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Onde Ana Maria Braga vai enfiar os tomates agora?

20 de abril de 2013

Ana_Maria_Braga03_Tomate

Via Esquerdopata

Numa das campanhas mais patéticas já feitas pela mídia brasileira, lobistas que defendem a alta dos juros transformaram o tomate no grande emblema da inflação. Tudo começou quando Ana Maria Braga, apresentadora da Globo, pendurou um colar de tomates no pescoço e disse estar usando uma “joia”. Autorreferente, a Globo usou a “sacada” de Ana Maria para dedicar a capa da revista Época ao tomatinho. Foi também acompanhada por Veja, que disse que a presidente Dilma havia “pisado no tomate”.

Pois bem: o produto, que havia subido 122% em um ano, em razão da quebra da última safra, caiu nada menos que 75% nas últimas semanas. O quilo, antes vendido a R$10,00, agora sai a R$2,50. Supermercados, como Carrefour e Pão de Açúcar, fizeram guerra de preços para liquidar seus estoques.

Apesar disso, no entanto, o Banco Central, comandado por Alexandre Tombini, decidiu se submeter a pressão do mercado financeiro, sempre influente nos meios de comunicação, e elevou na quarta-feira, dia 17, a taxa de juro Selic em 0,25 ponto, num movimento que foi percebido como início de um novo ciclo de aperto monetário. É possível que o BC, diante de uma inflação menor, logo volte atrás. Mas o que fará Ana Maria Braga com sua joia desvalorizada?

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13 de abril de 2013

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Em 1984, o jovem repórter Eurípedes Alcântara caiu numa pegadinha de primeiro de abril e acreditou numa reportagem de uma revista científica sobre o cruzamento genético entre o boi e o tomate. O caso “boimate”, levado às páginas de Veja, se consagrou como a maior “barriga” jornalística de todos os tempos, mas não impediu que Eurípedes se tornasse diretor de Redação da revista da Abril. Nesta semana, Veja diz que a presidente Dilma “pisou no tomate” e que o alimento virou piada nacional. A tabelinha entre Abril e Globo é mais um momento baixo do jornalismo brasileiro, em sua campanha para disseminar terrorismo, pedir juros altos e combater o PT.

Via Brasil 247

Eurípedes Alcântara, diretor de redação da revista Veja, tem uma marca indelével em seu currículo. Em 1984, quando era apenas um jovem repórter que iniciava sua carreira na revista Veja, leu uma reportagem numa publicação científica sobre o cruzamento genético entre o boi e o tomate e produziu uma das pérolas da história do jornalismo no Brasil, sem se dar conta de que se tratava de uma piada de primeiro de abril. O caso Boimate, obra de Eurípedes, entrou para a história como a maior “barriga” da imprensa brasileira em todos os tempos (para saber mais, leia aqui).

Neste fim de semana, no entanto, Eurípedes decidiu produzir seu segundo caso Boimate. Numa tabelinha com a revista Época, da Editora Globo, Veja produziu uma capa idêntica, dizendo que a presidente Dilma “pisou no tomate”. Na Carta ao Leitor, Eurípedes “Boimate” Alcântara afirma que a presidente Dilma “pode afundar o Brasil”. E o texto sobre inflação é uma das peças jornalísticas mais vis, distorcidas e mal-intencionadas já produzidas pela imprensa brasileira.

Sob o título “Sim, eu posso…” e a imagem de uma Dilma com um tomate tatuado no braço, Veja “informa” que o alimento se transformou no símbolo da apreensão dos brasileiros com a volta da inflação. Mas nem torcendo e espancando as estatísticas, Veja consegue deixar sua tese de pé. Num gráfico interno, com a evolução dos preços do tomate, percebe-se que o preço do quilo foi de R$4,37 a R$7,81 entre 15 e 28 de março, mas já caiu para R$4,43 em 11 de abril. Ou seja: o estouro da meta inflacionária em 0,09%, que ocorreu em razão de uma entressafra, será revertido em abril.

