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Luiza Erundina: “As pessoas tratam a velhice como um defeito”.

3 de agosto de 2020

Foto: Eduardo Anizelli.

VELHICE NÃO É DEFEITO
Aos 85, Luiza Erundina critica a “nova política”, fala de preconceito contra idade e esperança pós-pandemia

Matheus Pichonelli, via Ecoa em 2/8/2020

Trinta e dois anos após ser eleita pelo PT para comandar a maior cidade do país, em 1988, Luiza Erundina de Sousa, paraibana de Uiraúna, volta a disputar uma eleição para a prefeitura de São Paulo. Desta vez como candidata a vice na chapa do PSOL encabeçada pelo filósofo, professor e líder do Movimento Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto Guilherme Boulos.

Os cenários da capital paulista do fim dos anos 1980 e o de agora são semelhantes. “Os problemas estruturais continuam os mesmos”, diz a deputada, que está em seu sexto mandato na Câmara.

Naquele ano, o país vivia uma crise profunda de desemprego, recessão, manifestações populares, insatisfação com a classe política e muita, muita gente vivendo na rua. Tudo agravado pela hiperinflação, que naquele ano fechou em 980%.

Desemprego, recessão, manifestações populares – hoje puxadas por entregadores por app – insatisfação com a classe política e aumento expressivo de pessoas em situação de rua seguem presentes no cenário de 2020. Tudo agravado por uma pandemia que em quatro meses matou mais de 90 mil brasileiros em decorrência do coronavírus.

Tanto Erundina quanto Boulos acreditam que esta não será uma eleição para se discutir buraco de rua, e sim as contingências nacionais.

Aos 85 anos, a ex-prefeita se prepara para uma campanha diferente, sem corpo a corpo, enquanto acompanha votações-chave no Congresso para minimizar os impactos da pandemia. “Nunca trabalhei tanto quanto nesse período”, diz.

Em sua casa em São Paulo, de onde não sai nem para a área comum do prédio, Erundina afirma, por telefone, que à lista de preconceitos que teve de enfrentar ao longo da trajetória política se soma agora um novo item: a idade.

O preconceito se manifesta, segundo ela, dentro do próprio partido e também nas discussões que costumavam ser realizadas no Congresso. “As pessoas tratam a velhice como um defeito. Dizem: coitadinha.”

Ela contesta a associação implícita entre juventude e “nova política”. “Tem até partido chamado Novo. Mas eu nunca vi tanta cabeça velha. Não tem nova política coisa nenhuma.”

Em pouco mais de uma hora de entrevista, gravada no sábado [25/7], ela se mostrou cética em relação ao alcance das frentes amplas em defesa da democracia, atribuiu a eleição de Jair Bolsonaro, a quem chama de “farsante”, ao baixo nível de consciência política, criticou a gestão tucana em São Paulo e lamentou a tentativa de apagamento do educador Paulo Freire, que foi seu secretário da Educação. “O ex-ministro [Abraham Weintraub] que fugiu do Brasil, corrido, só faltava decretar o assassinato de Paulo Freire, mesmo ele morto.”

Erundina conta ainda como tem se adaptado ao mundo digital e sentencia: “Ao vivo é mais fácil de você desmascarar aqueles salvadores da pátria que aparecem na televisão e no rádio, bonitinho, arrumadinho”.

Esta não será a primeira vez que Erundina tenta voltar à Prefeitura de São Paulo. Na última disputa, em 2016, já filiada ao PSOL, ela recebeu 3,18% dos votos e ficou em quinto lugar na disputa que elegeu João Doria (PSDB).

Veja os principais trechos da entrevista:

Trabalho remoto
Nunca trabalhei tanto quanto nesse período agora. O trabalho na Câmara continua. No modo virtual, mas as reuniões, as sessões, vão até a madrugada. Começa muito cedo e nunca a Câmara votou tantas matérias quanto nesse período. Matérias importantes, de interesse da população, referentes à pandemia da covid-19, medidas de proteção, de assistência, de apoio às pequenas e médias empresas, medidas para proteger os empregos. Tem sido um conjunto de matérias que têm sido aprovadas, por sinal quase por unanimidade. As vítimas não são só da infecção, o contágio com o vírus, mas do impacto na economia, no mercado de trabalho, nas condições de vida da população.

Enfim, trabalhamos muito, há uma demanda aqui na cidade muito grande para o nosso mandato. Por exemplo, conseguimos, através do Ministério Público, que a prefeitura destinasse pensões, hotéis, para populações de rua. É um número muito elevado de moradores de rua. E já morreram muitos. São iniciativas que passaram pelo nosso mandato e que requerem nossa atenção.

Não tive um dia, um fim de semana, que eu posso dizer que não tenho nada para fazer. Tudo se mistura com o trabalho doméstico. Eu dispensei a moça que trabalhava aqui, uma vez por semana, mantive o salário até agora. Ela mora na periferia e vir todo dia era um risco para ela e para mim. A gente assume também as tarefas domésticas. Isso sobrecarrega, evidentemente. Por outro lado, ocupar-se ajuda nesse momento de estresse, de ver o agravamento da crise, as pessoas procurando emprego. Enfim, eu nunca trabalhei tanto.

A última vez que saí de casa foi há mais de três meses. Moro em um prédio sem muito espaço. Tem [na área comum] equipamentos de exercício, mas sequer tenho tido condições de fazer. Não há férias. Pelo contrário. E muita preocupação. Tenho dificuldade até para acompanhar os jornais, o noticiário. Por falta de tempo.

Jair Bolsonaro
Esse presidente é um farsante. Ele vive em um teatro contemplando a si mesmo, como Narciso. O país está à deriva. O Congresso tem reagido positivamente, mas não é suficiente. Quem opera a política pública, no sentido geral, é o Executivo. O Congresso tem trabalhado. Aprovamos o auxílio emergencial, autorizando o Executivo a liberar os recursos. Os recursos existem. Esse dinheiro não pode ficar nas reservas. Isso é interesse dos credores internacionais. Essa dinheirama tem que ser liberada. É o papel do Estado. Não é favor nenhum numa situação de pandemia. Veja o que os outros países estão fazendo. Então, tem muita gente passando fome, sofrendo, adoecendo. Há muitas pessoas adoecidas por depressão por conta da falta de perspectiva.

As ideias que circulam por aí, defendidas por esse governo, não são nem do século 20. É do século 19! É demais. É um estrago que fica nas gerações de hoje muito grave.

Erros na pandemia
[As autoridades] Não fizeram o dever de casa. Nem na fase preparatória nem durante [a pandemia]. Abriram demais o isolamento social, já está tudo funcionando, no fim de semana é praticamente normal o trânsito das pessoas. Elas acreditam ou se sentem imunes. Mas ninguém é imune a essa pandemia. Já são mais de 80 mil pessoas mortas [em uma semana já atingiu 93 mil]. E não se tem uma previsão de quando a curva dessa infecção vai cair. Quando diminui numa cidade, aumenta em outra. A infraestrutura não foi adquirida no tempo certo. As pessoas ficam nas filas aguardando uma chance de se salvar. É um negócio dantesco.

Nunca vi coisa mais terrível como a que estamos vivendo nesses dias. Precisamos ter muita compaixão das pessoas, do momento que todo o mundo está vivendo. Tem sido uma dor muito grande, tenho me mantido bastante firme, cuidadosa, porque sou do grupo de risco, e ajudando naquilo que posso. Imagina essas pessoas que estão perdendo os familiares não poderem nem estar presentes ao momento da partida deles? Outros na fila dos hospitais públicos tentando ver se outro libera o leito para poder se salvar. São milhares de casos. Está subestimado o número de mortos, o número de infectados. Um governo que esconde a verdade, que não se prepara para enfrentar essa verdade, que governo é esse?

O governo é omisso, atenta contra o interesse público do ponto de vista da saúde pública, que não acerta na escolha de um ministro da Saúde, que não valorizou o SUS, não deu sustentação ao SUS. A saúde pública, se não existisse, morreria muito mais gente. Espero que depois disso se veja o SUS com outro olhar, com outra valoração, para garantir acesso de todos à saúde, à vida, ao tratamento.

“Nova política” e etarismo
Minha vida não deve ser muito longa mais, mas vivo cada dia como se fosse o primeiro, e como se fosse o último.

Eu tenho dito que só faltava eu ser negra para completar as razões pelos quais eu sofro, ou sofri, muito preconceito, muita discriminação, muitos ataques. Sou nordestina, mulher, de esquerda, solteira. Só faltava eu ser negra. Eu teria mais um motivo para lutar por alguma coisa. Contra o preconceito racial. E agora eu tenho mais um preconceito: a idade. Imagina quanto isso é forte. Dentro do próprio partido, de alguns companheiros obtusos e que também usam [preconceito] na disputa política, porque não pensa que não tem disputa política interna, e como tem. Por mais que a gente lute por igualdade, por uma sociedade mais igualitária, mais justa, mais fraterna, mais solidária. Lamentavelmente, isso passa pela formação das pessoas. E a formação das pessoas não passa apenas por uma ideologia que a pessoa eventualmente abrace.

Hoje eu tenho mais um fator para lutar. É para demonstrar que a velhice não é uma doença, muito menos um defeito. As pessoas tratam a velhice como um defeito. Dizem: coitadinha. Nos eventos que acontecem lá na Câmara, ou aconteciam, antes desse momento grave, como conferências e seminários para debater a velhice, o tema era sempre a doença, o cuidador, onde o velho vai ficar. E eu me revoltava. Dizia: sou velha, estou com essa idade, mas eu não vejo a velhice dessa forma. Vejo a velhice como alguém, não só porque tem experiência, mas que tem energia. Que é mais maduro, já teve mais tempo para errar e para corrigir esses erros.

Velhice não é uma doença, eu insisto isso. Não é um defeito. Todos, se tiverem a sorte, e eu estou tendo, vão chegar a esse estágio. E como vão enfrentar? Vão ter preconceito da mesma forma que têm hoje como jovens? E, lamentavelmente, na política, tem os novos lá na Câmara. Houve uma renovação muito grande, mais de 40% da Câmara. Estou no sexto mandato. E tem até partido chamado Novo. Mas eu nunca vi tanta cabeça velha. Tem muito jovem. Com certeza, cresceu muito o número de jovens. Não só no Partido Novo, mas também nos outros partidos. Lamentavelmente, a juventude em número de anos não corresponde àquilo que precisa para ter maturidade política. A generosidade política. A compreensão do outro, independente de ele ser seu adversário político.

“Adversário político não pode ser inimigo.
Ele é apenas um adversário que tem ideias muitas vezes
opostas, antagônicas. Não tem nova política coisa nenhuma”.

Não estou dizendo que a idade não tem limites. Limites físicos, limites de mobilidade. Porém a tua cabeça não tem limites.

Meio ambiente
O homem, o ser humano de modo geral, sem dúvida têm uma diferença fantástica. E por isso tem ainda mais responsabilidade na preservação da natureza, nos direitos da natureza. A Terra é um ente vivo. E como tal tem direitos. E como se desrespeita os direitos da natureza, da terra, das florestas! Da água pura para todo mundo. Os indígenas estão sendo dizimados. Por falta de uma política de saúde indígena decente, humana.

É tudo isso que está em xeque, que está em debate, e que está no quadro da reflexão, inclusive aproveitando o espaço da disputa eleitoral para, em vez de ficar batendo, criticando, e desqualificando adversários, precisamos é aproveitar para elevar o nível de consciência humana, de solidariedade, e de coletividade para a gente ter um mundo mais suportável. Uma sociedade mais fraterna, mais justa, com pessoas mais humildes, menos violentas, menos egoístas.

Não entendo como pessoas cometem desvios éticos para acumular direitos. Para quê? Há uma falta de inteligência, na maioria dos seres humanos. Um momento como este é uma oportunidade de se aprender um pouco mais, de se conscientizar, de transformar a si mesmo.

Mundo pós-covid-19
A violência contra a mulher cresceu muito nesses dias. O machista, o agressor, está mais tempo dentro de casa. Tem a violência contra a mulher, contra criança, contra o idoso, abuso sexual. Então está sendo outro problema que está preocupando muito. O feminicídio. O que tem morrido de mulher! São coisas terríveis que vão perdurar na vida das pessoas, além das que foram vitimadas pela pandemia. Tudo isso nos preocupa no pós-pandemia. Como é que vai estar esse país sem reservas, sem condições de criar novas saídas? O mercado de trabalho não absorve mais ninguém. Já está demitindo muita gente. Reduzindo carga horária, reduzindo salário. Ou mantendo a carga horária, mas com salário reduzido para preservar o emprego.

Os dirigentes, quem tem poder, teriam de estar dedicados, neste momento, a planejar o próximo passo. O que vai vir depois? Daqui a pouco, os supermercados estão sendo saqueados, como houve em outros tempos. Na década de 1980, e eu era vereadora, houve muitos saques. Havia muitos desempregados. Mas os desempregados pobres também criam suas próprias saídas, não como solução definitiva, mas como redução de um dano, digamos assim. Na periferia, eles se juntavam para fazer compras do essencial na central de abastecimento mais barata, para eles dividirem entre eles. O salário deles era distribuído na comunidade, para a compra coletiva, para que o pouco que eles conseguiam pudesse suprir o essencial para a vida das pessoas. É a solidariedade do pobre com o pobre. Esse sentimento de solidariedade hoje está expandido pela sociedade. Há um sentimento forte de as pessoas quererem contribuir, ajudar, minimizar a dor, o sofrimento, a tristeza, a pobreza.

Eu tenho expectativa, esperança, que depois dessa pandemia que atingiu o mundo, os mais ricos e os mais pobres, que a sociedade saia melhor. Mais generosa. Que tenha mais compaixão. Que saiba que um ser humano é igual ao outro, e como tal tem direitos iguais. Dignidade igual. E que, acho que é uma eleição, se a gente aproveitar bem, ela pode realmente melhorar a sociedade. Melhorar o mundo. Melhorar o planeta. É isso que me move. A história dá saltos, a história dá onda para trás, a história é dialética. O ser humano é capaz de salvar a si mesmo e se reeducar. De se assumir como sujeito histórico, alguém que faz história e não só sofre a história que os outros fazem.

Vida e campanha digital
Acho que tem vantagens e desvantagens. Ao mesmo tempo em que a gente agradece a essas descobertas fantásticas da ciência, da tecnologia. Você ganha em escala, mas perde em sentimento. A relação pessoa a pessoa, olho no olho, o próprio debate político se dá em um outro clima. Com uma capacidade maior de influenciar, mas do ponto de vista da informação, com certeza ela está muito mais disseminada hoje por esses meios, seja em relação àquilo que interessa imediatamente, no combate a uma pandemia como esta, seja sobre a realidade, como a realidade se coloca hoje, o que cada um tem a ver com esse problema todo que está dado aí, o que cada um também poderia, a partir de si mesmo, contribuir para que as coisas fossem diversas.

A gente não poderia, nem deveria, nem deverá, se expor em atividades e eventos presenciais [na campanha]. O risco é enorme. Não só para cada um que está fazendo campanha, mas pra quem está acompanhando eventualmente e comparecendo a esses eventos. Tem que ser mesmo através desses meios virtuais. É uma oportunidade de fazer chegar as informações e as ideias e os projetos ao maior número de pessoas.

Por outro lado, a relação presencial não existindo, elas perdem muito em qualidade, qualidade inclusive de convencimento, de formar convicções e transmitir essas convicções. Ao vivo é mais fácil de você desmascarar aqueles salvadores da pátria que aparecem na televisão e no rádio, bonitinho, arrumadinho. E quando chega lá não tem nada a ver com aquilo que mostrou na propaganda eleitoral.

O presencial é realmente superior em qualidade do que esses meios. Mas ainda bem que a gente tem esses meios. Só que a gente tem de usá-los para o interesse de todos, de forma ética. Não vê as “fake news” aí, o que acontece? Um horror. Destroem a memória das pessoas, destroem a biografia das pessoas, destroem a honra das pessoas. E tem que ser limpar isso, mas como os meios são muito revolucionários e muito rápidos em suas mudanças, de repente é uma plataforma que não se conhece, de repente é um aplicativo que não se conhece, e de repente é uma outra inovação.

É o desafio dos tempos modernos. Da sociedade do conhecimento, da informação, da internet. O ser humano tem que acompanhar a evolução que ele mesmo gera. O uso delas é que não é neutro. A ciência, a tecnologia não são neutras. O uso que se faz delas servem ou desservem a determinados setores da sociedade. Aí entra a questão ética e política.

Bolsonarismo e rejeição à política
O Estado, como a principal organização política de uma sociedade democrática como a nossa, está esvaziado nos seus governos, na sua estrutura, nas suas práticas, nos seus meios de funcionamentos. O mesmo vale para os partidos políticos, vale para os sindicatos. A própria instituição família está sendo muito questionada por essas mudanças que estão se dando. O que se torna mais grave no Brasil, do ponto de vista da negação da política, da rejeição, que responsabiliza e nivela todos os políticos. Mas a política é uma prática de todos.

Você também faz política até inconscientemente. Ao agir e ao influenciar o seu entorno você está fazendo política. A imensa maioria do povo brasileiro tem um baixo nível de formação política, de consciência política. Como os eleitores que deram a maioria dos votos para o Bolsonaro não compreenderam, com uma avaliação crítica, o que aquele homem era e o que era capaz de fazer? E tem pesquisas que apontam que ele ganharia em todos os cenários [em 2022]. É um horror. E isso o que é? É o baixo nível de consciência política.

As escolas não fazem educação política, as universidades também não fazem. As pessoas saem tecnicamente preparadas, cientificamente preparadas, mas humanamente, eticamente, filosoficamente despreparadas. Por conta disso é que varia tanto o humor da sociedade brasileira em relação à política e aos políticos. Em cada momento é uma reação que corresponde a uma indignação por motivos nem sempre justificáveis, mas também outros justificáveis.

É preciso indagar por que votei no fulano de tal e como, com meu voto, ele virou isso. Ninguém se pergunta isso. Portanto, é um baixo nível de consciência política, de consciência de ser um sujeito político, de que nós temos o governo que nós somos, num certo sentido.

São Paulo ontem e hoje
Os problemas estruturais continuam os mesmos. Há 30 anos, quando eu me elegi prefeita, o país vivia uma crise de desemprego profunda. De recessão profunda, com a inflação de 80%, desemprego em massa, os desempregados saindo para as ruas manifestar sua indignação e pressionando os governos por solução. Não era um período tranquilo. A cidade era um pouco menor, mas já era imensa. Eram 9,5 milhões de habitantes numa região metropolitana. Os municípios não têm fronteiras separando um dos outros.

As pessoas moram numa cidade, trabalham na outra, acessam os serviços na outra. Deveria haver um planejamento metropolitano na região. Para poder aliviar a demanda sobre as grandes cidades. As cidades do interior, em vez de adquirirem um hospital, ou instalarem o serviço para população da própria cidade, da própria região, compram ambulância para mandar as pessoas para São Paulo. Tem um impacto na área da saúde, na área da locomoção, ou da mobilidade, na área de saneamento básico, na área da saúde, sobretudo.

Há uma duplicidade, uma sobrecarga, para cidades como São Paulo. Naquele tempo já havia isso. Por ser um momento de crise também havia uma insatisfação muito grande da sociedade com os políticos, com a política, com os governos. Havia uma insatisfação generalizada. A eleição se deu dentro de um quadro com aspectos semelhantes como os de hoje.

Havia também muita gente na rua. No nosso governo a gente conseguiu manter uma política de acolhimento à população de rua, sem resolver o problema. Com crise, com desemprego, crise social profunda, de marginalidade social, haverá sempre a população de rua. Não na dimensão que está hoje. Hoje as famílias inteiras estão na rua, porque não podem mais pagar o aluguel, estão desempregadas. Tem pessoas que trabalham e dormem na rua com a família depois de um dia trabalhado. Há semelhanças de conjuntura daquele momento e o de hoje que explicam, num certo sentido, a rejeição da população pela política, não só pelos políticos. E [a população] tem toda razão de cobrar, de exigir, de estar indignada com o comportamento das pessoas da política. Mas não podem rejeitar, abrir mão, da política como tal. Porque sem a política não se resolvem os problemas da coletividade.

Sinto um clima de adesão das pessoas, de reencantamento, de voltar a acreditar na política, e em algumas pessoas que estão na política. Então há um momento, um aspecto, que havia naquele tempo e que talvez até explique a minha eleição naquele momento, uma pessoa de esquerda, uma pessoa completamente fora do padrão político tradicional. E percebo hoje também uma certa semelhança, uma busca das pessoas por alguém que sinalize com alguma esperança de que pode haver mudanças.

Essa cidade é muito poderosa. O seu orçamento é o terceiro maior do país. Dependendo de como você aplica esse recurso, ele pode ter um impacto positivo também nas classes populares. Naquele tempo não tinha nem coleta de lixo na periferia. Muito menos canalização de córrego sujo, que passava na porta do pobre, o filho dele brincando na lama e no esgoto a céu aberto. Hoje não é diferente. Tem pessoas que, para se proteger da pandemia, não tem água, não tem sabão, não tem sabonete. Não tem espaço para se isolar socialmente. Nós tivemos que conseguir espaço nas escolas, para que essas pessoas pudessem se proteger de alguma maneira.

Foto: Nelson Antoine.

Ligação nordestina
Já estou com essa idade [85 anos]. Já fui prefeita dessa cidade. Estou no sexto mandato de deputada, não teria motivos para querer uma tarefa dessas. Mas entendo que ainda tenho uma condição de saúde, graças a Deus, uma experiência acumulada, um vínculo com essa população, essa população confia na gente, tem a gente como uma referência. Eu cumpro um papel pedagógico, educativo junto a essa população. A maioria é nordestina, como eu.

Em 28 de janeiro vou completar 50 anos nesta cidade. Vim para cá expulsa do Nordeste pela ditadura, para trabalhar como assistente social, como vereadora, como deputada estadual, como prefeita. A minha vida foi junto com essa população. Ela tem em mim um deles a quem eles possam recorrer para pedir uma orientação, para pedir uma ajuda. Então eu posso cumprir um papel num momento crítico como o que vamos enfrentar ainda daqui para frente, com alguém que também tem muita sensibilidade. São Paulo tem uma liderança política por origem.

Os governantes do estado e da capital não têm exercitado como deveriam o poder político de quem dirige este estado e esta cidade. Todos ficam presos a seus projetos pessoais, eleitorais.

Guilherme Boulos
O [Guilherme] Boulos é uma pessoa formada pelo povo. Ele tinha 17 anos, era aluno da USP, e já trabalhava na periferia com essa população sem-teto. E ele se formou convivendo com essa população, e ele é de fato comprometido com esta causa, dos mais pobres, dos sem-teto, dos desempregados.

O que ele tem feito pessoalmente, e o grupo dele, para ajudar, não só os que estão no movimento, mas com eles juntos, para proteger essa população, levando gel, levando sabão, cestas de alimentos, o que conseguem. É uma pessoa que tem uma formação, e uma história de vida. É um idealista. Junto com ele, a gente pode, quem sabe, diminuir um pouco o sofrimento dessa gente. E colocar essa cidade a serviço dessa gente.

Convivi com o Boulos na campanha eleitoral para presidente. De lá para cá, no partido, no trabalho dele na periferia, tenho ido muito aos assentamentos onde ele organiza o povo para poder lutar pelo direito à moradia. A meu ver, ele será um excelente gestor, junto com toda a população. Tem que chamar todo mundo, tem que chamar todas as forças, tem que abrir o espaço para todo mundo opinar, sugerir, participar, controlar socialmente, controlar a gestão, para que dê certo, para que chegue ao último ponto da cidade, com aquilo que a gestão e o governo podem levar a essas pessoas.

Frente ampla
O Brasil não tem uma tradição de frentes. Só em certos momentos agudos elas se formam, mas terminou aquele momento, a frente se dissolve e cada um fica no seu canto, no seu lugar, disputando espaço. Isso é uma deficiência da nossa cultura política. Quando se trata de disputar o poder, sobretudo numa cidade como São Paulo, ainda fica mais difícil juntar essas pessoas. Todos se acham com direitos de ser a cabeça [das chapas eleitorais]. Todo mundo diz: eu sou a cabeça, você vai para vice. Fica muito difícil.

Não há um projeto que unifique essas forças. Você não unifica pessoas, unifica ideias. E propostas, projetos. A esquerda ainda não conseguiu no Brasil construir uma proposta unitária, uma proposta unificadora, e com um crivo real da visão da sociedade. Não pode ser um projeto só das lideranças do campo da esquerda. Tem que ser uma sociedade testada, discutida, refletida e construída junto com quem pensa na sociedade, quem reflete sobre a sociedade. Então, a dificuldade nossa é essa: no dia que a gente tiver uma compreensão, uma unidade, em torno de alguns pontos, que possa ser uma pauta nacional, com reflexos nas instâncias estaduais e municipais, aí fica mais fácil essa frente, essa unificação.

“Em geral essas frentes se fazem por cima,
não de baixo. São os mesmos de sempre. As mesmas lideranças.
E fica difícil porque cada um é uma estrela que disputa
com outra estrela, não tem uma humildade de dizer ‘não sou estrela, não’”.

Radical, sim. Sectária, não
A sociedade é conservadora. E isso se expressa no Congresso. Na Câmara, de 513 deputados, somos apenas 130. E nem sempre há uma unidade entre nós. Somos 130 votos de oposição que varia. Oposição a quê?

Em São Paulo, essa margem popular onde a gente tem vínculos de vida, e não só vínculo no discurso, mas uma presença histórica junto da população, é conhecida. A minha eleição em 1988 se deveu a esses setores. E com um preconceito contra mim muito forte, ao nordestino, à nordestina, a quem tinha vínculo com as favelas, e chamavam de ignorante. Mas eles se enganaram. Achavam que eu era despreparada. Diziam que eu era radical. Radical tem que ser, mas diziam que eu era sectária. Eu nunca fui isso. As pessoas não conseguem ver quando veem através do preconceito. Mas na prática a gente demonstrou que é possível fazer diferente.

Não se faz milagre, evidentemente, mas você vai plantando uma prática política e uma gestão democrática que as pessoas ficam com elas. Nos educadores, no pessoal da área da saúde, da assistência, incorporaram as práticas e as políticas do nosso governo até hoje. São esses segmentos que estão vindo nos apoiar, querer ajudar, tem expectativa em relação a nossos nomes, nossos projetos. É nesse segmento que a gente tem chance. Não é na elite. De jeito nenhum. Mas parte da classe média vai estar com a gente também, com certeza. Que não apoia o bolsonarismo, o fundamentalismo religioso, que não apoia o retrocesso em todos os sentidos.

Paulo Freire
Se a maioria opta, num regime democrático, por uma pessoa, um grupo, um projeto que é este que está aí, meu irmãozinho, como essas pessoas pensam a vida, a política, a vida social? É por isso que não se quer dar a educação crítica a todo mundo. Por isso a dificuldade de se qualificar a educação. Por isso hostiliza-se Paulo Freire, que trouxe uma filosofia da educação, uma pedagogia e uma didática revolucionárias que não só instruem as pessoas, mas lhes dão consciência e formam politicamente. Mas ele é um condenado no Brasil. Ele foi anistiado e ficou mais de uma década fora do Brasil, foi expulso pela ditadura militar.

E qual era a arma dele? Era a forma de educar os seres humanos, a formação da conscientização, a formação da autoconsciência do que é um ser humano no mundo, na sociedade, que vê o mundo com seus próprios olhos. Nunca um educador, um mestre, um filósofo da educação foi tão hostilizado como está sendo Paulo Freire neste governo. Tem três projetos na Câmara para tirar de Paulo Freire o título de patrono da educação brasileira. O ex-ministro [Abraham Weintraub] que fugiu do Brasil, corrido, só faltava decretar o assassinato de Paulo Freire, mesmo ele morto.

Isso tem razões de ordem histórica, de ordem social, de cultura, ou falta de cultura política. É um desvio de compreensão das coisas. Daí a importância da educação. Da educação no sentido amplo do termo.

Mais Brasília, menos Brasil
Vai ser [uma eleição] muito nacionalizada, sobretudo aqui em São Paulo. Claro que não podemos ignorar as questões locais. Porque é no local onde os problemas ocorrem. É no local que as soluções aparecem. É no local onde as pessoas se organizam para enfrentar determinadas situações. Não é no abstrato do Estado nem no abstrato da União. Mas a realidade nacional é que determina [o debate] porque o poder concentrado no Brasil é na esfera da União. Menos no estado e muito menos no município. Isso é uma distorção da federação brasileira.

Nos países de democracia consolidada o município tem a maior fatia do orçamento. Em alguns países da Europa, 70% das receitas da União vão para os municípios. No Brasil não. Não só não tem uma distribuição igualitária, equilibrada de recurso, mas também de poder. Um município não tem prerrogativa para resolver as questões da economia, do emprego, das políticas estruturais da sociedade. É tudo concentrado na União. Consequentemente o orçamento do país é concentrado na União, e fica dividido, distribuído a critério do chefe, que está com o poder na mão, e de critérios políticos, eleitorais, ideológicos.

Por isso que eles querem tirar da Constituição a vinculação das verbas públicas, das políticas públicas. Não querem que seja vinculada à Constituição o direito à educação, o direito à saúde, à mobilidade urbana, o direito à moradia. Tirando da Constituição fica mais fácil, para o gestor que tem o poder central, decidir desigualmente aquilo que deveria ser uma distribuição igualitária. É uma luta estrutural de longo prazo, que não se esgota em quatro anos de governo. Ou mesmo em oito anos de governo. Por isso precisamos pensar São Paulo para décadas, e não para um governo de quatro ou oito anos.

Foto: Eduardo Anizelli.

Lula
Ele não se moveu depois que saiu da prisão. Eu pelo menos não sinto isso. Claro, é compreensível, pelo que ele sofreu e ainda sofre. O caso dele não está resolvido ainda. A liberdade dele não está de todo assegurada. E o tempo passa. O próprio PT não é mais o mesmo. Tem outras lideranças no partido. Não é uma coisa tão simples de resolver.

Quando havia só o Lula como liderança maior, todos se submetiam, porque inclusive as escolhas das candidaturas em outros níveis passavam por ele. Os partidos também têm que ser democráticos na sua vida interna. Nas decisões sobre quem vai representar o partido para determinadas tarefas. E precisam formar diferentes quadros. Não podem ficar centrados numa pessoa só. Isso empobrece, o tempo passa.

Temos que avançar muito ainda. Houve uma ditadura de 21 anos, e um retrocesso há cinco anos que está tendo. Isso também traz desgastes para essas questões e para as pessoas envolvidas nela.

Gestão Bruno Covas
Lamentavelmente não teve nada diferente. Ele anunciava muita iniciativa, mas até que elas chegassem… Por exemplo, a gente conseguiu, através do Ministério Público, não foi por decisão [própria da prefeitura], que disponibilizassem espaços, pensões e hotéis para população de rua. Parece que [a prefeitura] criou inicialmente cem vagas. Tem 25 mil pessoas nas ruas! Isso é um exemplo. Outra: os cursos de alfabetização e educação básica para adultos e jovens se espalharam pela cidade desde a época do Paulo Freire, com o Mova (Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos), que virou Eja (Educação de Jovens e Adultos).

Em vez de aproveitar essas pessoas para trabalhar com os adultos e jovens do programa Mova, ele simplesmente dispensou esse pessoal, sem emprego, sem nada. Tivemos de recorrer ao Ministério Público, à Câmara Municipal. Tem projeto de lei aprovado na Câmara para poder resolver o problema desse pessoal que é essencial. Mas não. Dispensa. E vai para casa com que recursos para comer? A gente se mobilizou em torno disso. A pressão foi forte e ele teve de ceder. A gestão dele não foi nada diferente. O discurso é diferente, mas a ação concreta não corresponde ao discurso. Dele, do [governador João] Doria. O tucanato deve ser derrubado deste estado. Ninguém aguenta mais os tucanos.

