Archive for the ‘Política’ Category

Miriam Leitão e Eliane Cantanhêde não se envergonham de pedir “jeitinho” judicial

23 de janeiro de 2017

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Fernando Brito, via Tijolaço em 22/1/2017

Duas colunas e uma revelação: a nossa grande imprensa perdeu o pudor de que a Justiça em nosso país seja exercida com dirigismo. Ou seja, que aquela venda dos olhos de Têmis dê uma levantadinha e veja o que pode ser tratado por quem.

Miriam Leitão é mais discreta e apenas sugere a indicação de Sérgio Moro para o STF en passant, mas cobra de Carmen Lúcia uma “solução criativa” para a redistribuição dos processos da Lava-Jato que estavam com Teori Zavascki.

Diz que o novo relator deveria ser, segundo as palavras do próprio Teori sobre a magistratura, “alguém que não tenha perdido a capacidade de condenar nem de absolver”.

Seria bom que dissesse quem perdeu esta condição, mas é melhor ainda que atente que guindar Sérgio Moro à corte suprema do país, em meio a um julgamento em que ele é o maior exemplo de quem perdeu de absolver e apenas condena é, mesmo ele ficando impedido nos julgamentos, constranger o STF num caso onde o falecido Teori tinha anulado e repreendido o juiz paranaense por realizar e divulgar escutas ilegais.

Já Eliane Cantanhêde, mais desabrida, fala na necessidade de “encontrar brechas” no regimento do STF:

A escolha do novo relator da Lava-Jato, a maior investigação de corrupção de todos os tempos, tem de seguir o regimento, mas deve também recorrer às brechas para evitar uma pessoa errada, na hora errada, no lugar errado – o oposto de Teori.

Também ela faria um favor aos seus leitores se dissesse quem seria, e porquê, a pessoa errada, na hora e errada e no lugar errado de ministro do Supremo. Mas faz um desserviço à Justiça quando prega buscar brechas para uma solução dirigida, por se tratar de um caso “excepcional”.

A lei é – ao menos deveria ser – para todos e tratar algo como exceção na Justiça é transformar o tribunal num tribunal de exceção, o que é uma ofensa à Constituição e ao Estado de Direito. Mais ou menos como fizeram os que deram a Moro, apesar da decisão de Teori Zavascki, de não sofrer sanções por aquelas ações absurdas.

Os dois absurdos narrados, porém, já escandalizam a muito poucos, tamanho o dirigismo judicial em que mergulharam nosso país, onde – como lembrava Teori Zavascki – um juiz já não tem condições de absolver ninguém sem tomar a culpa de cúmplice.

A única excepcionalidade que se pode e até se deve permitir neste processo, se é que se busca a lisura, é sortear em “papeizinhos” o novo relator da lava Jato, para evitar qualquer suspeita de que, face à série de coincidências, alguém possa imaginar que o sorteio eletrônico do STF tenha, nos casos que possam atingir Lula, indicar Gilmar Mendes como relator, como em um punhado de vezes recentes.

Guilherme Boulos: As guerras paralelas de 2017

23 de janeiro de 2017
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Guilherme Boulos do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto).

Guilherme Boulos em 22/1/2017

A temperatura política de janeiro dá os sinais do que será o ano. Ao que tudo indica, 2017 será bombástico e com desfecho imprevisível. As duas crises – institucional e social – herdadas do trágico 2016 devem atingir o paroxismo.

A delação da Odebrecht tinha sua homologação prevista para fevereiro. A se considerar o único dos 77 depoimentos que até aqui veio a público, o potencial explosivo para o governo Michel Temer e o conjunto do sistema político brasileiro é elevado.

A morte de Teori Zavascki pode mudar os rumos desta história. Não é possível, neste caso, descartar nenhuma hipótese. O contexto da morte, seu timing (poucas semanas antes do ministro homologar a delação) e o conhecido perfil duro de Teori, evidentemente levantam suspeitas. Não há como fugir disso, desqualificando os questionamentos como teoria da conspiração.

Até porque, caso as delações da Odebrecht não sejam amortecidas pelo sucessor de Teori na relatoria, será o prenúncio de uma guerra entre poderes, cujos sinais foram bem delineados nos últimos meses. De um lado, a chamada República dos procuradores, com ramificações no STF (Supremo Tribunal Federal), que pretende levar adiante a Lava-Jato valendo-se dos recursos que forem necessários, incluindo medidas de exceção. De outro, Temer e a maior parte dos partidos políticos, unidos na proposta de “estancar a sangria”.

O primeiro grupo conta até aqui com o apoio da maior parte da mídia e com o clamor público de combate à corrupção. O outro passou a ser respaldado pelo ministro Gilmar Mendes, líder do PSDB no Judiciário, que após a consumação do golpe contra Dilma Rousseff, passou a denunciar excessos na Lava-Jato. Excessos que, pouco antes, contaram com os aplausos entusiasmados do mesmo Gilmar. Não há heróis nesta história. São dois grupos disputando seus projetos de poder, um deles bastante conhecido, o outro nem tanto.

Após a oficialização das delações, a sorte estará lançada. O resultado desta guerra definirá o futuro do governo Temer e da Lava-Jato, quiçá até mesmo os destinos da envelhecida Nova República.

Esta crise institucional se desenrolará em meio a um cenário social igualmente explosivo. O país vive a maior recessão de sua história recente, com desemprego crescente e queda da renda dos trabalhadores. O programa adotado pelo governo é de retirada de direitos e corte de investimentos públicos, o que só joga mais gasolina na fogueira.

Nesse caso, os poderes em disputa unem-se numa Santa Aliança em favor da agenda antipopular, como ficou claro no acordo com o STF para salvar Renan Calheiros (PMDB/AL) e garantir a votação da PEC 55. Mais de um ministro do Supremo justificou seu voto pela necessidade de não afetar a votação das medidas econômicas pelo Senado.

A reforma da Previdência, medida mais simbólica deste pacote, terá sua tramitação acelerada na Câmara em fevereiro, após o recesso, e tem votação prevista para junho. Não parece razoável acreditar que o desmonte do sistema de aposentadoria passará sem qualquer reação social. Diferente da PEC, que demandava explicações mais complexas, o ataque à previdência não precisa de legendas.

Desemprego, queda da renda, serviços públicos à beira do colapso e medidas amargas do governo. Além do mais, nenhuma perspectiva de recuperação rápida. A soma desta equação é a temida convulsão social. Virá em 2017? Impossível saber. Mas é seguro que os caminhos desastrosos da austeridade levam o país ao agravamento da crise social.

De um lado, a guerra entre os Poderes, que coloca em xeque o governo e o regime político. De outro, a guerra declarada dos Poderes contra a maioria do povo, que deverá provocar reações sociais de maior intensidade do que vimos até aqui. O resultado destas guerras paralelas em 2017 dirá muito sobre os destinos do país.

Aproveito este espaço para agradecer todos os gestos e declarações de solidariedade em relação à abusiva prisão que sofri nesta semana, numa operação de despejo de 700 famílias na zona leste de São Paulo. Mais um sinal da escalada autoritária em nosso país. Se o objetivo era intimidar, devo dizer que não funcionou. O MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) não sairá das ruas.

Leia também:
Domínio do fato: PM usa contra Boulos teoria jurídica usada para condenar José Dirceu
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Guilherme Boulos: Direito à cidade, luta proibida?

 

Renato Janine Ribeiro: Não investigar é prova de conspiração

23 de janeiro de 2017
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Não confie em ninguém.

Renato Janine Ribeiro, lido no Esquerda Caviar em 22/1/2017

Desenhando:

1) Não afirmei que a morte de Teori foi um atentado. Afirmei sim, com todas as letras, que requer investigação apurada, porque é suspeito morrer, desta forma, alguém que está ocupado com assunto que pode até tirar o presidente da República.

2) Mostrei, numa lista, que o Brasil é recordista absoluto em número de acidentes (ou não) que resultaram na morte de ex-governantes (presidentes ou premiers), megaempresários, líderes de várias espécies, nos últimos cinquenta anos, em comparação com países democráticos da Europa Ocidental e da América do Norte. Fora nós, só Portugal, com a morte do premier em 1980.
Não disse que só no Brasil houve tais mortes, nem falei de casos isolados como presidentes da Polônia, Ruanda, Burundi, ou de parlamentares na maior parte obscuros de qualquer país que seja.

3) Em qualquer país decente, uma série tão portentosa, que inclui pelo menos duas mortes de ex-presidentes em acidentes (Castelo e JK), mais três que alguns (não eu) dizem ser suspeitas (Getúlio, Jango e Tancredo), mais muita gente importante, teria levado a uma comissão especial e seríssima de inquérito. Pode perfeitamente ser tudo acidente. Ou quase tudo.

4) O ceticismo, diante dessa série de casos, está do lado de quem quer a investigação. Desconsiderar a demanda por investigação, dizendo que é teoria da conspiração, não é ser cético.

Cansei.

***

NÚMERO DE PESSOAS PODEROSAS MORTAS EM ACIDENTES NO BRASIL É MUITO MAIOR DO QUE NO RESTO DO MUNDO
Renato Janine Ribeiro em 20/1/2017

Aí você lembra dois ex-presidentes da República mortos em acidente (JK na estrada, Castelo Branco no ar), ministros como Marcos Freire, da Reforma Agrária, políticos destacados, como Ulysses e Eduardo Campos, megaempresário como Roger Agnelli, um ministro do STF agora, e acha tudo estranho.

E aí alguns dizem, que paranoia!!

Deve ser mesmo.

Mas aí você se pergunta quantos presidentes da República, primeiros-ministros, ministros de Estado, juízes de Corte Suprema, megaempresários morreram em acidente de jatinho nos últimos 50 anos nos Estados Unidos, Canadá e nas demais grandes democracias, e com muito esforço só encontra Francisco Sá Carneiro, primeiro-ministro de Portugal (1980) – e, faz mais de 50 anos, em 1962, Enrico Mattei, presidente da poderosa estatal italiana do petróleo.

Deve ser uma peculiaridade brasileira, morrerem pessoas importantes em acidentes aéreos.

Sugiro a quem está debochando dessas coincidências: digam que morrer tanta gente assim é uma jabuticaba.

De PC Farias a Teori: Quando as teorias conspiratórias são mais fortes que os fatos

23 de janeiro de 2017

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Joaquim de Carvalho, via DCM em 21/1/2017

A advogada Luiza Eluf, ex-procuradora de Justiça, falava sobre como trabalhou para incluir no Código Penal a figura do feminicídio, que aumentou a pena para quem mata mulher em razão do gênero. O telefone toca e, do outro lado da linha, o marido, Jorge Eluf, conta que caiu um avião em Paraty e nele estava Teori Zavascki. “Nossa!”, exclamou.

Pouco tempo depois, Jorge Eluf chega ao escritório e diz que a notícia foi confirmada. Eu entrevistava Luiza Eluf e comento: “Já vi esse filme. Teori Zavascki é o tipo de pessoa que não tem direito de morrer simplesmente. Alguém sempre dirá que foi assassinado.”

“É mesmo, ele era o relator da Lava-Jato!”, exclama a advogada.

A jornalista Glória Maria se diverte com a teoria da conspiração que se criou a partir da doença que impediu Tancredo Neves de tomar posse como presidente da República, em 1985. Na véspera da posse, depois de ir a uma missa, Tancredo Neves foi internado com diverticulite aguda, teve complicações e semanas depois morreu.

O site Noite Sinistra relata: “A repórter Gloria Maria, presenciou a cena. Logo em seguida a jornalista acabou se tornando correspondente internacional no Marrocos, o que é visto pelos conspiracionistas como uma forma usada pela Globo de afastar a jornalista das discussões a respeito do caso.” Noite Sinistra tem como slogan: “Quando amanhecer, você já será um de nós.”

Outro site, a Sociedade Olho de Horus (“Uma mente expandida jamais retorna a seu tamanho original”) dá detalhes do assassinato: durante a missa, num apagar de luzes, “ouviu-se um estampido, o qual teria vitimado o presidente eleito. Nesse evento, a jornalista que cobria os fatos em Brasília viu tudo e foi atingida também”.

Segundo a Sociedade Olho de Horus, foi esse o motivo que levou a Globo a tirar Glória Maria do Brasil e enviá-la para ser correspondente na Europa, “voltando ao Brasil só anos depois”.

“A Verdade no Mundo” também aborda o assunto e um de seus comentaristas assegura: “Eu também assistia à televisão neste dia e descrevo aqui o que vi e ouvi. A repórter Glória Maria de repente gritou ‘Ouvi um tiro aqui!’ e instantaneamente a imagem sumiu e, desde então, nunca mais se viu Glória Maria na TV, só retornando dois anos depois. Esta mulher sabe tudo o que aconteceu”.

Há pouco tempo, num programa de TV, Glória Maria quebrou o silêncio em torno do assunto, rindo:

“Eu apresentava o jornal das 7h na época. E aí eu não pude participar dessa cobertura em São Paulo, que era onde ele estava agoniando. Tive que ficar no Rio, e as pessoas não me viam nessa cobertura nacional. Então, se eu não estava ali, é porque tinha um mistério em torno da morte do presidente. Esse mistério era que ele tinha levado um tiro, esse tiro teria atingido a minha perna e eu teria ficado hospitalizada, incomunicável. Começou a surgir uma coisa tão absurda… Eu tive que entrar em todos os jornais ao vivo para mostrar que eu estava viva.”

Em casos de grande repercussão, as teorias conspiratórias são comuns, previsíveis e, na maioria das vezes, inofensivas – Kim Kardashian teria inventado um roubo a seu apartamento para desviar a atenção para cirurgia que fez para reduzir o bumbum. O problema é quando ultrapassam o limite da conversa de botequim, do bate-papo entre amigos e da desacreditada rede social para contaminar o trabalho das autoridades. E isso sempre acontece por intermédio da imprensa que se apresenta como “séria”, como o olhar independente sobre os acontecimentos da Nação.

Eu trabalhava na revista Veja e cobri o caso da morte de PC Farias, que havia sido tesoureiro do presidente Fernando Collor de Mello. “Queima de arquivo”, sentenciou a voz das ruas.

Eu era repórter da Rede Globo quando mataram o prefeito de Santo André Celso Daniel, indicado para coordenar a campanha do então pré-candidato a presidente Lula. “Silenciaram o Celso Daniel”, decretou o senso comum.

Também cobri o caso de Celso Daniel pela TV Globo e fui o primeiro repórter a chegar à cena do crime. Depois, estive várias vezes na favela Pantanal, local do primeiro cativeiro, e acompanhei de perto a investigação feita pelo DHPP.

PC Farias foi vítima de crime passional, conforme conto no meu livro “Basta! Sensacionalismo e farsa na cobertura jornalística do assassinato de PC Farias”.

E Celso Daniel foi vítima da violência urbana. Era um sequestro relâmpago, como acontecem muitos na cidade de São Paulo – naquela época mais, era o que poderia se chamar de crime da moda –, e provavelmente não teria morrido se a Globo, minutos depois do sequestro, não tivesse noticiado com estardalhaço que se tratava do prefeito de Santo André.

Os bandidos eram habituados a esse tipo de crime, mas diante da repercussão houve uma ordem para encerrar o sequestro, o que foi entendido como eliminar a vítima.

“Foi uma sucessão de erros”, me disse à época a delegada Elisabete Sato, hoje diretora do Departamento de Homicídios.

O assassinato de Celso Daniel foi investigado pela polícia duas vezes. Como na primeira vez as teorias conspiratórias prevaleceram sobre a investigação policial, houve nova investigação, por outra equipe, e o resultado foi o mesmo.

Detalhe: nas duas investigações da polícia sobre o assassinato de Celso Daniel, o governo estava nas mãos do PSDB, interessado no desgaste do rival PT. Mas foi o Ministério Público de São Paulo que atropelou os fatos e fez uma investigação por conta própria. Algumas pessoas foram para o banco dos réus e, incrível, condenadas.

Eram pelo menos sete pessoas envolvidas no sequestro. Nenhuma confessou. Todas sustentaram versões consistentes.

Quando entrevistei os dois promotores que conduziram a investigação, não ouvi uma história que tivesse começo, meio e fim. Apenas indícios e suposições que, no conjunto, significavam: tem alguma coisa errada. E tinha mesmo – caixa 2 de campanha ou corrupção –, mas daí a concluir que Sérgio Sombra, o amigo de Celso Daniel, mandou sequestrar o prefeito e depois matá-lo, a mando do PT, para calar uma suposta ameaça, vai uma distância gigantesca.

Teria sido muito mais fácil eliminar o prefeito de outra maneira, simulando um roubo, por exemplo, sem que ele, Sérgio Sombra, estivesse presente.

Na madrugada do sequestro, depois de encontrar o Pajero de Sérgio Sombra abandonado numa rua de São Paulo, fui até o apartamento de Celso Daniel e vi que era simples, extremamente vulnerável. Por que simular o sequestro, envolvendo uma quadrilha enorme, se era mais fácil fazer ali o serviço?

Além disso, salvo a propagação de fofocas, não havia absolutamente nenhuma evidência de que Celso Daniel efetivamente queria detonar o PT. Pelo contrário. Ele era um político em ascensão no partido. Mas vai convencer uma redação disso, depois que o veículo engatou uma quinta e avançou na tese da queima de arquivo…

Com PC Farias, o PT surfou na onda da teoria da conspiração e, depois, quando esteve no epicentro do terremoto de Celso Daniel, algumas lideranças devem ter percebido o erro que foi fazer o jogo da imprensa, alimentando a manipulação.

Do ponto de vista policial, o assassinato de PC Farias não é difícil de entender. Ele foi morto por uma ex-namorada, Suzana Marcolino.

Suzana Marcolino tinha um motivo para matar – PC a tinha trocado por outra mulher, com quem ele passou a noite no Dia dos Namorados de 1996.

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PC Farias e Suzana Marcolino.

Suzana tinha o meio para matar – ela havia comprado um revólver. Suzana teve a oportunidade para realizar seu intento – PC, bêbado, estava dormindo quando foi atingido.

Mas Suzana teria se suicidado em seguida?

Ela deixou o que pode ser entendido como um bilhete de despedida, uma mensagem de voz na caixa postal de um dentista com quem havia trocado beijos e carícias dias antes em São Paulo. Suzana ligou duas vezes para ele, que estava numa chácara onde não havia sinal de celular. Na segunda ligação, voz deprimida, Suzana disse acreditar o que dois ficariam juntos no “além”.

Ao escrever a reportagem “Caso encerrado” para a revista Veja, com as evidências de crime passional, foi como nadar contra a corrente.

A Globo tinha inundado a audiência com o espetáculo da queima de arquivo, a Folha de S.Paulo bancou essa tese e a IstoÉ fez do caso uma novela e chegou a citar como fontes taxistas de Maceió que tinham ouvido de passageiros que Suzana tinha sido assassinada por ordem do irmão de PC, Augusto Farias…

Há três anos, fui chamado para depor no julgamento dos seguranças de PC, em Maceió. Dezessete anos depois do crime, eles tinham sido colocados no banco dos réus como envolvidos no assassinato.

Eram quatro PMs que lutavam pela sobrevivência num Estado que paga baixos salários. Um deles, depois da morte de PC Farias, vendia cachorro quente na praia. Outro andava de bicicleta, porque não tinha carro. Se envolveram na morte do tesoureiro, alguma recompensa teriam que ter tido. Mas não. A vida piorou porque não conseguiram mais emprego de segurança. Com o massacre da imprensa, para sempre serão vistos como os seguranças que ajudaram na morte do patrão.

Durante o julgamento, em que prestei depoimento como informante, por ter escrito o livro, o promotor me questionou se eu conhecia a folha tal do processo, que tratava de um detalhe da perícia. Eu disse ao promotor: “Com todo o respeito, em vez de olhar para a folha, olhe para a árvore, olhe para a floresta, olhe para o tudo. Se tomar como base detalhe, isoladamente, você pode chegar a qualquer conclusão.”

Voltei para São Paulo ainda com o julgamento em andamento e soube depois que os seguranças foram absolvidos. Mas isso você não leu na imprensa. A Folha estava lá, a Globo também e a versão que se tornou pública é a de que eles teriam sido indultados. Não foi bem isso que aconteceu. No quesito que perguntava se os seguranças tinham algum envolvimento com a morte de PC, a maioria dos jurados respondeu “não”.

A cobertura que a Globo e a Folha deram ao julgamento, quase vinte anos depois, foi intensa. Estava lá quando soube que o juiz recebeu o telefonema de um produtor da Globo pedindo que estendesse o julgamento até o horário do Jornal Nacional, para que houvesse transmissão ao vivo. Sugestão acatada.

Para muita gente, muitos anos depois, o julgamento não tinha interesse algum, mas ao levantar seu circo no local dos fatos, a mídia que embarcou na teoria da conspiração demarcou território, para tentar assegurar o monopólio da narração.

Termino este artigo com um parágrafo do meu livro:

“Suzana matou PC com uma bala. Com outra, disparou contra o próprio peito. Sobraram três cartuchos intactos no tambor. As balas e o revólver foram apreendidos e, à disposição da Justiça, é improvável que sejam usados novamente. Porém, o gesto de Suzana continua produzindo vítimas, não por vontade dela, mas pelas mãos de quem escreve, pela voz de quem narra e pelos que viram que a única maneira de subir no palco da mídia é transformando um crime passional em um caso político. Algumas pessoas parecem não se importar com quantas vítimas fiquem pelo caminho.

Basta!

Como se vê, não bastou.

Leia também:
Por que o caso da morte de PC Farias levou 17 anos para ser julgado

A resposta que se afogou com Teori e os miados de Noblat

23 de janeiro de 2017

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Fernando Brito, via Tijolaço em 21/01/2017

O Globo publica trechos de um depoimento inédito de Teori Zavascki que reparam parte de uma das maiores injustiças já feitas neste país: a de que Dilma Rousseff, como presidente, fosse uma manipuladora do Judiciário:

Estava em Paris quando me ligaram, dizendo que a [então] presidente [Dilma Rousseff] queria falar comigo. Eu cheguei [a Brasília] num sábado, no domingo eu fui no Palácio da Alvorada, e ela me convidou. Não se falou em mensalão em nenhum momento. A presidente tem uma visão do STF que eu achei importantíssima, tem uma visão de altíssimo nível. Ela disse que estava me indicando porque gostaria de uma pessoa tranquila, que tivesse uma experiência de juiz, que fosse técnico.

Quando Teori foi indicado, todos se lembram – ou deveriam lembrar-se – que a nossa mídia, disse que era um “gato” para aliviar o julgamento do “Mensalão”.

Ricardo Noblat, que se espalhou em elogios a Teori Zavascki depois de sua morte, foi um dos que se destacou nessa campanha de desmoralização. Em sua coluna de 24 de setembro de 2012, intitulada “Miau! Miau! Miau!”, o festejado global dizia:

“Tem rabo de gato. Focinho de gato. Olhos de gato. Pelo de gato. Mia como um gato. Mas está longe de ser um gato, segundo a malta dos que nada veem demais na escolha em tempo recorde do ministro Teori Zavascki para a vaga do ministro Cezar Peluso no Supremo Tribunal Federal (STF). E também na pressa com que estão sendo tomadas as providências para que ele assuma o cargo o mais rapidamente possível.”

E dizia que o próprio ministro participava da trampa:

“[Dilma] Até mandou espalhar a história de que escolheu Teori sob a condição de ele não votar no julgamento do processo [do Mensalão]. Escolheu-o para não ser obrigada a engolir alguém que Lula lhe apontasse. Mas a escolha foi relâmpago. [Miau!] Dois dias depois de anunciada, Teori começou a bater perna dentro do Senado atrás de votos. [Miau! Miau!] Renan Calheiros (PMDB/AL), candidato a presidente do Senado, pediu para relatar a indicação de Teori. [Miau! Miau! Miau!]”

Há mais na coluna, como a descrição – deus meu! – de uma tentativa de golpe anti-Lula por parte de Dilma, com a correspondente retaliação da parte de Lula.

Mas há, apesar deste mérito, a lacuna imperdoável nas entrevistas de Teori sobre as razões pelas quais ele deixou, com o afastamento pedido pelo Ministério Público, o ladravaz Eduardo Cunha no comando da Câmara – e o comando da Câmara era o impeachment – contra alguém que ele mesmo diz que era de “altíssimo nível”.

Esta resposta mergulhou com o Beechcraft nas águas de Paraty, talvez porque nossa grande imprensa jamais lhe tenha feito a pergunta.

Inclusive o Ricardo “Miau, Miau, Miau” Noblat que diz que Teori Zavascki era capaz de correr quando lhe interessava, e à Dilma.

Esta caixa-preta, ao que parece, vai repousar para sempre no fundo do mar do esquecimento.


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