Sob o tacão da mídia, TSE prepara nova violência contra a democracia

20 de março de 2017

Miguel do Rosário, via O Cafezinho em 16/3/2017

Lasciate ogni speranza,
voi ch’entrate.

A frase que Dante fixou na porta do inferno nunca foi tão atual como no Brasil do golpe.

A cassação da chapa de Dilma/Temer me parece favas contadas. Se o golpismo tinha poder sobre o TSE antes do impeachment, agora a sua ascendência tornou-se infinitamente mais poderosa.

Reportagem da Folha de dois dias atrás (só tive tempo de analisá-la hoje), transmite um recado nada sutil para o relator do processo no TSE.

O título da matéria aborda a vida sexual do ministro, coisa que nunca se viu em relação a nenhum outro magistrado.

É mais um capítulo do regime de exceção: mídia chantageando ministros à luz do dia.

A podridão não para por aí. A matéria da Folha reúne, num só texto, todas as armas da mídia e do golpe para convencer um ministro a obedecer suas diretrizes: ameaças, propinas, vaidade, indicação a um cargo superior.

A ameaça já foi abordada. A exposição da vida sexual do ministro no título de uma matéria, num país tão homofóbico como o nosso, me parece suficientemente ameaçadora.

A propina é uma promessa óbvia. Não falta dinheiro para juízes que aderem ao golpismo. A Globo dá prêmio. Revistas norte-americanas dão prêmios. Chovem convites para palestras, inclusive no exterior, mediante cachês sobre os quais o CNJ, oportunamente, decretou sigilo, em meados de 2016 (na mesma semana em que, coincidentemente, Sérgio Moro foi convidado para uma palestra num importante think tank de Washington).

Por que o CNJ decretou sigilo sobre valor de palestras de juízes exatamente no momento mais delicado da vida política nacional, em que a crise política pede transparência absoluta, em especial para magistrados? Por que a imprensa corporativa, sempre tão curiosa sobre a renda dos políticos, não demonstrou o mesmo interesse por essa estranha renda extra para juízes?

Voltando à matéria da Folha sobre Herman Benjamin, o fator vaidade também não falta. A matéria é bem direta nesse ponto:

Benjamin é vaidoso, dizem os mais próximos, e sabe que tem oportunidade de fazer história a poucos meses de deixar a corte, em outubro deste ano.

A expressão “Fazer história”, numa matéria da Folha, não deixa dúvidas: é aderir de vez ao golpe.

Por fim, o jornal abana a última cenoura à frente de Benjamin: uma vaga para ministro do STF. A referência não poderia ser mais direta. Parodiando, Nelson Rodrigues, os malandros perderam a modéstia.

Benjamin quer aproveitar a oportunidade [a votação da cassação da chapa Dilma/Temer] para se credenciar a uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal).

A coisa é muito direta. Benjamin cassa a chapa e, mais tarde, ganha uma vaguinha no STF.

Michel Temer não precisa se preocupar. Cinco ministros do TSE (são sete, no total) já indicaram, segundo o Estadão, um dos porta-vozes oficiais do golpe, que irão votar pela separação das chapas. Ou seja, vão cassar somente Dilma e preservar o mandato de Temer, em nome da “estabilidade política”.

A questão intrigante é, se não vão cassar Temer, porque perder tempo julgando Dilma, que não é mais presidenta? A resposta é simples: consolidar a narrativa da “luta contra corrupção”, desviar o foco da crise econômica e, sobretudo, uma demonstração de poder por parte do mesmo consórcio que liderou o golpe.

Em tempos de exceção, todos ministros antecipam seu voto alegremente. Ou então se trata, como também é possível, de uma estratégia malandra da imprensa corporativa, que vota no lugar dos juízes.

É tudo tão simples!

Tucanos a Paulo Preto: “Não abra o bico”.

20 de março de 2017

Fernando Brito, via Tijolaço em 16/3/2017

Na coluna de Lauro Jardim, hoje [16/3], em O Globo, diz-se que “cabeças coroadas do PSDB de São Paulo têm pressionado Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, a desistir de sua delação premiada”.

A delação de Preto, todos dizem – inclusive o próprio colunista, versaria sobre as obras do Rodoanel, tanto com a OAS quanto com a Odebrecht, que teriam rendido polpudas vantagens a José Serra.

Estaríamos agora diante de uma nova modalidade, a “calação premiada”?

Obstrução da Justiça é isso aí, mas essa não vem ao caso.

Dilma chuta o pau da barraca e diz que o Brasil é governado por ladrões

20 de março de 2017

Via Brasil 247 em 17/3/2017

Eleita com 54 milhões de votos e derrubada por um golpe parlamentar, liderado por políticos que em breve serão investigados por esquemas de corrupção, caixa 2 e propina, a presidente deposta Dilma Rousseff concedeu à jornalista Maria Cristina Fernandes sua mais contundente entrevista, desde que foi afastada do poder.