Para ancorar sua peça de propaganda política, Veja cita as piadinhas que surgiram “com toda a naturalidade do mundo”, como o famoso colar de tomates de Ana Maria Braga. E fala até que os fiscais da Alfândega brasileira em Foz do Iguaçu estavam tendo que lidar com um novo tipo de crime na fronteira com o Paraguai: o contrabando de tomates.

Outro gráfico usado por Veja cita a inflação acumulada em 12 meses, de 6,59%, e outros preços que subiram mais do que isso, como a mensalidade escolar (9%), o pet shop (12%), o óleo diesel (14%) e o tomate (122%) – repita-se, um alimento com preços já em queda livre. Ora, é elementar que, se a média ficou em 6,59%, há outros itens que subiram bem menos, ou até caíram, como, por exemplo, as tarifas de energia elétrica.

Na reportagem, Veja mal disfarça seu lobby pelos juros altos. “Com a inflação não tem conversa. Ela só entende uma coisa: aumento dos juros, corte de gastos do governo e aperto no crédito – todas medidas impopulares”. No seu Boimate 2.0, Veja aproveita também a oportunidade para fazer um elogio rasgado em relação a Margaret Thatcher, que “cortou os gastos e elevou os juros”. Prestes a ser enterrada, Margaret Thactcher ainda hoje é um das figuras públicas mais odiadas da Inglaterra e a polícia britânica discute como conter protestos em seu funeral.

Sobre Veja, Eurípedes e seu segundo caso Boimate, nada a fazer a não ser atirar tomates na publicação. Que, aliás, já estão bem mais baratos.

Veja_BoiMate

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Texto publicado por Alexandre Ceará, no Facebook

As maiores taxas de inflação do Brasil pós-real e que você não soube porque as revistas, jornais, Ana Maria Braga etc. não precisavam torcer contra o povo:

1994 – 916,43% (ainda não vale)

1995 – 22,41% (preços ainda se ajustando à nova moeda, aproveitando e fazendo aquele primeiro arrocho salarial básico)

1996 – 9,56% (mão grande aqui, arrocho ali e o trabalhador trocava a picanha pelo frango)

1999 – 8,94% (Reeleição comprada e ganha, desvaloriza a moeda pra mais um arrochinho)

Enquanto isso, a carga tributária saia do patamar de 20 e poucos para os atuais 32%. E a dívida/PIB saltava de 28% para 52%, mesmo vendendo estatais a preço de banana para os amigos. E crescimento pífio: “Um governo que não usou um saco de cimento sequer.”

2001 – 7,67% (o presida Boca de Suvaco admite fracasso e implora US$30 bi ao Clinton pra fechar as contas)

2002 – 12,53% (a vaca foi pro brejo, mas essa batata quente vai pro Lula, FHC sorri)

2003 – 9,30% (Palocci começando a limpeza)

2004 – 7,60%

2005 – 5,69%

2006 – 3,14%

2007 – 4,45%

2008 – 5,90%

2009 – 4,31%

2010 – 5,90%

2011 – 6,50%

2012 – 5,83%

2013 – 6,40% (projeção)

Semana Boimate: A “grande mídia” bate recorde de “barrigas”

13 de janeiro de 2013

Imprensa_Barrigas

Primeiro, a Folha noticiou uma reunião de emergência sobre o setor elétrico, que era rotineira. O Estadão, em letras garrafais, anunciou que o Ministério Público investigaria o ex-presidente Lula. E O Globo avisou que empresários já estariam fazendo seu próprio racionamento. Três exemplos wishful thinking, em que a vontade política dos editores se impõe à objetividade dos fatos. Se isso não bastasse, Veja também derrapou feio ao anunciar uma megafusão bancária que não houve.

Via Brasil 247

Wishful thinking. A expressão inglesa é a melhor tradução para o comportamento dos grandes jornais brasileiros na semana que passou e expressa um dos principais erros do pensamento, que é o de transformar desejos em realidade. Em vez de narrar os fatos como eles são, a história é contada como gostaríamos (ou gostariam) que fosse.

Entre pessoas comuns, o erro é perdoado. Mas quando se trata de grandes jornais, que têm o dever da objetividade, a questão se complica. A semana que passou, para a grande imprensa, foi também a semana dos grandes erros. Não pequenos deslizes, mas erros colossais, que, em alguns casos, foram escritos em letras garrafais – fugindo até ao padrão gráfico das publicações.