“Recriar o SNI da ditadura deixou de ser o sonho de Bolsonaro para se tornar um pesadelo da sociedade”.

3 de agosto de 2020

O antropólogo Luiz Eduardo Soares, um dos alvos de um dossiê clandestino do Ministério da Justiça do governo Jair Bolsonaro.

Antropólogo alvo de dossiê feito pelo Ministério da Justiça diz que monitoramento “é apenas mais um elo na corrente que nos arrasta para o abismo”.

Afonso Benites, via El País Brasil em 2/8/2020

Um dos 579 alvos de um dossiê elaborado pelo Ministério da Justiça a partir do monitoramento secreto de um grupo descrito como “militantes antifascistas”, o renomado antropólogo brasileiro Luiz Eduardo Soares afirma que, com ações do tipo, o presidente Jair Bolsonaro “recria” um dos braços da polícia política brasileira durante a ditadura militar, o Serviço Nacional de Informações (SNI). “A recriação do velho SNI deixou de ser o sonho de Bolsonaro para se tornar o pesadelo da sociedade brasileira”, declarou ao EL PAÍS. O dossiê, revelado pelo portal UOL, foi elaborado pela Secretaria de Operações Integradas (Seopi) da pasta e acendeu os alarmes dos que temem o uso de aparato do Estado para a vigilância ou investigação de opositores políticos do Planalto.

“A investigação clandestina contra cidadãos contrários ao fascismo é apenas mais um elo na corrente que nos arrasta para o abismo”, diz Soares, para quem as ameaças à democracia têm sido cometidas pelo governo Bolsonaro rotineiramente. “A infiltração do fascismo se dá por toda parte, corroendo os pilares da democracia.”

O antropólogo, que foi secretário nacional de Segurança Pública durante o início do governo Lula da Silva (PT) e é um dos fundadores do partido Rede Sustentabilidade – do qual se desfiliou, diz que já adotou os trâmites judiciais para questionar o Planalto sobre a investigação informal, conduzida pela Seopi, uma das cinco secretarias subordinadas ao ministro da Justiça, André Mendonça. As atividades não têm acompanhamento judicial.

Em notas emitidas desde que o caso veio à tona, no dia 24 de julho, o ministério não negou a existência do dossiê. Disse que a atividade da Seopi integra o Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin) e que as “ações especializadas” desenvolvidas pelo órgão tem o objetivo de “subsidiar decisões que visem ações de prevenção, neutralização e repressão de atos criminosos de qualquer natureza que atentem contra a ordem pública, a incolumidade das pessoas e o patrimônio”. Não detalhou, contudo, quais são os supostos atos criminosos cometidos por esse grupo. Neste domingo, em entrevista ao canal Globonews, o ministro André Mendonça foi questionado sobre o tema e disse que não poderia confirmar nem negar a existência do dossiê. “A lei prevê que relatórios, dados e informações de inteligência sejam divulgados de forma distinta. Não posso confirmar, nem negar, a existência de um relatório de inteligência”, disse o ministro, que afirmou ainda ter ordenado uma sindicância para apurar “eventuais faltas ou fatos na produção de qualquer relatório”.

Leia a seguir, a entrevista por Luiz Eduardo Soares, por email. O antropólogo é autor de dezenas de livros, entre eles Elite da Tropa, que deu origem ao filme Tropa de Elite, e Desmilitarizar: Direitos humanos e segurança pública, lançado em 2019.

Como recebeu a notícia de que o senhor e outras centenas de pessoas estavam sendo monitoradas por uma secretaria do Ministério da Justiça?
Recebi com perplexidade e revolta, embora nada mais devesse nos surpreender, vindo do atual governo. A recriação do velho SNI deixou de ser o sonho de Bolsonaro para se tornar o pesadelo da sociedade brasileira.

O senhor suspeitava que vinha sendo monitorado? Se sim, em que momento desconfiou que isso passou a acontecer? Por que acha que é um dos alvos?
Não suspeitava, mas a suspeita não mudaria meu comportamento. Como os alvos são políticos, qualquer adversário do governo corre o risco de ser tratado como inimigo do Estado. Talvez haja interesse especial em me atingir porque dialogo com policiais e escrevo sobre segurança pública, terreno prioritário para o bolsonarismo, como sabemos. Ajudei a elaborar a PEC-51, principal bandeira dos policiais antifascismo, e publiquei, ano passado, o livro Desmilitarizar: Direitos humanos e segurança pública, em que defendo a legalização das drogas e analiso criticamente as milícias, a violência policial e a política armamentista do presidente.

Alguém conhece algum país do mundo
em que a maioria seja terrorista?

O presidente disse em algumas ocasiões que antifascistas são terroristas. Primeiro, o senhor é antifascista? Considera esse grupo terrorista?
Segundo recente pesquisa Datafolha, a maioria da população brasileira defende a democracia. Como quem defende a democracia, por definição, não pode ser a favor do fascismo, podemos afirmar que a maioria é contra o fascismo. Alguém conhece algum país do mundo em que a maioria seja terrorista? Isso faz algum sentido?

Em sua avaliação, esse monitoramento de cidadãos comuns é um crime? Qual é a gravidade do caso? Acha que ele seria mais grave do que qualquer outra investigação que corre contra o governo ou seus militantes, como o inquérito das fake news e dos atos antidemocráticos ou a apuração sobre a interferência do presidente na Polícia Federal?
A abertura de um inquérito é procedimento previsto, legalmente, supervisionado pelo Ministério Público, o qual, considerando-o suficientemente instruído, tem a prerrogativa de converter a acusação em denúncia, instaurando um processo judicial. Nada disso aconteceu. Não há inquérito policial aberto, não há acusação formal, não há crime, o Ministério Público não teve qualquer participação, menos ainda o Judiciário. Trata-se de operação clandestina, absolutamente extemporânea, conduzida à margem da Lei e do Estado de Direito.

A infiltração do fascismo se dá por toda parte,
corroendo os pilares da democracia.

O senhor pretende adotar alguma medida judicial?
Já está em curso.

