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Lula recebe o 9º título de Doutor Honoris Causa na Argentina

17 de outubro de 2013

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Lido no SQN

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu na terça-feira, dia 15, em Buenos Aires, no 1º Fórum de Responsabilidade Social da Argentina, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Buenos Aires, das mãos do vice-reitor Alberto Barbieri.

A resolução da universidade diz que o título foi concedido, pois “a trajetória do ex-presidente Lula da Silva se destaca por sua firme vontade de garantir a todos o acesso a uma educação inclusiva e de qualidade”.

O título é o nono Doutor Honoris Causa que Lula recebe na Argentina. No dia 17 de maio, no Senado argentino, Lula recebeu, em cerimônia unificada, oito títulos de Doutor Honoris Causa.

Naquela ocasião, as universidades de Cuyo, San Juan, Córdoba, La Plata, Tres de Febrero, Lanús, San Martín e a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais concederam a honoraria ao ex-presidente brasileiro.

Cristina Kirchner recebe alta e inicia repouso por um mês

14 de outubro de 2013

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Dezenas de simpatizantes esperavam a governante nas portas do hospital com cantos e aplausos.

Via Agência Brasil

A presidente argentina, Cristina Kirchner, deixou no domingo, dia 13, o hospital Fundação Favaloro de Buenos Aires, onde passou por uma intervenção cirúrgica para tratar um hematoma cerebral.

A dirigente deve continuar em recuperação na residência oficial de Olivos. O boletim divulgado pela equipe médica informa que ela fará “repouso estrito” durante 30 dias, e não poderá viajar de avião até fazer novos exames. Os pontos na cabeça serão retirados daqui a cinco dias.

Dezenas de simpatizantes esperavam a governante nas portas do hospital com cantos e aplausos. Muitos deles estiveram acompanhando o estado de saúde de Cristina no centro médico desde a segunda-feira, dia 07. Cristina Kirchner sofreu um traumatismo craniano, em circunstâncias que ainda não foram esclarecidas.

O porta-voz presidencial, Alfredo Scoccimarro, informou que a presidência cumprimentava a todos e lhes agradecia por suas orações.

Força presidenta: Cristina Kirchner passa bem após cirurgia

8 de outubro de 2013

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Monica Yanakiew, via Agência Brasil

A operação da presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, foi bem-sucedida. Ela passou por uma cirurgia no Hospital Universitário para tratar um hematoma subdural, que é o acúmulo de sangue na cabeça. O primeiro boletim médico informa que houve drenagem de sangue entre a meninge e o crânio. O coágulo foi formado depois de uma batida na cabeça no dia 12 de agosto.

Os médicos dizem que foi afastado risco cardiovascular. Ela foi submetida também a exames de coração, porque foi internada na segunda-feira, após sentir formigamento no braço esquerdo.

O neurocirurgião José Maria Otero, do Hospital Alemão, disse, em entrevista à Agência Brasil, que a presidenta não deverá sofrer problemas na fala. “Foi uma sorte que o hematoma tenha sido do lado direito. Se fosse à esquerda poderia provocar dificuldade, porque é a área esquerda do cérebro que controla a fala”, informou o médico.

Cristina Kirchner ficará entre 24 e 48 horas na unidade de tratamento intensivo e, em seguida, permanecerá em repouso por, pelo menos, um mês.

Cartas de Geisel a Videla mostram elos da Operação Condor

20 de maio de 2013

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Dario Pignotti, via Carta Maior

Jorge Videla cumpriu o papel que dele se esperava na Operação Condor, o pacto terrorista que há 27 anos ocupou um capítulo importante na agenda argentina com o Brasil. O ditador Ernesto Geisel recebeu de bom grado a “nova” política externa do processo de reorganização nacional (e internacional), tal como se lê nos documentos, em sua maioria secretos, até hoje, obtidos pela Carta Maior.

“Foi com a maior satisfação que recebi, das mãos do excelentíssimo senhor contra-almirante César Augusto Guzzetti, ministro de Relações Exteriores, a carta em que Sua Excelência teve a gentileza de fazer oportunas considerações a respeito das relações entre nossos países […] que devem seguir o caminho da mais ampla colaboração”.

A correspondência de Ernesto Beckman Geisel dirigida a Videla exibe uma camaradagem carregada de adjetivos que não era característico desse general, criado numa família de pastores luteranos alemães.

