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Fake news a R$25 mil por mês: Como o Google treinou e enriqueceu blogueiros antipetistas

19 de novembro de 2019

GRANA POR CLIQUES
Rodrigo Ghedin, Tatiana Dias e Paulo Victor Ribeiro, via The Intercept Brasil em 19/11/2019

Um grupo de seis blogueiros políticos se reuniu na sede do Google Brasil no Itaim Bibi, bairro nobre de São Paulo, em julho de 2016. Convidados pela empresa, a maioria saiu de Minas Gerais para receber orientações sobre como aumentar seus ganhos com o AdSense, o programa do Google de “aluguel” de publicidade em sites. No encontro, um funcionário da empresa teria aberto uma planilha com um case de sucesso para inspirá-los: o site de direita O Antagonista, que receberia milhares de dólares por dia com anúncios.

Em seguida, os blogueiros receberam dicas de otimização e sugestões de temas que renderiam mais dinheiro no AdSense. Embora o Google não tenha sido explícito a esse respeito, o grupo saiu de lá certo de que uma agenda contra o PT e a presidente da República, Dilma Rousseff, era o caminho para ganhar muito dinheiro. Funcionou. Em agosto de 2016, mês seguinte ao encontro, derradeiro para o impeachment, o faturamento de um dos blogs passou de R$25 mil.

O encontro foi narrado ao Intercept por um ex-blogueiro que fazia parte do grupo. Ele conta que tinha um blog político bastante ativo – 20 posts por dia, em média – e, em busca de cliques, pesava a mão no sensacionalismo e nas notícias falsas, especialmente se fossem contra o PT.

Os blogs do grupo surgiram no levante antipetista e surfaram a onda do impeachment, e depois ajudaram a engrossar o coro lava-jatista e bolsonarista. Hoje, alguns não escondem seu apreço por autoritarismo e intervenção militar, tudo regado a boas doses de sensacionalismo e meias-verdades – ou a mentiras inteiras. Entre os exemplos citados pelo ex-blogueiro, estão os sites Diário do Brasil, Jornal do País, Notícias Brasil Online e Pensa Brasil, ainda no ar, e Brasil Verde Amarelo e The News Brazil, hoje desativados.

O Diário do Brasil e o Jornal do País, que seguem no ar com uma agenda fortemente bolsonarista, ainda veiculam anúncios pelo AdSense. São exibidos ao lado de notícias como “General do Exército cogita ‘intervenção cirúrgica’ no país” e “Uma rede de televisão não pode citar o nome do presidente em um caso de morte e não ser punida”. Informações mentirosas, de tom alarmista, conspiracionista ou, no mínimo, bastante questionáveis.

Dos blogs identificados pela nossa fonte, quatro viraram canais de direita no YouTube. O Top Tube Famosos (do mesmo dono do The News Brazil) é o mais bem-sucedido deles. Com 851 mil assinantes e vídeos como “Moro muda tudo, tranca Lula de vez na cadeia e enlouquece Gleisi”, ele acumula mais de 150 milhões de visualizações – e fatura, no mínimo, R$6 mil por mês com anúncios, segundo calcula o SocialBlade. Ele está entre os canais que mais cresceram no YouTube no ranking Em Alta, que divulga o conteúdo que está bombando no momento, no período eleitoral. O algoritmo recomenda os vídeos campeões de audiência e dá a eles um lugar privilegiado no site, ajudando-os aumentar ainda mais o número de espectadores. O Google deu a ferramenta para que eles lucrassem com anúncios, depois os ajudou a aumentar a audiência. Nada mau.

Notícias falsas publicadas em 2015 pelo Diário do Brasil, um dos sites que fazia parte do grupo e, até hoje, lucra com anúncios distribuídos pelo Google.

Como os blogueiros aprenderam a ganhar dinheiro
O ex-blogueiro ouvido pelo Intercept contou que, entre 2014 e 2016, foi convidado a participar de reuniões de um grupo de blogs de direita. Eles trocavam dicas sobre assuntos que estavam bombando, compartilhavam conteúdos uns dos outros e frequentavam os mesmos eventos. Só no Google, segundo ele, foram quatro encontros. Em março de 2016, afirma, começou a trabalhar para um dos sites. “Os assuntos mais comentados [na internet] eram apresentados para nós”, diz.

Cada blogueiro tinha total liberdade para produzir conteúdos quando quisesse, sem rotinas pré-estabelecidas. Eles não combinavam previamente sobre quais temas escreveriam, mas aprenderam rápido que tipo de conteúdo bombava. Na semana seguinte a um dos encontros no Google, a manchete em um dos sites era “Dilma Rousseff foi pega comandando pessoalmente esquema de propina de R$48 milhões”, uma notícia claramente falsa – afinal, tal flagrante não existiu.

Os blogueiros também aprenderam como usar as ferramentas do Google para aumentar a audiência, a relevância e, assim, os lucros. Para isso, contaram com o auxílio técnico da empresa. Em novembro de 2016, Denis Rodrigues, na época estrategista de contas e parcerias globais do Google, enviou ao ex-blogueiro um e-mail com dicas técnicas para implementar os anúncios do AdSense em celulares. De novo, o exemplo usado foi O Antagonista. Não é por acaso: para vender a tecnologia, o Google procura exemplos que tenham afinidade com o cliente. E a empresa sabia com quem estava falando.

E-mail de Denis Rodrigues com dicas para otimizar os anúncios e aproveitar a alta do comércio gerada pela Black Friday.

O ex-blogueiro diz que, ao vir para São Paulo, era Rodrigues quem os recebia na sede do Google. “Denis apresentava para nós os dados dos nossos sites e depois a gente ia ao auditório, onde era a reunião grande em que o Google ensinava a respeito de engajamento, tags, como aumentar os views, assuntos que davam mais cliques.”

Em fevereiro de 2019, Denis Rodrigues foi promovido a gerente dos programas de marketing para a América Latina do Google.

Ao Intercept, um porta-voz da empresa não confirmou as reuniões e nem o envio de orientações. O Google disse apenas que “oferecer aos usuários informações confiáveis é parte da nossa missão” e que tem “políticas claras contra conteúdo enganoso em nossas plataformas de anúncios”. Isso inclui conteúdo perigoso, depreciativo ou enganoso. Pelo jeito, mentir afirmando que Dilma comandava um esquema de propina ou que Lula doou dinheiro ao Hamas é conteúdo que a empresa considera digno de credibilidade.

O Google afirma que não deu orientações relacionadas a palavras-chave, mas apenas à otimização do AdSense. O programa de anúncios, lançado em 2003, gerou mais de US$15 bilhões para a empresa só neste ano. Ele permite que donos de site cedam espaço em suas publicações para que o Google venda anúncios. Os lucros, gerados por cliques, são divididos entre o dono do site e o Google. Assim, gerar uma audiência e engajamento não é bom só para o blogueiro, mas também para a gigante da internet.

