Archive for the ‘Política’ Category

Sem cargo público, irmão de Bolsonaro já intermediou mais de R$100 milhões em verbas para prefeituras

23 de janeiro de 2020

Renato Bolsonaro, um dos irmãos do presidente Jair Bolsonaro, em frente à Granja do Torto, antes da posse.

Renato Bolsonaro viabilizou liberação de ao menos R$110 milhões para prefeituras de SP; ele nega receber vantagens.

Wálter Nunes, via Folha em 22/1/2020

O comerciante Renato Bolsonaro, irmão do presidente da República, Jair Bolsonaro, tem atuado como mediador informal de demandas de prefeitos do estado de São Paulo interessados em verbas federais para obras e investimentos.

A Folha identificou a participação do irmão do presidente na liberação de dinheiro para ao menos quatro municípios do litoral e do Vale do Ribeira, região de origem da família Bolsonaro.

Sem cargo público, Renato participa de solenidades de anúncio de obras, assina como testemunha contratos de liberação de verbas, discursa e recebe agradecimentos públicos de prefeitos pela ajuda no contato com a gestão federal comandada pelo irmão.

Ao todo, após a atuação de Renato, foram mais de R$110 milhões repassados para construção de pontes, recapeamento asfáltico e investimento em centros de cultura e esportes nas cidades de São Vicente, Itaoca, Pariquera-Açu e Eldorado, município onde moram familiares do presidente.

Renato nega ser pago por esse trabalho e não responde se alguém custeia seus gastos, que incluem viagens pelo estado de São Paulo.

Filiado ao PSL, ele tem apoiado a criação do novo partido de Bolsonaro, a Aliança pelo Brasil, mas, por ser irmão do presidente, enfrenta restrições legais para se candidatar a prefeito nas eleições deste ano.

Renato mora em Miracatu, município de pouco mais de 20 mil habitantes, também no Vale do Ribeira, que desde a posse de Bolsonaro tem recebido a visita de altos funcionários do governo federal.

Estiveram por lá no ano passado os secretários da Pesca, Jorge Seif, e de Assuntos Fundiários, Luiz Antônio Nabhan Garcia, além do ministro da AGU (Advocacia-Geral da União), André Mendonça, e do presidente da Embratur, Gilson Machado.

O irmão de Bolsonaro também fez o caminho contrário e procurou diretamente as autoridades para essa intermediação por recursos federais.

Em São Vicente, por exemplo, atuou em meio a um jogo de empurra entre prefeitura e governo do estado sobre quem deveria custear as obras de recuperação da ponte dos Barreiros, que liga as áreas continental e insular da cidade litorânea. A ponte corria risco de colapso e foi interditada por determinação da Justiça, no final de novembro do ano passado.

O impasse sobre quem financiaria as obras acabou graças a Renato, que convenceu a gestão federal a pagar a conta. O irmão do presidente foi pessoalmente no dia 30 de dezembro anunciar um convênio de R$58 milhões de verba federal para a cidade.

Ele posou para fotos ao lado do prefeito da cidade, Pedro Gouvêa (MDB), cunhado do ex-governador Márcio França (PSB). Na frente das câmeras, assinou, como testemunha, o contrato entre governo federal e Prefeitura de São Vicente.

Em entrevista ao jornal A Tribuna, de Santos, Renato disse que ajuda quem quer ter acesso facilitado ao seu irmão.

“Estou doando meu tempo, porque naturalmente sou muito procurado pela questão de relacionamento familiar. Não tenho poder de decisão. A única coisa que faço é fazer chegar mais rápido ao presidente aquilo que acho viável. Mas ele é que tem poder de análise e decisão. Eu faço a ajuda, encurto a distância”, disse.

Além de Renato, as prefeituras também dizem que nunca pagaram nada ao irmão do presidente nem custearam viagens para que ele fosse pedir verbas.

Também no final do ano passado, Renato anunciou um convênio milionário para obras na cidade de Pariquera-Açu, no Vale do Ribeira. Desta vez, foi um pacote de benfeitorias.

