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As 11 vezes em que Osmar Terra falou merda sobre o coronavírus

7 de abril de 2020

Ex-ministro vem defendendo uma visão preocupante: a de que a pandemia é incontrolável e o isolamento social adotado por governos é uma decisão política, e sem respaldo científico, que não vale a pena.

Via Jornal GGN em 6/4/2020

O ex-ministro Osmar Terra é médico, já foi secretário de Saúde e se orgulha de ter enfrentado a epidemia de H1N1 em 2009 como gestor no Rio Grande do Sul. Isso tudo deveria ser uma credencial para que possa ocupar o Ministério da Saúde em eventual saída de Luiz Henrique Mandetta, não fosse o desespero para agradar incondicionalmente o presidente Jair Bolsonaro.

Nos últimos dias, Terra passou a publicar mensagens no Twitter, vídeo e até artigo na Folha de S.Paulo para sustentar uma visão preocupante: a de que a pandemia é incontrolável e o isolamento social é uma decisão política, sem respaldo científico, que não vale a pena.

O GGN analisou as manifestações do ex-ministro e expõe, abaixo, o resumo das principais ideias e o contraponto com dados que ele ignora.

1) A quarentena aumentou casos de coronavírus onde foi adotada.
“A ideia de fazer quarentena para reduzir a velocidade e ‘achatar’ a curva de aumento de casos, não funcionou em nenhum país do mundo nesta epidemia! Estão submetendo a população a enormes sacrifícios por uma teoria sem resultados práticos!”, escreveu Osmar Terra no Twitter.

Esse tipo de análise é equivocada porque os efeitos de uma quarentena não são vistos nos primeiros dias subsequentes ao decreto dos governos. Cientistas apontam que há um prazo mínimo para verificar a efetividade das metidas de mitigação que envolvem fechamento de escolas, serviços não essenciais, entre outros: cerca de 14 dias, que é é o tempo de incubação do vírus.

É preciso considerar ainda que há um intervalo de espera entre o momento em que o caso chega ao hospital e o momento em que o teste em laboratório é concluído e entra para as estatísticas. O boom de casos visto pelo ex-ministro em outros países deveria levar em conta esses fatores.

2) Brasil vive uma quarentena radical sem sinais do achatamento da curva.
Disse Osmar Terra: “No Brasil, onde estamos sendo submetidos a uma quarentena radical que destrói nossa economia e empregos, eu pergunto: onde está o achatamento da curva??!! NÃO EXISTE. Com a quarentena ou não, chegaremos ao pico da epidemia antes do final de abril! […] Está na hora dos governadores ouvirem o presidente e acertarem com ele o fim dessa quarentena sem resultados.”

O Brasil não vive, na visão do próprio Ministério da Saúde, uma quarentena radical. Na semana passada, o ministro Luiz Henrique Mandetta chegou dizer que chamaria as medidas adotadas por governos e municípios de “quarentena”. Diferente de outros países, o Brasil não fez nenhum “lockdown”, suspendendo todas as atividades e isolando a sociedade em geral por, no mínimo, 14 dias.

Há diferenças entre medidas de mitigação e medidas de supressão ao coronavírus. O que os estados adotaram foram algumas medidas de mitigação, como fechar escolas e universidades, fechar comércios com atividades não essenciais, suspender eventos públicos, entre outras ações que não são sequer orquestradas em nível nacional.

Ainda de acordo com Mandetta, o esperado é que o País viva um aumento significativo dos casos à medida em que os testes comprados no exterior e fabricados nacionalmente comecem a ser feitos em mais pessoas e gerem resultados para as estatísticas. A Pasta continua trabalhando para receber milhões desses testes.

Além disso, o achatamento da curva, ao contrário do que faz parecer Osmar Terra em seus comentários, não sugere que a epidemia está exterminada. A ideia de “achatar” a curva tem outro objeto primário: impedir que os casos graves cheguem todos ao mesmo tempo no hospital, gerando um colapso no sistema de saúde. Pode haver um mesmo volume de casos, portanto, mas espalhados ao longo do tempo, para que o sistema de saúde possa se preparar para absorver a demanda.

3) A epidemia de H1N1 é a prova de que quarentena é desnecessário.
“Eu me baseio em experiência que tive ao comandar o enfrentamento a várias epidemias, com bons resultados, onde nos concentramos em grupos de riscos sem impedir que atividades continuassem”, disse Osmar Terra, em referência ao surto de H1N1 em 2009.