Os anúncios do AdSense são gerados por um sistema de leilão dinâmico, que leva em consideração o perfil do usuário e o conteúdo do site que ele está visitando. Graças a essa combinação, o Google consegue cobrar mais de empresas que queiram anunciar em páginas de temas mais valiosos ou para usuários que tenham um perfil que lhes pareça mais atraente.

É tudo automatizado e feito em um piscar de olhos: assim que o usuário acessa um site com AdSense, o sistema o identifica e dispara um leilão de milissegundos nos bastidores entre os anunciantes interessados em exibir anúncios naquele espaço ou àquele usuário. Quem fizer o maior lance entre os que se enquadram nos critérios do momento ganha o direito de se exibir ao usuário.

Assim, as palavras-chave usadas em um texto ou o perfil de um usuário têm o potencial de gerar mais ou menos lucro. Os blogueiros aprenderam isso com o Google. Com O Antagonista como exemplo de sucesso, o grupo entendeu como conseguir mais acessos e dinheiro com posts políticos. E, para turbinar os rendimentos, não importava se a informação publicada fosse mentirosa – bastava que chamasse a atenção.

“Teve notícias contra o PT que nunca foram comprovadas até hoje, como a de que o filho do Lula é dono da [gigante de telecomunicações] Oi. Você já leu coisa desse tipo na internet: ‘O Lula tem uma fazenda no Uruguai’, ‘a Dilma teve um relacionamento extraconjugal’“, lembra o ex-blogueiro. A única constante, fosse a notícia inventada ou não, era ser crítica ao governo petista. “Só tinha uma regra: notícias negativas, contra o PT, deveriam ser publicadas”, disse. “A regra era essa. O Google não ia pedir isso pra gente numa reunião, né? Eles podiam ser gravados. Mas a recomendação era que esse tema era o que mais remunerava.”

“Era muita grana, não era pouca, né? E em dólar. Quanto
pior o governo, maior [a cotação do dólar]. E mais dinheiro pra gente.”

A falta de compromisso com a realidade era combinada com a produção em série de posts. Segundo o ex-blogueiro, o Google recomendou que eles publicassem 20 posts por dia porque, dessa maneira, eles ganhariam mais relevância no buscador e, obviamente, seriam criados mais espaços para veicular os anúncios do AdSense.

Acatando a sugestão, os blogueiros se juntaram em uma rede em que as notícias de cada um eram replicadas em outros sites e espalhadas em suas respectivas páginas no Facebook. Isso ajudava a dar ares de verdade à publicação e fazia o blog subir posições na exibição na busca do Google – o mecanismo considera o número de links para determinada página um critério importante para posicionar um resultado no topo. Quanto mais links apontando para uma página, maior o peso dela em relação às demais.

Deu muito certo. Os acessos aos blogs chegavam à casa dos milhões. Nos momentos de pico, o ex-blogueiro ouvido pelo Intercept tinha 2,6 mil pessoas online em tempo real no seu site. Entre setembro e dezembro de 2016, ele manteve uma média de 7,5 milhões de visualizações por mês em seu blog.

Graças ao AdSense, tamanha audiência era revertida em lucro. Em maio de 2016, ele diz que recebeu do Google R$4,3 mil. Em julho, quase o triplo: R$13 mil. Um mês depois, R$25,7 mil. Era agosto de 2016, mês fundamental para o impeachment de Dilma Rousseff, quando o Senado aprovou o afastamento dela e Michel Temer assumiu a presidência da República.

Boleto do mês mais lucrativo para o ex-blogueiro antipetista: o que Dilma Rousseff sofreu o impeachment.

“Às vezes, chegava a ganhar R$4 mil com apenas uma notícia em um dia”, relembrou o ex-blogueiro. “Eu sabia o que estava fazendo, mas quando você está precisando de grana… E era muita grana, não era pouca, né? E em dólar. Quanto pior o governo, maior [a cotação do dólar]. E mais dinheiro pra gente.”

Embora o Google receba pagamentos de anunciantes em real no Brasil, a parte operacional do AdSense é concentrada nos Estados Unidos, de onde saem todos os pagamentos – por isso eles são contabilizados e pagos em dólar. No início do programa, o Google enviava cheques de papel pelos Correios aos parceiros brasileiros. Isso mudou em 2007, quando a empresa adotou a transferência eletrônica. Desde então, basta que o parceiro brasileiro informe dados bancários de uma instituição financeira daqui no sistema do Google para que os depósitos passem a cair mensalmente em sua conta, desde que a receita gerada no mês seja de no mínimo US$100.

A mudança de ares na política brasileira afetou os rendimentos do grupo. Notícias sobre o então novo presidente, Michel Temer, não rendiam tanto. “Era o Temer que estava no governo e as notícias, por exemplo, aqueles escândalos em que ele teve que comprar a Câmara duas vezes, não davam views, não dava dinheiro”, diz o blogueiro, em referência às duas votações em que deputados rejeitaram a abertura de processos de investigação contra o emedebista. O ex-blogueiro foi banido do AdSense por violação dos termos de uso – acusado de cometer plágio – no começo daquele ano. Ainda tentou criar outro blog, mas não funcionou. “Eu parei porque não era mais viável economicamente”, conta. Um processo movido por uma figura política petista contra ele também pesou na decisão.

O Intercept entrou em contato com O Antagonista e todos os ex-colegas do blogueiro. Apenas um, o Diário do Brasil, retornou. A resposta foi enviada por Patrícia Carvalho, que disse ter comprado o blog do antigo dono, Luciano Moura, em 2016, e não ter mais contato com ele. Falou, ainda, que não responderia às perguntas porque “não confiamos na linha editorial (anti-Brasil) do The IntercePT (sic)”. Ela disse que não tem contato com outros blogs, não participa de qualquer rede bolsonarista e que jamais recebeu um centavo de dinheiro público.

Mas continua ganhando dinheiro com anúncios. Dos seis blogs do grupo, dois não estão mais no ar. Quatro, inclusive o Diário do Brasil, ainda lucram com anúncios – três com AdSense e dois com o Taboola, uma ferramenta semelhante.

Ilustração: Lufe/The Intercept Brasil.

De onde vem o dinheiro
Só no segundo trimestre desse ano, a Alphabet, dona do Google, faturou US$38,9 bilhões. 83% desse valor, ou US$32,6 bilhões, veio da publicidade. A Google Network, denominação no balanço financeiro do Google que indica os locais de terceiros que veiculam seus anúncios, movimentou US$5,3 bilhões, um aumento de 8,4% em relação ao ano passado. Ninguém revela quanto dinheiro o YouTube movimentou, mas Ruth Porat, diretora financeira da Alphabet, disse que o site de vídeos foi a segunda maior fonte de renda da empresa.