“O Brasil, fiel a sua História e a seu destino irrenunciavelmente americanista, está seguro de que nossas relações devem basear-se numa afetuosa compreensão […] e no permanente entendimento fraterno”, extravasa Geisel, o mesmo que havia reduzido a quase zero as relações com os presidentes Juan Perón e Isabel Martinez, quando seus embaixadores na Argentina pareciam menos interessados em visitar o Palácio San Martin do que frequentar cassinos militares, trocando ideias sobre como somar esforços na “guerra contra a subversão”.

A carta de Geisel a Videla, de 15 de dezembro de 1976, chegou a Buenos Aires dentro de uma “mala diplomática”, não por telefone, como era habitual. No documento consta “secreto e urgentíssimo”, ao lado dessa nota.

Em 6 de dezembro de 1976, nove dias antes da correspondência de Geisel, o presidente João Goulart havia morrido, em seu exílio de Corrientes, o qual, de acordo com provas incontestáveis, foi um dos alvos prioritários da Operação Condor no Brasil, que o espionou durante anos na Argentina, no Uruguai e na França, onde ele realizava consultas médicas por causa de seu problema cardíaco.

Mais ainda: está demonstrado que, em 7 de dezembro de 1976, a ditadura brasileira proibiu a realização de necropsia nos restos do líder nacionalista e potencial ameaça, para que não respingassem em Geisel a parada cardíaca de origem incerta.

Não há elementos conclusivos, mas suspeitas plausíveis, de que Goulart foi envenenado com pastilhas misturadas entre seus medicamentos, numa ação coordenada pelos regimes de Brasília, Buenos Aires e Montevidéu, e assim o entendeu a Comissão da Verdade, da presidenta Dilma Rousseff, ao ordenar a exumação do corpo enterrado na cidade sulista de São Borja, sem custódia militar, porque o Exército se negou a dar-lhe há 10 dias, depois de receber um pedido das autoridades civis.

Voltemos à correspondência de Geisel de 15 de dezembro de 1976.

O brasileiro escreveu em resposta a outra carta, de Videla (de 3 de dezembro de 1976), na qual ele se dizia persuadido de que a “Pátria…vive uma instância dinâmica no plano das relações internacionais, particularmente em sua ativa e fecunda comunicação com as nações irmãs”.

“A perdurável comunidade de destino americano nos assinala hoje, mais do que nunca, o caminho das realizações compartilhadas e a busca das grandes soluções”, propunha Videla, enterrado ontem junto aos crimes secretos transnacionais sobre os quais não quis falar perante o Tribunal Federal N1, onde transita o megaprocesso da Operação Condor.

Os que estudaram essa trama terrorista sul-americana sustentam que ela se valeu dos serviços da diplomacia, especialmente no caso brasileiro, onde os chanceleres teriam sido funcionais aos imperativos da guerra suja.

Portanto, esse intercâmbio epistolar enquadrado na diplomacia presidencial de Geisel e Videla, pode ser lido como um contraponto de mensagens cifradas sobre os avanços do terrorismo binacional no combate à resistência brasileira ou argentina. Tudo em nome do “interesse recíproco de nossos países”, escreveu Videla.

Em dezembro de 1976, 9 meses após a derrubada do governo civil, a tirania argentina demonstrava que, além de algumas divergências geopolíticas sonoras com o sócio maior, havia de fato uma complementariedade das ações secretas “contra a subversão”.

Assim, pouco após a derrubada de Isabel Martínez, o então chanceler brasileiro e antes embaixador em Buenos Aires, Francisco Azeredo da Silveira, recomendou o fechamento das fronteiras para colaborar com Videla, para impedir a fuga de guerrilheiros e militantes argentinos.

Por sua parte, Videla, assumindo-se como comandante do Condor celeste e branco, autorizava o encarceramento de opositores brasileiros, possivelmente contando com algum nível de coordenação junto aos adidos militares (os mortíferos agremiles) destacados no Palácio Pereda, a mansão de linhas afrancesadas onde tem sede a missão diplomática na qual, segundo versões, havia um número exagerado de armas de fogo.

