Posts Tagged ‘Banco’

Lavagem de dinheiro: Prisão de padre aumenta pressão por transparência no Vaticano

30 de agosto de 2013
Vaticano11_Nunzio_Scarano

Nunzio Scarano, o “Monsenhor 500”.

A prisão de um padre italiano, suspeito de envolvimento em um esquema de fraude e corrupção no Banco do Vaticano, está colocando ainda mais pressão sobre a Igreja Católica por mais transparência e cooperação com as investigações da polícia.

O padre Nunzio Scarano, de 61 anos, que tem o título de monsenhor – um reconhecimento de honra dado pelo papa a sacerdotes com mais tempo de carreira –, foi preso juntamente com um agente do serviço secreto italiano e um investidor financeiro.

De acordo com investigações da polícia italiana, o grupo é suspeito de tentar trazer cerca de €20 milhões euros (ou quase R$58 milhões) ilegalmente para a Itália.

Reação

Scarano ocupava o cargo de contador sênior num importante departamento financeiro do Vaticano – o APSA (Amministrazione del Patrimonio della Sede Apostolica) –, mas, segundo o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, tinha sido suspenso de suas atividades “há cerca de um mês, quando seus superiores tomaram conhecimento da investigação”.

Nesta semana, o papa anunciou a criação de uma comissão de clérigos para analisar o trabalho administrativo do Banco do Vaticano, que vinha sendo alvo de denúncias de envolvimento em lavagem de dinheiro. Mas não se sabe até onde o Vaticano estaria disposto a ir para ajudar a polícia.

Segundo o correspondente da BBC em Roma, David Willey, “tradicionalmente, o Banco do Vaticano sempre impôs grande segredo sobre as atividades de seus funcionários”. Com o anúncio da criação da comissão, o papa está tentando “impor mais transparência e clareza na atuação financeira do Vaticano, o que não poderia ter chegado em melhor hora”, disse Willey.

O Banco do Vaticano – cujo nome oficial é Instituto para os Trabalhos da Religião (IOR) – é considerado uma das instituições financeiras mais secretas do mundo. Ele tem 114 empregados e um total de 5,4 bilhões de euros (ou mais de R$14 bilhões) em fundos. O papa teria dado “carta branca” à comissão de clérigos do Vaticano, que terá poderes para quebrar regras tradicionais de sigilo.

Lavagem de dinheiro

Scarano, que exerceu o sacerdócio na cidade de Palermo, a maior cidade da Sicília, no sul da Itália, está sendo acusado de ter lavado dinheiro “sujo” no Banco do Vaticano por meio de cheques descritos como “doação de igrejas”.

De acordo com Willey, a imprensa italiana tem chamado o padre Nunzio Scarano de “Monsenhor 500”, numa alusão ao valor constante dos cheques que ele movimentaria na conta do Vaticano – sempre depositados em montantes de apenas €500,00.

O valor total envolvendo somente esses pequenos cheques chegaria a US$700 mil (ou mais de R$1,5 milhão). Sobre os outros homens presos – Giovanni Maria Zito, descrito pela polícia como agente do serviço secreto italiano, e Giovanni Carenzio, que seria um investidor de mercado – não foram divulgadas informações de como eles participariam do esquema.

O Instituto para os Trabalhos da Religião tem como seu maior investidor o Banco Ambrosiano, uma grande instituição financeira italiana que entrou em decadência em 1982 com a perda de mais de US$3 bilhões (mais de R$6,6 bilhões).

O presidente do Banco Ambrosiano, Roberto Calvi, foi encontrado morto pendurado na ponte de Blackfriars, em Londres, em junho de 1982. O caso ficou famoso por uma reviravolta nas investigações, quando a polícia londrina determinou como assassinato o que no início se supunha ser um suicídio. Calvi tinha relações bem próximas com o Vaticano.