Além de R$14 milhões liberados para a construção de uma ponte, ele divulgou que foram destinados R$1 milhão para obras de pavimentação, R$764 mil para a canalização de um centro de eventos e outros R$550 mil a serem investidos em um centro esportivo de artes marciais.

Dez dias antes, ele havia sido a estrela da solenidade de entrega de 21 casas do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, na cidade de Eldorado, onde Renato e Jair cresceram.

O irmão do presidente também anunciou a liberação de R$11,4 milhões de verba federal para a construção de uma ponte sobre o rio Ribeira de Iguape, no distrito de Barra do Batatal, que pertence a Eldorado, e R$292 mil para asfaltar ruas da cidade.

Em Itaoca, também no Vale do Ribeira, Renato ajudou na liberação de R$24 milhões para a construção de uma ponte que liga a cidade ao município vizinho de Adrianópolis. Na página oficial da prefeitura consta um agradecimento do prefeito ao irmão do presidente da República.

O diretor da Faculdade de Direito da USP, Floriano Peixoto de Azevedo Marques Neto, especialista em direito do Estado, diz que, “se ele não for remunerado para isso”, não há irregularidade na atuação de Renato ao pedir verbas federais.

“Mas para a liberação de verbas acontecer as prefeituras têm que preencher os requisitos formais exigidos para a destinação voluntária de recursos da União”, diz Marques Neto. “E há um problema político. Ele está postulando verba no lugar de um agente público. A princípio, este é um trabalho que deveria ser feito por um parlamentar, por exemplo.”

Renato comemora os convênios em vídeos nas redes sociais. “Ta certo, é um dia importante, prefeito. São 14 anos, então, na luta? Em menos de um ano a Presidência da República conseguiu a liberação [de verbas para restauro da ponte]”, disse ele, sorrindo em evento na prefeitura.

Renato Bolsonaro, irmão do presidente (camisa polo azul escuro à dir.), Mosart Aragão (camisa azul clara), assessor especial da Presidência, Gilson Machado, presidente da Embratur (camisa polo azul escuro e óculos), e Nabhan Garcia, secretário de Assuntos Fundiários (de bigode, camisa azul clara e óculos). Reprodução/Reprodução Facebook Mosart Aragão.

“Eu quero parabenizar você Wagner [Costa, vice-prefeito] pelo empenho, pela insistência, autonomia que o prefeito passou para você correr atrás. Agradecer ao presidente a liberdade que me deu também de poder estar intermediando, estar levando essas questões lá para o presidente. Não sou assessor, mas faço voluntariamente pelo bem de todos”, disse Renato.

O irmão do presidente afirma que conta com aliados na intermediação dos pedidos que faz em nome dos prefeitos do interior.

“Agradecer aqui outras pessoas envolvidas que tem os assessores da Presidência, através do Mosart Aragão [assessor especial], que é um amigo também incansável que nos atendeu sempre, ao presidente da Embratur, o Gilson [Machado], que depois da sua visita aqui, que não tem muito a ver com a sua área, mas ele se comoveu, se prontificou e ajudou muito para que essa conquista chegasse no dia de hoje”, diz o irmão de Bolsonaro.

A Constituição impede que parentes de até terceiro grau do presidente da República disputem eleições – exceção a familiar que já está num cargo e tente a reeleição. Com isso, Renato está impedido de se candidatar neste ano.

Na disputa municipal em Miracatu, tudo indica que ele será cabo eleitoral do vereador Vinícius Brandão de Queiroz (PL), pré-candidato à prefeitura que tem figurado em vídeos ao lado de Renato e de Jair Bolsonaro.

No feriado da Proclamação da República, em 15 de novembro, Vinícius Queiroz esteve num pequeno barco pescando ao lado do presidente e seu irmão Renato. Tudo gravado e divulgado em redes sociais.