Há analistas que entendem que o governo reduziu o poder das instituições de controle, como PF e Ministério Público. Como avalia a atuação da gestão Bolsonaro nesta área? Por que o presidente está enfraquecendo essas organizações?
O governo Bolsonaro é um desastre, não só na segurança pública. Pelo que fez, pelo que deixou de fazer e pelas sinalizações, às quais se pode atribuir, por exemplo, o aumento da brutalidade policial letal, no Rio, em São Paulo, no país afora. A flexibilização do acesso às armas bastaria para demonstrar a magnitude do retrocesso. Quanto a reduzir o poder das instituições de controle, não creio que se possa afirmá-lo, uma vez que a Polícia Federal e o Ministério Público são instituições independentes, a despeito das pressões. Claro que as pressões provocam efeitos negativos, sobretudo em se considerando que os conflitos internos são permanentes. A infiltração do fascismo se dá por toda parte, corroendo os pilares da democracia.

Levantamento recente do TCU mostra que há ao menos 6 mil militares em cargos de confiança na gestão federal. Qual é o impacto dessa militarização do Executivo?
Esse tipo de aparelhamento faz tão mal à sociedade quanto às próprias Forças Armadas, que recuperaram imagem positiva ao longo de todo o período democrático, mantendo-se distante das disputas políticas e respeitando a Constituição. O risco de que a imagem das Forças Armadas se confunda com o governo é gigantesco, porque a história julgará com severidade os crimes contra a humanidade acumulados pela gestão federal.

Acredita que a democracia está em risco? Por quê?
Não se trata de acreditar ou não. As ameaças têm sido feitas à luz do dia, em praça pública, nas redes sociais, em atos e omissões governamentais. A investigação clandestina contra cidadãos contrários ao fascismo é apenas mais um elo na corrente que nos arrasta para o abismo.

Além de Soares, também foram monitorados os professores universitários Paulo Sérgio Pinheiro (relator da ONU e ex-secretário Nacional de Direitos Humanos), Ricardo Balestreri (secretário de Segurança Pública no Pará) e Alex Agra Ramos, que leciona na Bahia. Entre os policiais monitorados, estão os que participam do movimento autodenominado Policiais Antifascismo. Por causa das revelações, partidos de oposição ao governo Bolsonaro também recorreram ao Judiciário para questionar as atividades. Também apresentaram requerimentos de convocação do ministro da Justiça para que ele explicasse o caso no Congresso Nacional. O Ministério Público Federal também solicitou protestaram.

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Pandemia expõe exclusão digital e fracasso da privatização

3 de agosto de 2020

Tal qual hoje se promete universalização do saneamento com a entrega do serviço para o capital privado, mais de 20 atrás se fez o mesmo com as telecomunicações. E o resultado são crianças sem acesso à internet para o direito básico: a educação.

Wagner de Alcântara Aragão, via Vermelho em 1º/8/2020

O ensino à distância imposto pela pandemia de covid-19 escancara a exclusão digital. Não é raro tomarmos conhecimento de professores e professoras pedalando ou caminhando por quilômetros, indo por conta própria, levar atividades a seus estudantes, já que uma boa parcela deles não dispõe de acesso à internet.

O gesto de solidariedade, de comprometimento com a função de educar, sensibiliza. É enaltecido, e assim deve ser. No entanto, a ternura com que observamos essas cenas deve vir acompanhada de indignação e cobrança por políticas públicas que efetivem o acesso à internet como um direito. Até porque foi isso que nos prometeram, mais de 20 anos atrás, com a privatização do Sistema Telebrás.

E, parênteses, é o que se promete agora com o novo “marco regulatório” do saneamento. Governo e elite política e econômica conseguiram impor a entrega da água e do esgoto ao capital privado sob o argumento de que por aí seria o caminho para a universalização desses serviços. Em 1998, quando entregaram o Sistema Telebras, o canto da sereia era o mesmo: com “investimentos privados”, o país todo ficaria conectado.

Balela. Sabemos que, sendo da natureza da iniciativa privada a busca pelo lucro, não chegariam redes de telecomunicações às periferias, às comunidades rurais, ribeirinhas, caiçaras, quilombolas, indígenas. Pelo simples motivo de que o recurso despendido não daria retorno, lucro imediato. Alguém acha que vai ser diferente com água e saneamento?

Em 2010, ainda no governo Lula, foi lançado o Plano Nacional de Banda Larga – um conjunto de ações para massificar o acesso à internet. Numa demonstração de que o capital privado não dá conta de universalizar, porque sai caro e é pouco rentável, é que o Plano Nacional de Banda Larga estabeleceu a retomada do papel do que restou da Telebrás. Ainda assim, o plano era baseado na atuação das operadoras privadas.

O Plano Nacional de Banda Larga previa metas para até o final de 2014. Os resultados não foram satisfatórios, conforme resumiu a jornalista Marina Cardoso, do Intervozes – coletivo de defesa da democratização das comunicações –, em artigo do comecinho de 2015, escrito a partir de um relatório elaborado pela Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática do Senado Federal.

Ao término de quatro anos, dos 35 milhões de novos domicílios que, segundo o plano, deveriam estar conectados, só em 23 milhões deles a internet banda larga chegou. Os investimentos da Telebras e, principalmente, a atuação das companhias privadas ficaram muito aquém do proposto. O artigo foi publicado na CartaCapital, disponível aqui.

Com a crise política pós eleições de 2014 e o golpe de 2016, o Plano Nacional de Banda Larga foi descontinuado. Hoje, de acordo com levantamento feito pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), no país quase 5 milhões de crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos não têm acesso à internet – 17% da população nessa faixa etária.

Em novembro teremos eleições municipais. O direito a conexão à internet deve estar na pauta dos postulantes a prefeituras e câmaras de vereadores. Tem de ser abordado nos debates, estar presente nos programas de governo. Acesso à internet é acesso ao ensino, à saúde, à cultura e ao lazer. Elitizá-lo é excluir a população de serviços e direitos essenciais.

Wagner de Alcântara Aragão é jornalista, professor. Mestre em Estudos de Linguagens. Editor da Rede Macuco (@redemacuco), veículo de mídia alternativa.

Nas redes sociais, Eduardo Bolsonaro elogia ato convocado por neonazistas na Alemanha

3 de agosto de 2020

Deputado federal Eduardo Bolsonaro. Foto: Adriano Machado/Reuters.

Deputado federal escreveu que países usam a “pandemia como justificativa” para praticar políticas de restrição de direitos.

Via CartaCapital em 2/8/2020

O deputado federal Eduardo Bolsonaro fez uma publicação em suas redes sociais no domingo [2/8] endossando a manifestação ocorrida em Berlim, na Alemanha contra o isolamento social. Convocados por grupos neonazistas, mais de 10 mil pessoas foram às ruas no sábado, sem máscaras, e sem respeitar as regras de distanciamento, protestar contra as restrições que a pandemia do coronavírus impôs.