O ministro omite que as condições em que aquele vírus surgiu eram outras. O H1N1 era menos transmissível que o coronavírus. O primeiro transferia para 1,3 pessoa em média. A covid-19 passa de uma para 2 ou 3 pessoas, numa estimativa conservadora.

Isso tem a ver com o fato de que o vírus de 2009 era parecido com o H1N1 de 1968. Os idosos que pegaram o vírus em 1968, portanto, estavam menos vulneráveis a ele em 2009. Por isso também a doença foi menos letal entre idosos naquele ano. Esse dado está relacionado ainda à taxa de transmissão, pois uma parcela da população já tinha alguma imunidade.

A covid-19 mata mais idosos que a H1N1 porque não há imunidade, vacinas ou remédios contra ela no momento. No final de 2009 e começo de 2010, o H1N1 já tinha uma vacina. E com contágio menor, ela não colapsou o sistema de saúde nos termos vistos pela covid-19.

O virologista Átila Iamarino fez um vídeo sobre coronavírus no domingo [5/4] e comentou a situação do H1N1 em paralelo com a covid-19:

4) O vírus é assintomático em 99% dos casos.
O ex-ministro não informou qual estudo científico respalda essa informação que ele repete em vídeo, artigo e mensagens nas redes sociais.

Aferir o nível de casos assintomáticos no mundo depende da testagem em massa, e ainda há pesquisas em andamento sobre isso. Um estudo de referência é o da Islândia, que apontou que metade dos casos, e não 99%, seriam assintomáticos.

Curioso que esse dado seja usado por Terra para justificar o fim da quarentena. Pela lógica, quanto mais gente circulando nas ruas sem saber que porta o vírus, maior a chance de que pessoas em grupo de risco possam se contaminar.

5) É preciso contaminar metade da população.
Esse era o plano do Reino Unido, desenvolver a chamada imunidade de rebanho, para conter a epidemia. Ocorre que essa decisão gera o problema de milhares de casos graves ocorrendo ao mesmo tempo, e é aí que o sistema de saúde de qualquer país pode entrar em colapso. Esse plano foi abandonado tão logo o Imperial College apresentou as estimativas de quase meio milhão de mortes por covid-18 no Reino Unido, caso nada fosse feito.

6) O Imperial College está errado.
O conceito de achatamento da curva está errado. O Imperial College errou. Previu milhões de mortos que não aconteceram. Não vai acontecer. O cálculo está errado”, disse Terra em um vídeo divulgado no YouTube.

O que o Imperial College faz é projetar o crescimento exponencial dos casos e estimar as mortes considerando as taxas de letalidade vistas em alguns países que foram atingidos pela epidemia primeiro, como a China. Com base nesses dados, esboçam cenários que relacionam as medidas que podem ser adotadas e suas consequências.

O ministro não explica como chegou à conclusão de que o “conceito de achatamento da curva está errado” e qual estudo de seu conhecimento contradiz o Imperial College.

7) A Itália já chegou ao final da pandemia, e Brasil chegará em junho.
“No final de abril termina a epidemia na Itália. No Brasil termina em maio. Em junho, não terá mais epidemia no Brasil.”

Quando fala sobre o Brasil, o ex-ministro jamais diz quais dados o levam a projetar o cenário em que a epidemia estará acabada em junho. Contrasta com essa informação as notícias de que os países asiáticos, que enfrentaram primeiro o coronavírus no mundo, estão preocupados e se preparando para uma segunda onda.

No final de março, as autoridades da Itália de fato afirmaram que acreditam que o País atingiu o pico da crise e, em breve, a curva de casos passará a cair lentamente. Mas isso não significa que eles vão afrouxar as medidas de restrição social. Silvio Brusaferro, do Instituto Superior de Saúde italiano, disse que serão muito “cautelosos” porque o fim da quarentena pode retomar o crescimento de casos.

8) Suécia só isolou grupo de risco e já atingiu o pico de casos.
“Olha a Suécia, a Suécia está começando a cair [a curva de novos casos]”, diz o ministro no vídeo que em afirma que o país tem 5.568 casos e 390 mortes, segundo dados de 3 de abril.

Hoje, três dias depois, a Suécia já tem mais de 7,2 mil casos e 477 mortes, e nenhum motivo para ver esses dados caírem, pois, de fato, não tomou medidas duras de restrição social contra o coronavírus desde o começo.

A Suécia é outro País usado pelo ex-ministro de maneira curiosa, porque lá o debate é justamente sobre aumentar as medidas de mitigação, o que vem ocorrendo lentamente nos últimos dias.