“Estive com meu amigo Jair Messias Bolsonaro em uma pescaria descontraída, merecemos uma folga, afinal o Brasil está dando certo!”, escreveu Vinícius Queiroz em uma rede social. “Está filmando aí, mané?”, diz Bolsonaro no vídeo, ao saber que estava sendo gravado colocando isca no anzol.

O próprio Renato já tentou ser prefeito de Miracatu por duas vezes. Na última delas, em 2016, concorreu após denúncia de que foi funcionário fantasma da Assembleia Legislativa de São Paulo.

Uma reportagem do SBT apontou que, apesar de ser contratado como assessor parlamentar do deputado estadual André do Prado (PL), com remuneração de R$17 mil mensais, ele não dava expediente no Legislativo.

No horário em que deveria estar na Assembleia, Renato trabalhava nas suas lojas de venda de móveis, no Vale do Ribeira. Após a reportagem, ele foi exonerado do cargo que exercia havia três anos. O Ministério Público de São Paulo chegou a analisar esse caso, mas não houve denúncia.

Outro lado
Renato Bolsonaro não atendeu as ligações da reportagem nem respondeu recados deixados na caixa postal e em aplicativo de mensagens.

A Presidência da República não respondeu se o presidente Bolsonaro tem conhecimento ou colabora com a intermediação feita por seu irmão junto a prefeituras. Também não esclareceu o papel de Mosart Aragão sobre o mesmo tema.

A Embratur e as prefeituras de Eldorado e Pariquera-Açu não responderam às perguntas da reportagem.

O Ministério do Desenvolvimento Regional disse, em nota, que os convênios “são celebrados diretamente com governos estaduais e prefeituras”. “Vale ressaltar que o MDR não tem controle sobre as divulgações acerca dos empreendimentos realizadas por terceiros.”

A Prefeitura de São Vicente, em nota, disse que a conversação com o governo federal foi feita pelo prefeito Pedro Gouvêa (MDB), ao lado da deputada federal Rosana Valle (PSB-SP), diretamente com o ministro do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto.

A prefeitura disse desconhecer qualquer pagamento ao irmão do presidente. Renato, segundo a nota, esteve em São Vicente durante o anúncio do convênio de R$58 milhões como visitante. “Por sua vez, assinou como testemunha como qualquer outra pessoa civilmente capaz e presente à assinatura poderia tê-lo feito.”

A Prefeitura de Itaoca afirmou, em nota, que “o pedido do recurso foi solicitado diretamente ao presidente Jair Bolsonaro, sem contato algum com o Renato e Mosart”. Em outro e-mail, a prefeitura reforçou: “Ressaltamos que Renato não possui contato nenhum com a prefeitura”.

Com meus cordiais cumprimentos, cumpre-me informar que o ex-funcionário Renato Bolsonaro sempre desempenhou suas atividades com primazia, responsabilidade e dedicação. Sua principal função em meu gabinete era a de atender as extensas demandas dos municípios do Vale do Ribeira, região mais pobre do Estado de São Paulo, distante 200 quilômetros da capital paulista.

O deputado estadual André do Prado (PL), em nota, disse que o Ministério Público do Estado de São Paulo apurou a denúncia de que Renato Bolsonaro seria funcionário fantasma em seu gabinete, mas ela foi arquivada. Segundo o deputado, os promotores afirmaram “que o exercício das funções do ex-assessor em lugares que não a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, como foi provado, não implica ilicitude ou irregularidade”.

REDES SOCIAIS

 

Moro foge de perguntas no Roda Viva: “Não cabe ao ministro ser comentarista”.

22 de janeiro de 2020

Mesmo sem a presença de jornalistas responsáveis pelo escândalo da Vaza-Jato, tema foi lembrado várias vezes, mas Moro se manteve evasivo.

Via RBA em 22/1/2020

O ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Bolsonaro, Sérgio Moro, esteve no programa Roda Viva, da TV Cultura, na noite de ontem [20/1]. Com respostas evasivas e com pontas soltas eu seu discurso, o ex-juiz foi questionado sobre temas como escândalos no alto escalão do governo, assassinato da vereadora Marielle Franco e, especialmente, sobre a #VazaJato.

