Posts Tagged ‘Augusto Nunes’

Médicos cubanos: Quem são os responsáveis pelo corredor polonês em Fortaleza?

27 de agosto de 2013

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Não foi por explosão espontânea que os médicos cearenses chamaram seus colegas cubanos de “escravos, escravos!”. O ódio, a violência e o preconceito demonstrados na noite da segunda-feira, dia 26, foram atitudes disseminadas, a partir do conforto das redações da mídia tradicional, por três colunistas. Reinaldo Azevedo, em Veja, foi o primeiro a chamar os visitantes de “escravos”. Eliane Catanhêde, na Folha, acrescentou que viajariam ao Brasil em “aviões negreiros”. Augusto Nunes, do Roda Viva, chamou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, de “princesa Isabel às avessas”. Assim como não existiria o nazismo sem o Mein Kampf, de Hitler, o corredor polonês de Fortaleza não ocorreria sem os jornalistas que gravaram no imaginário dos médicos o rebaixamento completo dos cubanos. Nessa toada, a próxima pregação será “lincha, lincha!”?

Via Brasil 247

O que move o mundo são as ideias. Para frente ou para trás. A instalação do nazismo, na Alemanha dos anos 1930, foi precedida pela publicação do ideário de Adolf Hitler, o livro Mein Kempf. Hoje, no Brasil, o conjunto dos ideais disseminados por alguns dos mais conhecidos colunistas da mídia tradicional aponta para um caminho análogo, sem volta, de interdição do debate, aviltamento do adversário, exclusão do diferente. Corteja o totalitarismo já superado pela sociedade brasileira.

“Escravos, escravos!”

A palavra de ordem dos médicos cearenses contra seus colegas cubanos, que se preparavam para receber as primeiras noções sobre que Brasil é esse que eles vieram apoiar, não foi gritada por acaso. Essa figura foi gravada no imaginário coletivo dos médicos cearenses – e pode estar se multiplicando em outras regiões brasileiras – por três, em particular, colunistas adulados na mídia tradicional.

Do conforto de suas redações, Reinaldo Azevedo, primeiro, classificou em Veja os médicos cubanos, cujo trabalho é elogiado em todo o mundo no qual eles atuam em programas do tipo Mais Médicos, da Finlândia à África, de “escravos”. Na Folha, a decana Eliane Cantanhêde disse que os profissionais viajariam em “aviões negreiros”. Augusto Nunes, para não ficar atrás, escreveu em seu blog que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, se tornou uma “princesa Isabel às avessas”. Todos, sem exceção, com a mesma imagem de degradação do ser humano.

Não ocorreu à trinca de colunistas circunscrever suas diatribes aos irmãos Castro, Fidel e Raul, ou a Karl Marx e Frederic Engels, os grande teóricos do comunismo. Não. Eles pularam na jugular de cada um e de todos os médicos cubanos que atenderam, sob supervisão da Organização Pan-Americana de Saúde, ao chamamento oficial do governo brasileiro.

Na leitura de Azevedo, Eliane e Nunes, depreende-se que eles são “escravos” porque merecem. Vivem em Cuba porque são covardes para enfrentar a sua ditadura. Isso de um lado. Noutra hipótese, felizes, percorrem o mundo para agirem como arautos do socialismo, espiões à luz do dia, propagandistas de uma ideologia ultrapassada. Nenhuma linha sobre o trabalho que os médicos cubanos desempenharam no Haiti pós terremoto que devastou o país em 2010, classificado de “maravilhoso” por seus colegas de primeiro mundo (finlandeses). Nada sobre a ação pacificadora na África, na década de 1970. Nenhuma referência ao mundialmente exemplar programa de medicina da família executado dentro da própria Cuba, que por este tipo de expediente tem um Índice de Desenvolvimento Humano maior que o do Brasil. Zero.

Igualmente, os três colunistas não comentaram sobre os médicos de outros países – Espanha, Portugal, Argentina, Itália – que igualmente aceitaram a proposta do governo brasileiro para preencher vagas que os médicos brasileiros recusaram – com salários de R$10 mil por mês. Afinal, por que entrar em questões mais complexas para análise, se o mais importante é se divertir pela humilhação aos cubanos?