Anunciar com os serviços do Google é eficiente porque a empresa combina a montanha de dados que ela tem sobre seus usuários – quem tem um Gmail, faz buscas no Google ou assiste vídeos no YouTube está entregando informações à empresa – para traçar seus perfis e assim oferecer aos anunciantes a possibilidade de anúncios bem direcionados. No AdSense, um anunciante pode, por exemplo, escolher que tipo de site veiculará sua propaganda com base nos temas, nas palavras-chave e no tipo de público que quer atingir – por idade, localização, interesses, gênero e outras informações.

O Google diz, explicitamente, que consegue alcançar pessoas por traços demográficos (“segmentos amplos da população que compartilham traços comuns, como estudantes universitários, proprietários de residências ou pais de primeira viagem”), afinidades (“usando uma imagem geral dos estilos de vida, paixões e hábitos delas”), intenção de compra (“que estão pesquisando e considerando ativamente a compra de um produto ou serviço como o seu”) e grandes eventos (“interaja com usuários do YouTube e do Gmail próximo a importantes acontecimentos, como mudança de endereço, formatura da faculdade ou casamento”).

“Os anunciantes não só não estão cientes dos sites onde
estão seus anúncios, como muitas vezes não sabem
o que os sites estão publicando.”

Por alguma razão, o público interessado em conteúdo antipetista e impeachment ficou especialmente atraente para anunciantes em 2016 – por isso, rendia muito dinheiro a quem conseguisse impactá-lo. O ex-blogueiro que conversou com o Intercept disse que, em seu blog, eram frequentes anúncios do Itaú, Bradesco, Magazine Luiza, Santander e Localiza, entre outros.

Hoje, a rede de blogueiros que ainda usa a ferramenta exibe anúncios de empresas como C&A, SafraPay, Uber, Quinto Andar, Reserva, Burger King, Nissan e Magazine Luiza, entre outras. Nós perguntamos a cada uma dessas empresas se elas endossam a linha editorial dos sites em que anunciam, e quase todas deram a mesma resposta: não.

A ignorância é um fenômeno global, como atesta Matt Rivitz, criador da iniciativa Sleeping Giants, que alerta empresas sobre anúncios veiculados em sites problemáticos nos Estados Unidos, como o Breitbart News: “Os anunciantes não só não estão cientes dos sites onde estão [seus anúncios], como muitas vezes não sabem o que os sites estão publicando. Sem saberem, eles apoiam financeiramente sites que empurram de tudo aos leitores, de teorias da conspiração a discurso de ódio”.

Natura, Magazine Luiza, Quinto Andar e demais empresas disseram não endossar o discurso de qualquer canal senão o delas mesmas. As marcas também dizem não apoiar conteúdos que sejam contrários à lei e à ética, divulguem conteúdo desrespeitoso ou promovam desinformação. Só o Magazine Luiza, que terceiriza à Criteo a curadoria dos sites que podem ou não exibir seu conteúdo, disse não ver problema em veicular propagandas no Notícias Brasil Online.

A Nivea disse que “nenhum conteúdo da marca deve ser veiculado dentro de canais que falem sobre temas pré-determinados, como é o caso de política”. Segundo a assessoria, o que houve foi uma “falha tecnológica de distribuição do conteúdo” e eles afirmam já estar tomando as providências necessárias para resolver. C&A, Uber e Burger King não responderam ao nosso contato.

O Google disse ao Intercept que o anunciante não escolhe o site em que anunciará, mas pode vetar determinados conteúdos. Nenhuma das empresas ouvidas pela reportagem sabia que seus anúncios estavam sendo usados para financiar desinformação.

“Não é um problema só do Google, mas de toda a indústria.”

“O ecossistema da desinformação é movido a ganhos financeiros”, disse ao Intercept Craig Fagan, diretor da Global Disinformation Index, uma consultoria que publicou há dois meses um estudo para quantificar quanto dinheiro da indústria de propaganda online vai para sites que espalham desinformação. O resultado é estarrecedor: US$235 milhões em um ano – isso só nos 20 mil sites analisados por ele, o que não inclui o Brasil. A estimativa é conservadora, eles garantem.

Segundo Fagan, a produção desse tipo de conteúdo falso é feita em torno de assuntos que engajam as pessoas – eleições, catástrofes, questões de violência – justamente para lucrar com anúncios.

Para o estudo, o GDI coletou dados de 20 mil sites considerados por eles como propagadores de notícias falsas e desinformação, como o Rt.com, antigo Russia Today, classificado como questionável pelo Media Bias Fact Check.

Gráfico do GDI mostra qual é a parcela de cada empresa de anúncios que ajuda a financiar a desinformação.Gráfico: Global Disinformation Index.

O GDI oferece uma espécie de consultoria para alertar as empresas e mostrar onde investir melhor o dinheiro com propaganda online. “A melhor maneira de cortar isso é se marcas e outros comprarem espaço de propaganda direto no site. Elas precisam saber com quem estão falando e os riscos que correm e tomar a decisão de não ter anúncios nesse site.”

Segundo o estudo, o Google é responsável por 70% do valor gasto com desinformação. Fagan, no entanto, não culpa só a gigante. “Não é um problema só do Google, mas de toda a indústria”, diz. Ele acredita que, se o Google parar de fornecer esse tipo de serviço, outras empresas ocuparão esse espaço.

Na avaliação de Fagan, o Google é um problema justamente por seu ecossistema que não apenas oferece anúncios, mas ajuda a alavancar a audiência e aumentar a reputação de quem espalha mentiras. E isso acontece não só nos sites, mas também no YouTube, onde os blogueiros conseguiram alavancar mais audiência em torno de seu conteúdo de extrema-direita.

Rivitz, do Sleeping Giants, também não acredita que mudanças significativas partirão das plataformas. “Há muita gente ganhando muito dinheiro para que algo real aconteça. Enquanto não houver transparência, continuará a ser um problema.”

O desastre ambiental da dupla Salles e Bolsonaro

19 de novembro de 2019

Bernardo Mello Franco em 19/11/2019

Desde a campanha, Bolsonaro promete facilitar a vida dos desmatadores. No poder, ele se aliou aos madeireiros e passou a hostilizar líderes indígenas e ambientalistas

Não cabia mais ninguém no auditório da Fiesp. Numa noite fria de junho, o presidente cantou o Hino Nacional, posou para fotos e ganhou uma medalha dos capitães da indústria. Depois caminhou até a tribuna e passou a elogiar o ministro do Meio Ambiente.