Nenhum jornalista que trabalhou nas publicações de mensagens vazadas – e que mostraram que a Lava-Jato foi uma operação coordenada por Moro para tirar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva da disputa eleitoral de 2018 – foi convidado para fazer parte da bancada de entrevistadores. O caso repercutiu negativamente nas redes sociais que, de forma espontânea, começaram uma campanha para pedir a presença de alguém do The Intercept Brasil no programa. Não deu certo. De acordo com editorial do veículo que iniciou as investigações que incriminam Moro, os jornalistas presentes teriam passado por aprovação do ministro;, o que foi negado pela âncora do programa, a jornalista Vera Magalhães, que estreava na função.

A Vaza-Jato revelou que Moro atuou com parcialidade enquanto juiz federal de primeira instância, formando um conluio com membros do Ministério Público Federal para atingir objetivos políticos a partir da operação Lava-Jato. Na prática, Moro atuou como chefe da operação e não juiz imparcial.

Questões
Mesmo sem jornalistas responsáveis diretamente pela Vaza-Jato, o tema esteve presente em boa parte das perguntas. Como fala decorada, Moro desdenhou do escândalo. “A Vaza-Jato é um episódio menor, nunca dei muita importância. Nunca entendi muito bem a importância daquilo. Foi utilizado politicamente para soltar pessoas condenadas por corrupção e enfraquecer o ministro”, disse.

Em outro momento, foi questionado sobre a parcialidade em seu trabalho como juiz. Moro repetiu que os vazamentos que deram origem à Vaza-Jato são ilegais e devem ser desconsiderados. Por outro lado, vazou ilegalmente conversas entre a ex-presidenta DIlma Rousseff (PT) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em outro caso de evidente parcialidade, Moro adiou um depoimento de Lula que estava previsto para acontecer pouco antes das eleições de 2018, alegando que tal evento poderia ter influência no processo (influência positiva para o PT). Contraditoriamente, o então juiz quebrou o sigilo de uma delação antiga do ex-ministro petista Antônio Palocci, que acabou publicada na imprensa seis dias antes do primeiro turno. Ou seja, adiou algo que poderia favorecer o PT e divulgou o que poderia prejudicar.

Nas duas questões, Moro se esquivou. “Quando fizemos o primeiro depoimento do Lula houve manifestações […] No caso do Palocci, ele já tinha dado o depoimento. Não vi nenhuma importância”, disse, ao defender que o caso do Palocci foi “superdimensionado”.

Moro “liso”
Moro preferiu se esquivar de temas “delicados”, como o escândalo de corrupção envolvendo o filho do presidente, senador Flávio Bolsonaro e o caso Queiroz; a manifestação aberta de nazismo do ex-secretário de Cultura, Roberto Alvim; o caso de corrupção envolvendo o secretário de Comunicação do governo, Fábio Wajngarten; os ataques de Bolsonaro contra a liberdade de imprensa e jornalistas. “Não cabe ao ministro da Justiça ser comentarista sobre tudo”, foi a resposta padrão de Moro. “Não vim aqui falar sobre o presidente […] cabe ao presidente fazer avaliações […] Não preciso ficar externando conselhos que dou ao presidente”, foram algumas de suas respostas.

Enquanto isso…
Já que não foram convidados para o Roda Viva, jornalistas do The Intercept Brasil estiveram ao vivo acompanhando todo o programa e publicando comentários em suas redes sociais. Com audiência que beirava as 14 mil visualizações simultâneas, rebateram as esquivas de Moro e ainda deixaram uma série de perguntas que eles fariam se estivessem lá. Algumas boas perguntas foram feitas pela “bancada oficial”, como afirmou o editor executivo do veículo, Leandro Demori. A grande exceção foi Felipe Moura Brasil, da Jovem Pan, que pouco participou e, quando falou, mais pareceu um assessor do ministro, segundo os analistas.