Uma das últimas decisões, por exemplo, foi impedir eventos públicos com mais de 50 pessoas. Ainda assim, a comunidade científica aponta que o País – único entre os vizinhos nórdicos a relaxar em meio à pandemia – precisa fazer mais diante da explosão de casos, sobretudo em Estocolmo, que já precisa de hospitais de campanha.

9) Oxford mostra que metade do Reino Unido está contaminado, logo, a quarentena não adianta.
“No Reino Unido metade da população está contaminada. Oxford mostra isso. Já está chegando no efeito rebanho e começa a cair. Não é com a quarentena que estão fazendo isso. Depois que fizeram quarentena, subiu mais ainda [o volume de casos] e a curva do Reino Unido não está achatada.”

O estudo de Oxford que Osmar Terra cita em vídeos, Twitter e também em artigo publicado na Folha de S.Paulo na segunda [6/4] não foi submetido a nenhuma avaliação. E, para a infelicidade do ministro, tampouco seus idealizadores defendem o fim da quarentena.

O que a pesquisa fez foi “supor” qual o comportamento do coronavírus, para levantar a tese de que ele já contaminou, silenciosamente, boa parte da população no primeiro mês em que chegou ao Reino Unido. Com base nessa suposição, os pesquisadores apontam necessidade de fazer testes em massa nas próximas semanas, para descobrir se a população adquiriu a imunidade de rebanho aventada.

E, para finalizar, uma das autoras do estudo “reluta em criticar o governo [do Reino Unido] por decretar uma quarentena nacional a fim de conter a difusão do vírus, porque a precisão do modelo de Oxford ainda não foi confirmada e, mesmo que ele esteja correto, o distanciamento social reduzirá o número de pessoas que adoecerão seriamente e aliviará a pressão severa sobre o Serviço Nacional de Saúde.”

10) Coréia do Sul não fez quarentena forçada.
“O que a Coreia fez foi muito simples, isolou os grupos de risco e testou em massa. Não fechou nem fez quarentena forçada de ninguém.”

A Coreia do Sul fez uma política acirrada de identificação, isolamento e vigilância dos casos de coronavírus que entraram por aeroportos. Somada à testagem em massa (uma capacidade que nem todo país tem) e imposição de quarentena aos grupos de riscos identificados nesse processo.

Para aqueles que puderam continuar transitando nas ruas, a recomendação foi de uso de máscaras. As pessoas também recebem mensagens no celular diariamente, com os dados do monitoramento do vírus por geolocalização, e sabem quando e onde estarão mais expostos à doença. Os transportes públicos também passam por higienização constante. Ao contrário do que o ministro faz parecer, os coreanos não seguiram a vida normalmente, como se não houvesse vírus por aí. A rotina de contenção sanitária é intensa.

Desde o dia 21 de março, para conter a ameaça de uma segunda onda, a Coreia do Sul também fechou “instalações de alto risco” e proibiu reuniões religiosas, esportivas e de entretenimento. Está de olho em asilos e outros focos de contaminação. Aumentou a multa para quem fura o isolamento sendo covid-19 positivo, agora em R$42 mil. E vai estender as recomendações de isolamento por mais duas semanas, já que as autoridades observaram que em fevereiro, a população ficou mais em casa e, agora, o movimento aumentou em 20%.

11) Isolar idosos é o método correto e há exemplos.
“[…] defendo priorizar e reforçar a proteção dos grupos de maior risco de contágio: idosos e doentes crônicos, como fazem os países com melhor resultado, como Coreia do Sul, Japão, Israel e Suécia. E complementar aplicando o maior uso de testes”, escreveu Terra no artigo na Folha.

Como já mostrado acima, Coreia do Sul e Suécia estão endurecendo medidas de mitigação contra o coronavírus.

O Japão pode ter desenvolvimento um ritmo mais lento no começo da pandemia, mas o cenário começa a mudar. Embora algumas escolas onde houve registro de coronavírus tenham fechado, comércios continuaram operando normalmente nas últimas semanas, e agora o País discute decretar emergência nacional. Tóquio, com mais casos, faz pressão pelo decreto e já pediu, no último final de semana, que a população faça “home office” e evite as saídas não indispensáveis.

A ideia é que o estado de emergência afete os lugares onde há mais casos de covid-19, e não todo território nacional. Porém, a partir disso, os governadores “poderão solicitar aos moradores que permaneçam em suas casas e aos comércios não essenciais que suspendam suas atividades”.

