O papel do programa Roda Viva é colocar Alckmin no 2º turno

16 de agosto de 2018

Massa cheirosa: Clóvis Rossi e Eliane Cantanhêde.

Joaquim de Carvalho, via DCM em 14/8/2018

Foi difícil de assistir, mas necessário: o Roda Viva de ontem [13/8] confirmou que o programa se tornou um palanque para a candidatura de Geraldo Alckmin.

“Estará no 2º turno”, profetizou o jornalista que representava a Globo, Ascânio Seleme, ex-diretor de Redação. E seguiu-se pau, primeiro em Bolsonaro, depois em Lula, pelas bocas de Eliane Cantanhede, do Estadão, e Clóvis Rossi, da Folha de S.Paulo, além de Ascânio.

Eliane Cantanhêde e Clóvis Rossi, com variações de estilo, manifestavam uma certa indignação com o fato de Lula pleitear a candidatura, mesmo “sabendo” que não conseguirá a legenda com base na lei da ficha limpa.

“É uma situação que é patética. Você tem um candidato que é, tecnicamente, ele não é candidato, ele não pode ser candidato. […] Já que a gente fala tanto em fake news, é uma candidatura fake”, bradou a colunista do Estadão e GloboNews.

“O Lula jamais permite que alguém, nem sequer grama pode nascer à sombra de um caudilho desse porte, quanto mais uma palmeira, que seria um candidato presidencial. Por isso que ele vai levar até o fim. Só vai ter um candidato pela impossibilidade de levar (a candidatura dele, Lula)”, disse Clóvis Rossi.

Se é assim como diz o veterano jornalista, o que explica que Lula não tenha disputado a eleição em 2014, quando havia um movimento no PT para que ele assumir no lugar de Dilma? Lula é criticado por não ter sido candidato, o que, para muitos, evitaria a crise que levou ao impeachment.

Não foi e conta por que, no livro a A verdade vencerá (Boitempo Editorial):

Eu tinha a clareza de que 2014 seria o ano para que eu voltasse à Presidência da República, mas tinha clareza também de que eu devia respeito à democracia estabelecida pelo próprio partido. Quando indiquei a Dilma [para a eleição de 2010], disseram-me que ela seria uma “candidata-tampão”, que a gente deveria se reunir com ela e dizer que ela seria candidata só para guardar a vaga para o Lula voltar. Eu recusei a ideia da candidata-tampão, ela era candidata plena e, se ela fosse bem, teria o direito de ser candidata à reeleição. A única possibilidade de eu ser candidato era se a Dilma me procurasse e dissesse: “Lula, eu acho que você deveria voltar a ser candidato”. Como ela nunca me procurou, e o partido começou a insinuar uma campanha “Volta, Lula”, eu fui a um ato no Anhembi, a Dilma estava chegando, e aí acabei com a ideia do “volta, Lula”. “É preciso parar com brincadeira, nós temos candidata, que é a Dilma, e vamos à luta”.

Jornalistas antecipam um julgamento na justiça eleitoral que, se confirmado, contraria precedentes da corte, que foram reunidos em um estudo que os advogados do PT pretendem apresentar na defesa da candidatura, quando esta for impugnada na justiça eleitoral.

Segundo a senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT, são mais de cem casos.

“Um desses casos é de um prefeito no meu Estado (Paraná), Porecatu. Ele estava preso, disputou a eleição, venceu e tomou posse, depois que a justiça eleitoral levantou a inelegibilidade dele”, afirmou.

A questão é: ainda que Lula venha ter a candidatura impugnada e, depois, o registro cassado, por que ele abriria mão do direito de pleitear a legenda?

Num comentário na GloboNews, a mesma Eliane Cantanhêde reclamou que o movimento político de Lula prejudica as demais candidaturas.

“Está tudo paralisado, porque os demais candidatos farão sua estratégia em torno da candidatura de Lula. Enquanto ele não se define, as campanhas ficam paralisadas”, disse.

É uma análise estreita, por duas razões: como se Lula tivesse cometido um crime pela popularidade que tem e, em razão disso, tivesse a obrigação de facilitar a vida dos adversários.

