acaba de nascer o “caçador de petralhas”.

Quem foi o menino pobre que mudou o Brasil?

6 de outubro de 2012

Está explicada a capa da Vejinha com Kassab: Abril fecha contrato de R$493 mil com a Prefeitura de São Paulo

5 de outubro de 2012

Luis Nassif em seu Advivo

Anos atrás, o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, foi destaque nas páginas amarelas da revista Veja. Na mesma semana que saiu a entrevista, uma blogueira de Brasília levantou no Diário Oficial do Distrito Federal o pagamento de R$500 mil, em assinaturas da revista Veja.

Na semana passada, o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab foi personagem de uma matéria de capa da Vejinha, altamente favorável.

No Diário Oficial de São Paulo de 20 de setembro passado, há a informação de que a Prefeitura adquiriu assinaturas da revista Nova Escola, da Fundação Victor Civita, por R$493 mil.

Aparentemente, há um preço de tabela.

Clique aqui para ler o Diário Oficial.

Todos os homens são iguais perante a mídia?

30 de setembro de 2012

No momento mais importante da eleição, Vejinha protege, defende e encampa a administração de Gilberto Kassab em São Paulo; a partir da concessão do benefício da dúvida, publicação da Editora Abril não registra uma linha sobre suspeitas de cooptação financeira na formação, pelo prefeito, do seu PSD; também não retrata funcionário municipal chave Hussain Aref, aquele que acumulou mais de 100 apartamentos nos últimos anos; agravamentos de problemas urbanos como coleta de lixo deficiente e atmosfera cada vez mais poluída foram olimpicamente deixados de lado; pode-se esperar, na próxima semana, na mãe Veja, a mesma interrogação para os sem prova José Dirceu e José Genoíno? Ou a piada do editorial sobre Jesus Cristo virou verdade?

Via Brasil 247

Uma piada que os jornalistas não gostam de ouvir, e muito menos contar, parece ter virado coisa séria na chamada grande imprensa. Ao menos, na revista Veja São Paulo, publicação anexa a Veja, da Editora Abril.

No final de semana passado, Vejinha brinda seus leitores com uma interrogação: “Será que estamos sendo justos com ele?”, encimada por uma cândida fotografia do prefeito Gilberto Kassab. A pergunta é respondida, no texto interno, com um sonoro “não estamos sendo justos com ele”. Após mencionar que uma boa avaliação do trabalho do prefeito ocorre, atualmente, apenas entre pouco mais de 20% da população da maior cidade do País, a publicação esforça-se em desfilar algumas estatísticas, fazer seguidas comparações com a gestão de Marta Suplicy, encerrada em 2004, e conclui que o prefeito não merece a crítica maciça dos maiores interessados numa boa gestão: os cidadãos paulistanos.

Para a Vejinha, está errado o público que tem de conviver dia após dia com pequenas montanhas de lixo acumuladas pelas esquinas em praticamente todos os bairros; assim como são injustos os que passaram a respirar, nos últimos anos, o ar de pior qualidade em todo o País; aqueles mal atendidos nos equipamentos municipais de saúde; as crianças que tiveram na rede oficial de ensino suas merendas rebaixadas em qualidade; os motoristas vítimas da verdadeira indústria de multas em que a cidade se transformou; os moradores dos bairros que perderam a chance de opinar nas antigas reuniões de orçamento participativo; os jovens que não têm mais ruas de lazer para brincar; os ciclistas que precisaram esperar por quase duas gestões consecutivas para obterem, apenas aos domingos, uma faixa exclusiva ao lado dos carros; os pedestres que não conseguem andar em linha reta em razão das crateras e demais acidentes de percurso nas calçadas; os viventes em ruas mal iluminadas; os notívagos que uma vez a cada ano descobrem que a chamada virada cultural é muito mais um momento de violência do que de apreciação; os cidadãos que nunca mais se depararam com campanhas públicas educativas sobre regras de urbanidade; os comerciantes que tiveram seus negócios arbitrariamente multados e até fechados; os pais e mães que assistem à transformação da capital paulista num campo aberto para o comércio de todas as drogas; os que não conseguem reconhecer, em razão do loteamento político, a serventia dos subprefeitos; os que sofrem com o crescimento desordenado da especulação imobiliária em razão da falta de um plano diretor; todos os que se chocaram com a centena de imóveis acumulada recentemente por alguém num cargo chave da administração, como Hussain Aref; os leitores que se recordam do nome de Gilberto Kassab na lista de principais beneficiários do chamado mensalão mineiro; e os que estranharam vê-lo constituir em tempo recorde um partido de amplitude nacional, o PSD, pela cooptação direta quadro a quadro, mesmo com tantas tarefas em aberto no seu próprio quintal.