Assim como na Suécia, o sistema no Japão será baseado na “disciplina” ou colaboração cidadã, sem intenção de impor quarentena obrigatória e multas para quem fura as recomendações.

De um lado, especialistas dizem que o Japão tem controlado relativamente bem sua epidemia de coronavírus, considerando a proximidade com a China, porque tem hábitos de higiene que dificultam a transmissão da doença. Uso de máscaras por civis é praticamente mandatório. Beijos e apertos de mão não são usados pela população em geral e os estabelecimentos têm desinfetantes e álcool em gel disponíveis usualmente.

Por outro lado, há questionamentos sobre a veracidade dos números oficiais divulgados, e considerações sobre o fato do Japão não fazer testes em massa, o que impactaria no número de casos confirmados.

Em Israel, já há notícias de revolta da população com as autoridades do País, que começaram a decretar o isolamento rigoroso dos locais mais contaminados.

REDES SOCIAIS

Agredida pelo governo Bolsonaro, China troca soja brasileira pela dos EUA

7 de abril de 2020

Via Brasil 247 em 6/4/2020

Governo chinês prepara-se para aumentar as importações de soja dos Estados Unidos e reduzir as do Brasil, como retaliação aos seguidos ataques do governo Bolsonaro ao país durante a crise do coronavírus. Decisão do governo chinês comprova que ataques de Abraham Weintraub e Eduardo Bolsonaro à China atendem apenas aos interesses dos Estados Unidos – e não do Brasil. Com isso, os ruralistas, que ajudaram a colocar Bolsonaro no poder, serão prejudicados porque, na prática, colocaram um governo que serve a interesses internacionais – e não do Brasil.

Segundo o jornalista Nelson de Sá, na Folha de S.Paulo o diário Xin Jing Bao, de Pequim, noticiou no sábado [4/4] uma coletiva sobre “segurança e suprimento alimentar” de um diretor do ministério chinês da agricultura, convocada porque “muitas pessoas se preocupam que a soja importada do Brasil venha a ser afetada”.

Wei Baigang afirmou que “as importações do Brasil não foram afetadas em março”, mas que as importações dos EUA devem crescer”, agora que “a primeira fase do acordo comercial sino-americano foi implementada”.

A China é o principal importador de produtos agrícolas brasileiros. O valor das aquisições pelo país asiático foi US$31,01 bilhões em 2019, de acordo com a Secretaria de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Em sgundo lugar ficaram os Estados Unidos (US$7,18 bilhões).

De acordo com a agência de notícias chinesa Xinhua, em levantamento que envolveu 13 correspondentes na América Latina, o número de confirmações de coronavírus gira em torno de 30 mil na América Latina, sendo mais de um terço no Brasil, que tem pelo menos 11,2 mil e 489 mortes provocadas pela doença.

Segundo relato da coluna de Nelson de Sá, O tabloide Huanqiu/Global Times ironizou em título que, em meio à escalada dos números, “Presidente brasileiro convoca jejum para se livrar do pecado”. Na rede CCTV, “três epidemias estão para acontecer ao mesmo tempo no Brasil”, acrescentando dengue e gripe.

O fato é que, em meio a uma pandemia global, o governo Jair Bolsonaro ainda consegue arrumar briga com a China, após integrantes da atual administração acusarem o país asiático de esconder informações sobre a covid-19 e de querer dominar o mundo com a doença.

De acordo com artigo do jornalista Leonardo Attuch, editor do 247, “um dos maiores erros dos analistas políticos no Brasil é dividir o governo Bolsonaro entre uma ala de ministros técnicos, uma ala militar e uma suposta ala formada por ministros ‘ideológicos’, que teria como principais representantes Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e Abraham Weintraub, da Educação – os ministros ‘olavistas’ que seriam protegidos pelo deputado Eduardo Bolsonaro, que por muito pouco não foi indicado embaixador do Brasil em Washington”.

“Volta e meia, há quem diga que Ernesto Araújo e Abraham Weintraub são ‘loucos’ ou ‘burros’. Nem uma coisa nem outra. Ambos sabem muito bem o que estão fazendo e conhecem também as consequências de seus atos. Sabem que, no limite, o Brasil poderá sofrer retaliações econômicas da China”, diz. “O que interessa à dupla é agradar aos patrões. E ambos sabem que Bolsonaro deve sua eleição ao pesadíssimo esquema de fake news desenvolvido pela extrema-direita estadunidense e por Steve Bannon – um personagem que já declarou que o Brasil é o principal território em disputa por Estados Unidos e China”.