Entre março, mês do golpe, e dezembro de 1976, foram sequestrados e desaparecidos na Argentina os brasileiros Francisco Tenório Cerqueira Júnior, Maria Regina Marcondes Pinto, Jorge Alberto Basso, Sergio Fernando Tula Silberberg e Walter Kenneth Nelson Fleury, disse o informe elaborado pelo Grupo de Trabalho Operação Condor, da Comissão da Verdade.

O organismo foi apresentado por Dilma Rousseff perante rostos contidamente iracundos dos comandantes das Forças Armadas, os únicos, entre as centenas de convidados para a cerimônia, que evitaram aplaudi-la.

Ao finalizar o ato realizado em novembro de 2011, o então secretário de Direitos Humanos argentino Eduardo Luis Duhalde declarava a este site que um dos segredos melhor guardados da Operação Condor era a participação do Brasil e a sua conexão com a Argentina, e que essa associação delituosa só será revelada quando Washington liberar os documentos brasileiros com a mesma profusão com que liberou os documentos sobre a Argentina e o Chile.

Averiguar até onde chegou a cumplicidade de Buenos Aires e Brasília será mais difícil depois do falecimento de Videla, mas não há que se subestimar as pistas diplomáticas.

Em 6 de agosto de 1976, um telegrama “confidencial” elaborado na embaixada brasileira informa a seus superiores que o ministro de Relações Exteriores Guzzetti falou sobre a “nova” política externa vigente desde que “as forças armadas assumiram o poder” e a da vocação de aproximar-se mais do Brasil, após anos de distanciamento.

Ao longo de 1976, os chanceleres Azeredo da Silveira e Guzzetti mantiveram reuniões entre si e com o principal fiador da Condor, Henry Kissinger, que, segundo os documentos que vieram a público há anos a pedido do Arquivo Nacional de Segurança dos EUA, recomendou a ambos ser eficazes na simulação no trabalho de extermínio dos inimigos.

“Nós desejamos o melhor para o novo governo [Videla] […] desejamos seu êxito […]. Se há coisas a fazer, vocês devem fazê-las rápido […]”, recomendou o Prêmio Nobel da Paz estadunidense, ao contra-almirante e chanceler Guzzetti, em junho de 1976.

Tradução: Katarina Peixoto

Morre Videla na Argentina, onde ditador vai para a cadeia

17 de maio de 2013

Argentina_Videla06Leonardo Sakamoto em seu blog

Morreu, na quinta-feira, dia 17, de “causas naturais”, o general e ex-ditador Jorge Videla, aos 87 anos, no Centro Penitenciário Marcos Paz, onde cumpria pena de prisão perpétua por cometer crimes de lesa humanidade.

Ele comandou o golpe de março de 1976, que derrubou o regime democrático, e coordenou a repressão entre 1976 e 1983 – quando mais de 30 mil pessoas foram assassinadas por questões políticas, e mais de 500 bebês de ativistas foram sequestrados ou desapareceram. Em 2010, foi condenado à prisão perpétua, depois de ter sido condenado e anistiado anteriormente. Videla chegou a confessar que as mortes foram necessárias.

A Argentina pode ter um milhão de problemas. Mas conseguiu lidar com seu passado de uma forma bem melhor do que nós, punindo responsáveis por sua ditadura militar (uma das mais cruéis da América Latina), reformando sua anistia.

Por aqui, as coisas não funcionaram assim.

Por exemplo, o coronel Erasmo Dias morreu, em 2010, aos 85 anos. Na época, muita gente entrou em júbilo orgásmico com a notícia. Entendo a alegria de todos os que, durante a ditadura, foram atropelados pelos seus cavalos ou torturados sob sua responsabilidade. Mas não deixo de dar meus pêsames pela nossa incompetência, por não conseguirmos fazer com que esse arauto do retrocesso respondesse por tudo aquilo que fez. De 1974 a 1979, Erasmo ocupou o cargo de secretário de Segurança Pública em São Paulo, garantindo a ordem sob as técnicas persuasivas da Gloriosa. Ficou conhecido pela invasão da PUC/SP em setembro de 1977, ao reprimir um ato pela reorganização da União Nacional dos Estudantes.

Um amigo comentou que a “justiça” finalmente havia chegado para Erasmo através do câncer que o consumiu. Discordo. O sujeito com 85 anos, morando confortavelmente, sem ter de responder pelo passado, passa dessa para a melhor e isso é “justiça”? Não só não tivemos a competência para abrir e limpar publicamente as feridas que ele causou, como a sociedade ainda o elegeu deputado federal, deputado estadual e vereador.