Seria mais ou menos como os torcedores brasileiros culparem o goleiro da Bélgica pela desclassificação do Brasil na Copa do Mundo, por causa das defesas que fez no jogo contra a Seleção Brasileira. Queriam o quê? Que ele entregasse o jogo?

Em relação a Lula vale o mesmo raciocínio, com a diferença de que se está falando de um país, sua soberania, e os valores da democracia, consagrados pela Constituição de 1988 – na essência, um pacto de convivência –, em que se destaca o princípio da presunção de inocência, o mesmo que ampara a postulação de Lula.

Lula tem o direito de ir até o fim e, na defesa desse direito, propôs um desafio ao juiz Sérgio Moro – retórico, claro, mas fácil de entender.

Em suas conversas no cárcere, já há alguns meses, mandou o recado: se até o dia 15 (amanhã), Moro apresentar uma prova de que tenha cometido crime, ele desiste de ser candidato.

Em relação ao tríplex do Guarujá, caso que gerou a sua condenação, não há prova de que o imóvel seja dele, nem sequer a descrição de uma conduta criminosa.

Lula, como dono do tríplex, era um boato no Guarujá que foi para as páginas de O Globo, se transformou em processo e, numa velocidade incomum, gerou a condenação.

Desde que lançou o desafio a Moro, em vez de provas, surgiram evidências de que a justiça persegue Lula.

Tanto que o juiz responsável pela sua condenação interrompeu as férias para, numa ação em que sequer foi provocado, determinar que não se cumprisse a ordem de soltar Lula, dada pelo desembargador de plantão no TRF4.

Outro desembargador agiu em sintonia com aquele juiz e, segundo nota publicada na imprensa, admitiu que não observou a letra fria da lei.

O diretor da Polícia Federal contou que deixou de cumprir o HC por determinação do presidente do TRF4, dada por telefone.

E a procuradora-geral da república, Raquel Dodge, segundo o mesmo delegado, também agiu fora dos autos para evitar que a ordem judicial fosse cumprida.

Como jornalistas, Cantanhede, Clóvis Rossi e Ascânio deveriam trabalhar com o que é notícia – e essa movimentação atípica do Judiciário e do Ministério Público Federal, indicadora de conduta abusiva, é notícia.

Jornalista tem lado, é o da sociedade, e a sociedade hoje se inclina, majoritariamente, por Lula.

Na entrevista ao DCM, Gleisi Hoffmann contou que pesquisas qualitativas revelam que o povo vê o Jornal Nacional por força do hábito, mas não acredita no que a Globo informa.

Esta é uma das razões que explicam o crescimento da candidatura de Lula, mesmo depois de horas de reportagens negativas.

No meio jornalístico, há uma imagem que define a profissão: a imprensa seria como o cão de guarda. No jardim, late para tudo o que ameaça a segurança dos que vivem dentro da casa, no caso a sociedade.

Viciada em negócios, a imprensa brasileira se tornou um dobermann velho e hoje invadiu a casa e tem mordido os donos.

Foi o que se viu no Roda Viva. Na essência, os jornalistas culparam o povo pela escolha que tem feito.

Lava-Jato quer impedir visitas de Gleisi a Lula como advogada

16 de agosto de 2018

Procuradores afirmam que uso de procuração por parlamentar registrado na OAB tenta maquiar comitê de campanha.

Márcio Falcão, via Blog do Jota em 15/8/2018

A força-tarefa da Lava-Jato no Paraná requereu que a Justiça impeça a presidente do PT, senador Gleisi Hoffmann (PR), de atuar como advogada de Luiz Inácio Lula da Silva no processo da execução de sua pena na condenação do caso tríplex.

Segundo os procuradores, inicialmente a senadora se credenciou para fazer visitas como amiga do ex-presidente, mas depois juntou procuração como advogada, passando “a visitá-lo com frequência inusual para quem não exerce efetivamente a defesa em autos judiciais”.

A “análise dos autos revela que contínua juntada de procurações e as visitas que se seguem, por parte de políticos inscritos na Ordem dos Advogados, não se traduzem no exercício da defesa do apenado. E se assim for, tal conduta revela abuso e não uso regular das prerrogativas do advogado”, diz o documento.