O esquema era comandado pelo monsenhor católico Nunzio Scarano. Os suspeitos são empresários, amigos pessoais do religioso, parentes, médicos e até um carpinteiro. Informações divulgadas por um jornal italiano revelaram que o patrimônio pessoal de Scarano é estimado em quase R$9 milhões.

***

Vídeo do Portal R7

***

Leia também:

Vaticano é o 8º colocado em lavagem de dinheiro

Banco do Vaticano é o principal acionista da indústria de armamentos Beretta

***

Vaticano é 8º colocado em lavagem de dinheiro

22 de agosto de 2013

Lavagem_Dinheiro02_Vaticano

Dermi Azevedo, via Carta Maior

O Vaticano ocupa o 8º lugar do mundo entre os países que lavam dinheiro sujo, oriundo da sonegação de impostos, da obtenção de lucros ilícitos, do tráfico de armas e de drogas, entre outras fontes criminosas. O Vaticano conseguiu deixar para trás, em matéria de lavagem de dinheiro, países como a Suíça, Bahamas, Liechtenstein, Nauru e as Ilhas Maurício.

A pesquisa foi realizada pela rede de organizações sociais francesas Voltaire, com base em dados fornecidos por autoridades alemãs e suíças. No ano passado, o Instituto de Obras da Religião (IOR), nome oficial do Banco do Vaticano, epicentro do problema, teria lavado cerca de US$33 bilhões. Esta informação tem um caráter aproximativo, porque ninguém (nem mesmo o papa) tem acesso ao balanço real da instituição bancária mais secreta do planeta.

Neste momento, está em atividade uma comissão formada por cardeais e outros assessores do papa Francisco cuja missão é precisamente a de investigar os bastidores do IOR e de apresentar ao pontífice propostas de mudanças radicais no banco. Não está excluída a possibilidade de fechamento do instituto e a sua transformação numa entidade que possa administrar os recursos financeiros da cúpula da Igreja Católica Romana.

O mais recente escândalo no banco foi a prisão do monsenhor Nunzio Scarano, ex-chefe de contabilidade do IOR que integrava a APSA, um organismo do IOR que gerencia o patrimônio da Santa Sé. É acusado de corrupção, calúnia e fraude pela polícia financeira italiana. O papa foi comunicado sobre a prisão de Scarano e ordenou à sala de imprensa do Vaticano que divulgasse uma nota, informando que o assessor já havia sido suspenso do seu cargo em maio deste ano. É acusado de transferir para o IOR um total de 20 milhões de euros, da Suíça para uma conta de armadores napolitanos. A Justiça italiana rejeitou, no sábado passado, o recurso do monsenhor Scarano. Ele continua preso domiciliarmente no Vaticano.

Antiga fama

A situação do IOR foi o tema de um dos debates mais acalorados pouco antes do conclave, na Capela Sistina, quando alguns cardeais de todos os continentes questionaram uns aos outros sobre a responsabilidade dos principais assessores do papa renunciante Bento 16 no andamento da corrupção no Banco do Vaticano. Alguns cardeais dos países menos desenvolvidos, mas também da América do Norte e da Europa, deixaram vazar essa informação. Considera-se que esse debate foi importante para que, em seguida, os cardeais tenham votado secretamente no argentino Jorge Bergoglio como novo papa.

A primeira atitude do novo pontífice foi a de nomear a comissão especial para a reforma do banco. Assessores de sua confiança mantiveram também contato com a União Europeia em busca de assessoria técnica, por meio do Moneyval, que é um organismo da UE que avalia e executa medidas contra lavagem de dinheiro e contra o terrorismo.

Em 1997, o Conselho da Europa criou a Comissão Especial de Peritos sobre a Avaliação de Medidas Antilavagem de Dinheiro, com a sigla PC-R-EV, como um subcomitê do Comitê Europeu para os Problemas Criminais (CDPC). Em 2002, o nome da comissão foi mudado para Comitê de Peritos sobre a Avaliação das Medidas de Combate à Lavagem de Dinheiro e ao Financiamento do Terrorismo, com a abreviatura Moneyval, por entender que a sigla anterior não expressava com clareza os seus objetivos.