O jogo dos erros começou com a Folha de S.Paulo, dos Frias, que, na segunda-feira, dia 7, anunciou: “Escassez de luz faz Dilma convocar o setor elétrico”. No subtítulo, a mensagem de que, na “reunião de emergência”, seriam discutidas medidas contra o racionamento, sob a imagem de uma vela acesa na escuridão. Este era o desejo – o wishful thinking. A realidade, no entanto, é que a reunião não era emergencial nem haverá racionamento.

No dia seguinte, foi a vez do Estadão, principal concorrente da Folha, que não ficou atrás. O sonho da família Mesquita, que controla o jornal, talvez seja ver o ex-presidente Lula atrás das grades. E a manchete “MPF vai investigar Lula” veio em negrito e letras gigantes como se anunciasse que a Alemanha nazista foi derrotada pelos aliados. Mais um exemplo de wishful thinking. No mesmo dia, a “informação” foi negada pelo procurador-geral Roberto Gurgel.

O Globo, dos Marinho, naturalmente, não poderia ficar de fora da festa e anunciou que grandes grupos empresariais já planejam racionar energia. Outra demonstração de um desejo. Na quinta-feira, dia 10, após uma reunião com a presidente Dilma, os principais empresários do País deram demonstrações públicas de que não estão trabalhando com a hipótese de apagão.

Se tudo isso não bastasse, houve também a barriga de Veja Online, que, também na semana passada, anunciou a fusão entre Bradesco e Santander. Neste caso, não era wishful thinking. Apenas um erro de informação e os jornalistas responsáveis foram demitidos.

De todo modo, a semana foi exemplar ao escancarar os riscos que se corre quando a vontade política dos editores se sobrepõe à objetividade dos fatos.

PS.: até agora, apenas a Folha admitiu o erro, ainda que em letras miúdas.

Nota do Limpinho: Se você é jovem e não sabe o que é boimate clique aqui.

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Veja: O “jornalismo” ficcional mau caráter para leitores boimate

18 de setembro de 2012

Via Maria Frô

A jornalista Cynara Menezes lembrou do texto que reproduzo a seguir, escrito antes de Veja inventar mais uma entrevista. Desta vez, o alvo é o ex-presidente Lula.

Veja quer porque quer destruir Lula e claro dar uma força aos candidatos da mídia venal nas eleições municipais.

Veja publica uma “entrevista” atribuída a Marcos Valério e todos os demais jornalões replicarem a entrevista ficcional sem informar a seus leitores que o advogado de Marcos Valério, Marcelo Leonardo, informou ao Terra e Rádio Bandeirantes que Marcos Valério não dá entrevistas desde 2005 e que não deu nenhuma entrevista a Veja.

Para piorar a palhaçada que se iniciou no sábado, dia 15, com a chegada da revista (sic) nas bancas, Ricardo Noblat, Reinaldo Azevedo e outros blogueiros da midiazona lançaram uma verdadeira campanha na rede (twitter e face) afirmando que Veja tinha o áudio “a fita” da gravação da entrevista e que publicaria hoje [17/9] pela manhã.

Todos os leitores experientes sabem que Veja tem uma longa história de fabricação de escândalos e nunca prova as “denúncias” que muitas vezes contribuíram para derrubar ministros (nos dois primeiros anos do governo Dilma foi uma farra do boi).

Noblat oferece-nos um verdadeiro momento de vergonha alheia no twitter e no face. Primeiro, às 11:21 da manhã [17/9] ele cobra Veja:

E claro vira motivo de piada. Depois sem gravação lá vai Noblat para o face fazer mágica retórica, ele tava tão nervoso que inventou umas palavrinhas como “consultura” WTF?

Nas “explicações” que tenta dar a seus leitores sobre a ausência da gravação que ele disse existir e que seria publicada pela manhã de hoje [17/9], Noblat deve ter ficado com torcicolo tal foram as manobras de pescoço de girafa.