De acordo com a força-tarefa, “sob outro aspecto, basicamente por que todas as procurações juntadas aos autos são de políticos (ainda que alguns não exerçam mandato legislativo), revelam numa análise perfunctória, que as visitas não tem por objetivo a defesa judicial do apenado, senão a de possibilitar por parte de Lula, a condução e a intervenção no processo eleitoral de quem materialmente está inelegível, transformando o local onde cumpre pena – a sede da Polícia Federal – , em seu comitê de campanha”.

E completam: “A prerrogativa do advogado permite o exercício legítimo do mandato conferido pela parte, não o abuso ou a visita para fins políticos. Parece haver, em realidade, uma aparente tentativa de ludibriar as regras fixadas para visitação do encarcerado, possibilitando assim a visita em qualquer dia, desde que o visitante seja advogado”.

Os procuradores afirmam que “o fato de ser executada pena restritiva de liberdade em estabelecimento especial, não significa que ao apenado seja permitido, ou assegurado indiscriminadamente receber a visita de tantas pessoas, em qualquer dia, como vem ocorrendo”.

Para o MPF, há uma “série de condutas, praticadas por Lula, pessoalmente ou por meio de seus defensores constituídos, que aparentemente não estão em consonância com os limites impostos pela lei de execução penal e pelas regras ditadas pelo juízo”.

A Lava-Jato reforça que Lula está “cumprindo pena em regime fechado e não em regime penal diferenciado. Esse regime de pena foi imposto pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, referendado pelo Superior Tribunal de Justiça e pelo Supremo Tribunal Federal, que, por certo, conhecem as regras de execução penal em regime fechado, que não se coaduna com visitas para fins políticos”.

Márcio Falcão é editor em Brasília do Blog do Jota.

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Qual o impacto para o eleitor de Bolsonaro de mais uma revelação de sua desonestidade?

16 de agosto de 2018

Luis Felipe Miguel em 14/8/2018

No debate da Band, Guilherme Boulos questionou Bolsonaro sobre a funcionária fantasma de seu gabinete, paga com dinheiro público para cuidar de uma de suas casas de veraneio.

Bolsonaro foi perfeito na resposta. Disse que a denúncia já havia sido desacreditada. Acertou o tom entre ficar indignado e não dar maior importância à acusação. Esnobou Boulos. Saiu por cima.

A reportagem da Folha foi a Angra dos Reis e encontrou dona Walderice. Sem saber que esteja conversando com jornalistas, ela falou do debate e, em relação à funcionária fantasma de Bolsonaro, afirmou candidamente: “Sou eu”.

Ao saber do que acontecera, Bolsonaro demitiu a funcionária. Contou uma história sem pé nem cabeça – “o crime dela é dar água pro cachorro” – e deu a entender que, por causa de Boulos, uma pobre mulher tinha ficado sem emprego.

Em suma: flagrado mentindo, construiu mais e mais mentiras.

Qual o impacto, no eleitor dele, de mais essa revelação de sua desonestidade e falta de caráter? Arrisco dizer: nenhum. Olhei algumas páginas bolsonaristas e o silêncio sobre o tema é absoluto. Quando necessário, falam de armação da mídia comunista.

Eficaz para seu público cativo, esta estratégia revela o limite de sua candidatura. Jair Bolsonaro trabalha para manter sua base de radicais de direita fanatizados, os espantosos 17% ou 18% que há tempos ele pontua em todas as pesquisas. Mas não consegue fazer movimentos que ampliem sua base.

A passagem de Bolsonaro para o 2º turno depende da pulverização dos votos da direita. Mas o próprio risco de que isso ocorre pode levar a um movimento de confluência, com a migração dos votos da Marina e dos outros para Alckmin.

Chegando ao 2º turno, porém, Alckmin se verá constrangido a cortejar Bolsonaro, para garantir o apoio de seus muitos eleitores. O fato é que os artífices do golpe estimularam o crescimento da ultradireita por julgá-la instrumental para seus propósitos. Mas ela adquiriu tal volume que exerce forte atração gravitacional, atraindo todo o campo conservador para o extremo e esvaziando o espaço da centro-direita.

Luis Felipe Miguel é professor de ciência política na UnB.