O IOR foi fundado em 27 de junho de 1942 pelo papa Pio 12. Seus estatutos foram redigidos de tal forma que nem o papa tem acesso direto à sua administração. Já nas primeiras décadas dos anos 40, foram levantadas suspeitas de que banco poderia guardar verbas produzidas pelo regime nazista e também por banqueiros judeus perseguidos. O caso Marcinkus tornou-se o escândalo mais conhecido envolvendo o IOR. O então arcebispo norte-americano foi responsabilizado, pelas autoridades italianas, de envolvimento com a Máfia, na falência do Banco Ambrosiano, que também envolveu a loja maçônica P-2 e vários banqueiros. O caso inspirou até mesmo a produção de filmes e de vários livros.

***

Leia também:

Banco do Vaticano é o principal acionista da indústria de armamentos Beretta

***

Brics criarão banco de desenvolvimento para se livrar do dólar estadunidense

11 de março de 2013

Brics05_LogoO Banco de Desenvolvimento do Sul deverá ser criado ainda neste mês de março.

Via redecastorphoto

Os países Brics preveem criar seu próprio banco de desenvolvimento até o final de março, com o objetivo de investir em projetos sustentáveis de infraestrutura e desenvolvimento para seus integrantes, sem ter de passar pela moeda nacional dos EUA, o dólar.

O capital inicial do banco do grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul está estimado em US$50 bilhões. Prevê-se que a criação do Banco de Desenvolvimento dos Brics seja oficialmente anunciada durante a Reunião de Cúpula que acontecerá na África do Sul, nos próximos dias 26 e 27 de março.

Os Brics planejam aumentar os investimentos, dado que a necessidade de financiar projetos internos da organização pode chegar a US$15 bilhões nos próximos 20 anos. Além disso, a aliança espera reduzir sua dependência das outras grandes economias do mundo, eliminando a necessidade de negociar em dólares e em euro, nas transações internacionais.

Um dos principais argumentos a favor da criação do novo banco foi precisamente a baixa porcentagem de apoio aos países em desenvolvimento, hoje esquecidos pelas grandes instituições de financiamento controladas pelos EUA e a União Europeia.

Em janeiro passado, um diplomata sul-africano, que trabalha na organização da reunião de cúpula do bloco, anunciou que os países integrantes do bloco Brics estão próximos de um acordo para criar seu banco de desenvolvimento regional. Com essa decisão, segundo alguns analisas, a China aspira a ampliar o território de uso de sua moeda nacional, o yuan; a Índia quer atrair investimentos estrangeiros; e a Rússia quer fortalecer sua influência geopolítica, na sequência do crescimento de seus índices econômicos.

Artigo publicado Russia Today, com o título Los Brics crean su propio banco para deshacerse del dólar

Tradução: Vila Vudu

A história secreta da renúncia de Bento 16

16 de fevereiro de 2013

Papa_Cabeca_Coberta

Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do Banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral.

Eduardo Febbro, de Paris, via Carta Maior

Os especialistas em assuntos do Vaticano afirmam que o papa Bento 16 decidiu renunciar em março passado, depois de regressar de sua viagem ao México e a Cuba. Naquele momento, o papa, que encarna o que o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama “uma continuidade pesada” de seu predecessor, João Paulo 2º, descobriu em um informe elaborado por um grupo de cardeais os abismos nada espirituais nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro… O Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites e sem moral alguma, onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas e privilégios a frente das instituições religiosas.

Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres, sob o mandato de Bento 16 o Vaticano foi um dos estados mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas. Bento 16 foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo 2º: “Desde 1981 seguiu o reino de seu predecessor acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos 1984–1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla.” Esses dois textos citados pelo especialista francês são um compêndio prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e científicas do mundo moderno.