Outra alma ceifada tempos atrás pela mesma “justiça” foi a do Coronel Ubiratan, responsável pela execução de 111 presos na Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo. Não é que a sociedade não conseguiu puni-lo, ela não quis puni-lo. Ele fez o servicinho sujo que muitos paulistanos desejam em seus sonhos mais íntimos, de limpeza social. Morreu em 2006, em um crime não solucionado. Estava a caminho de ser facilmente reeleito como deputado estadual, ironizando o país ao candidatar-se com o número 14.111.

Os dois não são casos únicos. Se listássemos os fazendeiros que assassinaram trabalhadores e lideranças rurais no Brasil e morreram com processos criminais (lentamente) tramitando contra eles, gastaríamos hectares e mais hectares. Quer mais um exemplo? O julgamento de Vitalmiro Bastos de Moura, condenado por ser um dos mandantes do assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang, foi novamente cancelado.

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Se o torturador Ustra fosse argentino, ele não teria essa moleza.

Todos os que lutam para que os direitos humanos não sejam um monte de palavras bonitas emolduradas em uma declaração sexagenária não se sentem contemplados com o passamento de Erasmo Dias, Ubiratan, ou mesmo de ditadores como Pinochet. Mas podem ficar tranquilos com a ida de Videla.

Não quero fazer Justiça por minhas mãos, não sou lelé da cuca. Quero apenas que a nossa justiça funcione. Ou, no mínimo, que a nossa sociedade consiga saldar as contas com seu passado.

Por aqui o governo brasileiro resolveu não mais tentar buscar a revisão da Lei da Anistia. Mais do que punir torturadores, seria uma ótima forma de colocar pontos finais em muitas das histórias em aberto e fazer com que pessoas tivessem, pela primeira vez em décadas, uma noite de sono inteira. A Presidência da República resolveu investir suas fichas na Comissão da Verdade, criada pelo Congresso Nacional. Ela é uma grande iniciativa. Mas, mesmo assim, não irá garantir que representantes daquele tempo, como o coronel Brilhante Ustra, deixem de reinventar a História como quiserem sem medo de serem punidos.

A Corte Interamericana de Direitos Humanos concluiu que o Brasil é responsável pelo desaparecimento de 62 pessoas entre os anos de 1972 e 1974, durante a Guerrilha do Araguaia. A Corte afirmou que as disposições da Lei de Anistia brasileira, que impedem a investigação e punição de violações contra os direitos humanos, são incompatíveis com a Convenção Americana dos Direitos Humanos. Ou seja, a Lei da Anistia vai contra um documento internacional assinado pelo Brasil e que o país deve respeitar. O tribunal, vinculado à Organização dos Estados Americanos (OEA), concluiu também que o país é responsável pela violação do direito à integridade pessoal de familiares das vítimas, em razão do sofrimento pela falta de investigações efetivas para o esclarecimento dos fatos. Além disso, é responsável pela violação do direito de acesso à informação, estabelecido no artigo 13 da Convenção Americana, pela negativa de dar acesso aos arquivos em poder do Estado com informação sobre esses fatos. E deve, enfim, investigar e punir as mortes por meio da Justiça.

Contudo, o Supremo Tribunal Federal, que vem sendo sensível em decisões sobre a dignidade humana, também deu de ombros e disse que tudo fica como está.

Uma pesquisa do Datafolha em 2010 apontou que 45% da população era contrária à punição de agentes que torturaram presos políticos durante a ditadura militar contra 40% a favor. Agarro-me desesperadamente à esperança de que o pessoal não entendeu exatamente do que se tratava.

Como já disse aqui, o impacto de não resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia a dia dos distritos policiais, nas salas de interrogatórios, nas periferias das grandes cidades, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica). A ponto de ser banalizada em filmes como Tropa de Elite, em que parte de nós torceu para os mocinhos que usavam o mesmo tipo de método dos bandidos no afã de arrancar a “verdade”.