Brasil pós-golpe: 60% das crianças e adolescentes são pobres no Brasil, diz Unicef

16 de agosto de 2018

Comunidade Batalha de Baixo, Tocantins (AM): vida de pobreza e isolamento. Foto: Zanone Fraissat/Folhapress

Guilherme Azevedo, via UOL em 14/8/2018

Seis em cada 10 crianças e adolescentes brasileiros vivem em situação de pobreza no Brasil, totalizando 32 milhões de jovens (ou 61% dos 53 milhões que formam a população brasileira com menos de 18 anos). É o que revela o estudo inédito “Pobreza na infância e na adolescência”, apresentado na terça-feira [14/8] pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância).

Para a elaboração da pesquisa, que tem por fonte dados oficiais da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) 2015, do IBGE, o Unicef considerou que a pobreza na infância e adolescência ultrapassa a falta de dinheiro e precisa levar necessariamente em conta outros fatores que influenciam para rebaixar a qualidade de vida. É o que em economia se chama de pobreza multidimensional.

Vive em pobreza monetária, segundo o fundo, a criança ou adolescente de família com renda inferior a R$346,00 por pessoa por mês na zona urbana e R$269,00 na zona rural.

O Unicef incluiu no estudo, por isso, a análise da qualidade do acesso, por meninas e meninos de até 17 anos, a seis direitos básicos: 1) educação, 2) informação (acesso à internet e também à TV), 3) água, 4) saneamento básico, 5) moradia e 6) proteção contra o trabalho infantil.

Então, conforme o Unicef, os 32 milhões de crianças e adolescentes em condição de pobreza estão assim porque são monetariamente pobres e/ou estão privados de um ou mais direitos básicos.

O órgão da ONU para a proteção da infância e da adolescência no mundo afirma que “a ausência de um ou mais desses seis direitos coloca meninas e meninos em uma situação de ‘privações múltiplas’ – uma vez que os direitos humanos não são divisíveis, têm de ser assegurados conjuntamente”.

O Unicef distingue dois tipos de privação: a intermediária e a extrema. A privação intermediária quer dizer “acesso ao direito de maneira limitada ou com má qualidade” e a privação extrema significa “sem nenhum acesso ao direito”.

Segundo o estudo, dos 61% de crianças e adolescentes brasileiros na pobreza, 49,8% (cerca de 27 milhões de jovens) enfrentam privações múltiplas. Em média, elas e eles tiveram 1,7 privação.

Há 14,7 milhões de meninas e meninos com apenas uma privação, 7,3 milhões com duas e 4,5 milhões com três ou mais privações, diz o Unicef.

Há ainda um grupo, com cerca de 14 mil crianças e adolescentes, que não tem acesso a nenhum dos direitos analisados, quer dizer, está à margem de políticas públicas.

Família sofre com esgoto a céu aberto no bairro da Levada, em Maceió. Foto: Beto Macário/UOL.

Maior privação é de saneamento
A falta de saneamento básico adequado é a privação que afeta o maior número de crianças e adolescentes brasileiros (13,3 milhões), seguido por educação (8,8 milhões), água (7,6 milhões), informação (6,8 milhões), moradia (5,9 milhões) e proteção contra o trabalho infantil (2,5 milhões).

Em termos percentuais, a privação do direito à informação é a mais alta no Brasil, alcançando um quarto (25,7%) do total de jovens de 10 a 17 anos.

Cerca de 20% (10,2 milhões) dos jovens com menos de 18 anos sofrem ao menos uma privação extrema, segundo o Unicef. Saneamento (7%), água (6,7%), educação (6,4%) e moradia (4,1%) são os direitos com pior garantia de acesso.

Veja a seguir a síntese para as seis dimensões incluídas pelo Unicef na aferição do nível de pobreza de crianças e jovens brasileiros:

Educação: Segundo o fundo, 20,3% das crianças e adolescentes de 4 a 17 anos têm o direito à educação violado; 13,8% estão na escola, mas são analfabetos ou estão atrasados (privação intermediária). E 6,5% estão fora da escola (privação extrema).

O direito à educação varia por regiões, diz o Unicef: no Norte, a proporção de jovens privados de educação é o dobro da que se observa no Sudeste. E é pior entre negros: privação 56% maior do que entre brancos.