“O Ricardo Salles é um homem que está no lugar certo”, exaltou. “Os produtores rurais, cada vez mais, têm menos medo do Ibama. Eu paguei uma missão para ele: ‘Mete a foice em todo mundo’. Não quero xiita ocupando esses cargos”, prosseguiu.

A plateia interrompeu o discurso com aplausos. Animado, Jair Bolsonaro continuou a enaltecer o ministro. “Não podemos ter uma política ambiental como tínhamos há pouco tempo”, disse. Em seguida, esbravejou contra a demarcação de terras indígenas e prometeu acabar com a “indústria de estações ecológicas”.

Ontem o Inpe divulgou os dados do Prodes, que mede a taxa anual de desmatamento da Amazônia. A devastação chegou a 9.762 quilômetros quadrados, o pior resultado desde 2008. Em 12 meses, o Brasil perdeu o equivalente a um Líbano de florestas.

“Os números são um atestado do desastre que estamos vivendo”, diz o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl. “E o principal motivo é a agenda antiambiental de Salles e Bolsonaro”, resume.

Desde a campanha, o presidente promete facilitar a vida dos desmatadores. No poder, ele se aliou a garimpeiros, madeireiros e grileiros de terras. Para agradá-los, passou a hostilizar líderes indígenas e ambientalistas que se ariscam na defesa da mata.

Em agosto, Bolsonaro brigou com os números do Inpe e demitiu o cientista que dirigia o instituto. A atitude só serviu para minar a credibilidade do país, que voltou a ser visto como um vilão ambiental.

Recrutado no Partido Novo, Salles se revelou o homem certo para “meter a foice” e desmontar os órgãos de fiscalização. Enquanto a Amazônia ardia, as autuações por crime ambiental recuaram 23%. Na Fiesp, Bolsonaro disse aos empresários que as punições “vão continuar diminuindo”. “Vamos acabar com essa indústria da multa”, prometeu.

Leia também: 9.762km² destruídos: Desmatamento na Amazônia bate recorde e cresce 29,5% em 12 meses

Novo projeto de poder de Bolsonaro: Aliança pelo Brasil é o primeiro partido neofascista do país

19 de novembro de 2019

O então deputado Jair Bolsonaro durante ato de filiação ao PSL, na Câmara, em Brasília. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress.

João Filho, via Intercept Brasil em 17/11/2019

Bolsonaro alugou um partido nanico, ajudou a transformá-lo em um dos maiores partidos do Brasil e agora o abandona após uma tentativa fracassada de golpe para tomar o seu controle e abocanhar o fundo partidário. Pela ótica da dinâmica política tradicional, esse jogo é uma loucura que levaria ao enfraquecimento e isolamento do governo. Mas não é assim que pensa quem tem como objetivo destruir a democracia como a conhecemos.

O presidente da República já mostrou que não tem nenhum interesse em formar uma maioria no Congresso que o ajude a governar. É um governo que renega as mediações democráticas e busca a radicalização para atingir seus objetivos.

Desde a posse, a família Bolsonaro vem implodindo grandes aliados construídos durante a campanha. Bebianno, Alexandre Frota, Joice Hasselmann, Witzel, João Doria e Luciano Bivar são alguns nomes que foram expurgados de maneira desleal. A tropa de choque bolsonarista vai ficando cada vez mais reduzida e isso não parece ser um problema para a família Bolsonaro. Ao que tudo indica, a intenção é ir empurrando o governo com a barriga, rezar para a economia sair do buraco e continuar apostando na fidelização da sua militância alucinada nas redes sociais. Não é novidade que este é um governo preocupado exclusivamente em agradar um séquito de reacionários e lunáticos catequizados por Olavo de Carvalho.

O presidente anunciou essa semana a criação da Aliança pelo Brasil, a futura nova casa da extrema-direita governista brasileira. Mais que isso: será uma sigla controlada pela família Bolsonaro e formada apenas por devotos fiéis do presidente. Não se sabe ainda se a Aliança pelo Brasil será criada a tempo de disputar as eleições municipais do ano que vem. Se tudo for feito como manda a lei, será quase impossível. Mas estamos no Brasil 2019 e sabemos que as leis não têm sido garantia de muita coisa.

Será necessário coletar quase 500 mil assinaturas em pouco mais de quatro meses, o que seria um feito inédito. Mas os bolsonaristas contam que isso será possível com assinaturas digitais, feitas através das redes sociais e de um aplicativo que será lançado pelo partido. Acontece que a lei não prevê a possibilidade das assinaturas digitais, apenas em papel. Como será impossível juntar quase meio milhão de assinaturas em papel em quatro meses, o bolsonarismo vai conseguir as assinaturas digitais e tentar jogar essa disputa pro campo jurídico. Diante da escalada dos discursos autoritários do governo, alguém duvida que haverá radicalização e incitação do povo contra os tribunais quando esse caso for julgado? Ou será que os Bolsonaro vão mandar logo um cabo e um soldado ao TSE? Me parece bastante claro que o bolsonarismo não irá retroceder nem aceitar qualquer decisão que não seja a criação do partido do presidente. Eles não entraram nessa empreitada para depois ficarem sem partido.

É possível que haja, como houve nas eleições, uma grande mobilização das igrejas evangélicas pela criação do partido. Será que teremos pastores na porta da igreja trocando assinatura por um pedacinho no céu? O bispo e prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella já colocou a máquina da Igreja Universal à disposição para a coleta de assinaturas.

O manifesto de fundação do partido é um ajuntamento de chavões fascistoides. Não há nada ali que lembre um projeto de país, que pregue a conciliação, que apresente propostas para a economia e para o desenvolvimento social. É só um panfleto rancoroso que aposta no maniqueísmo e no confronto como método de governo, tendo Jair Bolsonaro como um líder messiânico. “Muito mais que um partido, é o sonho e a inspiração de pessoas leais ao Presidente Jair Bolsonaro, de unirmos o país com aliados em ideais e intenções patrióticas”, diz o manifesto. A palavra democracia não é citada em nenhum momento do texto. O partido se apresenta oficialmente como um grupo político formado por pessoas leais a um único político. É essa lealdade incondicional ao Messias que motivou o rompimento dos bolsonaristas com o PSL. Não havia divergências ideológicas ou programáticas entre eles. A separação se deu porque o núcleo bolsonarista queria o controle do partido e não admitia conviver com correligionários que não demonstrem lealdade cega e absoluta ao seu grande líder.

Em outro trecho, o manifesto diz que “a Aliança pelo Brasil é o caminho que escolhemos e queremos para o futuro e para o resgate de um país massacrado pela corrupção e pela degradação moral contra as boas práticas e os bons costumes”. As “boas práticas” e os “bons costumes” certamente não se referem às rachadinhas no gabinete do Flávio Bolsonaro nem ao conteúdo pornográfico que o presidente publicou no Twitter. É só a velha ladainha moralista que os moralistas gostam de pregar, mas não de cumprir.