Sabe-se que, por este tipo de posicionamento rasteiro, a mídia tradicional está se afogando pela soma de dívidas demais e leitores de menos. Mas guarda-se ainda, é claro, um tipo de influência muito útil os momentos mais intensos de polaridade ideológica. Nessas horas, diante de programas como o Mais Médicos, que, efetivamente, podem mudar para melhor o padrão de atendimento de saúde nos rincões do País. Os mesmos rincões que não recebem médicos desde seu desbravamento.

Os três colunistas poderiam usar seus espaços para discutir, porque, afinal, a chamada classe médica jamais, em tempo algum, como um todo, voltou seus esforços para o Brasil real. A orientação da medicina brasileira é cobrar, e caro, pelo menor atendimento. Os médicos querem os grandes hospitais, jamais os pequenos prontos-socorros. Podia-se alegar, até aqui, que faltava incentivo para o avanço pelas artérias do País, mas agora não há mais. A remuneração oferecida pelo governo superou todas as expectativas. O Programa Mais Médicos, por outro lado, nada mais é que uma cópia escarrada do que já existe em diferentes partes do mundo, notadamente nos países mais avançados, como Inglaterra e Alemanha. Lá como cá foi preciso importar profissionais para superar carências. O que fazer, então, para dizer que o Mais Médicos não presta?

Ocorreu aos três colunistas chamarem os cubanos – esquecendo-se de todos os outros – de escravos. Uma distorção não apenas da situação que eles vivem em Cuba, mas uma covardia contra cada um e todos os integrantes do grupo recém-chegado. A opção foi criar um clima hostil, de guerra, de oposição total e completa à presença deles aqui. Viraram a mira de seus canhões para os mais fracos e indefesos.

Após chamar os profissionais de escravos, restará aos colunistas continuar o linchamento moral sobre eles. Poderiam, como Gandhi ou Luther King, atuarem pela conciliação entre o homens, mas se inspiraram em Hitler e Mao para disseminar o ódio. O resultado foi visto no Ceará.

***

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Jornalismo Wando: Augusto Nunes para iniciantes

13 de agosto de 2013
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Gutinho sempre bem acompanhado. Na foto, com a nata da ditadura militar: Paulo Maluf, Civitas e o ditador João Figueiredo.

O programa Roda Viva com Augusto Nunes, uma ótima pedida.

Via Jornalismo Wando

Daqui duas semanas, Augusto Nunes será o novo apresentador do programa Roda Viva. O presidente da Fundação Padre Anchieta, que administra a TV Cultura, resolveu apostar na serenidade, na sensibilidade e no senso de justiça jesuítico do blogueiro da Veja.

Para quem não o conhece, Gutinho é muito famoso pela finesse com que costuma tratar seus leitores e adversários políticos.

A seguir, apresento um pot-pourri com os melhores momentos do jornalista, demonstrando que a emissora não poderia ter feito escolha melhor.

O cuidado na escolha dos adjetivos para qualificar Lula:

“bêbado”, “ladrão”, “molusco”, “burro”, “afanador”, “cachaceiro”, “larápio” e “braço curto”.

O jeitinho fofo ao falar da presidenta Dilma:

O Manual de Dilmês Castiço parece coisa de bebum” e “Dilma é o neurônio solitário”.

A sensibilidade ao falar de Rui Falcão:

Mente a 80 piscadas por minuto” (em referência às sucessivas piscadas de Falcão, sequelas da tortura durante a ditadura).

Já aos leitores que discordam do articulista, um tratamento ainda mais amoroso é dispensado na caixa de comentários. Costumam ser chamados de “milicianos”, “idiotas” e “animais”:

Deixe de ser cínico, miliciano. Continue apenas idiota”,

Volte para o esgoto, miliciano. Hoje é dia de reunião da quadrilha”.

Não reparem, amigos. Ele está assim porque acabou de conhecer o famoso abraço-de-jegue”.

Não consegui descobrir em que dialeto se expressa a besta quadrada do comentarista”.

Cai fora ou o tratamento vai começar pelo abraço de jegue”.

Cai fora, animal!

Erros gramaticais só são tolerados se você compartilhar da opinião de Gutinho, caso contrário, será tratado com aquela elegância:

“‘Desprezível’, miliciana bianca. Com z. ‘Invés’ tem acento. Coloque um ‘o’ entre ‘que’ e ‘está’. E troque o ‘comopor um ‘com o’. De nada.”

Não pode escrever “é ciúmes”. Corte o ‘s’ e tente outra vez. Se errar de novo, não vai escapar da rasteira-do-Pelourinho e da voadora na testa.”

“Deveriam também conversar com os alunos sobre o espancamento do idioma, o assassinato da crase e o sequestro da vírgula. Vá estudar.”

Perca, miliciana? Vá ser imbecil assim em algum blog estatizado,”

Deveria ter aprendido que é ‘há’, com ‘h’, não “a”, de anta”.

Quando alguém se esforça em ser polido e educado, mas insiste em discordar do mestre, Gutinho nem termina de ler:

Quando um miliciano banca o educado, não continuo a leitura do comentário. Tente o anão do bispo”.

Um comentário que começa assim não precisa ser lido até o fim. É coisa de cretino”.

O carinho especial com as mulheres:

Cai fora, miliciana. O dono do cabaré acha que você precisa chegar mais cedo.”

O cuidado ao tocar em questões de sexualidade sem ser homofóbico:

“Mas que conversa mais afrescalhada, hein, ‘rapaz’? Bom codinome para noitadas na calçada do Jockey”.

Teve também o afago ao comentarista que lhe rendeu um processo:

“Começo com uma retificação: além de metido a esperto, caipira e jeca, você é um perfeito idiota brasileiro”.

Se Gutinho mediar o Roda Viva da mesma forma que administra a caixa de comentários de seu blog, será que veremos entrevistados e entrevistadores sendo chamados de “idiotas” ou sendo ameaçados com o tal “abraço de jegue”?

Bom, o programa promete fortes emoções e certamente alavancará a audiência. Tem tudo para se tornar um Programa Márcia de terno e gravata.

A vítima do moralismo seletivo da mídia é o leitor

31 de maio de 2013
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A filósofa fala a verdade e leva pancadas da velha e viciada mídia.

As corporações jornalísticas ignoraram o escândalo do Supremo e prestaram um desserviço a seus leitores.

Paulo Nogueira, via Diário do Centro do Mundo

As mordomias do STF são um assunto de grande interesse público. Elas revelam como a mais alta corte do País trata o dinheiro do contribuinte. Não existe pudor, não existe parcimônia: os juízes viajam de primeira classe e podem levar acompanhante desde que julguem “necessário”. Como eles fazem as regras, é tudo legal, mas imoral e abjeto.

Essas mordomias são notícia de alta importância, naturalmente. Mas não para a mídia, excetuado o Estadão, que revelou as mamatas. E isso conta tudo sobre o farisaísmo da mídia. Notícia é o que serve a seus interesses particulares. O resto não é notícia.

Colunistas sempre rápidos em despejar sentenças moralistas vulgares sobre seus leitores simplesmente não tiveram uma palavra para o escândalo. Fui verificar o que tinha a dizer, por exemplo, Ricardo Noblat, em seu blog. Nada.

Fui verificar o que tinham a dizer os colunistas do site da Veja, Augusto Nunes, Ricardo Setti e Reinaldo Azevedo. Nada, nada a nada, respectivamente.

Um tratamento bem diferente mereceu Marilena Chauí por dizer verdades que cabem a eles todos, campeões do pensamento rasteiro da classe média. Reinaldo Azevedo, ao tratar do discurso em que Chauí criticou a classe média, fez questão de levianamente, sem dados e sem nada, invocar o dinheiro que ela ganharia por conta dos livros do MEC. Havia apenas insinuação, havia apenas maldade, havia apenas a confiança de que seu leitor é tão tapado que vai aceitar o conto do MEC sem recibo e sem comprovação.

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Apenas a casa de Thatcher é avaliada em mais de US$10 milhões, mas segundo Azevedo ela “morreu pobre”.

Tratamento bem diverso teve, do mesmo Azevedo, Maggie Thatcher. Numa eulogia disparatada, Azevedo afirmou, no grande final, que Thatcher morreu pobre. Na pobreza de Thatcher estaria a prova suprema de suas virtudes de estadista.

Mais uma vez, Azevedo acreditou que é fácil engambelar seus leitores.

Porque apenas a casa de Thatcher na região mais nobre de Londres é avaliada em mais de 10 milhões de dólares.

Não é informação nova, e sim antiga.

Thatcher só não fez uma fortuna maior porque os problemas mentais logo a impediram, saída do cargo, de realizar palestras e dar consultoria a empresas como a Philip Morris.

O filho de Thatcher, Mark, amealhou uma considerável fortuna com comissões de grandes negócios feitos pelo governo da mãe com outros países.

Mas Thatcher morreu pobre no Planeta Azevedo, e Marilena, ela sim, é rica.

Moralismo, quando é seletivo, é hipocrisia mistura a cinismo. Destina-se não a corrigir desvios éticos, mas a tirar proveito da boa-fé dos chamados inocentes úteis.

O escândalo do STF, ignorado pela mídia, é apenas mais uma página de um conjunto de atitudes em que a vítima é a sociedade.

Lula no NYT desperta onda de inveja e preconceito

29 de abril de 2013

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Rancor, ressentimento e o velho ódio de classes contra o retirante que se tornou operário, líder sindical, presidente e um dos estadistas mais reconhecidos no mundo voltaram a aflorar desde que Luiz Inácio Lula da Silva foi convidado a publicar uma coluna mensal no The New York Times. Augusto Nunes, em Veja, já havia dito que Lula não sabe redigir um “tanquiú”. Guilherme Fiúza, em Época, agora afirma que os Estados Unidos decidiram “levar a sério o projeto de decadência do império”. Reconhecido pelo mundo inteiro e candidato seriíssimo ao Nobel da Paz, Lula deveria dizer apenas “sorry, periferia”.

Via Brasil 247

A trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva é conhecida. Ex-retirante, tornou-se operário, líder sindical, presidente e, depois disso, aprovado pela grande maioria de seu povo, passou a ser também reconhecido internacionalmente. À esquerda, pelo historiador Eric Hobsbawn, que afirmou que Lula “ajudou a mudar o equilíbrio do mundo, ao trazer os países em desenvolvimento para o centro das coisas”. No mercado financeiro, por Jim O’Neill, da Goldman Sachs, que criou a palavra Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) e o definiu como o maior estadista do mundo nas últimas décadas.

Lula, portanto, é um ativo valioso, que interessa a qualquer publicação no mundo. Além disso, com sua agenda internacional focada, sobretudo, na África, ele é hoje seriíssimo candidato ao Prêmio Nobel da Paz. Por isso mesmo, recebeu um convite para publicar uma coluna mensal no The New York Times, maior jornal do mundo, onde poderá defender suas causas e bandeiras. A história de superação de Lula, desprezada por analistas rancorosos e invejosos no Brasil, mas reconhecida até por seus adversários políticos, hoje inspira líderes do mundo inteiro.

Isso não significa, no entanto, que Lula está obrigado a redigir de próprio punho seus artigos. Como colunista, Lula, naturalmente, delegará a tarefa de produzir textos a algum escriba. É assim, sempre foi e sempre será no mundo inteiro. Políticos são homens de ação. Quando transplantam suas ideias para o papel, em geral, contam com auxílio profissional. Afinal, é para isso que existem jornalistas e ghost-writers. Tancredo Neves, por exemplo, que pronunciou alguns dos mais memoráveis discursos da história brasileira, delegava a tarefa ao jornalista Mauro Santayana. Bill Clinton e Barack Obama também têm ghost-writers.

No entanto, de Lula, cobra-se o que jamais foi cobrado de qualquer outro político brasileiro. Em Veja.com, Augusto Nunes classifica o ex-presidente como uma espécie de analfabeto, incapaz de pronunciar um “tanquiú”. Escriba de luxo de seus patrões, Nunes já se prestou a todo tipo de tarefa – entre elas, a de exaltar o “caçador de marajás” Fernando Collor, como está bem detalhado no livro Notícias do Planalto, de Mário Sérgio Conti, ex-diretor de Veja.

Estávamos, no 247, decididos a não comentar o texto de Nunes, uma das peças mais insignificantes já publicadas por algum de veículo de comunicação no Brasil. Mas não se trata, infelizmente, de um movimento isolado. No domingo, dia 28, em Época, Guilherme Fiúza, que se notabilizou por biografias de personagens como Bussunda e Reynaldo Giannechini, além do livro Meu nome não é Johnny, consegue descer ainda mais baixo do que seu concorrente em Veja.

Segundo ele, a coluna concedida a Lula é a prova de que “os norte-americanos estão levando a sério o projeto de decadência do império norte-americano”. Diz ele ainda que Lula se tornou para o New York Times “um suvenir da pobreza, desses que a esquerda norte-americana ama”. Fiúza sugere que Lula escreva Rose’s story e diz que ele poderá “narrar as peripécias de Waldomiro, Valdebran, Gedimar, Vedoin, Bargas, Valério, Delúbio, Silvinho, Erenice, Rosemary e grande elenco”. Por último, pede a Dilma que proíba a Polícia Federal de ler sua coluna.

O que dizer de personagens como Augusto Nunes e Guilherme Fiúza? Nada, a não ser “sorry, periferia”.

Augusto Nunes, “colonista” da Veja, ataca de patrulheiro ideológico

22 de dezembro de 2012
Lourival Fontes, do Dip, é o herói de Nunes, lambe-botas de Figueiredo e da ditadura militar.

Lourival Fontes, do Dip, é o herói de Nunes, lambe-botas de Figueiredo e da ditadura militar.

Ele aponta o dedo para “os que acham que mexer com o chefe supremo é mexer com eles”. Por detrás da tentativa de ironia sobressai uma prática do tipo alcaguetagem policial, A obsessão contra a popularidade Lula faz Augusto Nunes parecer Lourival Fontes, do Dip.

Via Brasil 247

A popularidade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece mesmo intragável para o jornalista Augusto Nunes. Mas pelo menos ele tenta ser bem-humorado, não fosse rasteiro. Na sexta-feira, dia 21, em sua coluna na edição eletrônica da revista Veja, Nunes faz uma heterogênea lista de nomes, organizada por ordem alfabética e núcleos “dos que acham que mexer com o chefe supremo é mexer com eles”. Trata-se de sua leitura caricata sobre o atual resgate do movimento, nascido no movimento sindical, nos anos de 1980, de solidariedade ao então perseguido sindicalista Luiz Inácio Lula da Lula: “Lula é meu amigo: mexeu com ele, mexeu comigo”.

Vindo do colunista, o rol de quase três centenas de nomes é um verdadeiro index, uma lista que se pretende negra. Nenhum democrata tem “um chefe supremo”, como ele rotula, assim como qualquer cidadão de bem tem todo o direito de se sentir ofendido ao se ver em companhias de assassinos como o presidente da Síria Bashar Al-Assad ou do traficante Nem, ex-chefão da Rocinha.

É bastante autoritária, por outro lado, a prática de apontar o dedo para pessoas, gesto típico dos alcaguetes. O passo seguinte à deduragem é o exercício da exceção. Uma atitude que remete aos antigos informantes a serviço dos censores e delegados que fizeram no Brasil, desde os tempos do Departamento de Imprensa e Propaganda (Dip), de Lourival Fontes, suas próprias listas de gente com direitos e gente sem direitos, os nossos e os deles, os que podem e os que não podem.

Seria risível ler os denunciados por Augusto Nunes, não fosse a tristeza de ver ele próprio, mais uma vez, tal qual um subserviente agente de polícia política.

Leia, a seguir, a coluna do jornalista (sic) Augusto Nunes.

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Nunca houve tanto ódio na mídia conservadora do Brasil

3 de dezembro de 2012

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Os textos de Demétrio Magnoli, Ricardo Noblat, Merval Pereira, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Eliane Cantanhede, dentre outros, são fontes preciosas para as futuras gerações de jornalistas e estudiosos da comunicação entenderem o que Perseu Abramo chamou apropriadamente de “padrões de manipulação” na mídia brasileira.

Jaime Amparo Alves, via Pragmatismo Político

Os brasileiros no exterior que acompanham o noticiário brasileiro pela internet têm a impressão de que o país nunca esteve tão mal. Explodem os casos de corrupção, a crise ronda a economia, a inflação está de volta, e o país vive imerso no caos moral. Isso é o que querem nos fazer crer as redações jornalísticas do eixo Rio–São Paulo. Com seus gatekeepers escolhidos a dedo, Folha de S.Paulo, Estadão, Veja e O Globo investem pesadamente no caos com duas intenções: inviabilizar o governo da presidenta Dilma Rousseff e destruir a imagem pública do ex-presidente Lula da Silva. Até aí nada novo.

Tanto Lula quanto Dilma sabem que a mídia não lhes dará trégua, embora não tenham – nem terão – a coragem de uma Cristina Kirchner de levar a cabo uma nova legislação que democratize os meios de comunicação e redistribua as verbas para o setor. Pelo contrário, a Polícia Federal segue perseguindo as rádios comunitárias e os conglomerados de mídia Globo/Veja celebram os recordes de cotas de publicidade governamentais. O PT sofre da síndrome de Estocolmo – aquela na qual o sequestrado se apaixona pelo sequestrador – e o exemplo mais emblemático disso é a posição de Marta Suplicy como colunista de um jornal cuja marca tem sido o linchamento e a inviabilização política das duas administrações petistas em São Paulo.

O que chama a atenção na nova onda conservadora é o time de intelectuais e artistas com uma retórica que amedronta. Que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso use a gramática sociológica para confundir os menos atentos já era de se esperar, como é o caso das análises de Demétrio Magnoli, especialista sênior da imprensa em todas as áreas do conhecimento. Nunca alguém assumiu com tanta maestria e com tanta desenvoltura papel tão medíocre quanto Magnoli: especialista em políticas públicas, cotas raciais, sindicalismo, movimentos sociais, comunicação, direitos humanos, política internacional… Demétrio Magnoli é o porta-voz maior do que a direita brasileira tem de pior, ainda que seus artigos não resistam a uma análise crítica.

Agora, a nova cruzada moral recebe, além dos já conhecidos defensores dos “valores civilizatórios”, nomes como Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro. A raiva com que escrevem poderia ser canalizada para causas bem mais nobres se ambos não se deixassem cativar pelo canto da sereia. Eles assumiram a construção midiática do escândalo, e do que chamam de degenerescência moral, com o fato. E, porque estão convencidos de que o país está em perigo, de que o ex-presidente Lula é a encarnação do mal, e de que o PT deve ser extinguido para que o país sobreviva, reproduzem a retórica dos conglomerados de mídia com uma ingenuidade inconcebível para quem tanto nos inspirou com sua imaginação literária.

Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro fazem parte agora daquela intelligentsia nacional que dá legitimidade científica a uma insidiosa prática jornalística que tem na Veja sua maior expressão. Para além das divergências ideológicas com o projeto político do PT – as quais eu também tenho –, o discurso político que emana dos colunistas dos jornalões paulistanos/cariocas impressiona pela brutalidade. Os mais sofisticados sugerem que a exemplo de Getulio Vargas, o ex-presidente Lula cometa suicídio; os menos cínicos celebraram o “câncer” como a única forma de imobilizá-lo. Os leitores de tais jornais, claro, celebram seus argumentos com comentários irreproduzíveis aqui.

Quais os limites da retórica de ódio contra o ex-presidente metalúrgico? Seria o ódio contra o seu papel político, a sua condição nordestina, o lugar que ocupa no imaginário das elites? Como figuras públicas tão preparadas para a leitura social do mundo se juntam ao coro de um discurso tão cruel e tão covarde já fartamente reproduzido pelos colunistas de sempre? Se a morte biológica do inimigo político já é celebrada abertamente – e a morte simbólica ritualizada cotidianamente nos discursos desumanizadores – estaríamos inaugurando uma nova etapa no jornalismo lombrosiano?

Para além da nossa condenação aos crimes cometidos por dirigentes dos partidos políticos na era Lula, os textos de Demétrio Magnoli , Marco Antônio Villa, Ricardo Noblat, Merval Pereira, Dora Kramer, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Eliane Cantanhede, além dos que agora se somam a eles, são fontes preciosas para as futuras gerações de jornalistas e estudiosos da comunicação entenderem o que Perseu Abramo chamou apropriadamente de “padrões de manipulação” na mídia brasileira. Seus textos serão utilizados nas disciplinas de ontologia jornalística não apenas com os exemplos concretos da falência ética do jornalismo tal qual entendíamos até aqui, mas também como sintoma dos novos desafios para uma profissão cada vez mais dominada por uma economia da moralidade que confere legitimidade a práticas corporativas inquisitoriais vendidas como de interesse público.

O chamado “mensalão” tem recebido a projeção de uma bomba de Hiroshima não porque os barões da mídia e os seus gatekeepers estejam ultrajados em sua sensibilidade humana. Bobagem! Tamanha diligência não se viu em relação à série de assaltos à nação empreendidos no governo do presidente sociólogo! A verdade é que o “mensalão” surge como a oportunidade histórica para que se faça o que a oposição – que nas palavras de um dos colunistas da Veja “se recusa a fazer o seu papel” – não conseguiu até aqui: destruir a biografia do presidente metalúrgico, inviabilizar o governo da presidenta Dilma Rousseff e reconduzir o projeto da elite “sudestina” ao Palácio do Planalto.

Minha esperança ingênua e utópica é que o Partido dos Trabalhadores aprenda a lição e leve adiante as propostas de refundação do país abandonadas com o acordo tácito para uma trégua da mídia. Não haverá trégua, ainda que a nova ministra da Cultura se sinta tentada a corroborar com o lobby da Folha de S.Paulo pela lei dos direitos autorais, ou que o governo Dilma continue derramando milhões de reais nos cofres das organizações Globo e Abril via publicidade oficial. Não é o PT, o Congresso Nacional ou o governo federal que estão nas mãos da mídia.

Somos todos reféns da meia dúzia de jornais que definem o que é notícia, as práticas de corrupção que merecem ser condenadas, e, incrivelmente, quais e como devem ser julgadas pela mais alta corte de Justiça do país. Na última sessão do julgamento da ação penal 470, por exemplo, um furioso ministro-relator exigia a distribuição antecipada do voto do ministro-revisor para agilizar o trabalho da imprensa (!). O STF se transformou na nova arena midiática onde o enredo jornalístico do espetáculo da punição exemplar vai sendo sancionado.

Depois de cinco anos morando fora do país, estou menos convencido por que diabos tenho um diploma de jornalismo em minhas mãos. Por outro lado, estou mais convencido de que estou melhor informado sobre o Brasil assistindo à imprensa internacional. Foi pelas agências de notícias internacionais que informei aos meus amigos no Brasil de que a política externa do ex-presidente metalúrgico se transformou em tema padrão na cobertura jornalística por aqui. Informei-lhes que o protagonismo político do Brasil na mediação de um acordo nuclear entre Irã e Turquia recebeu atenção muito mais generosa da mídia estadunidense, ainda que boicotado na mídia nacional. Informei-lhes que acompanhei daqui o presidente analfabeto receber o título de doutor honoris causa em instituições europeias, e avisei-lhes que por causa da política soberana do governo do presidente metalúrgico, ser brasileiro no exterior passou a ter uma outra conotação. O Brasil finalmente recebeu um status de respeitabilidade e o presidente nordestino projetou para o mundo nossa estratégia de uma América Latina soberana.

Meus amigos no Brasil são privados do direito à informação e continuarão a ser porque nem o governo federal nem o Congresso Nacional estão dispostos a pagar o preço por uma “reforma” em área tão estratégica e tão fundamental para o exercício da cidadania. Com 70% de aprovação popular, e com os movimentos sociais nas ruas, Lula da Silva não teve coragem de enfrentar o monstro e agora paga caro por sua covardia. Terá a Dilma coragem com aprovação semelhante, ou nossa meia dúzia de Murdochs seguirão intocáveis sob o manto da liberdade de e(i)mprensa?

Jaime Amparo Alves é jornalista e doutor em Antropologia Social pela Universidade do Texas.


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