O monsenhor Georg Gänsweins, fiel secretário pessoal do papa desde 2003, tem em sua página web um lema muito paradoxal, junto ao escudo de um dragão que simboliza a lealdade. O lema diz “dar testemunho da verdade”. Mas a verdade, no Vaticano, não é uma moeda corrente. Depois do escândalo provocado pelo vazamento da correspondência secreta do papa e das obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana agiu como faria qualquer Estado. Buscou mudar sua imagem com métodos modernos. Para isso contratou o jornalista estadunidense Greg Burke, membro da Opus Dei e ex-integrante da agência Reuters, da revista Time e da cadeia Fox. Burke tinha por missão melhorar a deteriorada imagem da igreja. “Minha ideia é trazer luz”, disse Burke ao assumir o posto. Muito tarde. Não há nada de claro na cúpula da igreja católica.

A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras mãos invisíveis foi uma operação sabiamente montada cujos detalhes seguem sendo misteriosos: operação contra o poderoso secretário de Estado, Tarcísio Bertone, conspiração para empurrar Bento 16 à renúncia e colocar em seu lugar um italiano na tentativa de frear a luta interna em curso e a avalanche de segredos, os VatiLeaks fizeram afundar a tarefa de limpeza confiada a Greg Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos não é fácil de redesenhar.

Bento 16 acabou enrolado pelas contradições que ele mesmo suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada pública sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de São Pio 10, fundada pelo monsenhor Lefebvre, saudaram a figura do papa. Não é para menos: uma das primeiras missões que Ratzinger empreendeu consistiu em suprimir as sanções canônicas adotadas contra os partidários fascistoides e ultrarreacionários do monsenhor Levebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógrada que, de Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultradireita do mundo.

Bento 16 não foi o sumo pontífice da luz que seus retratistas se empenham em pintar, mas sim o contrário. Philippe Portier assinala a respeito que o papa “se deixou engolir pela opacidade que se instalou sob seu reinado”. E a primeira delas não é doutrinária, mas sim financeira. O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas maquiadas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por João Paulo 2º, que, para muitos especialistas, explica a crise atual.

Em setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o Banco do Vaticano. Próximo à Opus Deis, representante do Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou da preparação da encíclica social e econômica Caritas in veritate, publicada pelo papa Bento 16 em julho passado. A encíclica exige mais justiça social e propõe regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi teve como objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano. As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos de 1980, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo norte-americano Paul Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época.

João Paulo 2º usou o argumento da soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia. Não é de se estranhar, pois devia muito a ele. Nos anos de 1970, Marcinkus havia passado dinheiro “não contabilizado” do IOR para as contas do sindicato polonês Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais. Marcinkus terminou seus dias jogando golfe em Phoenix, em meio a um gigantesco buraco negro de perdas e investimentos mafiosos, além de vários cadáveres. No dia 18 de junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres. O corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. Seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda 2, mais conhecida como P-2, dirigida por Lício Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.

Ettore Gotti Tedeschi recebeu uma missão quase impossível e só permaneceu três anos a frente do IOR. Ele foi demitido de forma fulminante em 2012 por supostas “irregularidades” em sua gestão. Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no momento em que o Vaticano estava sendo investigado por suposta violação das normas contra a lavagem de dinheiro. Na verdade, a expulsão de Tedeschi constitui outro episódio da guerra entre facções no Vaticano. Quando assumiu seu posto, Tedeschi começou a elaborar um informe secreto em que registrou o que foi descobrindo: contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de “políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado”. Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas.

Aí começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhece bem o Vaticano diz que o banqueiro amigo do papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pela comissão de cardeais que fiscaliza o funcionamento do banco. Sua destituição veio acompanhada pela difusão de um “documento” que o vinculava ao vazamento de documentos roubados do papa.

Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do Banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se auto-alimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema.