De concreto temos a negativa de Marcos Valério que tenha dado qualquer entrevista à Veja e nenhuma gravação. Como muitas outras gravações que Veja disse ter e nunca mostrou, mas que serviram, por exemplo, pra que um delegado da Polícia Federal fosse destituído e banqueiro bandido solto.

E de escândalo em escândalo bem cevada pelo dinheiro público de publicidade oficial Veja segue tendo como “fonte” Cachoeira, o bicheiro chefe do crime organizado que adorava falar com Policarpo, o editor da Veja, para desestabilizar governos, derrubar seus desafetos, chantagear no melhor estilo de jornalismo ficcional.

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Leitura de Veja: A longa tradição das “entrevistas” inventadas

Sylvia Debossan Moretzsohn, via Observatório da Imprensa, em 4/9/2012

Uma revista publica um pingue-pongue – entrevista em formato de perguntas e respostas – com um jornalista que imediatamente denuncia em seu blog o “engodo”, porque não teria dado entrevista alguma; a revista responde reafirmando a autenticidade do texto e tudo fica por isso mesmo, a palavra de um contra a da outra.

Foi na semana passada. A edição 2284 da Veja Rio, que começou a circular no domingo [26/8], trazia, na coluna “Beira Mar”, uma suposta entrevista com o colunista esportivo Renato Maurício Prado, do Globo, sobre o fim de seu contrato com a SporTV, depois de uma discussão ao vivo com o apresentador Galvão Bueno, durante um programa de debates nos últimos Jogos Olímpicos.

Já na terça-feira [28/8], na nota “Pingo nos is”, ao pé de seu blog, reproduzida no dia seguinte em sua coluna no caderno de Esportes do jornal impresso, Renato afirmava que não dera entrevista: teria apenas atendido ao telefonema da repórter e explicado que não queria falar, “até por entender que nós, jornalistas, não somos notícia”. Ressaltava inclusive um erro na menção a sua participação num programa de rádio, já extinto havia mais de dois anos, e lamentava a utilização de uma foto sua, feita para sua coluna em O Globo, pois, para o leitor, ficava a impressão de que ele teria posado para Veja.

Em nota oficial, publicada na quinta-feira [30/8], a revista rejeitava o desmentido.

O que se diz no contestado pingue-pongue não tem qualquer relevância para além do previsível noticiário sobre “celebridades e personalidades do Rio”, que é o tema dessa seção da revista. A questão do método, sim, é que é de extrema relevância, independentemente do assunto, da importância das fontes ou da parcela do público a que se destina esse tipo de informação. Ou fraude.

A farsa da reportagem

Não é de hoje que Veja é criticada por utilizar artifícios estranhos aos mais elementares princípios éticos do jornalismo. Entre eles, a descontextualização, ou mesmo a pura e simples invenção de declarações. Recordo aqui, apenas para ilustrar, um caso de grande repercussão ocorrido há pouco mais de dois anos: o texto intitulado “A farra da antropologia oportunista“, publicado em maio de 2010, que acusava pesquisadores de forjar a existência de comunidades indígenas ou quilombolas em proveito próprio – das ONGs das quais participavam – e em detrimento das perspectivas de desenvolvimento do País. Para tanto, utilizava supostas afirmações de dois antropólogos, Mércio Pereira Gomes e Eduardo Viveiros de Castro, que argumentariam no sentido pretendido pela revista.

A farsa da reportagem foi denunciada em pelo menos três artigos neste Observatório (ver “Como demonizar populações vulneráveis“, “Reflexão sobre ‘espertinhos’ e ‘espertalhões’“ e “Dados fantasiosos, informações deformadas“) e na resposta do professor Gomes (“Resposta a uma matéria falsa“), que recusava à Veja “o falso direito jornalístico” de atribuir-lhe “uma frase impronunciada e um sentido desvirtuante” daquilo que pensava sobre a questão indígena brasileira.

O protesto de Viveiros de Castro também circulou amplamente pela internet e provocou uma troca de mensagens entre ele a revista (ver aqui), na qual ficava evidente a inexistência de entrevista e a deturpação dos argumentos do pesquisador, retirados de um artigo seu.

