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Fundo Amazônia foi criado para compensar impacto ambiental na Noruega

19 de agosto de 2019

Diogo Schelp em 16/08/2019

A Noruega explora petróleo e mata baleias, como “denunciou” o presidente Jair Bolsonaro? Sim. Isso é uma prova da hipocrisia do país, que é o principal doador do Fundo Amazônia? Não.

O bloqueio dos recursos para o fundo por parte da Noruega e da Alemanha, outra doadora, tem razão técnica ou política? Acima de tudo, política. Mas vamos por partes.

A Noruega é o segundo maior exportador de gás natural do mundo. Além disso, petróleo e gás representam metade das exportações, em dólar, do país. Por ser uma nação pouco populosa, com apenas 5 milhões de habitantes, a Noruega decidiu fazer uma boa reserva em dinheiro para o futuro que lhe permitisse paulatinamente reduzir a exploração de combustíveis fósseis. A reserva é depositada em um fundo soberano – o maior do mundo, que em 2017 extrapolou o montante de 1 trilhão de dólares. Já a queda na produção se deve em parte porque o país vem barrando a exploração de novos campos de petróleo em áreas sensíveis do ponto de vista ambiental. A dupla estratégia tem dois objetivos, ao longo dos anos: diversificar a economia norueguesa e minimizar o impacto ambiental de sua principal riqueza.

Doar recursos para iniciativas de preservação ambiental no exterior faz parte do segundo objetivo. A Noruega paga a outros países para compensar o fato de que despeja cerca de 2 milhões de barris de petróleo por dia no mercado mundial. Isso não é nenhum segredo e tem até uma lógica econômica. Em entrevista ao jornal britânico Financial Times, em 2016, Vidar Helgesen, o então ministro do Meio Ambiente da Noruega, explicou: “A gestão eficiente dos custos é algo a ser considerado. Se o dinheiro norueguês pode resultar em mais reduções de emissão de carbono no exterior do que por meio de ações similares na Noruega, então isso é melhor para o ambiente.” Ou seja, se 1 dólar aplicado, por exemplo, na preservação da Floresta Amazônica evita mais emissões de gases do efeito estufa do que o mesmo valor gasto em uma medida ambiental na Noruega, então é preferível fazer esse gasto no Brasil.

O Fundo Amazônia foi criado em agosto de 2008 com esse propósito. Se a Noruega não aparecesse para financiá-lo, ele sequer existiria. A lógica do acordo obedecia ao conceito, muito discutido na época, de Redução das Emissões oriundas do Desmatamento e Degradação florestal (REDD). A proteção da floresta alcançada com o fundo geraria certificados de emissões “evitadas” – com valor simbólico para os países doadores, mas que não poderiam ser negociados no mercado de carbono. Ou seja, a Noruega e outros países doadores podem usar os êxitos do fundo para mostrar ao mundo (e aos noruegueses, que pagam a conta) que estão fazendo algo pelo bem do planeta, mas não para atingir as próprias metas de redução de carbono.

A questão da ingerência de países estrangeiros na Floresta Amazônica foi uma das preocupações que envolveu a criação do Fundo Amazônia. A suspeita de que o mundo está de olho nas nossas riquezas naturais, afinal, não é uma exclusividade do bolsonarismo. A base eleitoral do ex-presidente Lula também tinha essa paranoia. Tanto que o então primeiro-ministro Jens Stoltenberg, durante cerimônia de lançamento no Palácio do Planalto, fez questão de dizer que os doadores não fariam qualquer ingerência na gestão do fundo. Isso ficaria inteiramente nas mãos do Brasil.

Eis por que as suspensões das doações ao fundo anunciadas esta semana pela Noruega e Alemanha são decisões políticas. São uma resposta às declarações provocativas de Jair Bolsonaro e de uma necessidade que os governos desses países têm de prestar contas às suas próprias populações.

A Noruega, portanto, enriquece com petróleo e reduz o peso na consciência bancando iniciativas ambientais em outros países (os investimentos de seu fundo soberano, por exemplo, têm focado cada vez mais em empreendimentos sustentáveis). Isso é bom e não deveria ser nenhuma surpresa.

A propósito: o carpaccio de baleia que eles servem na Noruega é uma delícia. Ainda assim, e ainda bem, trata-se de uma atividade pesqueira em declínio. Por causa do aquecimento global, as baleias procuram águas geladas cada vez mais distantes, ao norte, e o custo para caçá-las aumentou.

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Monitoramento da Amazônia feito pelo Inpe é o melhor do mundo, diz especialista

19 de agosto de 2019

Engenheiros espaciais trabalham em laboratório de integração e testes do Inpe.

André Borges, via Estadão em 17/8/2019

O sistema de monitoramento da Amazônia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) não é só um produto único para fiscalizar a floresta. Trata-se da melhor ferramenta disponível para esse tipo de atividade no mundo e já inspirou a criação de sistemas similares em outros países. Essa é a avaliação de Gilberto Câmara, diretor do secretariado do Grupo de Observações da Terra (GEO) e chefe do Inpe de 2006 a 2013, órgão que tem sido alvo de críticas do governo Jair Bolsonaro.

Vinculado às Nações Unidas, o órgão é a principal instituição internacional para monitoramento e observação da Terra. Câmara é membro sênior da Association for Computing Machinery (ACM), doutor honoris causa pela Universidade de Muenster (Alemanha) e cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito da França. Já orientou 31 mestrados e 23 doutorados. Em 2012, recebeu o Global Citizen Award da Global Spatial Data Infrastructure Association o Pecora Award, da Nasa.

Câmara participou da criação do sistema Deter, a plataforma do Inpe de informações que emite os alertas sobre desmate na Amazônia. Para o pesquisador, a crise deflagrada pelo governo Bolsonaro em relação aos dados de desmate gerados pelo Inpe tem colocado não só a instituição pública em xeque, mas toda a credibilidade da ciência nacional e a imagem do próprio País, que pode passar a ser visto como manipulador de informações que, tratadas com total transparência nas últimas décadas. O Estado de S.Paulo mostrou em julho que os alertados do Inpe indicaram alta de 40% no desmate da Amazônia entre agosto de 2018 e julho deste ano. A gestão Bolsonaro tem afirmado que esses dados são “exagerados” e “manipulados”.

O sistema de detecção de desmate do Inpe tem problemas, como diz o governo? É uma tecnologia limitada, de baixa qualidade?
Deter é o melhor sistema para esse tipo de atividade em todo o mundo. O problema é que querem fazer discussão de coisas distintas. O Deter é um sistema que utiliza imagens de satélites e, por meio de uma metodologia, produz informação sobre o desmate, orientando as campanhas (fiscalizações em campo). Isso não pode ser comparado com um simples conjunto de imagens de satélite, como querem fazer. Criaram uma dicotomia entre um sistema e grupo de imagens. São coisas absolutamente diferentes. O sistema brasileiro é o melhor que temos hoje e, mais importante ainda, é suficiente para fazer o trabalho a que se propõe.

O governo falar em adquirir sistemas mais modernos e já testa produtos privados. Como o senhor avalia isso?
Hoje não há sistema no mundo que possa se equiparar ao Deter. Temos sistemas similares, mas com resolução de imagem menor e interpretação automatizada dos dados. Esses sistemas não mostram, por exemplo, quanto da floresta foi desmatada em cada município, em cada terra indígena ou área de proteção ambiental. Fora isso, o que existem são imagens de alta resolução, mas sem inteligência. Portanto, o Deter não tem paralelo no mundo e isso é reconhecido pelos órgãos internacionais.

O sistema poderia ser aprimorado pelo Inpe?
Como qualquer outro sistema, pode e deve evoluir. Desde que começou a ser usado, de 2005 para cá, a captação do Deter passou a ser 20 vezes superior, com uma precisão bem mais detalhada. É possível melhorar o Deter? Claro. Sem isso, o Brasil deixa de ter uma estratégia de combate ao desmatamento? Não. O melhor da ciência mundial e brasileira hoje converge para o fato de que não há dúvidas de que os resultados do Inpe são confiáveis. O que há de concreto é que o desmatamento na Amazônia está aumentando. A situação está se degradando e isso é óbvio. Os dados do Deter permitem afirmar, sem sombra de dúvidas, que há um recrudescimento no desmatamento da Amazônia, e onde isso está ocorrendo.

É necessário adquirir um produto paralelo para operar com o sistema do Inpe?
Em princípio, não tem de errado na possibilidade de o Ibama utilizar imagens do sistema de microssatélites Planet (produto privado que já é testado gratuitamente pelo órgão) para confirmar os alertas do Deter. Mas a verdade é que esse mapeamento já é feito hoje pelo MapBiomas (projeto colaborativo de mapeamento que reúne especialistas pesquisadores de universidades, institutos e organizações). Se o governo usasse esse sistema, não precisaria comprar outro produto. Agora, se a ideia for substituir o Deter, vão ter de criar um sistema novo que não existe hoje no mundo. E isso é absolutamente desnecessário e contraproducente. Não há necessidade racional. A ciência brasileira não precisa de confrontação falsa entre um sistema que está operando e novas imagens.