Tradução: Katarina Peixoto

Leia também:

Banco do Vaticano é o principal acionista da indústria de armamentos Beretta

Vaticano: E o culpado é o mordomo

Bento 16: Crise e exaustão conservadora

Escândalo no Vaticano: A culpa é dos jornalistas e do diabo

Vaticano investiga vídeo de bispo acariciando empresária no mar

Banco do Vaticano é o principal acionista da maior indústria de armamentos do mundo

14 de fevereiro de 2013

Vaticano08_Armas

Via Atrevete a pensar, texto publicado em 10/7/2012

Talvez poucas pessoas saibam que a fábrica de armas Pietro Beretta Ltda. (a maior indústria de armas no mundo) é controlada pela Holding SpA Beretta e que o acionista majoritário da Holding SpA Beretta, depois de Gussalli Ugo Beretta, é o Instituto para Obras de Religião (IOR), comumente conhecido como Banco do Vaticano, instituição privada, fundada em 1942 pelo Papa Pio 12 e com sede na Cidade do Vaticano.

A história por trás de tudo isso é a seguinte:

Roma não foi construída em um dia, tampouco o Vaticano, e menos ainda sua opulência atual. Isso tem suas raízes no século 4 da era cristã, quando o imperador Constantino se converteu ao cristianismo e colocou à disposição do papa Silvestre I uma fortuna colossal – de fato o transformou no primeiro papa rico na história.

A Igreja Católica é a única organização religiosa do mundo que tem como quartel-general um estado independente: a cidade do Vaticano. Com seu 0,44 quilômetro quadrado de superfície o Vaticano é muito menor do que muitos campos de golfe no mundo; e para percorrê-lo sem pressa não se necessita muito mais que uma hora; contar suas riquezas, contudo, levaria bastante mais tempo.

A moderna opulência do Vaticano baseia-se na generosidade de Benito Mussolini que, graças à assinatura do Tratado de Latrão entre seu governo e o Vaticano, outorgou à Igreja Católica uma série de garantias e medidas de proteção. A Santa Sé conseguiu que a reconhecessem como um estado soberano, beneficiou-se com a isenção fiscal de sua propriedade para beneficiar seus cidadãos, que não precisavam pagar os direitos aduaneiros pelo que importavam do exterior. Foi-lhe concedida imunidade diplomática e seus diplomatas começaram a desfrutar dos privilégios da profissão, igual assim como os diplomatas estrangeiros reconhecidos junto à Santa Sé. Mussolini prometeu introduzir o ensino da religião católica em todas as escolas do país e deixou a instituição do casamento sob a égide das leis canônicas, que não admitiam o divórcio. Os benefícios que o Vaticano recebeu foram enormes, dentre eles, os benefícios fiscais foram preponderantes.

Em 1933, o Vaticano mais uma vez demonstrou sua capacidade de estabelecer negócios lucrativos com os governos fascistas. A concordata de 1929, assinada com Mussolini, foi seguida por outra entre a Santa Sé e o 3º Reich de Hitler. O gestor Francesco Pacelli foi uma das figuras-chave do pacto com Mussolini: seu irmão, o cardeal Eugênio Pacelli, futuro papa Pio 12, foi responsável pela negociação como secretário de Estado do Vaticano, assinando um tratado com a Alemanha de Hitler. Pio 12 conhecia bem a Alemanha. Ele fora núncio em Berlim, durante a 1ª Guerra Mundial, e depois, como secretário de Estado de Pio 11, teve inúmeras intervenções no rumo que estava tomando a política alemã. Nesta qualidade interveio decisivamente na encíclica de Pio 11, conhecida como Mit brennender sorge (que se pode traduzir “Com preocupação ardente”). A iniciativa da encíclica partiu, ao contrário do que se acredita, dos bispos alemães, sendo o primeiro rascunho escrito em Roma pelo Cardeal Faulhaber. O então cardeal Pacelli, que fala alemão, deu-lhe a forma final, apresentada a Pio 11, sendo então assinada e publicada. Apesar da constante e grande pressão mundial, o papa Pio 12 sempre se negou a excomungar Hitler e Mussolini; seu pontificado foi caracterizado pela adoção de uma falsa postura de neutralidade. Quando os nazistas invadiram a Polônia, o papa Pio 12 se recusou a condenar a invasão; uma das maiores vantagens que obteria o Vaticano do muito lucrativo acordo que mantinha com Hitler era a confirmação de Kirchensteuer, um imposto eclesiástico; trata-se de um imposto estadual que ainda hoje os fiéis alemães devem pagar, e só podem escapar se renunciarem à sua religião. Na prática, muito poucos renunciam. Este imposto representa por si só entre 8 e 10% dos impostos totais arrecadados pelo governo alemão.