Sem meias palavras, Dilma deixou claro que o Brasil hoje é governador por ladrões. Não apenas Michel Temer, mas vários de seus aliados foram apontados como corruptos por Dilma.

“O gato angorá tem uma bronca danada de mim porque não o deixei roubar. Chamei o Temer e disse: ‘Ele não fica’“, diz Dilma, explicando por que demitiu Moreira Franco da Secretaria de Aviação Civil.

Coincidência ou não, Moreira Franco, que recentemente ganhou o foro privilegiado, aparece nas delações da Odebrecht, sendo acusado de cobrar propinas nas concessões de aeroportos.

Sobre Temer, Dilma deixa claro que é o próprio Eduardo Cunha, preso há mais de quatro meses em Curitiba, quem o chama de ladrão, nas perguntas que tentou encaminhar a ele, mas que foram vetadas pelo juiz Sérgio Moro. “Lá está Eduardo Cunha dizendo que quem roubava na Caixa Econômica Federal, no FGTS, é o Temer. Leia minha filha. Alguém não sabe que o Cunha está dizendo que não foi o Yunes, mas o Temer?”, questiona Dilma, mencionando ainda o ex-assessor especial José Yunes, que disse ter sido “mula” de Eliseu Padilha.

Dilma explica ainda por que não se aliou a Eduardo Cunha, para tentar evitar o golpe. “Você está falando de um gângster inteligente. Devia ajoelhar e aceitar as condições?”, questiona. “Você vai me desculpar, mas eu não vou assaltar o País. Eduardo Cunha e eles assaltam o País”.

A presidente legítima, que tem circulado como popstar pelo exterior, disse ainda que um de seus erros foi permitir que Michel Temer assumisse a articulação política, ao lado de Eliseu Padilha. Com isso, os dois perceberam as fragilidades da base aliada e prepararam o bote do golpe parlamentar de 2016. Padilha e outros aliados de Temer, como Geddel Vieira Lima, também são elencados por Dilma na categoria de “ladrões”.

“Saber quem eles são, nós sabemos. Não tenho a menor dúvida de quem é Padilha e Geddel. Sabia direitinho. Inclusive uma parte do que sou e da minha intolerância é porque eu sabia demais quem eles eram”.

Resumo da ópera: Dilma caiu porque não permitiu que a turma do PMDB, hoje no poder sem intermediários, roubasse o quanto queria.

A Previdência e a quadrilha que assumiu o poder

20 de março de 2017

Luis Nassif, via Jornal GGN em 17/3/2017

PEÇA 1 – OS CABEÇAS DE PLANILHA DE TEMER
Uma característica de todo economista neófito de governo são as propostas radicais, voluntariosas, a radicalização das medidas propostas, como se não houvesse limites sociais e políticos, e como se todas as soluções da economia dependessem apenas da força de vontade e quanto mais radicais, mais virtuosas.

São ignorantes na análise do tempo político ou mesmo nos efeitos de medidas radicais sobre o ambiente econômico e social. Todos acreditam na fada das expectativas positivas – basta mostrarem firmeza que os agentes econômicos acreditarão e da fé nascerão os investimentos.

No governo Dilma, o exemplo acabado foi Joaquim Levy e seu pacote radical que permitiria a superação da crise em três meses.

No governo Temer, poupados pela mídia, o desmonte passou a ser comandado por meia dúzia de cabeças de planilha que cercam Henrique Meirelles, pessoas como a Secretária do Tesouro Nacional Ana Paula Vitali Janes Vescovi, cujo radicalismo enterrou o governo do Espírito Santo, o Secretário Executivo da Fazenda Eduardo Guardia, o presidente do Banco Central Ilan Goldjan, verdadeiro inventor da planilha no qual passaram a se espelhar os cabeções, e, principalmente, Mansueto de Almeida, uma espécie de contador alçado à condição de formulador de política econômica.

São todos seguidores de livros textos, de fórmulas genéricas, sem a menor sensibilidade para os efeitos colaterais de suas decisões, sem nenhuma noção de proporção, sobre os limites políticos, sobre as implicações macroeconômicas.

Só isso para explicar a maluquice da proposta de reforma da Previdência. Apelou-se para um radicalismo obsceno, burro, desnecessário.

Todo golpe de Estado – militar ou parlamentar – deixa a opinião pública atordoada por algum tempo. Por alguns meses, os cabeções julgaram-se os donos da cocada preta. Qualquer medida seria endossada pela mídia, corroborada pelos parlamentares e aceita pela opinião pública. Porque sempre se tinha a retórica da tragédia acompanhando: se as medidas não forem aprovadas, o Brasil jamais sairá da crise.

Esse tipo de retórica, própria para iludir incautos, não resistiu quando rapidamente a opinião pública foi se dando conta da verdadeira natureza da reforma da Previdência. Passaram os seis meses em que tudo é permitido. As ondas do choque amainaram e a opinião pública passou a entender a verdadeira extensão da reforma.

Nem se diga de seu ângulo mais perigoso, o desmonte de toda a rede de assistência social, dos BPC (Benefícios de Prestação Continuada), a hecatombe que provocaria nos idosos economicamente vulneráveis. A reação veio com a constatação do que a reforma faria com os direitos dos atuais contribuintes.

Não se considere que o despreparo desses planilheiros se restrinja a aspectos sociais e políticos. Há um risco brutal na reforma. Desestimulando a entrada de novos contribuintes (a troco de que irão contribuir para uma Previdência que provavelmente não lhes assegurará benefícios futuros) promoverão o desequilíbrio fatal do modelo, aquele em que o sistema de repartição entra em colapso.

O resultado desse exagero foi que caiu a ficha de parte relevante da classe média, incluindo aí procuradores, magistrados, policiais.

É possível que a proposta passe porque parte dos deputados está mais preocupada em pavimentar seu presente, tratando de saquear o que podem, antes que a Lava-Jato caia sobre eles.

CENA 2 – O LOTEAMENTO DA CEITEC
O preço da base do governo tem sido o desmonte total de políticas públicas e projetos estratégicos.

Não há setor do governo, por mais sensível e estratégico que seja, que não esteja à mercê da sanha da quadrilha que se apossou do governo.

Tome-se o caso do Ceitec (Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada). Trata-se de um projeto estratégico, acalentado por décadas pelo país, uma fábrica de alta tecnologia para a produção de semicondutores.

Até agora, o governo federal investiu mais de R$1 bilhão na empresa. E a empresa já conseguiu alguns feitos, como o desenvolvimento de um chip para o passaporte brasileiro, certificado por uma das mais renomadas certificadoras da Europa. Há o desafio, agora, de fazer a Casa da Moeda do Brasil usar um componente, que encomendou do Ceitec sob contrato, desistindo da história de usar componentes importados para o passaporte – outra história mal contada na profusão de negócios obscuros que tomou conta do governo.

A empresa está no organograma do Ministério de Ciências e Tecnologia, loteado para o PSD de Gilberto Kassab de porteira fechada.

Kassab entregou a Ceitec ao deputado e ex-goleiro do Grêmio Danrlei de Deus Hinterholz. Sua primeira decisão foi a substituição do presidente da Ceitec, Marcelo Soares Lubaszewski, considerado uma das cinco maiores autoridades da área de semicondutores do país, para colocar em seu lugar Paulo de Tarso Luna, um obscuro técnico cearense radicado em Florianópolis.

Em seguida passou a exigir a troca de técnicos lotados em cargos comissionados por seus “parças” – como trata seus colegas de futebol. No toma-lá-dá-cá de Kassab, o senador Lazier Martins filiou-se ao PSD e passou a exigir sua fatia no bolo. Para não deixar espaço, Darnlei decidiu correr e ocupar todos os espaços possíveis, para não permitir ao novo sócio emplacar suas indicações. Entre seus feitos, consta a nomeação de uma modelo, namorada de seu chefe de gabinete, para a Diretoria de Recursos Humanos

Dias atrás, o último nomeado foi Luiz Fernando Záchia, ex-deputado estadual e secretário de meio ambiente de Porto Alegre, que assumiu o cargo de diretor administrativo (clique aqui). Záchia fez carreira política a partir de um cargo na direção do Internacional de Porto Alegre.

Ostenta enorme capivara. Tem uma condenação no caso do Detran, na gestão Yeda Crusius (PSDB). Em abril de 2013 passou cinco dias detido no Presídio Central de Porto Alegre, no âmbito da Operação Concutare, da Polícia Federal. No ano passado foi condenado por improbidade administrativa em um esquema levantado pela Operação Rodin (clique aqui).

Não é só a Ceitec, mas também a Nuclep (Nuclebrás Equipamentos Pesados), outra empresa estratégica. Recentemente foi aprovada uma lei exigindo currículo e experiência compatível para diretorias de S/As estatais. Quem define é a Casa Civil. De Eliseu Padilha ou Moreira Franco.

Toda essa esbórnia de Temer é endossada pela mídia e por setores de mercado que julgam que a ampliação da corrupção é um preço a se pagar para se conquistar as reformas draconianas.

PEÇA 3 – O VÁCUO POLÍTICO
A exposição gradativa de todos os vícios da junta que assumiu o poder está fazendo com que o governo Temer se desmanche no ar. É impactante a miopia dos grupos que assumiram o poder.