O mais curioso é que Veja concluía sua resposta dizendo que o antropólogo a havia autorizado a utilizar o tal artigo “da forma que bem entendesse”. O que, a rigor, jamais poderia ocorrer, porque evidentemente nenhum texto pode ser utilizado de qualquer jeito: precisa ser citado de acordo com a sua própria coerência interna, conforme o contexto em que foi escrito.

O elogio da fraude

Criada em 1968 por Mino Carta, Veja passou por uma série de mudanças ao longo dessas mais de quatro décadas, e só um estudo detalhado poderia apontar o que a levou a se distanciar progressivamente da prática rigorosa do jornalismo para enveredar por uma política editorial que pretende amoldar a realidade as suas pautas, utilizando quaisquer recursos para a obtenção dos resultados previamente definidos. O recente episódio que envolveu o colunista esportivo seria, portanto, apenas uma derivação social e politicamente irrelevante de um processo incorporado há muito tempo.

Entretanto, nesse processo há um aspecto essencial e aparentemente inocente que deveria chamar a atenção, sobretudo de jovens aspirantes a jornalistas, especialmente agora que a discussão a respeito da adequada formação retorna, com o debate sobre a exigência do diploma universitário: é que as regras elementares do método jornalístico não são tão elementares assim. Pois que mal faz inventar entrevistas, desde que elas sejam simpáticas às fontes?

Em Notícias do Planalto, lançado em 1999 e prestes a ser reeditado, Mário Sérgio Conti relata a esperteza de Elio Gaspari, então em início de carreira:

“[Gaspari] estava numa agência de notícias no Galeão. O aeroporto era o ponto de passagem dos poderosos da República. Os políticos, ainda em trânsito da antiga para a nova capital, embarcavam nos voos matutinos para Brasília. No Galeão desembarcavam as celebridades estrangeiras que visitavam o Rio. Como se podia entrar na área da alfândega, os jornalistas circulavam e faziam entrevistas. Os repórteres da agência tinham de falar com os passageiros famosos, redigir as matérias na sala de imprensa, tirar cópias num estêncil a álcool e mandá-las para os jornais. Gaspari logo constatou que o tempo médio de embarque e desembarque, 20 minutos, era escasso. Enquanto entrevistava um deputado, perdia outros três que entravam no avião para Brasília. Passou a acordar de madrugada para ler os jornais e, com base neles, escrever pequenas entrevistas de políticos comentando os assuntos do dia. Se concordavam com as respostas, passavam a ser os entrevistados de fato e de direito. Assim, podia mandar aos jornais três, quatro entrevistas, em vez de uma. Os entrevistados agradeciam porque, além de estarem nos jornais, às vezes pareciam mais inteligentes ou engraçados do que realmente eram.”

Esses políticos jamais poderiam sonhar que algum dia lhes cairia no colo um assessor tão bom, e ainda por cima gratuito. Conti prossegue, muito divertido:

“Em Veja, o método foi refinado e usado anos a fio. Gaspari inventava um raciocínio para avivar uma matéria, geralmente de madrugada, no calor do fechamento, e mandava um repórter achar alguém famoso que quisesse assumir a autoria. A frase “O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual” nasceu assim, proposta por Gaspari ao carnavalesco Joãozinho Trinta. O truque era puro Elio Gaspari. Tinha algo de molecagem, mas ficava nos limites das normas jornalísticas, à medida que ninguém era forçado a encampar uma declaração. O seu fim último era levar um fato novo ao leitor […]”. (grifo meu).

Então ficamos assim: inventar declarações e atribuí-las a terceiros faz parte das normas jornalísticas, desde que sejam favoráveis a essas fontes. Nada impede, tampouco, que se recorte um artigo e nele se insiram perguntas, para dar a impressão de um pingue-pongue. Terão razão, afinal, certos teóricos que dizem que jornalismo é ficção?

Essas coisas as escolas – pelo menos, as escolas de qualidade – não ensinam. Pelo contrário, refutam e denunciam. No entanto, renomados jornalistas – nos quais, naturalmente, muitos jovens se miram – praticam e enaltecem o que deveriam combater. E a fraude só causa revolta quando contraria os envolvidos.

Mas nem por isso deixa de ser o que é.

Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)

Nota do Limpinho: A Maria Frô colocou no título a expressão “leitores boimate”. Os mais antigos, devido à perda de alguns neurônios, talvez não se lembrem mais; e os jovens não devem saber, porque, atualmente, os professores das faculdades de jornalismo não falam mais da maior “barriga” (notícia falsa) cometida por um veículo de imprensa na época. Agora, a Veja já se superou.

Na década de 1980, alguns jornais e revistas ingleses gostavam de fazer brincadeiras no 1º de abril, dia da mentira. E a Veja, que já naqueles tempos não tinha o cuidado de checar as informações, caiu na história do boimate (mistura de boi com tomate), mesmo com as dicas dadas pelo autor do texto como os nomes dos biólogos Barry McDonald e William Wimpey, para lembrar as cadeias internacionais de alimentação McDonald’s e Wimpy’s; e a Universidade de Hamburgo, palco do “grande fato”, foi citada para que pudesse ser associada com “hambúrguer”. O jornal O Estado de S.Paulo foi que descobriu o furo do “maior fato científico” da época. Abaixo a reprodução do texto, da lavra de ninguém menos do que Eurípedes Alcântara, atual diretor de Redação da revista [da] marginal.

 

Falta de checagem dos fatos faz imprensa cometer barrigas irreversíveis

27 de junho de 2012

Anderson Scardoelli, via Comunique-se

Casos da Escola Base, da estudante brasileira que simulou ter sido agredida e abusada na Suíça e da falsa grávida de Taubaté [Nota do Limpinho: o Boimate da Veja não pode ficar de fora dessa], exemplos da chamada barriga jornalística, poderiam ser facilmente evitados se os profissionais da imprensa exercessem com empenho a apuração e não divulgassem o que se vê logo de imediato, mesmo sem a devida checagem de veracidade. Essa é a avaliação da doutora em Serviço Social e mestre em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, Sylvia Moretzsohn.

Sylvia afirma que a desconfiança é fator crucial para evitar a divulgação de histórias inverídicas. A pesquisadora salienta que muitas barrigas não são resolvidas com um simples “erramos”. Muitos são irreparáveis, argumenta. Ela destaca que a publicação de uma mentira pode ter consequências internacionais, como a ameaça de crise diplomática entre Brasil e Suíça por causa da jovem brasileira que, em fevereiro de 2009, postou imagens e disse ter sido violentada por três garotos neonazistas.

“Pelas fotos que foram divulgadas pela imprensa brasileira já poderia se imaginar que não era tudo real. Ninguém questionou. Publicaram como se fosse a mais absoluta verdade. Um caso que seria evitado se houvesse aquela desconfiança que os jornalistas devem ter”, afirma Sylvia. A professora também cita que muitos equívocos recentes da mídia nacional estão relacionados à exigência do imediatismo, ainda mais com a presença das redes sociais. Para ela, porém, o principal ato para os erros é a presença do “valor do espetáculo” nas redações dos veículos de comunicação.

Em relação à preparação acadêmica dos estudantes de jornalismo, Sylvia acredita que o conteúdo oferecido nas salas de aula das universidades é extremamente importante para a formação técnica e ética dos futuros jornalistas. O que atrapalha os jovens profissionais, conforme avalia, é justamente o que muitos desejam: a rápida inserção no mercado de trabalho. “Os estágios acontecem cada vez mais cedo, ainda no primeiro ano. O estudante chega para trabalhar e ouve, dependendo do lugar, que é para esquecer tudo que aprendeu na faculdade”, lamenta.

Sem tratar necessariamente de uma barriga, Sylvia crítica a forma com que a imprensa cobriu o sequestro de Eloá Cristina Pimentel, mantida por mais de 100 horas em cárcere privado e, consequentemente, assassinada por seu ex-namorado, Lindemberg Alves, condenado em primeira instância a mais de 98 anos de prisão. “Conversaram ao vivo com o sequestrador. Interferiram diretamente nas negociações que a polícia estava fazendo. A forma em que a cobertura foi realizada transformou o Lindemberg em celebridade”. Para a professora, o caso Eloá serve como grande demonstração do que não deve ser feito no Jornalismo.


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