Segue algumas das perguntas do The Intercept Brasil que ficaram sem resposta:

  • O senhor acha a delação de Palocci fraca, por que levantou sigilo seis dias antes das eleições? Nem mesmo o MPF aceitou fechar delação.
    PS. Foi perguntado e Moro não respondeu.
  • Deltan trouxe da Suíça, em segredo, um pen drive com informações de contas bancárias. Ilegalmente. Um procurador pode ir para um país estrangeiro sem autorização e usar no processo?
  • O senhor acha normal que procuradores vazem informações para a imprensa para intimidar réus e delatores?
  • O que acha da Lava-Jato ter acessado clandestinamente o esquema de propinas da Odebrecht antes da autorização judicial? Pode ser usado no processo?
  • Por que o senhor instruiu a Lava-Jato a não apreender os celulares de Eduardo Cunha? O que tinha nesses celulares? Ele se declarou contra uma delação do Eduardo Cunha, pediu para ser informado. Disse “Como sabe, sou contra”. Por que era contra? Por que instruiu agentes a não apreender os celulares?
  • O senhor autorizou uma devassa na filha de um investigado para tentar prendê-lo. Um cara que morava em Portugal. Há relatos de pressão, inclusive, contra uma criança de 7 anos. Acha normal isso?
  • O que quis dizer com “In Fux We Trust”?
  • Como Deltan conseguiu ganhar 400 mil reais em um ano, pelo menos, em palestras a partir da Lava-Jato?

REDES SOCIAIS

Denúncia contra Glenn manipula a lei para perseguir quem incomoda

22 de janeiro de 2020

Glenn Greenwald conta como chacoalhou o mundo quase sem sair de uma varanda na zona norte do Rio de Janeiro. Foto: Daryan Dornelles.

Procurador distorce diálogo gravado para defender interesse de colegas da Lava-Jato.

Bruno Boghossian em 21/1/2020

A Polícia Federal ouviu as 1.285 palavras trocadas entre Glenn Greenwald e um dos hackers de Araraquara no último dia 7 de junho. O delegado não viu provas contra o jornalista e anotou que ele manteve na conversa “uma postura cuidadosa e distante”. Já o procurador Wellington Oliveira realizou a façanha de analisar o mesmíssimo diálogo e denunciar o repórter por três crimes.

O contorcionismo do Ministério Público Federal para alvejar Glenn mostra como uma corporação é capaz de manipular o sentido das leis para proteger seus próprios integrantes e perseguir quem incomoda.

O procurador ignorou o fato de que o jornalista não era sequer investigado pelo hackeamento de autoridades como Sérgio Moro e a força-tarefa da Lava-Jato. Preferiu distorcer diálogos que, na verdade, desmontam sua própria tese.

O responsável pela denúncia argumentou que Glenn recebeu material de sua fonte enquanto o grupo continuava acessando ilegalmente conversas de outros personagens. A investigação, porém, aponta que as mensagens utilizadas pelo jornalista haviam sido obtidas anteriormente.

A lei, aliás, não permite a responsabilização de qualquer pessoa por simplesmente ter conhecimento de um crime. Além disso, a gravação usada como única prova na denúncia indica que Glenn não estimulou ou direcionou o hackeamento.

A acusação é tão frágil que o procurador se obrigou a deturpar o trecho em que um dos integrantes do grupo pergunta a Glenn se deve apagar as mensagens roubadas.

O jornalista disse que não poderia orientá-lo e acrescentou apenas que ele poderia deletar o material para que seu papel como fonte fosse preservado. Trata-se de um preceito gravado na Constituição, mas o procurador forçou a barra e pintou o trecho como se fosse uma manobra para dificultar as investigações.

O autor da acusação atropelou princípios para defender os interesses corporativos de seus colegas da Lava-Jato, atingidos pelas revelações feitas por Glenn. A tentativa de intimidação é a prova de que a liberdade de imprensa é essencial para evitar abusos de poder.