Todos estes, a julgar por Vejinha com suas contas comparativas a anos e décadas atrás, estão errados, ou melhor, estão sendo injustos com Kassab. Afinal, há alguns números que mostram que ele foi, sim, um bom prefeito nos últimos seis anos e meio. Por exemplo, construiu um hospital. Um. Em quase sete anos de gestão. Frise-se: um!

Na próxima semana, quando tiver sido iniciado, finalmente, o julgamento, pelo STF, dos ex-presidentes do PT José Dirceu e José Genoíno, Vejinha ou sua mãe Veja poderão dedicar suas capas à mesma pergunta para estes outros personagens? Contra a maré, as revistas do Grupo Abril terão a ousadia editorial demonstrada agora, então para apontar que, por exemplo, não se construiu uma única prova concreta contra Dirceu em todo o julgamento, a não ser ilações baseadas em, no máximo, indícios? Que Genoíno mal foi citado nos autos? Há chances de seus repórteres e redatores levantarem mais da história de ambos, eles que, goste-se ou não, foram artífices de primeira hora de um partido político que se formou por núcleos e bases, perdeu uma série de eleições e, dentro das regras do jogo democrático, se transformou na única agremiação de massas do período da redemocratização? Linhas sobre seus talentos políticos, de oradores, de convencimento? Talvez lembrar que o réu número 1 do chamado “mensalão” nunca tentou uma virada de mesa, e que seu sucessor no comando do PT andou pela mesma linha?

Difícil, ou melhor, impossível. Reportagens, neste momento, que derem a Dirceu e Genoínio o simples benefício da dúvida teriam, contra os mantras editoriais do Grupo Abril, uma chance de atenuar junto ao público o verdadeiro massacre de informações negativas ao qual eles vêm sendo submetidos. Nesta chuva de pedras, a simples pergunta “Será que estamos sendo justos com eles?” já soaria como um abrigo, ainda que efêmero. E eles não merecem, do ponto de vista da maior editora do País, nem mesmo uma sombrinha contra o temporal.

A pergunta é cabível porque, ao mesmo em que mantém em fogo alto a fritura de Dirceu, especialmente, e Genoíno, por extensão, a Editora Abril estimula, para o delator Roberto Jefferson, a concessão das benesses dos que aderiram à delação premiada – ainda que ele jamais tenha feito essa opção. Na delação de Jefferson, o grupo opinativo vê justos motivos para atenuantes. Quanto a Dirceu e Genoíno, só há agravantes. Às favas a ausência de provas contra eles.

Gilberto Kassab, que deveria ter cumprido o papel de principal cabo eleitoral do candidato tucano a prefeito de São Paulo José Serra – e só não o fez porque sua gestão é rejeitada pelos paulistanos –, bem ao contrário, foi contemplado pela Abril não apenas com o benefício da dúvida, mas com a resposta editorial para um indagação que vem a calhar na reta final da eleição: “Será que estamos sendo justos com ele?”, repita-se. Dá até vontade de chorar, dá não?

Com a reportagem trazida ao público esta semana, de franco viés favorável aos interesses do próprio Kassab (e, claro, de seu criador Serra), o prefeito passou a ter, no momento mais importante da eleição em que é julgado, uma peça em sua defesa. Daquelas para emoldurar e colocar na parede da sala. O mesmo Kassab que não pode atravessar o Viaduto do Chá a pé sem correr risco em sua integridade física é aquele que, pelas páginas da Vejinha, mais parece um herói da administração pública – e uma grande vítima da incompreensão geral. Foi defendido, protegido, encampado por uma das principais máquinas de produzir opinião da Editora Abril. Consumou-se, assim, uma matéria boa para um prefeito ruim. É, com o sinal trocado e outro personagem, a piada concretizada em texto jornalístico que os jornalistas repelem:

Num teste para a contratação de um redator para uma grande publicação, pede-se como prova de boa escrita um texto sobre Jesus Cristo. Ganhou a vaga, após uma série de entregas com elogios rasgados ao fundador do cristianismo, o candidato que, antes de começar a escrever, perguntou ao homem que parecia ser o chefe dos examinadores: “É para ser a favor ou contra esse cara?”


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