Informação: Entre meninas e meninos de 10 a 17 anos, 25,7% não tiveram acesso à internet nos últimos três meses antes da coleta da Pnad 2015 (privados de informação); 24,5% não acessaram a internet, mas têm TV em casa (privação intermediária); e 1,3% não acessou a rede e não tem TV em casa (privação extrema).

Crianças e adolescentes negros são 73% do total dos privados de informação, enquanto o índice de privados de informação no Norte é três vezes o do Sudeste.

Trabalho infantil: 6,2% estão sem proteção contra o trabalho infantil. Entre meninas e meninos de 5 a 17 anos, 4,7% (2,5 milhões) exercem trabalho infantil doméstico ou remunerado. Na faixa de 5 a 9 anos, em que trabalhar é ilegal, 3% (400 mil) trabalham. Entre 10 e 13 anos, continua sendo ilegal e são 7,6%. E de 14 a 17 anos, 8,4% (quase 1,2 milhão) trabalham mais de 20 horas semanais, acima do que determina a lei. A carga de trabalho é maior para meninas.

Moradia: Viver em uma casa com quatro ou mais pessoas por dormitório e cujas paredes e tetos são de material inadequado é a realidade de 11% dos brasileiros de até 17 anos (sem o direito a moradia garantido). Outros 6,8% vivem em casas de teto de madeira reaproveitada e quatro pessoas por quarto (privação intermediária). E 4,2% em casas com cinco ou mais por dormitórios e teto de palha (privação extrema), diz o Unicef.

Sete em cada 10 das crianças e dos adolescentes privados são negros.

Água: De acordo com o estudo, 14,3% das crianças e dos adolescentes não têm o direito à água garantido. Outros 7,5% têm água em casa, mas não filtrada ou procedente de fonte segura (privação intermediária). E 6,8% não contam com sistema de água dentro de suas casas (privação extrema).

Saneamento: 3,1% das crianças e adolescentes não têm sanitário em casa. E 21,9% das meninas e dos meninos vivem em domicílios com apenas fossas rudimentares, uma vala ou esgoto sem tratamento. No total, 24,8% das crianças e adolescentes estão em privação de saneamento, sendo que a ampla maioria é negra (70%).

“Só transferir renda não elimina pobreza”
Ao UOL, Mario Volpi, coordenador do programa de qualidade nas políticas públicas do Unicef Brasil, afirmou que o grande interesse de agora é influenciar o debate eleitoral de modo que se discuta o combate à pobreza para além da questão da renda, exclusivamente.

Em 7 de outubro, os brasileiros vão às urnas para escolher seus novos representantes em eleições gerais, do futuro presidente da República ao deputado estadual.

“A renda é importante e sem ela não se pode avançar, mas só ela não elimina o ciclo de reprodução da pobreza. Com esse estudo, queremos mostrar que é preciso um conjunto de políticas que incida sobre as outras dimensões da pobreza, como as seis que apontamos no estudo, mas não só elas”, explica Volpi.

A RENDA É IMPORTANTE, MAS SÓ ELA NÃO ELIMINA O CICLO DE REPRODUÇÃO DA POBREZA
Mario Volpi, coordenador do Unicef Brasil
O coordenador do Unicef aponta também a dimensão da violência e sua influência sobre a pobreza, e vice-versa, que o estudo de agora não contempla, pois a Pnad não relaciona dados de homicídios, por exemplo.

“O impacto da violência sobre a pobreza, sobre as famílias, é muito grande e corrobora para reproduzir situações de pobreza, sem quebrar o ciclo.”

Para o Unicef, como consta das “Conclusões e recomendações” do estudo apresentado nesta terça-feira, “com esse olhar mais intersetorial, é possível entender onde estão os principais problemas e buscar caminhos para solucioná-los”.

Queda abrupta da renda
O economista Marcelo Côrtes Neri, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças, da FGV (Fundação Getulio Vargas), e diretor do FGV Social, elogia o fato de o Unicef utilizar a noção de pobreza multidimensional, indo além só da renda, em linha com outros estudos internacionais que se preocupam com a questão de forma complexa.