Bruno Boghossian, jornalista, foi repórter da Sucursal de Brasília. É mestre em ciência política pela Universidade Columbia (EUA).

REDES SOCIAIS

Bolsonaro gasta R$48 milhões em auditoria e não encontra caixa-preta do BNDES

22 de janeiro de 2020

Objetivo era encontrar indícios de corrupção, promessa de campanha de Bolsonaro.

Diego Garcia, via Folha em 20/1/2020

O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) gastou R$48 milhões em relatório de investigação externa referente a operações entre o banco e as empresas JBS, Bertin e Eldorado, entre os anos de 2005 a 2018. A auditoria não encontrou indícios de corrupção em oito operações investigadas.

O banco divulgou em 10 de dezembro que o relatório indicou que não foram encontradas evidências diretas de corrupção, influência indevida sobre a instituição ou pressão por tratamento diferenciado na negociação, aprovação e/ou execução das oito operações investigadas.

Na ocasião, o BNDES divulgou que entregou a íntegra da auditoria, que não é pública, para a Procuradoria-Geral da República. O resumo do relatório foi disponibilizado no site do banco e tem oito páginas.

“Com o compartilhamento do resultado dessa investigação com a PGR e a sociedade, o BNDES mantém firme seu propósito contínuo de transparência, abrindo os seus dados e se aproximando cada vez mais da sociedade”, disse o BNDES, em nota oficial.

O presidente da instituição, Gustavo Montezano, já havia dito em reunião da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Câmara dos Deputados, em agosto do ano passado, que a instituição havia gasto até então R$45 milhões com a investigação sobre os contratos assinados pelo banco coma JBS em anos passados – o valor de R$48 milhões é atualizado.

A investigação foi iniciada em 2018, promovida pelo escritório Cleary Gottlieb Hamilton & Steen LLP, e buscava apurar evidências de suborno, corrupção ou influência indevida nas atividades do BNDES.

Quando assumiu o banco, em julho do ano passado, Montezano prometeu “explicar a caixa-preta do BNDES para a população brasileira”. Ele entrou no lugar de Joaquim Levy, que pediu demissão no mês anterior, após não conseguir abrir a tal caixa-preta da instituição, promessa de campanha do presidente Jair Bolsonaro.

A “abertura da caixa-preta” do BNDES era uma das principais promessas do então candidato Jair Bolsonaro na área de economia durante a eleição. O político costuma apontar problemas em empréstimos do banco para países como Cuba e Venezuela. O presidente havia prometido, inclusive, “abrir a caixa-preta” do BNDES na primeira semana de governo.

Procurador que denunciou Glenn é o mesmo que denunciou presidente da OAB

22 de janeiro de 2020

Sindicato dos jornalistas e OAB fazem ato em apoio ao jornalista Glenn Greenwald no salão nobre da faculdade de direito da USP, no largo São Francisco, em São Paulo. Foto: Bruno Santos (9/9/2019).

Mônica Bergamo em 21/1/2020

O procurador da República Wellington Divino Marques de Oliveira, que denunciou o jornalista Glenn Greenwald e outras seis pessoas sob acusação de hackear telefones de autoridades ligadas às investigações da Lava-Jato, é o mesmo que denunciou o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, por calúnia contra o Ministro da Justiça, Sérgio Moro.

Em julho, Santa Cruz disse, em entrevista à coluna, que o ministro “banca o chefe da quadrilha ao dizer que sabe das conversas de autoridades que não são investigadas”.

O presidente da OAB comentava outra reportagem da Folha que revelou que Moro telefonou para autoridades que teriam sido alvo dos hackers presos pela Polícia Federal na Operação Spoofing.

Na semana passada, a Justiça rejeitou a denúncia do MPF contra Santa Cruz.

Na terça [21/1], o Ministério Público Federal em Brasília denunciou sete pessoas sob acusação de envolvimento no hackeamento de contas de Telegram de autoridades como Moro o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da Lava-Jato em Curitiba.