Como avalia a repercussão dos ataques aos dados informados pelo Inpe?
O que vemos hoje em relação ao Inpe é o mesmo tipo de prática que assistimos quando alguns países discordam do aquecimento global. Setores internacionais que patrocinam políticas contra as evidências do aquecimento, como a indústria do petróleo, sabem há décadas que o uso de petróleo causa mudança climática. Da mesma forma, a indústria do tabaco sabia, desde os anos 1950, que cigarro causa câncer. O fato de esses setores contrários saberem qual é o consenso científico e a explicação mais plausível para o aquecimento, por exemplo, faz com que fujam o tempo todo do debate aberto e racional. A intenção é desqualificar e derrubar os dados, sem oferecer nada no lugar.

O governo já sinalizou que pretende controlar a divulgação de informações do Inpe sobre o desmatamento. Como o senhor avalia isso?
Há uma estratégia de se negar o debate, só que essa estratégia é perdedora, não tem como ganhar. Amordaçar o Inpe é uma atitude contrária a todas as leis e regras que temos no País sobre a transparência do exercício público.

O governo sinalizou que pode fechar os dados públicos do Inpe a qualquer momento.
E o Ministério Público também pode sinalizar, a qualquer momento, que entrará com ação de improbidade administrativa contra um diretor do Inpe, porque ele violou a lei. Além disso, quais seriam as consequências de se fechar esses dados? A comunidade europeia passaria a acreditar que o desmatamento, agora, está sob controle? A população acreditaria nessas informações? Em 2008, também questionaram os dados do desmatamento do Inpe, mas depois deixaram que o trabalho prosseguisse porque viram que estavam corretos. Tanto naquela época, quanto hoje, o que está em jogo é a credibilidade do Brasil, e não do Inpe, em fornecer informações sobre uma parte da natureza que nos cabe cuidar. O Brasil já mostrou que não precisa desmatar a Amazônia para crescer. Nos últimos anos, diminuímos o desmatamento, enquanto dobramos a produção agrícola.

O Inpe pode perder o protagonismo neste tipo de monitoramento?
São 30 anos de trabalho do Inpe apresentando resultados, informações, dando acesso à comunidade científica internacional. Tem mil artigos científicos publicados que tomam os dados do Inpe como elemento de sua análise. A história mostra que essa credibilidade se constrói muito lentamente, mas também se destrói, como toda boa porcelana, muito rapidamente. Depois, não tem como emendar.

“PT botou 10 mil fantasiados de médicos para fazer célula de guerrilha e doutrinação”, diz Bolsonaro

18 de agosto de 2019

Em novo delírio, o presidente voltou a atacar os médicos cubanos e questionou a qualidade do trabalho dos profissionais, que são reconhecidos no mundo todo.

Via Revista Fórum em 16/8/2019

Em mais um delírio, Jair Bolsonaro declarou, novamente, que a contratação de médicos cubanos para o Programa Mais Médicos foi, na verdade, uma maneira de criar grupos de guerrilha e doutrinação no país.

“O PT botou no Brasil cerca de 10 mil fantasiados de médicos aqui dentro, em locais pobres, para fazer células de guerrilhas e doutrinação. Tanto é que, quando eu cheguei, eles foram embora porque eu ia pegá-los”, afirmou.

O presidente continuou com seu ataque e disse que os profissionais de Cuba, reconhecidos no mundo todo, não se submeteram a um processo seletivo rigoroso. “Faz uma provinha lá… benzetacil, aplica onde? Os cubanos não sabem responder”, afirmou.

Provas?
Indagado em relação às provas de que os médicos cubanos eram guerrilheiros, simplesmente respondeu: “Precisa ter prova disso daí? Você acha que está escrito isso aí em algum lugar?”.

Bolsonaro também não soube responder quais seriam as ações dos supostos guerrilheiros no país. “É preparação, é preparação. Você não faz as coisas de uma hora para outra”, declarou.

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A antidiplomacia que custa caro ao Brasil

18 de agosto de 2019

Ao fazer grosserias com a Alemanha e a Noruega, Bolsonaro lembra a personagem de uma série britânica. Com uma desvantagem: no caso dele, não adianta desligar a TV.

Bernardo Mello Franco em 16/8/2019

A série britânica “Years and Years”, em exibição na HBO, projeta um futuro ainda mais turbulento do que o presente. A tensão entre os EUA e a China se agrava, o sistema bancário entra em crise e o mundo fica à beira de um conflito nuclear. No Reino Unido, uma populista de extrema direita desafia os partidos tradicionais e avança na direção do poder.

A personagem Vivienne Rook abre caminho à custa de grosserias e declarações chocantes. A cada insulto, conquista mais manchetes e mais seguidores fanáticos. No fim do primeiro episódio, ela festeja a notícia da morte da chanceler alemã Ângela Merkel. “Já vai tarde. O mundo acaba de ficar bem mais bonito”, debocha, num programa de TV.

Rook é inspirada na francesa Marine Le Pen, mas suas falas também caberiam nas bocas de políticos brasileiros. Na semana passada, o vice-presidente Hamilton Mourão fez piada com a saúde de Merkel, que andou sofrendo tremores em aparições públicas. O vice atribuiu o sintoma a uma “encarada” que ela teria recebido do “nosso presidente Donald Trump”.

Na quarta, foi a vez de Jair Bolsonaro provocar Merkel. Em tom irônico, ele chamou a alemã de “senhora querida”. “Pega essa grana e refloreste a Alemanha, ok? Lá está precisando muito mais do que aqui”, disse.

A incivilidade não é o único problema nas declarações do presidente e do vice. Destratar líderes de países amigos é uma atitude prejudicial ao Brasil. A antidiplomacia bolsonarista ameaça atrapalhara economia e isolar o país no cenário internacional. No caso de Merkel, filiada a um partido conservador, não há nem a desculpa ideológica para as ofensas.

Ontem Bolsonaro resolveu atacara Noruega, que já deu R$3,2 bilhões ao Fundo Amazônia e também suspendeu os repasses. “A Noruega não é aquela que mata baleia lá em cima, no Polo Norte, não? Não tem nada a dar exemplo para nós”, desdenhou. A claque governista vibrou, mas o Brasil perdeu mais R$132 milhões.

A realidade brasileira tem uma desvantagem em relação à ficção britânica. Para se livrar dos insultos de Vivienne Rook, basta desligara TV.

Leia também: Sem-noção: Bolsonaro insiste na diplomacia da canelada

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Programa da TV alemã chama Bolsonaro de “idiota de Ipanema”

18 de agosto de 2019

Em crítica a desmatamento, apresentador alemão diz que acordo UE-Mercosul é “parceria destruidora”.

Arthur Cagliari, via UOL em 16/8/2019

Um programa de sátira da rede pública alemã de televisão ARD, exibido na quarta-feira [15/8], chamou o presidente Jair Bolsonaro de “Idiota de Ipanema” em crítica sobre o desmatamento no Brasil.

“Se tem alguém que não tem qualquer preocupação com sustentabilidade e emissão de CO2, essa pessoa é o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, o ‘Samba-Trump’, que outros também chamam de ‘Idiota de Ipanema’. Eu sou uma dessas pessoas.”

Dessa forma o apresentador do programa extra 3, Christian Ehring, começa a sua sátira ao presidente Bolsonaro.

Entre piadas sobre cerveja alemã e times de futebol, Ehring afirma que a floresta amazônica é imprescindível para sobrevivência terrestre e que nesse ano já houve mais de 200% de desmatamento, na comparação com 2018.

Na verdade, ainda não há números oficiais definitivos sobre o aumento no desmate na Amazônia. O que se tem, por enquanto, são os dados do Deter – que, no momento, apontam tendências de alta na destruição e que servem para ajudar ações de fiscalização do Ibama –, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Os dados apontam que houve um aumento de 90% no desmatamento em junho e de 278% em julho, quando comparados a junho e julho de 2018, respectivamente.

O apresentador segue dizendo que Bolsonaro permite o desmatamento para expandir as produções de soja e de carne bovina.

Ehring lembra que enquanto o presidente demonstra total indiferença sobre a suspensão feita pela ministra alemã do Meio Ambiente, Svenja Schulze, de verbas para proteger a Amazônia brasileira, ele também comemora o acordo de livre-comércio fechado entre União Europeia e Mercosul.

A resolução entre os blocos, segundo um vídeo explicativo que entra entre as falas de Ehring, vai permitir mais importações de produtos brasileiros.

“Isso vai destruir mais floresta amazônica do que é possível ser resgatado por Svenja Schulze. Nós vamos comprar mais carne bovina brasileira. Isso significa mais queimadas de desmatamento, mais espaço de pastagens e mais cultivo de soja. É o início de uma parceria destruidora”, afirma o apresentador.

Ehring diz ainda que Bolsonaro demitiu o chefe que cuidava da documentação de desmatamento no país e, ainda, colocou uma lobista do agronegócio para cuidar do ministério da Agricultura.

Ao final da crítica, o apresentador chama um vídeo com uma paródia da música “Copacabana”, de Barry Manilow, com várias cenas do presidente brasileiro e da floresta amazônica. O vídeo começa com Bolsonaro falando que, se eleito, não deixaria um centímetro para reserva indígena.

“Aqui no Brasil, governa um cara esquisito, que gosta de polícia, militares e de atirar com espingardas”, diz trecho da paródia.

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