Neri, que é um dos principais estudiosos de emprego e renda do país, pontua que a pobreza em geral vinha caindo estruturalmente havia anos no Brasil em todas as faixas etárias, em especial entre os mais jovens, até 2014.

O economista cita o fato de que o país foi bem-sucedido no esforço de aumentar a presença das crianças nas escolas e a expectativa de vida da população. Entretanto, o esforço social, na sua visão, foi dissociado de sua contrapartida econômica obrigatória.

“As pessoas hoje vivem mais, mas não se fez a reforma da Previdência”, exemplifica. “Essa melhoria social é interessante, mas não foi conectada com a economia. Precisamos reconectar.”

A MELHORIA SOCIAL É INTERESSANTE, MAS NÃO FOI CONECTADA COM A ECONOMIA
Marcelo Côrtes Neri, economista da FGV
Neri se mostra preocupado com o impacto da conjuntura econômica sobre a população a partir de 2014, quando o Brasil entrou num período de crise aguda, com desemprego e inflação elevados.

Mortalidade infantil voltou a subir em 2016: influência do desemprego. Foto: EBC.

O problema aqui é mesmo de queda abrupta de renda, estando, para ele, na raiz do problema do aumento da mortalidade infantil no Brasil, em 2016, após décadas de quedas sucessivas. Menos renda, mais mortes de crianças, pela primeira vez desde 1990.

“[Os dados da Pnad 2015, base do estudo do Unicef] São uma fotografia preocupante estrutural da pobreza, mas o filme da pobreza, completado no ano seguinte, com o aumento da mortalidade infantil de 5% [0 a 5 anos] e da pobreza dos mais novos de 28,4%, é uma tragédia.”

Neri indica também o aumento geral da pobreza de 11%, de 2016 para 2017, segundo a pesquisa Pnad Contínua.

“O conjuntural pode matar e inviabilizar esse processo de melhorias estruturais de longa duração”, alerta. “O que vai provocar a redução da pobreza é a redução do desemprego. Vamos fazer as rodas da economia girarem e combater a pobreza, é bom para a economia. Mas seguindo pelo caminho do meio: nem só social, nem só economia, equilibrando.”

***

Últimos suspiros: Grupo Abril anuncia pedido de recuperação judicial

16 de agosto de 2018

Via Jornal GGN em 15/8/2018

O Grupo Abril anunciou na quarta-feira [15/8] que entrou com um pedido de recuperação judicial, justificando-se pelo impacto dos meios digitais no mercado de comunicação e pela profunda crise econômica no Brasil. No anúncio, a editora que está perto de completar 70 anos de existência afirmou precisar submeter à recuperação R$1,6 bilhão a ser negociado com seus credores.

“A medida, prevista em lei, serve para que a empresa possa buscar um novo equilíbrio de suas contas, afetadas nos últimos anos por uma combinação de duas forças negativas”, informou, em nota, a Exame, uma das revistas do grupo.

“Uma delas é a ruptura tecnológica que atinge mundialmente as atividades de comunicação – incluindo o jornalismo e a publicidade. A outra diz respeito aos impactos da profunda crise no Brasil, cuja marca mais evidente foi uma queda acumulada de 10% no produto interno bruto per capita, causando a perda de milhões de empregos e dificuldades para inúmeras empresas”, explicou.

Entretanto, a reestruturação da empresa vem sendo feita há mais de um ano. Em outubro de 2017, por exemplo, a Legasi (antiga 44 Capital) iniciou diversos cortes para reduzir o endividamento do grupo, que atingia no ano passado R$330 milhões, de acordo com relatório da PriceWaterhouseCoopers.

Com troca do comando da Abril, nas mãos de Marcos Haaland, executivo da A&M, o grupo já havia demitido cerca de 800 funcionários e fechado a produção de parte das revistas e sites.

“Do total de investimentos em publicidade das grandes empresas em 2010, uma fatia de 8,4% era dirigida para revistas. Essa participação caiu para 3% em 2017. A circulação de revistas, no mesmo período, baixou de 444 milhões de exemplares por ano para 217 milhões”, anunciou.

O pedido de recuperação judicial foi ingressado hoje na Justiça e ainda precisa ser analisado por um juiz para definir um plano de recuperação, que será apresentado pelos credores da editora em até 60 dias.

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