Nos perfis do projeto de apresentação do novo partido de Bolsonaro, as palavras “Deus”, “pátria” e “família” são exibidas. Não parece coincidência o fato de esse ser o lema dos integralistas.

Reprodução.

Inspirados no fascismo italiano, os integralistas são um movimento ultrarreacionário, criado há oito décadas no Brasil para abrigar o ideário fascista. A Ação Integralista Brasileira teve papel fundamental no golpe militar de 64 e hoje apoia o governo Bolsonaro. Durante as eleições, o grupo formalizou apoio à candidatura do ex-capitão e chegou a participar de um ato de campanha na avenida Paulista. Muitos integralistas são filiados ao PRTB de Levy Fidelix, cujo lema da campanha para deputado federal também era “Deus, pátria, família”.

Mas não é só o lema. Tudo na Aliança pelo Brasil lembra os integralistas, desde a estética à ideologia. A defesa dos valores cristãos, a rejeição à democracia liberal, o nacionalismo autoritário – tudo parece ser uma cópia dos integralistas. Não dá nem para chamar de versão moderna do integralismo, porque tudo no bolsonarismo cheira a mofo.

A Aliança pelo Brasil pode ser classificada com tranquilidade como o primeiro partido neofascista do Brasil. Sim, neofascista. Todos os elementos estão ali: o ultranacionalismo, o anticomunismo, a contestação permanente da democracia liberal, a veneração por um líder populista, o discurso autoritário. Será um partido neofascista de cunho religioso e que já nascerá com alguma relevância no jogo político partidário, já que foi criado pelo presidente da República e tem como uma de suas principais bandeiras a exaltação de sua figura. É uma pena que a grande imprensa nacional, que até hoje evita chamar o governo Bolsonaro de extrema-direita, jamais chamará o neofascismo pelo nome.

A democracia brasileira está prestes a fornecer espaço para um partido cujos fundadores ameaçam constantemente a democracia, atacam princípios constitucionais e exaltam os criminosos do regime militar. É um partido que resgatará oficialmente o legado do fascismo brasileiro. O Partido Social Liberal, que foi temporariamente ocupado para a extrema-direita poder entrar na democracia, ficou pequeno. Faltava um partido genuíno, criado para unir todos as tribos neofascistas que desejam exaltar Bolsonaro e o Deus cristão. Não falta mais.

REDES SOCIAIS

9.762km² destruídos: Desmatamento na Amazônia bate recorde e cresce 29,5% em 12 meses

19 de novembro de 2019

Os (ir)responsáveis.

Matheus Moreira e Phillippe Watanabe, via Folha em 18/11/2019

Entre agosto de 2018 e julho de 2019 o Brasil bateu o recorde do desmatamento na Amazônia desta década. Segundo o sistema de monitoramento Prodes, que oferece o dado mais preciso, consolidado e com nível de confiança superior a 95%, foram destruídos 9.762km², um aumento de 29,5% em comparação com o ano anterior.

Juntos, os estados de Pará, Rondônia, Mato Grosso e Amazonas foram responsáveis por 84% do total desmatado no período, cerca de 8.213km².

O aumento percentual desse ano é o terceiro maior da história. Aumentos tão acentuados só foram vistos nos anos de 1995 e 1998. No primeiro, o crescimento foi de 95% e a taxa alcançou o pico histórico: 29.100km² de área devastada. Já em 1998 o aumento do desmate foi de 31%.

Os dados anuais do desmatamento da Amazônia foram divulgados na manhã de segunda [18/11], em São José dos Campos, na sede do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). As informações são projeções, cujo dados consolidados devem ser divulgados em maio de 2020. O evento teve a presença dos ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Marcos Pontes (Ciência), além de Darcton Damião, diretor interino do Inpe.

Para Salles, o aumento ocorreu devido à “economia ilegal” na Amazônia. O ministro anunciou que na quarta [20/11] fará uma reunião em Brasília para tratar ações e medidas contra o desmatamento, entre as quais está a volta do TerraClass (que qualifica o desmatamento na Amazônia Legal) e o repasse de recursos do Fundo Petrobras para sua reativação.

“Há também negociações na esfera governamental como a transferência de parte dos órgãos de identificação, monitoramento e pesquisa de biodiversidade e floresta, e o setor de ecoturismo, que faz parte do ministério, para criar uma sede na Amazônia. Parte das equipes serão deslocadas para estarem no local da pesquisa, do cuidado e do desenvolvimento do ecoturismo. É um pedido antigo e entendemos que é procedente”, disse.

Questionado sobre se as falas do presidente Jair Bolsonaro durante a campanha em 2018 e nos primeiros meses de governo haviam influenciado na alta no desmatamento, o ministro voltou a dizer que “grande parte dos problemas vem de gestões anteriores”.

Como parte dos esforços para conter a destruição na Amazônia, o ministro Marcos Pontes (Ciência) também disse que estuda criar um programa em conjunto com o Exército para levar mais cientistas para o bioma. A parceria ajudará, segundo ele, a reduzir os custos da operação ao utilizar as bases já instaladas das forças armadas na região. Pontes acredita que ao levar mais pesquisadores para a Amazônia será possível reduzir o desmate.

*Os dados do Deter e do Prodes não podem ser diretamente comparados. O Deter tem a função de auxiliar a fiscalização contra desmatamento e ajuda a entender as tendências de desmate em um determinado período.

Dados desmatamento
Os dados de 2017 a 2018 já tinham batido o recorde da década. No período, foram destruídos 7.536km² de floresta, o maior valor desde 2008 até aquele momento.

A alta no desmatamento era aventada desde o ano passado por pesquisadores da área. Durante as eleições presidenciais, ambientalistas temiam que o discurso do então candidato Jair Bolsonaro pudesse servir de combustível para o aumento do desmate.

Na campanha presidencial, Bolsonaro criticou repetidas vezes a fiscalização ambiental feita pelo Ibama e afirmou que o país tem muitas unidades de conservação e terras indígenas. Também cogitou fundir o Ministério do Meio Ambiente com o da Agricultura, mas recuou.

Durante o período eleitoral, de agosto a outubro, a destruição na floresta cresceu 48,8% em comparação
com o mesmo período do ano anterior.

Bolsonaro não diminui o tom do discurso após a vitória na eleição. Continuou a criticar os fiscais do Ibama (e exonerou o funcionário que lhe aplicou uma multa ambiental em 2012), sinalizou que deve atender os anseios de garimpeiros cujo maquinário foi destruído pelo Ibama, atacou duramente os dados de desmatamento produzidos pelo monitoramento do Inpe que já indicavam tendência de alta no desmatamento em seu mandato.

O presidente afirmou que os dados sobre desmatamento da Amazônia eram incorretos, exagerados e prejudicavam a imagem do país. O presidente também sugeriu que o então diretor do Inpe, o engenheiro Ricardo Galvão, poderia estar “a serviço de alguma ONG” e que os dados crescentes de desmate não condiziam com a realidade. “Eu entendo a necessidade de preservar, mas a psicose ambiental deixou de existir comigo”, disse em julho.

Galvão se defendeu das críticas em entrevistas à imprensa. À Folha ele disse que até poderia ser demitido, mas que o Inpe era sólido o suficiente para resistir aos ataques do governo. Ele foi exonerado em seguida.

Entre outras medidas tomadas pela gestão Bolsonaro estão a transferência de órgãos do Ministério do Meio Ambiente para outras pastas e a paralisação do Fundo Amazônia, que recebia dinheiro da Noruega e Alemanha para estimular ações de controle sobre desmatamento e uso sustentável do bioma.

Ainda assim, a culpa pela alta da destruição da floresta amazônica não pode ser atribuída exclusivamente
ao atual presidente. A tendência de aumento da destruição é percebida desde 2012.

Segundo Raoni Rajão, pesquisador da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), a elevada taxa alcançada neste ano pode ter suas origens ainda nos governos do PT e na crescente influência do agronegócio no Congresso.

Mas, para Rajão, os governos petistas mantiveram uma política forte de combate ao desmatamento focada no comando e controle. Em meio a elevadas taxas de destruição, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva criou o sistema Deter (alertas de desmatamento via Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real), em 2004, para aprimorar o trabalho do Ibama na ações de contenção do desmate.

Segundo ele, a situação começou a mudar no governo Dilma Rousseff. “Ela nunca tratou a questão ambiental como primordial. O Temer começa a ceder a uma série de pressões, como o decreto da Renca [que extinguiria a Reserva Nacional do Cobre Associados, na Amazônia], que ele voltou atrás, e de Jamanxim [vetando a medida provisória que reduzia o nível de proteção de parte de floresta no Pará]”, afirma.

O pesquisador cita a anistia a desmatadores, mantida pelo STF no Código Florestal de 2012, como um dos fatores que pode ter tido impacto no aumento do desmatamento observado nos últimos anos. “Com Bolsonaro, as ações de desmonte ambiental e o discurso ficam mais explícitos”, diz Rajão.

Além do desmatamento recorde entre 2018-2019, o pesquisador diz que as taxas para o próximo ano já são preocupantes, considerando que os meses de agosto e setembro apresentaram acentuados aumentos de destruição, e serão contabilizadas no Prodes 2019-2020.

Rajão e outros pesquisadores estimam que o Brasil não conseguirá cumprir sua meta da Política Nacional
sobre Mudança do Clima de reduzir 80% do desmatamento na Amazônia (em relação à média entre os anos de 1996 a 2005) até 2020.

Repercussão
Para o Observatório do Clima, a alta no desmatamento “coroa o desmonte ambiental” praticado na gestão do presidente Jair Bolsonaro e de seu ministro Ricardo Salles.

“O dado [de desmatamento] é decorrência direta da estratégia implementada por Bolsonaro de desmontar o Ministério do Meio Ambiente, desmobilizar a fiscalização, engavetar os planos de combate ao desmatamento dos governos anteriores e empoderar, no discurso, criminosos ambientais. O próprio presidente já declarou, com orgulho, que havia mandado seu antiministro do Ambiente, Ricardo Salles, ‘meter a foice no Ibama’. Salles obedeceu”, segundo trecho de nota.

Cristiane Mazzetti, do Greenpeace, reforça a crítica contra a política ambiental do atual governo. “A combinação de altas taxas de desmatamento com a falta de governança sacrifica vidas, coloca o país na contramão da luta contra as mudanças climáticas e traz prejuízos à economia, uma vez que o mercado internacional não quer comprar produtos contaminados por destruição ambiental e violência”, diz em comunicado da entidade.

Como ocorre o desmatamento na Amazônia

  • Processo tem início no período chuvoso na floresta, entre o fim e o início do ano. São cortadas árvores menores e cipós, que começam a se degradar.
  • Árvores maiores são cortadas posteriormente, quando começa o período mais seco na floresta, iniciado em junho.
  • Por fim, o material vegetal que ainda fica no solo é queimado entre julho e setembro.
  • Também pode haver uma forma de desmate mais lenta, em que árvores de maior valor comercial são retiradas, vegetação menor é derrubada, capim é plantado e, em seguida, há a entrada do gado na área.

Como funciona o monitoramento do desmatamento

  • Para detectar e medir desmatamento, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) usa imagens da classe Landsat derivadas dos satélites Landsat-8 (EUA), Sentinel-2 (da União Europeia) e do Cbers-4 (do Inpe/Cresda, da China).
  • Os satélites passam e geram novas imagens a cada 15-20 dias; em caso de cobertura por muitas nuvens, múltiplos satélites ou datas são usadas para compor a imagem (o que é levado em conta para calcular o desmate naquela área).
  • O Inpe leva em conta a perda de floresta primária (áreas com regeneração de mata não são consideradas) em áreas superiores a 6,25 hectares, ou 0,0625km².
  • O Inpe faz duas formas de monitoramento:
    Deter – sistema usado para detecção do desmatamento em tempo real que tem como objetivo auxiliar as ações do Ibama de combate ao desmate.
    Prodes – mais preciso que o Deter, dá a taxa anual de desmatamento no bioma.

A primeira convenção brasileira sobre Terra plana foi exatamente como você imagina

19 de novembro de 2019

No geral, meio deprê.

Marie Declercq, via VICE Brasil em 12/11/2019

Não sei se poderia chamar de justiça poética, mas que gostosa surpresa foi descobrir que FlatCon, a primeira convenção brasileira sobre Terra plana, aconteceria em frente a uma loja maçônica gigantesca na capital de São Paulo. O local foi divulgado 12 horas antes do evento em um grupo de WhatsApp para todos os inscritos. Eu nem tinha pisado na convenção e o pau já estava torando no grupão de zap dos terraplanistas.

Acreditar em Terra plana não é só desacreditar a ciência, mas também acreditar nas centenas de teorias da conspiração sobre como um seleto grupo de poderosos esconde a verdade sobre a terra supostamente ser fixa, estacionária e, claro, plana. E isso inclui os maçons e, claro, a narrativa antissemita de que famílias judias multibilionárias, como os Rothschild, controlam o mundo. Por conta disso, muitos adeptos ficaram preocupados com tanta proximidade dos maçons. “E esse símbolo na frente do local?”, escreveu um dos participantes, visivelmente incomodado.

Não foi exatamente fácil alugar um auditório para o evento, como explicou Jean Ricardo, um dos organizadores. Mais ou menos um mês antes da conferência, o primeiro local – uma escola católica – rescindiu o contrato após descobrir o tema da conferência. Mesmo com a explicação do organizador, alguns inscritos falaram em desistir, mas as negativas eram abafadas pelo pessoal do deixa-disso.

“Ué, você não usa L’Oréal? Não usa produtos d’O Boticário? Tudo isso é maçom. Não come produtos Nestlé? Maçom! Já viu a última propaganda da Lâncome que a modelo espirra o perfume pro céu em cima de uma montanha? Isso é maçonaria”, argumentou uma senhora em um dos áudios enviado para o grupo.

No fim das contas a proximidade física de conspiracionistas com uma loja maçônica gigante não impediu que uma fila considerável se formasse na porta do teatro para o credenciamento e a retirada de camiseta, caneca e revista do evento. Já na fila, uma equipe de reportagem com o indefectível símbolo da Globo entrevistava alguns dos presentes. A própria presença da emissora logo no começo do evento foi, digamos, um gatilho para os terraplanistas, porque 1) “a Globo é um lixo”; e 2) “até no símbolo da TV eles querem zombar da gente”. O repórter passou alguns minutos conversando com um homem de 30 e poucos anos, que usava boné e uma camiseta com a frase “The Earth Is Flat” (“A Terra é plana”). Perguntou todas as perguntas que eu, você e o resto do mundo gostariam de fazer para uma pessoa que não acredita que a terra é esférica e gira em torno do sol.

Após o repórter se afastar, um dos amigos do entrevistado reclamou: “Porra, os caras só vêm aqui pra zoar com a gente”. E assim veio o primeiro tapa de empatia na minha cara, porque estava lá para fazer a mesma coisa que os outros jornalistas. Meu termômetro empático variou consideravelmente durante as 8 horas de evento, dependendo das falas que ouvia nos corredores. Cinco minutos depois do cara reclamar de ser zoado, ouvi um senhor de seus 50 e poucos comentando que não achava correto as escolas ensinarem só o modelo heliocêntrico.

Loja maçônica na frente do Teatro Liberdade, onde a convenção aconteceu. Foto: Marie Declercq/VICE.

Mais de dez palestrantes foram convidados para compor a programação, comentando diversos assuntos que giram em torno (desculpa) da Terra plana. Todos são youtubers, sem exceção. Reconheci também alguns membros do staff do evento, de vídeos que assisti sobre o tema. No próprio grupo de WhatsApp alguns pediam para compartilharem seus vídeos. Nem duas horas depois da conferência, já encontrei vídeos sobre ela. O terraplanismo contemporâneo é 100% dependente do YouTube e do Facebook.

Como já esperado, grande parte do público era masculino. Lembro que ao ser anunciada e viralizar rapidamente, a conferência foi ridicularizada por um site de entretenimento pelo fato de só ter palestrantes homens. Não sou de reclamar dos limites ridículos que esse assunto da representatividade costuma atingir às vezes, mas pela primeira vez achei positiva a falta de mulheres. O número esmagador de homens adeptos da Terra plana, cabe dizer, é algo de que a “cena” está bem ciente. Tanto que a revista distribuída para quem pagou o lote mais caro (Revista Terra Plana – Uma Resposta Para A Ciência de Verdade) inclui uma “Coluna Mulher”, em que algumas adeptas opinam sobre o tema: “A Nasa é uma agência muito mais de propaganda do que de ciência propriamente, a promover uma cosmologia baseada no ocultismo e na cabala”.

Edson douglas K. Neves posa ao lado de suas maquetes de terra plana. Foto: Marie Declercq/VICE.

Nem todos os participantes estavam 100% convencidos sobre a teoria. Um deles era o músico Edson Douglas K. Neves, que vendia maquetes e mapas da terra plana. Simpático, contou que descobriu o assunto no YouTube, assistindo vídeos sobre teorias da conspiração e arqueologia especulativa. No entanto, não se considera um terraplanista fervoroso. “A princípio achei uma loucura, mas pensei que se alguém tá falando isso, alguma coisa tem. O assunto pra mim é complexo. Não tenho certeza de nada, mas tô aberto a ouvir. De certa forma, não consigo mais acreditar completamente no modelo tradicional,” disse. “Pra mim não é válido levantar uma bandeira, mas na medida do possível a gente sempre acaba falando sobre o assunto.” As maquetes e mapas de Edson, feitas de jornal e papel crepom, variavam de 20 a 80 reais.

Curiosos também circularam pelo auditório, como os estudantes de Filosofia Ricardo Mantovani e William Cardoso. Segundo eles, vieram por gostarem de “coisas exóticas”. “O primeiro contato que tive foi pelo documentário da Netflix. Aí vi que tinha gente que acredita nisso no Brasil, me interessei e vim. Não tenho nenhuma convicção, vim para conhecer”, explica Ricardo.

William e Ricardo, dois curiosos, pousam em frente a um dos mapas espalhados pelo teatro. Foto: Marie Declercq/VICE.

A primeira palestra foi de Anderson Neves, um homem de terno e gravata que se apresentou para o auditório quase lotado (o Teatro Liberdade possui capacidade para 900 lugares) como administrador de empresas e programador neurolinguístico, uma abordagem de comunicação criada nos anos 1970 que hoje em dia se tornou sinônimo para coach. Durante mais de uma hora, Neves deu uma introdução completamente caótica sobre terraplanismo, citando diversas teorias da conspiração clássicas como a HAARP, chemtrails e “aqueles que controlam tudo”, arriscando uma explicação científica sobre a teoria não comprovada da gravidade até ser interrompido pelo organizador do evento quando seu tempo se esgotou.

Uma coisa é você passar três horas vendo vídeos sobre a terra ser plana. Outra é ver um homem na sua frente, falando essas coisas com uma certa autoridade, tendo ao seu redor muita gente assentindo com a cabeça. Em determinado momento, Neves mostrou um vídeo de um balão de hélio atingindo altas altitudes e disse: “Não tem curvatura. Estão vendo?” (Uma explicação: quem acredita que a terra é plana questiona o formato esférico porque não consegue enxergar a tal da curvatura do planeta quando viaja de avião ou olha para o horizonte.) O problema é que eu estava vendo a curvatura naquele vídeo. Estava ali. Era inegável que tinha uma curvatura. Olhei à minha volta procurando alguém que estivesse vendo a mesma coisa. Enxerguei na plateia muita gente séria, algumas pescando, várias concordando. Logo, o palestrante respondeu minha dúvida. “Passamos muito tempo aprendendo essas coisas, e é muito difícil abandonar esses ensinamentos errados.”

Considerando outras teorias da conspiração e o mar de chorume na forma de desinformação que tomou conta das redes sociais nos últimos anos, acreditar que a Terra é plana parece quase inofensivo à primeira vista. Sinceramente, havia ali uma coisa até interessante de querer fazer ciência com as próprias mãos e buscar respostas sobre o universo. Assim, tirando todo o absurdo, devemos mesmo culpá-los por serem curiosos? Meu termômetro de empatia começou a subir novamente.

Aí vem a parte que torna tudo isso perigoso: por que que a Igreja Católica, as agências espaciais e sei lá mais quem guardaram esse segredo por tanto tempo? Por que esconder que a Terra é plana? É então que entra em cena a paranoia, porque qualquer coisa pode ser uma resposta.

Manter o controle e ganhar dinheiro é uma das respostas mais usadas entre os terraplanistas, seguida por uma explicação religiosa sobre o modelo atual da terra esférica reduzir os homens à insignificância e fazê-los parar de acreditar em Deus. Essa tese é reproduzida por Elaine e Amanda, mãe e filha, donas de um canal bastante conhecido sobre o assunto. Ambas possuem o famoso cabelo “loira odonto” e foram bastante tietadas pelos seguidores do canal antes e depois de sua palestra sobre as vantagens de ser terraplanista. “Escondem a verdade da Terra plana da gente pelo controle. Porque nos colocam como seres insignificantes e nos distanciam do nosso Criador,” explica Elaine.

Amanda e Elaine são donas de um dos canais mais conhecidos sobre terra plana. Foto: Marie Declercq/VICE.

No geral, os adeptos do terraplanismo são pessoas bastante religiosas, com uma intensa aversão pela Igreja Católica, que dissemina o modelo heliocentrista. Há também os que são religiosos mas não concordam em basear a teoria da Terra plana na Bíblia, pois o importante seria questionar a ciência.

“Descobrir sobre Terra plana mudou minha vida. Eu era completamente ateu, vivia a vida só por mim mesmo e foda-se. E nossa, mudou muito. Entrei mais em contato com o cristianismo”, explica Edson Ruberovitch, que conversou comigo na frente do auditório, fumando um vape. “Quando descobri a Terra plana o país estava completamente dividido entre esquerda e direita. Não vejo salvação no sistema. Não é votar no Haddad ou no Bolsonaro que mudaria alguma coisa. Porque quando a gente vota no Haddad, avança algumas agendas de feminismo, vegetarianismo e transhumanismo. Por outro lado, votar no Bolsonaro é apoiar o avanço das pautas sionistas e da tecnocracia. Não tem muito por onde fugir, são dois braços da mesma cabeça.”

Edson diz que conhecer a teoria da terra plana mudou sua vida. Foto: Marie Declercq/VICE.

Prisca Côco, uma das três mulheres que palestraram, chegou a se dizer escolhida por Deus para falar sobre o Terra plana. Um dos seus argumentos é que a Terra só poderia ser plana, porque essa é a explicação mais simples de entender. “Terra plana é simples, já o globo não. É impossível entender aquilo,” defendeu. No ato pensei que bem, isso é um problema dela e o único jeito de resolver é estudando, mas não quis interferir na temperatura já bem baixa do meu termômetro de empatia.

A palestrante possui um canal com mais de 100 mil inscritos, cujos vídeos abordam da Terra plana até o significado do sapato vermelho do Papa Francisco, passando por uma receita de bife de cenoura. Prisca relatou a perseguição da sociedade contra terraplanistas, e disse que é preciso ter coragem para acreditar. “Terra plana é cabra macho, não é pra qualquer um. É pra mulher macho,” afirmou. Prisca terminou sua fala cantando sua música autoral sobre a Terra plana, desafinando sempre que possível. Chequei o grupo do evento: “Ela canta demais,” resenhou um dos membros.

Não há um posicionamento político muito evidente entre os terraplanistas, mas nas entrelinhas das falas dos palestrantes e de algum dos presentes percebi um flerte grande com a extrema-direita. Como é uma ideologia baseada em muita paranoia, simplificação, criação de inimigos e pânico moral, a Terra plana se encaixa perfeitamente nesse ecossistema. Especialmente com adeptos negacionistas climáticos muito convictos, que abraçam com força discursos anti-intelectuais e anticientíficos. Já que extrema-direita não é muito exigente em termos de agregar seguidores, está tudo junto e misturado.

Pelos aplausos, Siddartha Chaibub Lemos, dono de um canal com quase 30 mil inscritos, era um dos palestrantes mais aguardados. Durante mais ou menos meia hora, o youtuber exibiu um slideshow de memes explicando a razão da verdade sobre o formato da Terra ter sido escondida por tanto tempo. Envolve desde a criação de uma sociedade niilista cujo Deus é o dinheiro, envenenada pelo ar por conta de rastros químicos, alienada através do controle mental da grande mídia, que nos faz acreditar que dinossauros existiram, distorcendo o conceito de família e os bons costumes. Fazendo a gente acreditar, inclusive, na “farsa da vacina”.

Quando ouvi “farsa das vacinas”, qualquer rastro de empatia e curiosidade dentro de mim foi para o espaço, até porque pensei nos riscos dentre centenas pessoas aglomeradas dentro de um auditório, várias não acreditarem em se vacinar contra, sei lá, sarampo. O youtuber terminou sob aplausos, alguns minutos depois de mostrar um meme de Keanu Reeves com a frase (atribuída e ele) “A verdade é, Matrix foi um documentário”. Outro filme hollywoodiano bastante mencionado pelos adeptos é o Show de Truman, onde o protagonista interpretado por Jim Carrey vive dentro de um domo. Joguei fora meu termômetro.

Não sei ao certo se devemos deixar em paz os terraplanistas, até porque não vejo qualquer sentido em refutar suas ideias com argumentos científicos sólidos: quanto mais fazemos isso, mais ficam determinados em acreditar em suas próprias teorias conspiratórias. Não há como trazer a razão para um evento onde as pessoas ovacionam um youtuber que mostra vídeos editados para afirmar que as agências espaciais são mentirosas e que o homem nunca foi à Lua. Terraplanistas sentem orgulho da perseguição, isso valida suas crenças.

No final do dia, quando o pessoal partiu para uma hamburgueria temática de Terra plana na Vila Madalena, o grupo de WhatsApp se encheu de elogios sobre a conferência e de críticas sobre “infiltrados” globaloides (termo negativo usado para quem acreditam no globo terrestre), e sobre a imprensa não ter se focado nas refutações científicas trazidas pelos palestrantes. “O GLOBO finalmente ACABOU”, escreveu um dos membros do grupo.

Não é improvável que a segunda edição da conferência aconteça novamente no ano que vem, mesmo que seja na frente de uma loja maçônica.


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