Posts Tagged ‘Acidentes’

Metrô de São Paulo à beira de uma tragédia

14 de outubro de 2013

Metro_Lotado09

Em ocorrência há uma semana, todas as portas de trem abriram-se sozinhas na estação. Fraudes na compra e manutenção de equipamentos já ameaçam vida dos usuários.

Tadeu Breda, da RBA

A composição do Metrô de São Paulo que descarrilou no dia 5 de agosto, nas proximidades da estação Palmeiras-Barra Funda, na Linha 3 Vermelha, voltou a sofrer uma pane grave na quarta-feira, dia 2/10. A falha colocou novamente a vida dos usuários em risco. Por volta das 18h30, na estação Santa Cecília, também na Linha 3 Vermelha, o trem abriu sozinho todas as suas portas, em todos os vagões, de ambos os lados – inclusive do lado oposto da plataforma, onde se encontra o trilho energizado. A composição está recolhida desde então. A ocorrência não foi divulgada publicamente, mas está registrada nos sistemas de segurança da Companhia do Metrô. A informação foi obtida junto a fonte interna, que não pode se identificar por razões óbvias.

De acordo com funcionários, bastava que os vagões estivessem lotados, como costuma ocorrer, e as pessoas certamente cairiam à via, sujeitando-se a choques elétricos, lesões e atropelamentos. “O Metrô é uma companhia de muita sorte”, disseram metroviários ao tomarem conhecimento da ocorrência. Segundo eles, dessa vez o acaso voltou a ajudar porque a falha ocorreu enquanto o trem se deslocava no sentido Palmeiras-Barra Funda. Se estivesse na direção contrária, encaminhando-se ao terminal Corinthians-Itaquera, dizem, estaria abarrotado e o desfecho seria diferente.

A composição é conhecida como K07 e pertence à frota K, recentemente reformada pelo consórcio MTTrens, integrado por MPE, Temoinsa e TTrans. A TTrans, líder do pool empresarial, é uma das companhias envolvidas nas denúncias de formação de cartel para burlar a concorrência em licitações para reforma de trens e ampliação da malha metroferroviária paulista. De acordo com documentos apresentados pela alemã Siemens ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), membros da administração tucana nos governos Mário Covas, Geraldo Alckmin e José Serra teriam participado do conluio.

Dois meses antes de abrir todas as suas portas em movimento, o mesmo K07, por volta das 6h da manhã, descarrilava nas proximidades da estação Palmeiras-Barra Funda. A composição teve um de seus truques (termo técnico que designa o sistema composto por rodas, tração, frenagem e rolamentos) danificados devido a um superaquecimento que, por sua vez, fora provocado pela ausência de graxa nas engrenagens da peça. Após sair dos trilhos, o vagão foi arrastado por 800 metros e danificou a linha de alimentação elétrica do trem. Houve estouros, curto circuitos e fumaça. Os passageiros saíram pela rota e fuga. Ninguém se feriu.

O acidente foi “inédito” no Metrô de São Paulo. Depois de entrar para a história, o K07, recém reformado, foi retirado de circulação por um mês. A peça danificada permaneceu num dos pátios da companhia, coberta com lona e sob vigilância de seguranças patrimoniais. Nem o Sindicato dos Metroviários nem membros da Comissão Interna para Prevenção de Acidentes (Cipa) puderam inspecioná-la. Tampouco receberam informações da empresa sobre a falha. Apenas no dia 5 de setembro é que tiveram conhecimento da versão oficial, pela boca de dois técnicos da Comissão Permanente de Segurança (Copese) do Metrô.

Na ocasião, uma reunião da Cipa, um dos membros da Copese garantiu aos metroviários: a possibilidade de que o K07 sofresse novos acidentes era baixa e, por isso, o trem seria liberado para operação. “Não há mais necessidade de permanecerem retidos”, afirmou o engenheiro, de acordo com a ata do encontro. “Não há interferência na segurança do sistema.” Pouco menos de um mês depois, na última quarta-feira (2), as portas do mesmo K07 se abririam automaticamente com o trem em movimento, colocando em risco a vida dos passageiros em pleno horário de pico.

Outros trens da frota K vêm apresentando falhas. Em 27 de agosto, Outras Palavras noticiou que o Metrô coloca sistematicamente em circulação as composições reformadas pela MTTrens mesmo quando estão com defeito. Também publicamos um levantamento informal realizado por metroviários da Linha 3 Vermelha que atestava: apesar de serem novos, os trens reformados e fabricados pelas empresas envolvidas no cartel – entre eles toda a frota K – apresentam média de problemas técnicos até quatro vezes maior que as composições antigas, com cerca de 30 anos de uso. Algumas chegam a registrar média de 35 defeitos por dia.

Na semana passada, funcionários constataram que até mesmo os extintores de incêndio de alguns trens da frota K estão com a validade vencida pelo menos desde abril. Mas nem todos os defeitos são tão pueris. “Houve um dia em que eu mesmo estava no K07 quando constatei que o sinalizador de falhas não estava funcionando, ou seja, poderia ocorrer qualquer problema que o operador não teria informação nenhuma”, denuncia um condutor da Linha 3 Vermelha do Metrô que também não quis se identificar por medo de represálias – ainda mais agora que a companhia iniciará programa de demissões para cortar gastos como desculpa para manter o preço da tarifa em R$3,00.

“Para piorar, fiz um teste e percebi que o botão de emergência, quando acionado pelo usuário, não tocaria nenhum alarme na cabine”, continua, apontando defeitos básicos na segurança do sistema. “Somando essas duas falhas, o trem poderia estar pegando fogo e o operador não saberia. O usuário tentaria informá-lo através do botão de emergência e não conseguiria, pois não se escutaria nenhum alerta na cabine. Essas falhas foram registradas. E são constantes.”

São Paulo: Um freio na PM

13 de janeiro de 2013
Agora, somente a equipe do Samu poderá atender os acidentados nas ruas.

Agora, somente a equipe do Samu poderá atender os acidentados nas ruas.

Carlos Motta em seu blog

A Polícia Militar paulista não se conforma com a norma baixada pelo governo do Estado que a proíbe de prestar atendimento a vítimas graves. Com essa resolução fica mais difícil para os PMs mexerem na chamada “cena do crime”, prática que era muito comum e que visava isentá-los de qualquer complicação posterior à ocorrência.

O que os jornais cansaram de noticiar era que, depois de trocar tiros com a polícia, o meliante, ferido, era “socorrido” pelos PMs e, infelizmente, chegava sem vida ao hospital.

O que se sabe é que, sob o pretexto de “socorrer” as vítimas, os PMs acabavam por executá-la. A ocorrência era registrada nas delegacias como “resistência seguida de morte”.

Agora, atendendo a pedido da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, a Polícia Civil de São Paulo não vai mais registrar ocorrências de homicídios cometidos por policiais como “resistência seguida de morte”.

Assim, casos em que pessoas são mortas após supostos conflitos com a força pública de segurança deverão ser registrados como “morte decorrente de intervenção policial”. A recomendação da SDH foi feita no início de dezembro como forma de evitar a manipulação dos registros policiais.

O esperneio da PM, portanto, tem seus motivos: as novas resoluções permitem que as ocorrências com feridos ou mortos sejam devidamente investigadas. Antes, bastava apenas a palavra dos policiais para dar o caso por encerrado, já que a vítima do confronto havia morrido “a caminho do hospital”.

A segurança pública tem sido o calcanhar de aquiles do governo de Geraldo “Picolé de Chuchu” Alckmin, que, recentemente, trocou toda a cúpula do setor.

Essas medidas são, claramente, para mostrar à tropa que existe um comando externo. Podem não ser suficientes para mudar a mentalidade dos policiais militares paulistas, que ainda vivem como se estivessem na ditadura, mas servem como um recado para que mudem seu modo de agir, incompatível com o atual estágio da democracia brasileira.

Quem sabe agora a PM refreie, um pouco que seja, a fúria de seus cães de caça.

Conceição Lemes: São Paulo é o único estado que não investe um centavo no Samu 192

18 de julho de 2012

Conceição Lemes, via Vi o mundo

Quem já precisou de socorro para alguém em casa, via pública ou local de trabalho, sabe o alívio que dá quando liga para o 192 e a ambulância do Samu chega ao local. Afinal, são equipes treinadas para lidar com emergências e alguns minutos podem fazer a diferença entre a vida e a morte ou mais sequelas.

Samu atende onde o paciente está. É a sigla do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, programa criado no primeiro ano do governo do ex-presidente Lula pelo então ministro da Saúde Humberto Costa.

Há dois anos, o Viomundo denunciou: São Paulo era o único estado brasileiro que não punha um centavo no Samu/192), embora tivesse sido governado até abril de 2010 por José Serra (PSBD), que foi ministro da Saúde no governo FHC. Serra manteve a decisão de São Paulo não aderir à implantação do Samu tomada por seu antecessor no Palácio dos Bandeirantes, o também tucano Geraldo Alckmin, que desde janeiro de 2011 está de volta ao cargo.

Todos os demais estados – inclusive os do Norte e Nordeste – participavam do financiamento do Samu: 50% dos recursos são do governo federal, 25% do estado e outros 25% do município.

Em 5 de junho deste ano, a Folha de S.Paulo publicou a reportagem Resgate nota 10. Dizia:

Samu de São Paulo ganha prêmio mundial de eficiência em atendimentos de emergência.

Acrescentava:

É o primeiro da América Latina a conquistar o “Certificado Internacional de Eficiência”, ao lado de outras grandes metrópoles como Londres e Berlim.

No twitter, José Serra, candidato à Prefeitura, saudou a premiação do Samu da capital:

Esse tweet levou-nos à pergunta óbvia: E o Estado de São Paulo como estaria? Será que dois anos depois da primeira reportagem, ele já participaria do Samu?

O Viomundo contatou o Ministério da Saúde para averiguar quais estados e municípios tinham parceria com o Samu. Afinal, é o único órgão que dispõe dessas informações atualizadas. O objetivo era ter um mapa da distribuição no Brasil e saber se, finalmente, São Paulo já contribuía.

Ao mesmo tempo, contatamos a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo para saber se o estado participava do pacto tripartite.

A partir daí foi um jogo de empurra de semanas.

A assessoria de imprensa do Ministério da Saúde respondeu:

A cobertura do Samu 192 no Brasil é de 64%: ou seja, temos 121.967.804 habitantes com acesso ao Samu 192. Por região temos: Norte — 51%; Nordeste — 61%; Centro-oeste — 79%; Sudeste — 65%; e Sul — 66%.

Atualmente, o Samu 192 no Brasil é composto por 165 Centrais de Regulação das Urgências, com cobertura de 1.970 municípios com acesso ao Samu 192 em todos os estados. Temos ainda 2.052 municípios em processo de expansão ou implantação do serviço.

No quesito qualidade do atendimento, o Ministério da Saúde está ampliando e qualificando o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Os municípios poderão ter aumento de 66% no valor de custeio das ambulâncias caso os gestores locais atendam a critérios de qualidade. Todo Samu 192 já habilitado tem direito a solicitar essa qualificação.

O atendimento pré-hospitalar móvel visa chegar à vítima nos primeiros minutos após um agravo a sua saúde de caráter urgente. A gravidade com risco de morte é uma situação extrema, onde o serviço móvel de atendimento visa evitar complicações clínicas e o óbito. No Brasil, o Samu teve início através de um acordo bilateral, assinado entre o Brasil e a França, através de uma solicitação do Ministério da Saúde. Foi criado em 2003 e oficializado pelo Ministério da Saúde por meio do Decreto nº 5.055, de 27 de abril de 2004. O Samu 192 é parte da Política Nacional de Atenção a Urgências, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu/192) e tem contribuído com o Estado brasileiro a reduzir o número de óbitos, o tempo de internação em hospitais e as sequelas decorrentes da falta de socorro, principalmente no contexto das emergências clínicas.

As despesas de custeio mensal do componente Samu 192 são de responsabilidade compartilhada, de forma tripartite, entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios. A União é responsável pela proporção de 50% das despesas, que no ano de 2011 correspondeu a R$430.204.000,00. A complementação dos recursos financeiros repassados pelo Ministério da Saúde para o custeio mensal do Componente Samu 192 é de responsabilidade conjunta dos Estados e dos Municípios, em conformidade com a pactuação estabelecida na respectiva CIB (os grifos são do Ministério da Saúde).

Retorquimos. Afinal, a pergunta básica não foi respondida. Quais estados têm parceria com o Samu e quais não têm?

A assessoria de imprensa do Ministério da Saúde devolveu:

Sua pergunta básica foi respondida na seguinte frase:

Atualmente, o Samu 192 no Brasil é composto por 165 Centrais de Regulação das Urgências, com cobertura de 1.970 municípios com acesso ao Samu 192 em todos os estados [os grifos e negritos são do Ministério da Saúde].

Voltamos à carga, já que existir em todos os estados não significa que determinado estado invista recursos no Samu. A assessoria de imprensa informou:

Segue a resposta da área técnica a seu pedido.