O Estado, o vilão do neoliberalismo, é o único herói que nos resta

7 de abril de 2020

FORA DA CAIXA
Leandro Fortes em 6/4/2020

No radar dos neoliberais, desde o golpe de 2016, os bancos públicos estavam prestes a cair na bacia das almas das privatizações até a chegada da pandemia do novo coronavírus. Agora, poderão ser a salvação da lavoura, desde que a política genocida de atraso de ajuda aos trabalhadores, aprovada no Congresso Nacional, continue sendo a prioridade da dupla Bolsonaro-Paulo Guedes.

Apaixonado por bancos privados, Guedes tinha demonstrado, até aqui, um apetite voraz pela privatização, principalmente, da Caixa Econômica Federal. Trata-se do banco público que concentrou, nos governos petistas, as ações sociais mais importantes da história do País, os programas Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida – ambos em processo de destruição plena comandado pelo ministro da Economia.

O fato é que, nesse momento, somente a Caixa pode ajudar o dinheiro dos cofres públicos chegar aos trabalhadores, antes da fome. O banco tem um cadastro pronto e ativo de 29 milhões de famílias, quatro mil agências e está ligado a 13 mil casas lotéricas, em todo o País. O problema, como sempre, chama-se Jair Bolsonaro.

Indiferente, como cabe a um psicopata, às angustias da população, e disposto a fazer política em meio a uma emergência sanitária mundial, Bolsonaro aposta no atraso dos repasses para criar o pânico necessário para, contra tudo e contra todos, forçar os trabalhadores a saírem de casa. Não importa se isso poderá transformar o Brasil num cemitério a céu aberto.

Nessa queda de braço, as únicas pressões pela liberação do dinheiro estão vindo dos sindicatos e da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa, a Fenae, haja vista a má vontade da direção bolsonarista instalada dentro da instituição. Virou, dessa forma, uma corrida de vida e morte.

Guedes e Bolsonaro não dão a mínima para isso. O medo deles é ter que reconhecer que o Estado, o vilão do neoliberalismo, é o único herói que nos resta.

Deposição branca, silêncio da mídia e ameaça ao Partido dos Trabalhadores

7 de abril de 2020

Renúncia? Internação? Impeachment? Golpe dos generais? Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil.

Este novo impulso de eliminação do PT do cenário político é bastante elucidativo dos primeiros movimentos e compromissos do governo de facto que começa a conduzir o país ao arrepio da Constituição e das instituições.

Roberto Bueno em 6/4/2020

A grande mídia corporativa atenta criminosamente contra o direito à livre informação assegurado pela Constituição brasileira ao omitir qualquer referência ou análises sobre a ascensão ao poder de facto pelo General Walter Braga Netto. Este silenciamento das mais graves notícias do poder é mantido ainda quando o fato que já ganha manchetes e extensas análises em jornais estrangeiros e a “deposição branca” começará a apresentar suas consequências práticas.

Braga Netto é reputado por diversos meios de comunicação estrangeiros como “Presidente Operacional do Brasil”, condição em que teria sido apresentado em comunicações informais a outras lideranças de Estado. O golpe se afirma nos porões da administração e ganhará dimensão na determinação prática das políticas adotadas. A figura do “Presidente Operacional do Brasil” inexiste em nossa Constituição e nem as suas competências exclusivas dispostas no art. 84 C.F. podem ser compartilhadas, o que evidencia a ilegalidade da opção política adotada de esvaziar a Presidência sem seguir os ritos legais disponíveis devido a mero cálculo e conveniência política voltada a manter a opção de manter o Brasil distante da estabilidade democrática.

Ao denunciar o fato não estamos aqui a defender a posição do atual presidente eleito, pois sou dos mais contumazes e ácidos críticos de tudo quanto ele representa, aríete do genocídio da população brasileira operacionalizado através de declarações e ações transmitidas por todas as mídias. Sem bloqueio, tratar com a realidade é uma imposição para qualquer análise, e ela aponta unicamente apenas para esta conclusão: estamos vivendo sob um novo golpe de Estado. Este apenas ratifica uma vez mais um exemplo histórico de que a direita e a extrema-direita se mantêm inamovíveis em seu desapreço e descompromisso radical com as instituições democráticas que caminham juntas com as armas que teimam em não submeter-se ao princípio-mor da democracia de que o povo é quem manda. Sofrem de incurável demofobia.