Em claro sinal de apoio, ao ato, Eduardo postou em suas redes: “Pelo visto não é só no Brasil que a população está insatisfeita com política de restrição de direitos usando a pandemia como justificativa”, escreveu.

A manifestação na capital alemã aconteceu em meio a uma escalada de contaminações por covid-19 no país europeu. O ministro da Economia da Alemanha, Peter Altmaier, pediu recentemente sanções mais duras por violações às regras de isolamento social e ações firmes em casos de “má conduta irresponsável”, por parte da população.

O ato teve como slogan “O fim da pandemia – Dia da liberdade”, uma referência ao filme homônimo “Dia da Liberdade”, produto de propaganda da cineasta nazista Leni Riefenstahl sobre o congresso do partido de Hitler, em 1935.

Ainda foi convocado pelo grupo neonazista “Querdenken 711”. O protesto teve diferentes bandeiras, inclusive símbolos proibidos pela Constituição alemã como a “Reichskriegsflagge”, a bandeira do Exército nazista usada durante a Segunda Guerra Mundial, com a famosa cruz do “Reich”, idealizada por Hitler. Um dos cartazes da manifestação trazia outra clara referência antissemita, com a frase: “A máscara é a Estrela de David nazista dos não-vacinados”, lembrando a estrela amarela que os judeus eram obrigados a usar no braço sob o regime de Hitler.

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Apatia de Moro na defesa da Lava-Jato irrita os procuradores da República de Curitiba

3 de agosto de 2020

Foto: Rafael Marchante/Reuters.

Via Jornal GGN em 2/8/2020

O ex-chefe da Lava-Jato, Sérgio Moro, tem moderado sua opinião sobre a chuva de críticas que recaíram sobre o modelo das investigações na Lava-Jato, na mira da Procuradoria Geral da República. A reação do ex-juiz tem decepcionado seus “amigos”, de acordo com informações da coluna Radar.

Para os chegados de Moro, ele é o único personagem revelado pela Lava-Jato “livre de amarras para assumir uma postura mais dura de defesa das investigações”. No entanto, o ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, tem feito manifestações pontuais nas redes, “sem chamar para si a responsabilidade enquanto procuradores se desgastam para tentar manter o trabalho”, destacou a coluna.

“Essa postura distante, retraída, num momento em que ele deveria rodar esse país acordando as pessoas para o que está ocorrendo com a Lava-Jato é incompreensível”, disse uma fonte próximo a Moro à reportagem.

Para os amigos de Moro, ele deveria assumir a linha de frente na defesa da Lava-Jato, uma vez que a ação ainda ajudaria chamar atenção “para movimentos que tentam inviabilizar um possível projeto político do ex-juiz”.

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A direita não tem saída: Ou segue com Bolsonaro ou volta a democracia

3 de agosto de 2020

Carlos Henrique Machado Freitas, via A Postagem em 2/8/2020

Quando o PSDB queimou os seus navios no golpe contra Dilma, na tentativa de utilizar uma estratégia de fortalecimento da direita para vencer a disputa política com o PT, esqueceu-se de colocar no cálculo que, desde que FHC deixou o governo e o país em farrapos, além da economia aos cacos, depois de toda aquela privataria que gerou uma legião de desempregados, o PSDB simplesmente acabou ali, ficando somente a carcaça de uma sigla que, sem força política para fazer oposição ao PT, terceirizou para a mídia e o judiciário, nos quais sempre teve um excelente trâmite.

Para começo de conversa, não é preciso explicar que a xepa do partido fez o enterro dos ossos com a desmoralização de Aécio, Serra, Alckmin, Aloysio Nunes e, consequentemente de FHC, sobrou somente o Dória com a brocha na mão, porque este está longe de ser uma liderança carismática. Ele não representa nada e ninguém. Suas chances de sentar na cadeira da presidência são praticamente nulas.

Então, ficará para Dória apenas a tarefa do coveiro que vai enterrar de vez a sigla.

O DEM inexiste como partido, depende de caciques regionais e sua expressão na política nacional é tão apagada quanto a do Novo, que já nasceu velho e com todas as mazelas que a velhice impõe.

Moro, que seria o novo Collor para a Globo, será abatido ainda no chão se realmente se aventurar na disputa para a presidência, pois não tem partido, não tem milícia, não tem pastores evangélicos e nem associações comerciais para catapultar sua candidatura, como foi com Bolsonaro.

Para piorar, Moro, daqui por diante estará às voltas com o escândalo da arapongagem de 38 mil brasileiros feita pela Lava-Jato e revelada por Augusto Aras.

Então, o que realmente sobra para a direita é seguir com o fascista, sabendo que ele, a qualquer momento implodirá e se espatifará no chão ou, do contrário, reconhecer a queda, não desanimar, levantar a poeira e dar a volta por cima dentro do jogo democrático.

Diferente disso, a direita viverá refém do submundo do baixo clero, do que existe de mais inorgânico na política. Até a direita tradicional, no Brasil, sabe que isso é pouco ou quase nada para erguer e sustentar a hegemonia dos liberais.

É certo que, para a direita, a coisa anda tão ruim, do ponto de vista intelectual, que, hoje, achar algum liberal que tenha um cérebro maior que um caroço de mostarda, é o mesmo que encontrar uma agulha no palheiro, é do Véio da Havan pra baixo.

Certamente, a elite econômica sabe, e há muito tempo, que não se produz lideranças na base do sopapo, e sim ditaduras, primeiro porque não há sequer sombra de uma liderança capaz de unir antigas forças de direita em torno de um projeto de poder, menos ainda de devolver o país aos anos de chumbo com uma ditadura militar, porque o Brasil dependente cada vez mais do mercado externo e, neste caso, seria banido da comunidade internacional.

Assim, sobra somente como refúgio, ou melhor, como consolo, as regras da democracia, por mais amargas que possam parecer para a direita, já que foi ela que produziu esse fosso social, que segrega a imensa maior parte do povo brasileiro em benefício de 10% de rentistas, isso, num país que tem urgência de gerar empregos através de um crescimento sustentável a partir de uma produção robusta com a participação ativa e efetiva do Estado na sua reconstrução.

Para tanto, a primeira coisa a ser feita é devolver a Lula seus direitos políticos e, em seguida, admitir que Dilma sofreu um golpe de Estado, e o mais importante, entender que não se pode entregar para a mídia e judiciário a tarefa de fazer oposição à esquerda, porque, se a direita vencer, como mostra a última e amarga experiência com Bolsonaro, será uma vitória de pirro. Caso isso aconteça, o refluxo será amargo e, com ele, a queimação generalizada.

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