***

Vaticano10_Vista_Aerea

Os números do Vaticano

Estima-se que o Vaticano seja o dono de cerca de 20% a 30% dos imóveis da Itália, incluindo igrejas, escolas, hospitais, clínicas e até hotéis.

Beatriz Olivon

No final de fevereiro, o papa Bento 16 deixará o cargo. Assim, ele deixa de ser chefe do Estado da cidade do Vaticano, o menor Estado do mundo em tamanho e um dos menores em população. O Estado da cidade do Vaticano tem 0,44 quilômetro quadrado, sendo o menor estado independente do mundo, de acordo com o banco de dados do livro CIA, o World Factbook. O Vaticano tem pouco mais de 800 moradores – 836, de acordo com estimativas de julho de 2012, só há dois estados com menos habitantes. Em 2011, a força de trabalho somava 2.800 pessoas, a maior parte delas mora fora do Vaticano e está empregada na área de serviços.

Estima-se que o Vaticano seja o dono de cerca de 20% a 30% dos imóveis da Itália, incluindo igrejas, escolas, hospitais, clínicas e até hotéis. Durante a crise econômica, um antigo imposto sobre bens imóveis que tinha sido extinto retornou e a oposição pediu que ele também fosse aplicado às propriedades do Vaticano.

Crise

Assim como seus pares na Europa, o Vaticano também sentiu a crise financeira. O livro da CIA afirma que nem o Vaticano escapou das dificuldades financeiras que afetaram a Europa e, em 2012, começou a avaliar onde cortar custos para reverter o déficit no orçamento de 2011. Os rendimentos foram de US$308 milhões em 2011 enquanto os gastos foram de US$326,4 milhões.

A maioria dos gastos públicos vai para salários e outros custos com pessoal. O relatório afirma que os rendimentos e condições de vida dos trabalhadores são comparáveis aos dos que trabalham em Roma.

O Vaticano é financiado por diversas fontes, incluindo investimentos, aluguel dos imóveis e doações. Uma coleta anual nas dioceses somada a doações diretas vai para um outro fundo usado diretamente pelo papa para caridade, desastres e ajuda a igrejas em países em desenvolvimento, segundo o CIA, o World Factbook. As doações aumentaram entre 2010 e 2011, segundo a CIA.

O orçamento do Estado da cidade do Vaticano inclui a receita dos museus, correio e venda de souvenir. A receita também aumentou entre 2010 e 2011 por causa do aumento no número de horas de funcionamento dos museus e do maior número de visitantes, segundo o relatório.

Leia também:

A história secreta da renúncia de Bento 16

Vaticano: E o culpado é o mordomo

Bento 16: Crise e exaustão conservadora

Escândalo no Vaticano: A culpa é dos jornalistas e do diabo

Vaticano investiga vídeo de bispo acariciando empresária no mar

Atualizado em 16/2/2013, às 19:34

Polícia Federal prende primo de ex-vice de José Serra

22 de outubro de 2012

Peço desculpas ao leitores do blog, pois confiei no Portal G1. Na realidade quem foi preso foi o primo de Índio da Costa e não o próprio.


%d blogueiros gostam disto: