Archive for the ‘Política’ Category

Plágio de nazismo não é caso isolado: Roberto Alvim é fruto do bolsonarismo

18 de janeiro de 2020

Jair Bolsonaro fala a jornalistas diante do Palácio da Alvorada, em Brasília, no dia 15/1.

Leonardo Sakamoto em 17/1/2020

Logo após a demissão de Roberto Alvim, as redes sociais foram tomadas por uma tentativa de passar pano para o presidente da República e o governo federal, como se o que tivesse acontecido fosse um desvio da curva, por culpa única e exclusiva do, agora, ex-secretário de Cultura. Entretanto, o vídeo gravado por ele não foi um ato isolado, mas a consequência da presença do bolsonarismo no poder, um grupo que normaliza as violências simbólica e física, transformando-as em ferramentas da prática política cotidiana.

Não era, portanto, um raro fruto podre que manchava a reputação da árvore, mas mais um. Ou seja, já surgiu antes e acontecerá novamente.

A diferença é que, desta vez, a repercussão negativa do discurso que copiou – na forma e no conteúdo – Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler, foi tão grande que ganhou proporções internacionais. Afinal, era um dos comandantes do nazismo e do Holocausto. Outros absurdos, como os discursos que fomentam a ação de garimpeiros e madeireiros contra indígenas, ao defenderem a utilização econômica de suas terras, passam sem a devida punição.

Pode-se dizer que Alvim extrapolou desta vez. Mas em matéria de absurdos, não estava só. Acompanhavam-no o ministro da Educação, Abraham Weintraub, o chanceler Ernesto Araújo, a ministra da Mulher da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o ministro da Economia, Paulo Guedes, o ministro-chefe do Gabinete da Segurança Institucional, general Augusto Heleno, entre outros.

Todos não apenas sabem que podem pular a cerca da barbárie e dizer grandes absurdos, como têm a sensação de que devem fazer isso se quiserem se manter nas graças do chefe.

Bolsonaro, ele próprio, é responsável por uma penca de frutos podres. Defendeu a tortura como método, sugerindo que ela deveria ser usada contra funcionários públicos; elegeu torturadores como heróis, como no caso do açougueiro Brilhante Ustra; chamou manifestações populares de terroristas, contando com seu filho e com o ministro da Economia para lembrarem que a resposta para isso pode ser um novo AI-5; prometeu “uma limpeza nunca vista na história desse Brasil”, dizendo nas eleições que varreria do mapa opositores políticos, banindo-os do país; chamou, de forma preconceituosa, nordestinos de “paraíba”; fez apologia ao trabalho infantil e pouco caso do trabalho escravo; atacou sistematicamente jornalistas, recorrendo a xingamentos ou à difamação online quando a imprensa lhe desagradou; elogiou ditadores e pedófilos, como Pinochet e Stroessner.

Políticos dizem não incitar a violência com suas opiniões. Por vezes, não são eles que atacam, mas é o encadeamento de seus discursos ao longo do tempo que distorce o mundo e torna a agressão banal. Ou, melhor dizendo, “necessária’’ – para tirar o país do caos e levá-lo à ordem. Acabam por alimentar a intolerância, que depois será consumida por fãs malucos e seguidores inconsequentes que fazem o serviço sujo.

Como já disse aqui, no dia 10 de maio de 1933, montanhas de livros foram criadas nas praças de diversas cidades da Alemanha. O regime nazista queria fazer uma limpeza da literatura e de todos os escritos que desviassem dos seus padrões impostos. Centenas de milhares queimaram até as cinzas. Einstein, Mann, Freud, entre outros, foram perseguidos por pensarem diferente da maioria. A opinião pública e parte dos intelectuais alemães se acovardaram ou acharam pertinente o fogaréu nazista descrito acima, levado a cabo por estudantes que apoiavam o regime. Deu no que deu.

Hoje, vemos muitos se acovardarem diante de ondas burras, intolerantes e violentas frente à necessidade de defender a pluralidade do conhecimento, os direitos, a dignidade. Ou acharem que sinais, como o do plágio, são casos isolados.

Não, não estou comparando nossa sociedade, nem nosso governo com o da Alemanha daquela época. Apenas dizendo que quando percebermos que a democracia é algo frágil e que as instituições não eram tão fortes quanto imaginávamos, pode ser tarde demais.

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Moro irá no Roda Viva, mas “jornalistas” selecionados a dedo não poderão perguntar sobre a Vaza-Jato

18 de janeiro de 2020

RODA VIVA DIVULGOU TAMBÉM ASSUNTOS DA ENTREVISTA COM MORO. VAZA JATO NÃO ESTÁ LÁ
Hugo Souza, via Come Ananás em 16/1/2020

Não satisfeita em não convidar ninguém do The Intercept Brasil para compôr a bancada de entrevistadores do Roda Viva com Sérgio Moro, a TV Cultura parece ter excluído a própria Vaza-Jato – o principal, portanto – da pauta da entrevista da próxima segunda-feira, 20 – entrevista que, assim, promete ser um verdadeiro convescote com “Dr. Sergio”.

Em vídeo institucional, o Roda Viva elenca os assuntos que serão abordados no programa com Moro:

  • A relação com a presidência;
  • O andamento das principais propostas como ministro;
  • Os próximos passos como político.

Em outro vídeo, a nova apresentadora do Roda Viva, Vera Magalhães, diz que “tem muito assunto” para tratar com Moro no programa, mas também não menciona o principal:

“É com imenso prazer e uma grande honra que eu chego a esse que é o mais tradicional programa da TV brasileira. Nosso entrevistado de estreia é o ministro da Justiça, Sérgio Moro. Tem muito assunto: ele vai falar sobre Jair Bolsonaro e sobre seus planos para a política”.

Sensacional.

Leia também:
Alô jornalistas do Roda Viva com Moro, alguém ceda o lugar a Glenn Greenwald

REDES SOCIAIS

O desmonte da Receita Federal, peça final para a destruição do estado brasileiro

18 de janeiro de 2020

A destruição desse modelo instituiria definitivamente a lei das selvas no país, o vale-tudo sem regras, sem limites para a ação predatória de grupos econômicos e do crime organizado.

Luis Nassif em 16/1/2020

PEÇA 1 – AS IMPLICAÇÕES FISCAIS DOS ATRASOS DO INSS
O Brasil está submetido a um terraplanismo-ideológico fatal. Do lado de Bolsonaro, a volta do fundamentalismo religioso. Do lado de Paulo Guedes, um ideologismo cego, cujo objetivo final será o desmonte total do Estado brasileiro, uma loucura jamais imaginada nem pelo mais tresloucado dos liberais.

Não se imagine que a enorme fila de atrasados do INSS signifique apenas incompetência gerencial do governo Bolsonaro. A ideia de chamar militares aposentados para ajudar a resolver a pinimba é apenas um dos inúmeros factoides da administração Bolsonaro

O atraso faz parte de uma estratégia política não apenas de preservar a Lei do Teto, mas de desmonte do Estado, cujo alvo final é a própria Receita Federal.

A proposta de Guedes é reduzir a carga fiscal de 33/34% para 20% ao ano. E se funda em dois princípios: desmonte de toda a estrutura de gastos; e desmonte da estrutura de arrecadação.

A formação dos estados nacionais modernos se deu com a constituição de uma burocracia administrativa, da força militar e do sistema fiscal, construído para sustentar as despesas públicas.

A destruição desse modelo instituiria definitivamente a lei das selvas no país, o vale-tudo sem regras, sem limites para a ação predatória de grupos econômicos e do crime organizado.

PEÇA 2 – O DESMONTE DA RECEITA
Todo ajuste fiscal tem o lado das despesas e da receita. O mesmo governo que se esmera em desmontar todas as políticas e gastos sociais também tem atuado fortemente para desmontar o sistema de arrecadação fiscal do país.

Para 2020, o Ministro da Economia Paulo Guedes impôs uma restrição orçamentária de 30% ao órgão. Peças essenciais na fiscalização, Dataprev e Serpro também estão submetidos a restrições e orientação de redução de cargos. O Serpro praticamente cessou a prestação de serviços para a Receita Federal.

Não há manutenção dos sistemas. Em várias delegacias e agências a internet deixou de funcionar e os servidores não podem acessar os sistemas para realizar seus trabalhos.

Em vários locais, os centros de atendimento dos contribuintes da Receita Federal não conseguem sequer emitir as Certidões Negativas de Débitos- CND, causando sérios transtornos principalmente para pessoas físicas e pequenas empresas que dependem desses serviços.

A Receita era uma das instituições que tinham atingido nível de excelência em tecnologia da informação, sendo premiada no Brasil e no exterior. Com os cortes, setores técnicos avaliam, preliminarmente, que a Receita irá regredir uma década.

Com o desmonte promovido, em várias delegacias e agências os servidores do Serpro foram removidos, deixando a Receita sem suporte algum.

PEÇA 3 – INCOMPETÊNCIA OU OBJETIVO POLÍTICO?
Há duas forças impulsionando a queda na arrecadação.

Do lado do mercado, Paulo Guedes, com o objetivo de reduzir a carga fiscal para 20%. Segundo ele, a redução será facilmente atingida se conseguir controlar o crescimento nominal das despesas. “Em dois anos, o trabalho está feito”, disse ele. Não conseguindo controlar o crescimento dos gastos, apelará para a Lei do Teto e a PEC do Pacto Federativo. “Basta o governo não fazer nada. Nenhuma crise no orçamento dessa forma dura mais do que um ano em meio. Basta que, na dúvida, repete o orçamento do ano passado. Se não destravar, fica mais um ano congelado”, afirmou.

A segunda força é a base de apoio político de Bolsonaro. Hoje em dia, a espinha dorsal do bolsonarismo está nessa base, de milícias e crime organizado às Igrejas neopentecostais, todas território fértil para lavagem de dinheiro. As “rachadinhas” de Flávio Bolsonaro não teriam sido identificadas sem o trabalho da Receita e do COAF. É só relembrar a pressão de Bolsonaro sobre a Receita, para tirar a fiscalização do porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro, porta de entrada do contrabando de armas no país.

A Receita é elemento essencial para sustentar o nível de despesas e blindar a economia informal da invasão pelos agentes da zona cinzenta da economia e pelo crime organizado.

O desmonte da Receita se encaixa na lógica Bolsonaro-Guedes, de promover um novo ciclo de acumulação capitalista em cima dos direitos sociais dos mais pobres, além de permitir a expansão da economia das milícias e do crime organizado.

Em agosto passado, Bolsonaro publicou um vídeo em seu Facebook incitando violência contra fiscais do trabalho.

No dia 11 de dezembro passado, para empresários reunidos na Confederação Nacional da Indústria, Bolsonaro sustentou a necessidade de menos poder aos fiscais, para evitar a aplicação de multas no agronegócio, nas indústrias e nas Igrejas.

“Tenho falado com meus ministros quando se fala em multas. Se eu não me engano, há questão de 40 anos, a Inglaterra tirou o poder de seus fiscais. Porque chegou a um ponto que aquele modelo adotado atrapalhava quem queria produzir”, disse ele.

PEÇA 4 – O DESMONTE FINAL DO ESTADO BRASILEIRO
Afirmação como a de Bolsonaro, ou ações como a de Guedes, certamente fazem revirar no túmulo os gurus do liberalismo brasileiro, de Roberto Campos a Octávio Gouvêa de Bulhões – que focaram na reestruturação da Receita, nos anos 60, os fundamentos para o crescimento posterior da economia.

Causa pasmo o esforço de cientistas sociais de tratar todos esses atos como normais, valendo-se de um falso paralelismo.

1) O PT foi acusado de tentar transformar o Brasil em uma nova Venezuela, e essa acusação era falsa.

2) Bolsonaro está sendo acusado de levar o Brasil para um golpe de Estado com apoio das milícias.

3) Como a afirmação 1 era falsa, logo a afirmação 2 também é falsa, pouco importam as atitudes de Bolsonaro, as declarações sucessivas contra a democracia, a imprensa e o próprio conceito de Nação.

Cai o secretário, mas o projeto cultural inspirado no nazismo continua em pé

18 de janeiro de 2020

Bolsonaro e Shelley durante almoço em Brasília, em setembro de 2019.

Via Jornal GGN em 17/1/2020

Que ninguém se engane. Roberto Alvim só foi demitido na sexta [17/1] da Secretaria Especial de Cultura depois que Jair Bolsonaro recebeu uma ligação do embaixador Yossi Shelley, que expressou pessoalmente a indignação da comunidade israelense sobre o vídeo inspirado na estética nazista.

A pressão de comunidades caras ao bolsonarismo derrubou o secretário, mas a ideia que ele representa continua em pé.

Na essência, Alvim e sua “retórica” emprestada do nazismo reflete como ninguém o que o governo Bolsonaro quer para o Brasil. Fato é que ele ascendeu a secretário somente depois de apresentar seu projeto ambicioso de gerar um “bombardeio de arte conservadora” ao presidente.

Bolsonaro foi seduzido pela ideia de uma “cultura nacionalista”, que Alvim prometeu aos brasileiros por meio do vídeo em que reproduz um nazista e ainda usa como trilha sonora uma ópera associada a Hitler (escolhida pessoalmente por Alvim, autoproclamado fã de Wagner).

Em entrevista à Rádio Gaúcha, o ex-secretário até repudiou o flagelo humano provocado pelo nazismo, mas admitiu, sem nenhum pudor, que seu programa para promover o “nacionalismo cultural” guarda “coincidência retórica” com falas e ideias do ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels.

E, na tentativa de fazer soar melhor, Alvim ainda disse é possível encontrar belas frases sobre a humanidade na boca dos mais sanguinários assassinos, “como Che Guevara”.

Se tivesse sido mais discreto, talvez Alvim tivesse mantido o cargo e tocado o barco da cultura brasileira rumo à década de 1930 sem maiores problemas. Tombou pela falta de limites.

Antes de cair, ele chamou o Prêmio Nacional das Artes de “maior programa” cultural já encampado pelo governo Bolsonaro. Não em termos de recursos, mas pelo peso ideológico, pela ousadia de querer alinhar a produção artística do País às “transformações intelectuais” e ideológicas que a sociedade vê desde a vitória do bolsonarismo.

Mesmo sem Alvim, essa diretriz continuará firme. O Prêmio Nacional das Artes ainda vai distribuir R$20 milhões para produções voltadas para as artes clássicas de perfil conservador, em afago à moral da “tradicional família brasileira”.

O ex-secretário tangenciou perguntas sobre filtros e censuras às propostas que possam destoar do ideário bolsonarista. Segundo ele, haverá um grupo que fará a “curadoria” dos projetos a partir de critérios “artísticos”.

Alvim sai, mas a semente da “renovação completa”, do anseio por “uma nova geração de artistas conservadores”, está plantada.

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REDES SOCIAIS

Bolsonaro prepara campanha publicitária para pregar abstinência sexual

18 de janeiro de 2020

Via Coluna de Guilherme Amado em 15/1/2020

A política pública de abstinência sexual, em que pese a falta de evidência científica que a sustente, pode ser o objeto de uma campanha publicitária do Ministério da Família e dos Direitos Humanos.

As peças publicitárias, que seriam veiculadas já em fevereiro, tentariam aproveitar a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, nos primeiros dias de fevereiro, para estimular a “conscientização das consequências” de uma relação sexual na adolescência.

A ação deve ser executada em conjunto com o Ministério da Saúde.

Ou seja: além das tradicionais campanhas que antecedem o Carnaval estimulando o uso de camisinha, agora o governo parece querer convencer alguns foliões também a… não transar.

Em nota, o Ministério da Família e dos Direitos Humanos afirmou que o mote da campanha ainda não está definido, uma vez que sua realização está em estudo. De qualquer maneira, segundo o ministério, não será abandonada a ação que estimula o uso de preservativos no período de Carnaval.

Leia também: A ideia fundamentalista de Damares para prevenir gravidez precoce não faz o menor sentido


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