A justificativa é a mesma usada nos anos de chumbo brasileiros ou nas prisões no Iraque e em Guantânamo, em Cuba: estamos em guerra. Ninguém explicou, contudo que essa guerra é contra os valores que nos fazem humanos e que, a cada batalha, vamos deixando um pouco para trás. Esse é o problema de sermos o país do “deixa disso” ou mesmo do “esquece, não vamos criar caso, o que passou, passou” e ainda do “você vai comprar briga por isso? Ninguém gosta de briguentos”.

Enquanto não acertarmos as contas com nossa história, não teremos capacidade de entender qual foi a herança deixada por ela – na qual estamos afundados até o pescoço e que nos define.

Só restam vivos Videla e Bush

10 de abril de 2013

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Jorge Rafael Videla, José Alfredo Martínez de Hoz e Margaret Thatcher governaram simultaneamente desde o dia 4 de maio de 1979 até o dia 29 de março de 1981. Os três compartilharam uma época que teve seu apogeu com Ronald Reagan e George Herbert Walker Bush, a dupla que se encarregou de aprofundar a desigualdade nos Estados Unidos e ganhar a última corrida contra a decadente União Soviética. O acaso faz com que Bush una todos os personagens desse tempo.

Martín Granovsky, via Página 12 e lido no Carta Maior

O mais velho dos três ainda está vivo. Nasceu no dia 2 de agosto de 1925. Tem 87 anos. O do meio nasceu no dia 13 de agosto de 1925 e morreu no último dia 16 de março. Tinha 87 anos. Ela era a mais jovem dos três. Nasceu dois meses depois que o segundo, em 13 de outubro. Também morreu aos 87 anos.

Jorge Rafael Videla, José Alfredo Martínez de Hoz e Margaret Thatcher governaram simultaneamente desde o dia 4 de maio de 1979 até o dia 29 de março de 1981. A primeira é a data em que Thatcher entrou na Downing Street 10 – a residência oficial do governo britânico – para começar seu trabalho como primeira-ministra. A última data marca o momento em que Videla, e com ele Martínez de Hoz, deixaram a casa Rosada e o Ministério de Economia. Videla havia assumido o poder com o golpe de 24 de março de 1976. Alguns dias depois, em 29 de março, a Junta Militar, também integrada por Emílio Eduardo Massera (Marinha) e Orlando Ramón Agosti (Aeronáutica), indicou Martínez de Hoz como ministro.

Os três compartilharam uma época que teve seu apogeu com Ronald Reagan e George Herbert Walker Bush (o pai de George W.), a dupla que se encarregou de aprofundar a desigualdade nos Estados Unidos e ganhar a última corrida contra a decadente União Soviética, entre 1981 e 1983. A URSS se desagregou em 1991, durante a presidência de Bush, que havia sido vice-presidente de Reagan. Ainda vive. Nasceu no dia 12 de junho de 1924 e tem 88 anos. O acaso faz com que Bush una todos os personagens desse tempo.

Membro da elite política, financeira e petroleira dos Estados Unidos, com o republicano Gerald Ford como presidente foi diretor da CIA, a Agência Central de Inteligência, entre janeiro de 1976 e janeiro de 1977. Antes havia sido o encarregado do escritório que deu início à aproximação com a República Popular da China, por decisão do presidente Richard Nixon e seu braço direito para a política externa, Henry Kissinger. Bush pai pertence à geração de políticos norte-americanos forjados não somente na Guerra Fria, mas também na 2ª Guerra Mundial, em seu caso como um jovem piloto da aviação naval condecorado por 58 missões.

O grande giro dos Estados Unidos começou a ocorrer com Nixon, presidente entre 1969 e 1973 e depois outra vez presidente, ainda que pela metade. Não completou seu segundo mandato pelo escândalo de Watergate, quando os jornalistas do The Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, descobriram a espionagem dos serviços de inteligência contra o Partido Democrata.

Além de reconhecer a China surgida na revolução de 1949, Nixon firmou a paz no Vietnã e oficializou o fim de uma guerra vencida pelo Vietnã do Norte, pelos guerrilheiros do Vietnã do Sul e pelo movimento pacifista norte-americano, fortalecido pelo espírito libertário nascido na década de 1960 e pelas centenas de milhares de cadáveres de jovens recrutas, que se tornaram uma carga social intolerável.

Nixon, Ford, Kissinger, Reagan e Bush fazem parte da casta que se propôs, e conseguiu, redesenhar seu país sem concessões a políticas populares como as de Franklin Delano Roosevelt nos anos de 1930, sufocar toda tentativa de mudança na América Latina e ganhar a corrida armamentista da outra superpotência com base em Moscou. A corrida armamentista e a corrida somente.

Thatcher integrou esse jogo em nível internacional tanto como os dirigentes norte-americanos ou como João Paulo 2º, que inaugurou seu papado em 1978. Com suas práticas e ideias procurou desmontar o máximo possível a construção trabalhista do pós-guerra. Hugo Young, que escreveu o livro Margaret Thatcher: La mujer de hierro, destaca duas expressões da líder conservadora que morreu na segunda-feira, dia 8.

Uma: “É impossível atender às pessoas necessitadas da sociedade a menos que alguém acumule riqueza suficiente para fazer isso”. Outra: “Não devemos pretender que o Estado apareça na forma de uma extravagante fada madrinha em todos os batismos, um acompanhante loquaz em cada etapa da viagem da vida, o parente de cada funeral”.

Reduziu o imposto para a parcela dos mais ricos de 83% para 60%. Duplicou o imposto sobre o valor agregado (consumo). Destruiu as conquistas dos mineiros do carvão, a tal ponto que na segunda-feira, dia 8, David Hopper, secretário-geral da Associação de Mineiros de Durham, festejou seu aniversário de 70 anos agradecendo estar vivo para celebrar “um grande dia”. “Não sinto nenhuma tristeza”, disse o sindicalista. “Thatcher destruiu nossa comunidade, nossos povos e nossa gente”. A primeira-ministra derrotou os mineiros após uma longa luta que iniciou com uma faísca: em março de 1984, o diretor da estatal Empresa Nacional do Carvão para South Yorkshire, George Hayes, informou aos sindicalistas que a mina de Cortortwood não seria fechada em cinco anos, mas sim em cinco semanas. Tudo para reduzir custos.

No diário conservador The Times, o jornalista George Osborne escreveu que Thatcher restaurou o otimismo no Reino Unido. Uma das formas dessa restauração, junto ao combate contra o igualitarismo, contra o Estado forte e contra o poder de negociação sindical, foi a decisão de enviar a força punitiva às Ilhas Malvinas após o desembarque ordenado pela Junta Militar, em 2 de abril de 1982.

Já não estavam no governo Videla nem Martínez de Hoz, mas sim Leopoldo Galtieri e Roberto Alemann. Os primeiros tinham protagonizado uma batalha por um ideal que Mariano Grondona chamava em sua revista Carta Política de “Extremo Ocidente”. Se o Ocidente era liderado então por Jimmy Carter, o democrata que governo os EUA entre 1977 e 1981, antes de Reagan, e protestou pelos direitos humanos na Argentina, então a Argentina devia ser o Extremo Ocidente. Videla e Martínez de Hoz chegaram a pactuar com a União Soviética o apoio doméstico e internacional à ditadura. Seu compromisso foi firme: em 1980 ambos cruzados da guerra suja não acompanharam Carter no boicote de cereais a URSS e fizeram com que fracassasse. Com Reagan, supunham os novos cruzados, que colaboraram no extermínio de toda forma de rebeldia na América Central, Ocidente e Extremo Ocidente, regressavam às mesmas fontes. Era certo, mas não calcularam que no mercado das alianças a presença de torturadores argentinos na América Central não era suficiente para conseguir o apoio de Washington a Buenos Aires contra Londres.

Ao contrário do que ocorreu nos vizinhos Chile e Brasil, na Argentina a transição democrática teve um componente nacional próprio: as Forças Armadas tinham sido derrotadas militarmente enquanto estavam no exercício do poder.

Só com muito cinismo poderia se dizer que Thatcher, sócia da ditadura e, sobretudo, de seus inspiradores globais, é a mãe da democracia argentina, e não a sua causa decisiva. Mas ninguém pode discutir que, como objetivo não buscado, mas real, a derrota militar na guerra de 1982 foi uma das parteiras da dissolução da tirania argentina. Dali em diante, como ocorreu em 1989, o thatcherismo seria possível exclusivamente com a combinação de crise profunda, desarticulação, medo e votos. Foi assim que os neoconservadores argentinos liderados por Carlos Menem cumpriram com uma das máximas preferidas de Thatcher: “Não há sociedades, só indivíduos”.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer


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