O Ministério da Saúde pactua o serviço do Samu 192 com estados e municípios e normatiza as portarias. O repasse do custeio é pactuado com os gestores estaduais e municipais nas Comissões Intergestores Bipartite (CIB). O cumprimento desse repasse é de responsabilidade de cada gestão. O Ministério realiza o repasse de sua responsabilidade e o investimento estadual e municipal é de responsabilidade de cada parte.

Insistimos, já que a pergunta central continuava sem resposta. A assessoria de imprensa mais uma vez se esquivou:

Para informações referentes aos estados, o Ministério da Saúde orienta a buscá-las com as respectivas secretarias estaduais de Saúde.

Da assessoria de imprensa da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, o Viomundo cobrou a resposta por telefone e e-mail, no mínimo, dez vezes.

Inicialmente, respostas eram deste gênero:

– Nós vamos te responder daqui a pouquinho.

– Já, já, te respondemos por e-mail.

Depois, foram estas:

– Nós não temos nada ver com o Samu.

– Isso é com o Ministério da Saúde e a Secretaria Municipal de Saúde.

Só que nunca informou isso por escrito. Só de boca. Diante de nossa insistência em ter a resposta documentada e a reiterada recusa da Secretaria Estadual de Saúde, gravamos esta última resposta, informando que estávamos fazendo isso:

– O Samu é uma responsabilidade do município financiada pelo Ministério da Saúde.

– Mas então o Estado de São Paulo não faz parte da tripartite do Samu?

– O Estado entra com os hospitais onde são levados os pacientes.

Conclusão 1: O Estado de São Paulo continua a não investir um centavo no Samu 192. Daí esse jogo de empurra e a falta de transparência.

Da parte da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, provavelmente para encobrir a omissão dela em relação a esse serviço fundamental.

Da parte do Ministério da Saúde, seria para não se indispor com os tucanos paulistas? Ou para não deixar o secretário da Saúde em saia justa? Convivência ou fazer vista grossa? Se nenhum desses motivos, qual afinal?

Relembramos que o Ministério da Saúde é o órgão que tem o real mapa da situação. Tanto que, em 2010, foi quem nos esclareceu sobre de São Paulo.

Conclusão 2: Se São Paulo contribuísse com a porcentagem que foi pactuado, certamente a cobertura do Samu no Estado seria muito maior.

Conclusão 3: O atendimento do Samu no Estado de São Paulo é custeado unicamente pelo governo federal e municípios.

“A conta fica mais pesada para os municípios, já que são obrigados a se responsabilizar também pela parte que deveria ser do estado”, lamenta o médico Arthur Chioro, secretário da Saúde de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, e presidente do Conselho de Secretários Municipais do Estado de São Paulo (Cosems). “Arcam com 50% do custeio total do Samu e não com os 25% previstos na portaria do Ministério da Saúde.”

Essa situação onera financeiramente todos os municípios, independentemente do porte. Nas cidades menores, há uma dificuldade adicional. O Samu deve ser regional e exige a participação da Secretaria Estadual de Saúde também na articulação de diferentes municípios de uma região.

“Só que como a Secretaria Estadual de Saúde não aporta a sua parte nos recursos previstos na legislação que regulamenta o Samu, esse processo está travado em algumas regiões no interior de São Paulo”, constata Arthur Chioro. “Há municípios que receberam as ambulâncias e não conseguem colocá-las em funcionamento.”

A propósito. Antes da criação do Samu, algumas cidades, como Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre, dispunham de serviço público para atender emergências pré-hospitalares. Porém, como programa do SUS [Sistema Único de Saúde], destinado a 100% da população, o Samu só passou a existir em 2003.

Se na sua cidade já tem, não hesite em telefonar para o 192 nestas situações:

● Ocorrência de problemas cardiorrespiratórios

● Intoxicação

● Queimaduras graves

● Ocorrência de maus tratos

● Trabalhos de parto onde haja risco de morte da mãe ou do feto

● Tentativas de suicídio

● Crises hipertensivas

● Quando houver acidentes/trauma com vítimas

● Afogamentos

● Choque elétrico

● Acidentes com produtos perigosos

● Transferência entre hospitais de doentes com risco de morte

“Mas não dá para obrigar o Estado de São Paulo a investir no Samu?”, muitos devem estar perguntando.

A resposta é não. A expectativa é que a Secretaria Estadual de Saúde reveja algum dia sua posição, pois facilitaria a ampliação do Samu no estado. Enquanto isso não ocorrer, São Paulo estará deixando de cumprir a sua responsabilidade neste importante serviço, que ajuda a salvar vidas.


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