Petistas denuncia perseguição a Glenn Greenwald por ter mostrado os crimes da Lava-Jato

22 de janeiro de 2020

Glenn Greenwald: “Moro sabe que eu sei tudo que ele disse e fez”.

O procurador Wellington Oliveira denunciou o jornalista embora ele não seja investigado na Operação Spoofing.

Via PT na Câmara em 21/1/2020

Parlamentares da Bancada do PT na Câmara usaram suas redes sociais na terça-feira [21/1] para denunciar a perseguição do Ministério Público Federal (MPF) ao jornalista e fundador do site The Intercept Brasil, Glenn Greenwald. O procurador Wellington Oliveira denunciou Glenn Greenwald – embora ele não seja investigado – na Operação Spoofing por 176 invasões de dispositivo informático e associação criminosa. De acordo com o MPF, o jornalista auxiliou e orientou hackers durante o período das invasões.

A presidenta do PT Nacional, deputada Gleisi Hoffmann (PR), afirmou que o Ministério Público usa do poder para se vingar de Glenn Greenwald. “MP abusa do poder para se vingar de Glenn Greenwald, que denunciou crimes da Lava-Jato e parcialidade do então juiz Sérgio Moro contra Lula. Querem estado policial, com mais farsas, ilegalidades e arbitrariedades. PT solidário com Glenn, em defesa da liberdade de imprensa“, enfatizou.

Para o futuro líder da Bancada do PT a partir do mês de fevereiro, deputado Enio Verri (PR), a denúncia é mais uma supressão da democracia. “O MPF denuncia o jornalista Glenn Greenwald por crimes cibernéticos. Porém, Glenn nem sequer indiciado foi e nunca se provou sua ligação com supostos hackers. A denúncia é mais um triste capítulo da supressão da democracia, com o cerceamento da liberdade de imprensa“, lamentou.

“Moro e Bolsonaro usam o MPF para perseguir Glenn Greenwald, o jornalista que está expondo erros da Lava-Jato”, denuncia o deputado Henrique Fontana (PT-RS). A deputada Margarida Salomão (PT-MG) se solidariza com o jornalista. “Como era esperado, o lawfare alcançou Glenn Greenwald. Em tempo: procurador do MP que, contrariando a Polícia Federal, decidiu denunciar Glenn fez o mesmo com Felipe Santa Cruz, presidente da OAB, por suposta calúnia contra Sérgio Moro. A Glenn, nosso abraço e apoio”, enfatizou.

Perseguição
“Urgente. Em ato de perseguição, MPF denuncia Glenn Greenwald e mais 6 por “invasão de celulares de autoridades”. Trata-se de uma absurda tentativa de intimidação do trabalho jornalístico do The Intercept Brasil, que revelou ao Brasil e ao mundo os crimes da Lava-Jato”, denunciou a deputada Erika Kokay (PT-DF) em seu twitter.

Para o deputado Alencar Santana (PT-SP) a denúncia tem o intuito de coagir as revelações feitas pela Vaza-Jato. “Perseguição Escancarada. MPF denuncia Glenn e mais seis investigados com o intuito de coagir o trabalho feito pelo The Intercept que desmascarou a farsa da Lava-Jato e do ex-juizeco Moro”. Já para o deputado Paulo Teixeira (PT-SP) a denúncia coloca em evidencia a partidarização de alguns setores do MP. “A denúncia contra Glenn Greenwald demonstra a partidarização de setores do Ministério Público que estão a serviço de Sérgio Moro e de Deltan Dallagnol“.

“Quando o MPF vai indiciar os promotores da Lava-Jato por uso político da instituição pública? Isso é um recibo de perseguição política contra a imprensa”, indaga o deputado Valmir Assunção (PT-BA).

Denunciados
Além de Greenwald, foram denunciados os seis membros do grupo hacker composto por Walter Delgatti Neto (o Vermelho), Danilo Marques, Luiz Molição e Tiago Elieser, Suelen Priscila e Gustavo Santos.