A gravidade da situação é evidente e salta aos olhos. É fato que a organização de eleições para a Presidência da República seria a alternativa constitucional para a queda do presidente em funções e alentadora para a reconfiguração das condições da pacificação política, mas o principal e real obstáculo é que as armas são avessas a consulta às urnas, que sempre lhes parece uma visão aterradora para estes controladores do poder no Brasil que aspiram a eternidade. Todos os democratas e defensores da legalidade constitucional no Brasil estão cientes de que a única alternativa pacificadora e reafirmadora da soberania do país implica o regresso às urnas com a permissão de que todos os partidos e candidatos possam concorrer.

A demofobia da elite unida às armas colocou em curso um novo regime com o apoio da vice-procuradoria eleitoral, que elaborou parecer apontando para o cancelamento do registro do Partido dos Trabalhadores (PT). A base utilizada foram as informações oriundas de depoimentos na operação Lava-Jato de que o PT teria recebido recursos de origem internacional, ancorada na mesma estaca de confiabilidade que os frequentes recursos ilegais que pautaram diversas operações, tais como longas prisões preventivas visando delações, conduções coercitivas imotivadas ademais de manter ligação direta com o DOJ/EUA, em flagrante desrespeito às claras normas que impõe a mediação do órgão de relações exteriores do Estado. Aproveitando da grave névoa pandêmica, o emergente e revigorado poder visa eliminar do processo eleitoral o maior partido popular, uma importante estratégia para consolidar o arco de ação da ditadura no Brasil, em mais uma mostra da anunciada estratégia militar de aproximações sucessivas, embora mantendo na superfície a aparência de funcionamento das instituições e da vigência da legalidade democrática, tal como tentado após o golpe de Estado de 1964.

Este novo impulso de eliminação do PT do cenário político é bastante elucidativo dos primeiros movimentos e compromissos do governo de facto que começa a conduzir o país ao arrepio da Constituição e das instituições, e sob o signo-mor de desprezo ao povo e às urnas que traduzem a sua vontade política. A grande mídia corporativa já foi novamente cooptada para a consecução deste projeto, sendo notável a sua omissão a noticiar este processo que ocorre nas profundezas do poder. Isto reforça a percepção de que se a imprensa não é livre em muitos países declarados como alvos do império norte-americano, por outro lado, é fato que nos países declaradamente capitalistas a grande mídia corporativa é apenas um apêndice dos interesses econômicos que controlam o poder, seja ele ameaçadoramente armado e com fuzis apontados diretamente para a população ou não.

É notório que uma marca da moralidade que permeia os atores deste coletivo de perversos demofóbicos antinacionalistas em momentos de crise já foi claramente expressa por um importante ministro da ditadura militar, Jarbas Passarinho, quando ao dirigir-se ao presidente da República em apoio ao famigerado e criminoso Ato Institucional nº 5 disse: “Às favas, Sr. presidente, todos os escrúpulos de consciência”. Não há qualquer compromisso com as instituições e com a vontade política popular. Inequívoca prova disto foi a recente Ordem do Dia alusiva ao 31 de março de 1964, lamentavelmente assinada pelo ministro de Estado da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, além dos Chefes das três Forças Armadas, Almirante Ilques Barbosa Junior, Comandante do Exército, Gen. Edson Leal Pujol, e o Comandante da Aeronáutica, Ten. Brig. Ar Antonio Carlos Moretti Bermudez. O teor da nota foi a defesa do golpe de Estado de 1964 como se em seu núcleo houvesse um átomo de preocupação com a democracia brasileira, e o primeiro período do primeiro parágrafo já é suficientemente elucidativo: “O Movimento de 1964 é um marco para a democracia brasileira”. Mais uma inequívoca sinalização do desrespeito aos princípios basilares da democracia.

A imprensa brasileira silencia quanto a este movimento, também mandando às favas escrúpulos de qualquer ordem quando assim o recomenda uma aliança conveniente com os segmentos da elite e, sobretudo, quando o fuzil já brilha lubrificado no horizonte. A imprensa brasileira hoje omite a substituição material do ocupante do Poder Executivo sem informar ou indicar o indispensável recurso ao processo eleitoral, nem sequer em remoto horizonte. Foi concretizado o golpe no golpe de Estado por parte de um dos segmentos que compõem a trupe de aventureiros. O fato do ocultamento pela imprensa brasileira uma vez mais evidencia a preocupação de manter as aparências de legalidade, sem nenhuma referência à Junta Militar que efetivamente governa, embora centralizando funções em uma só figura. É o que podemos classificar como “deposição branca”.

Como é praxe nas reais ditaduras mundo afora em todos os tempos e no Brasil em particular, as notícias sensíveis sobre a política interna já estão sendo divulgadas no exterior, enquanto a imprensa nacional permanece atrelada aos seus compromissos, sob os olhares passivos de seus repórteres e de suas redações. Esta é uma realidade paralela cuja apresentação pública impõe riscos de perseguições e processamentos de praxe, pois assim como o praça recebe e executa ordens de atos de extrema covardia, assim também o subserviente rábula oportunista bem trajado e ocupante de altos cargos. Estes são apenas a mão executora das ordens das altas patentes, que não raramente preferem ocultar-se, explicitando o antônimo de uma das virtudes que não lhes deve faltar. O primeiro ato do novo regime não declarado é contra o PT e expressão do desprezo absoluto pela vontade política do povo brasileiro, decisiva manifestação da encruzilhada que precisamos finalmente compreender e superar: democracia, e jamais farda. Democracia na urbe, nos campos e nas tribos, à farda, a selva e a defesa da soberania de ataques estrangeiros.

Roberto Bueno é professor universitário (UFU), doutor em Filosofia do Direito (UFPR), mestre em Filosofia (UFC), mestre em Filosofia do Direito e Teoria do Estado (Univem), especialista em Direito Constitucional y Ciencia Política (CEC/Madrid) e pós-doutor em Filosofia do Direito.

REDES SOCIAIS

Bloqueio dos EUA impede chegada de máscaras e respiradores a Cuba

7 de abril de 2020

Homem com máscara caminha pelas ruas de Havana, capital de Cuba. Foto: Ernesto Mastrascusa.

Enviados pela China, equipamentos essenciais no combate ao coronavírus são impedidos de chegar à Ilha por conta do bloqueio comercial norte-americano.

Via EFE em 1º/4/2020

Cuba denunciou na quarta-feira [1º/4] que o bloqueio comercial imposto pelos Estados Unidos frustrou uma doação de máscaras, respiradores e testes para detectar o coronavírus enviada pela empresa chinesa Alibaba à Ilha, que já tem seis mortes e 212 casos confirmados de covid-19.

“As coisas são sempre mais difíceis para Cuba. Mesmo em tempos de pandemia, nós cubanos não podemos respirar facilmente”, disse o embaixador do país em Pequim, Carlos Miguel Pereira, citado na capa do jornal Granma, que conta como a empresa de transportes contratada por Alibaba desistiu de chegar aos portos da Ilha.

Os EUA recusaram no último minuto o pedido de Cuba, e impediram a carga de chegar ao país devido ao bloqueio econômico, financeiro e comercial que Washington mantém desde 1962, reforçado desde a chegada do presidente Donald Trump à Casa Branca, em 2017.

A medida, chamada em Cuba de bloqueio, impõe, entre outras restrições, que a Ilha utilize o dólar nas transações internacionais, proíbe aos cubanos a compra de um produto com mais de 10% de componentes americanos e estabelece uma penalidade de 180 dias antes de entrar nos EUA para os navios que ancoram em portos cubanos.

O governo Trump apertou as medidas restritivas contra Havana, em uma tentativa de asfixiar a sua já frágil economia, em retaliação a uma suposta ajuda a Nicolás Maduro na Venezuela.

Ajuda para todos, menos para Cuba
A ajuda anunciada pelo fundador da Alibaba, Jack Ma, inclui 2 milhões de máscaras, 400 mil testes rápidos e 104 respiradores para 24 países da América Latina e do Caribe, incluindo Cuba, Brasil Argentina, Chile, Equador, República Dominicana e Peru.

Ma, um dos homens mais ricos do mundo, já havia enviado remessas humanitárias semelhantes através de sua empresa e da fundação que leva seu nome para EUA, Japão, Coreia do Sul, Itália, Irã e Espanha, entre os países mais duramente atingidos pela pandemia. Logo depois, as doações chegariam também aos países africanos e asiáticos.

No entanto, um desses carregamentos não pôde chegar ao seu destino final, confirmou o embaixador cubano na China, que agradeceu a Ma por ter pensado nos cubanos e pelos esforços que ela ainda faz para que a contribuição de sua fundação finalmente chegue ao seu destino.

“O nobre, enorme e louvável esforço de Jack Ma, que tinha conseguido alcançar mais de 50 países em todo o mundo, não pôde tocar em solo cubano, por mais necessários que esses recursos fossem para apoiar a batalha travada pela pequena Ilha sitiada e bloqueada”, sublinhou o diplomata.

Solidariedade em tempos de pandemia
Muitas vozes estão sendo levantadas para pedir as suspensões das restrições dos EUA a países como Irã, Venezuela e Cuba, em um momento em que a pandemia do coronavírus está atingindo os sistemas de saúde e economias em todo o mundo.

Uma campanha online na plataforma de ativismo cidadão Change.org, iniciada por cubanos que vivem em território americano, já reuniu mais de 15,8 mil assinaturas para pedir a Trump que derrube o bloqueio ao menos provisoriamente.

Até agora, Cuba registrou seis mortes e 212 casos confirmados da doença, mantendo mais de 2,7 mil pessoas isoladas em unidades de saúde. Ontem, o governo local anunciou o fechamento total das fronteiras e reforçou as medidas para enfrentar a crise sanitária, incluindo a suspensão do desfile do dia 1º de maio.

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DIFERENÇAS
Leandro Fortes em 7/4/2020

“A China está ajudando mais de 90 países em uma ação coordenada com Cuba e Rússia, enquanto os EUA confiscam cargas de equipamentos que iriam para países da América Latina (inclusive Brasil), amplia o esmagamento financeiro à Venezuela e tenta comprar exclusividade de uma fábrica de medicamentos alemã. Não existe mais nenhuma diferença de atitude entre a Alemanha nazista e os EUA.”
Elias Jabbour, doutor em geografia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e pesquisador do Núcleo de Estudos Asiáticos do Departamento de Geociências do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFSC.

Leia também: Cubanos pedem que bloqueio dos EUA seja suspenso durante pandemia

REDES SOCIAIS

Não tente argumentar com bolsominions, eles funcionam como os psicóticos

7 de abril de 2020

Vera Lúcia do Amaral, via Caos Filosófico em 30/3/2020

Um dos sintomas mais caros da psicopatologia, quando se estuda as psicoses, é o delírio. Esse é o sintoma mais importante dessas enfermidades mentais.

Popularmente, quando dizemos que uma pessoa “está delirando”, geralmente nos referimos àquelas pessoas que estão falando coisas sem sentido ou absurdas.

O delírio é um pouco isso mesmo, mas é mais que isso. O delírio define a psicose porque é a interpretação que o psicótico faz sobre o seu entorno. No entanto, essa interpretação não condiz em nada com a realidade do mundo onde ele vive. Ou seja, o delirante fala de fato coisas absurdas ou “loucas”, acha que o mundo o persegue ou acha que uma pessoa específica é a causa de todos os problemas do mundo.

Quem já conviveu com psicótico sabe que não adianta argumentar e contrariar o que ele está dizendo. Uma das características fundamentais do delírio é a sua irredutibilidade à argumentação lógica. O pensamento delirante é forte, é definitivo, é irremovível. E é assim porque o delirante construiu o seu mundo dentro dessa realidade paralela. Esse é o seu mundo, os outros é que estão interpretando tudo errado.

Assim, em psiquiatria aprendemos que não adianta em nada tentar “tirar” dos psicóticos aquelas “ideias malucas”. Aquele é o mundo dele! Ele não pode abrir mão daquelas ideias sob pena de não saber mais explicar o seu mundo, nada mais fazer sentido na sua realidade.

Bem, talvez aqui vocês já estejam compreendendo onde quero chegar: o pensamento da extrema direita bolsonarista é em tudo semelhante ao pensamento delirante. Através do discurso do seu chefe foi se construindo, desde 2018, uma realidade paralela em que o grande perseguidor é Lula, o PT e os “comunistas”. Essas ideias são de tal modo arraigadas e tão fortemente compartilhadas que são – tal qual o delírio – irremovíveis. Não adianta argumentar, não adianta mostrar a falta de lógica do pensamento deles. Não há diálogo com delirantes.

Se o pensamento delirante de um indivíduo é forte, imagine se, hipoteticamente, ele encontra eco e aceitação em um grupo. Isso não acontecem bem com psicóticos, já que cada um tem seu mundo próprio. O grupo passa a se retroalimentar do delírio, um do outro, e se cria todo um sistema delirante.

É isso que estamos vivendo com bolsominions que insistem em negar a cagada que fizeram.

Por isso, para sua própria saúde mental, não tente argumentar com um bolsominion. Não vai adiantar de nada.

Vera Lúcia do Amaral é psiquiatra, professora universitária e doutora em Educação pela UFRN.


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