Não se nega a necessidade de ajustes graduais na Previdência. Mas nenhum analista minimamente preparado aceitará como definitivo um pacote enfiado goela abaixo dos sindicatos e dos contribuintes, ao preço da ampliação da corrupção política. Qual a garantia de manutenção desse exagero? Qual o impacto dessa loucura nas eleições de 2018?

O mínimo que se espera dos poderes que colocaram essa quadrilha no governo – Procuradoria Geral da República e Supremo Tribunal Federal – é a montagem de uma estratégia de medidas judiciais que contenha o saque. O que teria a dizer desse assalto à luz do dia o ministro Luís Roberto Barroso, que avalizou o estado de exceção para crimes políticos? Não venha o Supremo dizer que esse problema não é dele. É dele sim. É responsabilidade direta de Barroso, Celso de Mello, Marco Aurélio, Lewandowski, Fachin, Gilmar e Toffoli, Fux, Rosa e Carmen Lúcia.

O resultado desse jogo é que esses grupos de elite chegarão a 2018 sem um projeto de país, sem o álibi de terem contido a corrupção e sem nenhuma chance para as eleições. E a reconstrução do país levará décadas.

Lava-Jato vai acabar com o Brasil antes de acabar com a corrupção

20 de março de 2017

Alex Solnik em 17/3/2017

A Lava-Jato é uma desgraça que se abateu sobre o país há três anos.

Não por coincidência, três anos de recessão, três anos de ódio, três anos de instabilidade política, três anos de retrocesso democrático.

Nenhuma “operação” radical que se propõe a destruir alguma coisa gigante trouxe coisas boas nem foi bem-sucedida.

A Inquisição quis acabar com o judaísmo. Teve apoio popular porque queimava os hereges em praça pública e sem cobrar ingressos.

Roma quis acabar com os cristãos. Saciava a sede de sangue da massa promovendo grandes torneios em que cristãos desarmados eram obrigados a enfrentar leões famintos.

Milhares de judeus foram queimados, milhares de cristãos foram dilacerados, mas o judaísmo e o cristianismo não acabaram.

A Lava-Jato ganhou popularidade propondo acabar com a corrupção, uma tarefa tão inviável quanto acabar com o judaísmo ou o cristianismo.

Mas se tornou popular queimando petistas vivos.

Isso foi no início, quando a ideia era dizimar o PT; agora que os petistas foram queimados a Lava-Jato cumpre a tarefa de acabar com o PMDB.

Além de promover espetáculos públicos de destruição de biografias e incitar a população contra um governo eleito, a Lava-Jato praticou o maior atentado à constituição já praticado desde a redemocratização, ao grampear e divulgar o grampo de uma presidente da República.

E inaugurou o hábito de prender antes de julgar, a pretexto de “manutenção da ordem pública”.

E incentivou a delação, criando a figura do “delator premiado”.

Sob o silêncio cúmplice de instâncias superiores, cujo papel é defender a constituição.

Dá impressão que a Lava-Jato se transformou no Quarto Poder, pairando no céu da pátria como “uma esperança” semelhante à de encontrar um pote de ouro no fim do arco-íris.

O messianismo sobrevive no Brasil. O Dom Sebastião do momento é Sérgio Moro, que formalmente é um juiz, mas na prática atua mais como inquisidor.

Apesar da voz desagradável, do cabelinho curto e das ideias idem ele tem uma legião de seguidores fanáticos.

Não é possível explicar racionalmente a atração da classe média por essa figura estranha, para dizer o mínimo.

Em três anos de atuação a única coisa que a Lava-Jato conseguiu foi mostrar algo que as pessoas bem informadas já sabiam há muito tempo: que a relação entre governos e empresários é espúria; que não se faz negócios com o governo sem pagar pedágio; que não se faz doação eleitoral sem uma boa contrapartida.

O que a Lava-Jato conseguiu foi mostrar ao mundo que o Brasil é um país de corruptos.

A Lava-Jato conseguiu acabar com um governo em início de mandato, associada a um grupo de políticos golpistas que agora trata de também alijar do poder.

A Lava-Jato passou a ser o principal assunto do país, passou a ditar a pauta nacional. Assuntos urgentes, como a recuperação econômica e os juros exorbitantes, que dilapidam a economia popular, passaram ao segundo plano.

Os brasileiros querem saber quem é o próximo poderoso a cair em desgraça.

Quem será o próximo queimado vivo.

A Lava-Jato não melhorou o país, não melhorou a vida de um só brasileiro. Não encheu a barriga de ninguém. Trouxe o desemprego em massa como maior legado.

E não vai acabar com a corrupção.

Antes, vai acabar com o Brasil.


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