Como explica o MPF, o jornalista não era alvo das investigações. “Glenn Greenwald também foi denunciado, embora não investigado nem indiciado”. “Para o MPF, ficou comprovado que ele auxiliou, incentivou e orientou o grupo durante o período das invasões”, afirma o órgão.

O Ministério Público pede a condenação dos acusados visto que foram comprovadas 126 interceptações telefônicas, telemáticas ou de informática e 176 invasões de dispositivos informáticos de terceiros, resultando na obtenção de informações sigilosas. Com exceção de Glenn, todos os outros denunciados responderão pelo crime de lavagem de dinheiro.

OAB
Também foi o procurador do MPF Wellington Oliveira que denunciou, no dia 19 de dezembro, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, sob a acusação de ter caluniado o ministro da Justiça, Sérgio Moro.

Em julho, Santa Cruz disse, em entrevista à colunista do jornal Folha de S.Paulo Mônica Bergamo, que o ministro “banca o chefe da quadrilha ao dizer que sabe das conversas de autoridades que não são investigadas”.

***

NOTA DO PT: DENÚNCIA CONTRA GREENWALD É ATAQUE À DEMOCRACIA
“A denúncia do MP contraria frontalmente decisão liminar do STF, que proibiu a inclusão de Greenwald e seu site nas investigações da Polícia Federal”.
Via Notícias do PT em 21/1/2020

Em mais um episódio de abuso de autoridade e usurpação de competência, um procurador do Ministério Público Federal apresentou hoje [21/01] denúncia criminal contra o jornalista Glenn Greenwald, editor do site The Intercept Brasil. A motivação é clara: vingar-se pelas reportagens que denunciaram os crimes da Lava-Jato e confirmaram a parcialidade de Sérgio Moro e seus procuradores, apontada ao Supremo Tribunal Federal pela defesa do ex-presidente Lula.

A denúncia do MP contraria frontalmente decisão liminar do STF, que proibiu a inclusão de Greenwald e seu site nas investigações da Polícia Federal que tinham o objetivo de criminalizar a série de reportagens da Vaza-Jato. Trata-se de mais um crime, desta vez contra a liberdade de imprensa, cometido pelos parceiros de Sérgio Moro com o incentivo e cobertura das Organizações Globo.

A vingança da Lava-Jato contra o jornalismo reforça a escalada da extrema-direita – por meio do governo e de seus agentes em instituições como o Judiciário e o MP – na direção de um estado policial. Repressão, censura, violência policial e judicial são os instrumentos que utilizam para implantar, à força, um programa econômico que arruína o país e destrói os direitos do povo, a começar pelo direito ao emprego.

A Lava-Jato foi extremamente útil à implantação desse programa, que para se impor precisa calar manifestações e atacar a democracia.

Não é mera coincidência que a denúncia contra o editor da Vaza-Jato tenha sido feita horas depois de o ministro da destruição da economia brasileira, Paulo Guedes, ter anunciado na Suíça a entrega total das nossas compras públicas às empresas estrangeiras. Esta é a consequência direta da destruição das grandes empresas nacionais competitivas, privadas e estatais, promovida pela Lava-Jato e por uma sistemática campanha de mídia contra o projeto de desenvolvimento soberano com inclusão social que o país conheceu nos governos do PT.

O povo brasileiro é a maior vítima dos ataques às liberdades democráticas e à soberania nacional, por parte da extrema-direita e seus aliados na mídia, no mercado e nas instituições. O PT seguirá lutando pelo restabelecimento pleno do estado de direito em nosso país, o que exige a anulação da sentença ilegal de Sérgio Moro contra Lula e a punição dos crimes cometidos pela Lava-Jato contra a Justiça e contra o Brasil.

O PT está solidário ao jornalista Glenn Greenwald, em defesa da liberdade de imprensa, da democracia e da soberania nacional.

Comissão Executiva Nacional do PT
São Paulo, 21 de janeiro de 2020

REDES SOCIAIS


%d blogueiros gostam disto: