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Globogate: Corrupção e propina no futebol uniram Globo, Marin e Del Nero, diz delator

22 de novembro de 2017

O delator Alejandro Burzaco em imagem de arquivo. Foto: Andrew Gombert/EFE.

Empresário argentino diz que emissora pagava propina aos cartolas para obter direitos de transmissão.

Via El País Brasil em 15/11/2017

Uma delação premiada no caso que investiga a Fifa na Justiça norte-americana respingou na Rede Globo, um dos maiores grupos de comunicação da América Latina. O empresário argentino Alejandro Burzaco, ex-diretor da empresa de eventos esportivos Torneos y Competencias, afirmou na terça feira em depoimento à Justiça dos Estados Unidos que a emissora pagou propinas para conseguir direitos de transmissão de campeonatos de futebol. As autoridades norte-americanas investigam um esquema de corrupção envolvendo a Fifa e outras federações de futebol, apelidado de Fifagate. O dinheiro pago pela Globo teria sido destinado a altos executivos da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e da Confederação Sul-Americana de Futebol, a Conmebol, responsável por campeonatos como a Copa Libertadores da América e a Copa América. A informação foi divulgada em primeira mão pelo site Buzz Feed News. O delator não mencionou quais os valores pagos pela empresa.

Ao ser indagado pelo promotor quais grupos de mídia teriam participado do esquema, o empresário argentino citou “Fox Sports dos Estados Unidos, Televisa do México, Media Pro da Espanha, TV Globo do Brasil, Full Play da Argentina e Traffic do Brasil”. Segundo Burzaco, Marcelo Campos Pinto, então diretor do departamento esportivo da Globo, teria negociado com os cartolas o pagamento da propina. A reportagem não conseguiu entrar em contato com ele, que deixou a emissora em 2015.

Mas a emissora não foi a única atingida pelo depoimento de Burzaco. Além da Globo, que nega qualquer irregularidade, o delator também implicou dois ex-presidentes da CBF (José Maria Marin e Ricardo Teixeira), e o atual mandatário, Marco Polo Del Nero. O primeiro já responde a processo nos EUA por sua participação no esquema de corrupção envolvendo empresas de marketing e a CBF. Ele está em prisão domiciliar no país. De acordo com o delator, os três teriam recebido pagamentos de um período que vai de 2006 a 2015. Os valores recebidos por cada um deles chegavam até a um US$1 milhão (aproximadamente R$3,3 milhões) por campeonato cujos direitos de transmissão negociavam.

Del Nero, que não viaja aos Estados Unidos para evitar uma possível prisão, teria ganho importância no esquema após a morte, em 2014, de Júlio Grondona, o poderoso ex-presidente da Associação Argentina de Futebol. O cartola brasileiro e Marin teriam até mesmo pedido um “aumento” no valor da propina paga em troca dos direitos de transmissão. “Marin me deu um abraço e fez um discurso de agradecimento. Del Nero abriu um caderno e anotou os valores. Os dois disseram que dariam instruções sobre como queriam receber o dinheiro”, afirmou Burzaco.

Em nota, Del Nero afirmou que “nega, com indignação, que tivesse conhecimento de qualquer esquema de corrupção supostamente existente no âmbito das entidades do futebol a que se referiu”. Segundo o cartola, “as investigações levadas a efeito naquele país [EUA] não apontaram qualquer indício de recebimento de vantagens econômicas ou de qualquer outra natureza por parte do atual presidente da CBF”.

Ao site Globoesporte.com, Teixeira também negou ter recebido dinheiro, e disse ainda “quem acusa tem que provar. Ele [Burzaco] tem que provar tudo isso” Seu advogado não quis comentar as acusações de que seu cliente receberia uma espécie de mesada anual de US$600 mil (cerca de R$2 milhões).

Em nota lida em seus diversos telejornais, a emissora afirmou que “não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina”. “Após mais de dois anos de investigação [a Globo], não é parte nos processos que correm na Justiça norte-americana”. A assessoria da rede disse ainda que “em suas amplas investigações internas, apurou que jamais realizou pagamentos que não os previstos nos contratos”. Por fim, o texto afirma que “o grupo Globo se colocará plenamente à disposição das autoridades norte-americanas”, e que para a empresa esclarecer o ocorrido é “questão de honra”.

A Fox Sports, também mencionada pelo delator, afirmou em nota que “qualquer menção em relação a que Fox Sports teve conhecimento ou aprovou subornos é absolutamente falsa”.

CITADO POR DELATOR SE SUICIDA NA ARGENTINA
Na Argentina as declarações de Burzaco tiveram um impacto devastador para um dos citados. O advogado Jorge Delhon, ex-integrante do governo de Cristina Kirchner, cometeu suicídio se jogando nos trilhos de uma linha do metrô poucas horas após ter sido mencionado pelo delator. Ele havia participado do programa Futebol Para Todos, uma iniciativa da ex-presidenta para nacionalizar a transmissão das partidas.

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EXECUTIVO DA TELEVISA, CITADA NO CASO FIFA, É ASSASSINADO
Via Brasil 247 em 20/11/2017

O executivo Adolph Lagos, vice-presidente de telecomunicações do grupo mexicano Televisa, foi assassinado neste domingo, quando viajava de bicicleta por uma rodovia do Estado central do México, informou hoje o Ministério Público do país.

A mexicana Televisa, assim como a rede Globo, foi acusada por Alejandro Burzaco, ex-chefe da companhia de marketing esportivo Torneos y Competencias, de ter pagado propina à Fifa para garantir a transmissão das Copas do Mundo de Futebol

Lagos, de 69 anos e ex-diretor do Banco Santander, está viajando de bicicleta na estrada que conduz às pirâmides de Teotihuacán quando ele foi ferido por armas de fogo por estranhos e levado para um hospital “onde infelizmente morreu”, disse o Ministério Público do Estado do México.

Lagos, sobrinho do lendário banqueiro mexicano Enrique Espinosa Yglesias, ocupou o cargo de vice-presidente corporativo de telecomunicações da Televisa desde 2013 e da administração geral do sistema de televisão a cabo Izzy.

As informações são de reportagem do Infobae. Confira abaixo uma reportagem da Reuters sobre o escândalo de corrupção da Televisa e da Globo:

Uma testemunha da acusação no julgamento por corrupção de três ex-dirigentes do futebol testemunhou nesta quarta-feira que o mexicano Grupo Televisa e a brasileira Globo participaram de uma propina de US$15 milhões para um executivo da Fifa para assegurar direitos midiáticos para as edições de 2026 e 2030 da Copa do Mundo.

Alejandro Burzaco, ex-chefe da companhia de marketing esportivo Torneos y Competencias, testemunhou por um segundo dia em um tribunal dos Estados Unidos, acrescentando detalhes ao testemunho de terça-feira de que Televisa, Globo e Fox Sports estavam envolvidas nas propinas.

No primeiro julgamento em uma investigação dos EUA sobre subornos envolvendo a Fifa, Burzaco disse a membros do júri em tribunal federal no Brooklyn nesta quarta-feira que a Torneos, Televisa e Globo pagaram propina para Júlio Humberto Grondona, um executivo da Fifa que morreu em 2014.

Burzaco disse que a Torneos e a Fox Sports, uma unidade da Twenty-First Century Fox, eram parceiras em uma venture de marketing esportivo, a T&T Sports Marketing Ltd.

A porta-voz da Fox Sports Terri Hines disse na terça-feira que a parceria da T&T era com uma afiliada da Fox Sports, a Fox Pan American Sports, que era de propriedade majoritária de uma empresa de private equity, e que a Fox Sports não possuía “controle operacional” sobre a T&T.

“Quaisquer sugestões de que a Fox Sports sabia ou aprovava quaisquer propinas são enfaticamente falsas”, disse.

A Globo informou na terça-feira que “não pratica nem tolera qualquer pagamento de propina” e que irá cooperar com autoridades dos EUA.

A Televisa se negou a comentar na terça-feira e não pôde ser contatada imediatamente nesta quarta-feira. As três companhias midiáticas não foram acusadas no caso nos EUA.

O testemunho de Burzaco descreveu propinas para dirigentes em troca de direitos midiáticos no futebol internacional, incluindo pagamentos regulares chegando até a dezenas de milhões de dólares para direitos da Copa América e Copa Libertadores.

Jorge Delhon, um advogado argentino que trabalhava para o programa de TV estatal Futebol para Todos, cometeu suicídio na noite de terça-feira, horas após Burzaco testemunhar que Delhon recebeu propinas, segundo a polícia argentina.

Os três ex-dirigentes em julgamento nos EUA são Juan Ángel Napout, ex-presidente da Conmebol e da federação do Paraguai; Manuel Burga, ex-presidente da federação peruana; e José Maria Marin, ex-presidente da CBF.

Burzaco testemunhou que estava envolvido no pagamento de propinas para todos os três. Em declarações de abertura na segunda-feira, os advogados dos ex-dirigentes negaram recebimento de propinas.

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O FUTEBOL BRASILEIRO NO BANCO DOS RÉUS
Proprietária do nosso futebol, a CBF enfrenta as consequências de ter usado uma paixão nacional para enriquecimento ilícito.
Jamil Chade, via El País Brasil em 18/11/2017

 

O cronista Nelson Rodrigues, há mais de 50 anos, já constatou: “o pior cego é o que só vê a bola”. Numa corte de Nova Iorque, nesta semana, é um senhor frágil, de cabelo e tez branca que se depara diante da juíza federal Pamela Chen. O julgamento contra José Maria Marin, entretanto, não é apenas contra um dirigente que comandou a CBF. Trata-se, na realidade, de um processo sobre o próprio futebol nacional, sobre seus cúmplices e suas entranhas do poder. Um processo contra aqueles que promoveram uma cegueira quase generalizada.

Conforme a data do julgamento se aproximava, não foram poucos os dirigentes da Fifa e da CBF que me admitiam que estavam preocupados sobre o que poderia surgir do processo. Hoje, depois de pouco mais de dez dias de audiências, tudo o que essas entidades temiam se transformou em realidade. Acusados e testemunhas passaram a usar a corte como um palco privilegiado para revelar um lado obscuro do esporte. O futebol como ele é.

Para se defender das acusações de corrupção, os advogados de Marin usaram um fato que qualquer um envolvido na CBF sempre via: ele jamais a governou sozinho. Seu braço direito, vice-presidente e homem que o acompanhava a todas as reuniões era Marco Polo Del Nero, o atual comandante do futebol brasileiro desde 2015. Para a defesa de Marin, quem “tomava as decisões” era o seu vice.

Ainda que seja uma estratégia dos advogados para reduzir a responsabilidade de seu cliente, a realidade é que a tática surpreendeu a muitos dentro da CBF e Del Nero foi jogado para o centro do debate.

Nos dias que se seguiram, coube ao argentino Alejandro Burzaco, ex-executivo que comprava direitos de TV de torneios sul-americanos, admitir que a corrupção era a regra do jogo. Na qualidade de testemunha, seu relato confirmou os pagamentos a Marin. Mas também indicou que o próprio Del Nero o procurou em 2014 para negociar um aumento da propina. O entendimento com o futuro chefe do futebol brasileiro ainda vinha com um pedido: adiar o pagamento do suborno para 2015, quando Marin não seria mais presidente da CBF. Assim, Del Nero não teria mais de dividir a propina com seu “amigo”.

As audiências ainda jogaram ao centro da arena Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF entre 1989 e 2012. Ele teria recebido, desde 2006, US$600 mil por ano em propinas para ceder contratos de transmissão da Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana.

Não escaparam nem mesmo grandes grupos de imprensa do Brasil e América Latina, citados pela única testemunha ouvida até agora como parte de um esquema de corrupção. No caso da TV Globo, ela foi mencionada como tendo destinado supostas propinas para ficar com o direito de transmissão das Copas de 2026 e 2030, algo que a empresa nega de forma veemente.

O processo também atinge em cheio as pretensões do Catar de sobreviver como sede da Copa até 2022. O ex-dirigente argentino, Júlio Grondona, morto em 2014, foi apontado nesta semana como receptor de US$1 milhão em troca de seu voto aos árabes para que pudessem sediar o Mundial. Ele era o presidente do Comitê de Finanças da Fifa e, em outras palavras, era o dono da chave do cofre da entidade.

Ao relatar o caso, Burzaco revelou como Grondona o contou bastidores do dia da votação. Nas primeiras rodadas, o então presidente da Conmebol, Nicolas Leoz, teria votado pelo Japão e Coreia do Sul. Num dos intervalos, Grondona e Teixeira chegaram até o paraguaio e o “chacoalharam”. “O que você está fazendo?”. Quando o processo eleitoral foi retomado, Leoz mudou de comportamento e votou pelo Catar.

O tsunami das declarações chegou ainda até a Argentina. Na noite de terça-feira, Jorge Alejandro Delhon, um dos executivos denunciados, teria se matado. As audiências ainda tiveram cenas de dramalhões latino-americanos, com Burzaco chorando diante do que poderia ser um ato de intimidação de um dos acusados, o ex-presidente da Federação Peruana de Futebol, Manuel Burga. O peruano o teria feito um sinal de cortar o pescoço, em plena audiência.

Horas depois, a testemunha não conseguiria segurar as lágrimas quando lembrou que fora avisada de que a polícia argentina o mataria se retornasse ao país.

Entre supostas ameaças, choros, mortes, relatos extraordinários e contas milionárias, não deixa de chamar a atenção o fato de que o processo está apenas em sua segunda semana. Por mais um mês, como num cenário de um jogo de Copa descrito pelo cronista, o mundo da cartolagem e seus cúmplices viverão “uma suspensão temporária da vida e da morte”.

Todos os citados, por enquanto, negam qualquer tipo de responsabilidade. Mas o que o processo começa a revelar é que, de fato, uma paixão nacional foi tomada por um grupo com um único objetivo: o enriquecimento próprio. De forma infesta, sequestraram uma das poucas coisas que é legítimo em um torcedor: sua emoção. A cada partida assistida em campo ou na televisão, em cada camisa comprada, em cada item adquirido, o torcedor aparentemente não financiou o futebol nacional. Mas seus donos, em contas secretas em Andorra, Suíça e paraísos fiscais.

Desde criança, foi vendida a história a todos nós de que aquele time de amarelo nos representa. Quando ganha, é o presidente da República quem os recebe, como heróis nacionais numa conquista “do país”. Quando é humilhado em campo, é uma nação que flerta com a depressão.

Em Nova Iorque, enquanto a cegueira começa a se dissipar, estamos vendo que esse futebol “nacional” tem dono. E não é o torcedor.

Jamil Chade é jornalista, autor do livro Política, Propina e Futebol (Cia das Letras, 2015).

Boaventura de Souza: Querem que oprimidos pensem que a saída é votar no opressor

21 de novembro de 2017

Leonardo Sakamoto em 17/11/2017

“Se os partidos não se derem conta que estamos em uma situação pré-fascista, em que a democracia foi sequestrada por antidemocratas, no final, estarão todos destruídos por essas forças conservadoras”.

A avaliação é do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, considerado um dos mais importantes intelectuais da esquerda na atualidade. Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em Portugal, e professor da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, e da Universidade de Warwick, no Reino Unido, possui uma extensa produção sobre participação social, modelos de democracia e concepções de direitos humanos. Ligado a movimentos sociais brasileiros e globais, Boaventura veio ao Brasil participar de uma série de eventos em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre e falou com o blog.

Ele afirma que a discussão sobre a renovação da esquerda é dificultada por não sabermos o destino de Lula e critica a qualidade da sentença produzida contra o ex-presidente pelo juiz Sérgio Moro.

Em sua opinião, um dos grandes problemas do PT é que seu governo se esqueceu dos movimentos sociais, sobretudo sob Dilma. “E só recorreram a eles quando já era tarde demais”. E que o Brasil, como outros da América Latina, conseguiu distribuir riqueza durante o ciclo de alta das commodities, mas não alterou o sistema político corrupto e oligárquico, muito menos as desigualdades tributárias que favorecem os mais ricos.

Defendendo o protagonismo dos movimentos sociais na política, ele aponta o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Guilherme Boulos, como uma figura que vai emergir dessa necessidade da renovação. “Penso que ele pode ter um papel importante no futuro”.

Em sua análise, o sistema se apresenta como anti-sistema neste momento. “Bolsonaro é um homem do sistema, chegou à posição que está pelo sistema. Trump só pode ser bilionário porque é um homem do sistema, mas se apresenta como anti-sistema. A perda das definições ideológicas está a criar uma massiva falsa consciência que faz com que vítimas se voltem contra vítimas, e os pobres contra pobres”.

Leiam a entrevista:

Durante o ciclo progressista dos anos 2000, a América Latina se apresentava como um espaço pujante que parecia anunciar mudanças sociais profundas. Hoje, qual é o balanço que faz? O que deu certo e o que falhou?
Boaventura
– Esses governos significaram fundamentalmente que há uma alternativa. Não é uma alternativa revolucionária, a alteração total do sistema, mas, dentro desse sistema, que é possível governar para objetivos diferentes que vão no sentido de uma maior distribuição de riqueza. E, de fato, quase todos esses governos tiveram políticas redistributivas. E quase todas do mesmo tipo, ações que o Banco Mundial considerava como medidas compensatórias, como o Bolsa Família. A ideia de uma alternativa política e também de objetivos de redistribuição social são dois ganhos completamente positivos desse período.
O que correu mal? É que esses governos, uns mais do que outros, não alteraram o sistema econômico (nem pretendiam) e o sistema político. No Brasil, significou governar “à moda antiga” com objetivo de distribuição social. Mas o sistema político era corrupto, oligárquico, desenhado para que as classes dominantes continuassem a governar os países. Oligarquias que quando não conseguem por via democrática, encontram outra maneira.
E isso só foi possível durante um período curto que é o período em que os preços das commodities estavam em alta, com a China como ator de peso. O ciclo das commodities é de dez anos, atinge um pico e começa a declinar. E assim foi. O preço em alta permitiu que esses governos tivessem recursos para poder fazer uma distribuição social sem alterar o sistema tributário, sem alterar o sistema político.
O que isso significa? Diminuíram a pobreza, mas não alteraram a desigualdade estrutural da sociedade. Ela continuou a ser tão polarizada entre ricos e pobres, até mais, mas os mais pobres deixaram de estar abaixo da linha da pobreza – cerca de 50 milhões de pessoas no caso brasileiro. O problema é que esse sistema, além de ter muitos danos sociais e ambientais, porque obviamente obrigou a expulsão de indígenas, de populações quilombolas, dos seus territórios, também foi neoextrativista, uma continuidade do sistema colonial de extração de matéria-prima, mas com uma dimensão e uma escala sem precedentes.
Disso pode-se tirar algumas lições. Primeiro, esse modelo de desenvolvimento é insustentável a médio prazo, não são porque as commodities oscilam, mas porque os danos sociais e ambientais são terríveis. Segundo, os fins não justificam os meios e, portanto, não se pode governar à moda antiga, com os partidos antigos e oligarquias, para objetivos novos. Porque, em qualquer momento, há traição, como aconteceu aqui no Brasil. É um pouco difícil entender internacionalmente como um vice-presidente de um governo, e que esteve bastante tempo como vice, é líder de um golpe contra a presidente. Isso contradiz tudo aquilo que se dizia da República e da Constituição brasileiras, que era um país relativamente consolidado e visto com uma institucionalidade forte.

Dentro desse contexto de fim de ciclo, como fica a renovação? A esquerda que esteve no poder não colocou as questões feministas e étnico-raciais no foco principal de seu projeto. Como ficam Lula e PT nesse processo?
Nós até podemos dizer que houve avanços nos direitos étnico-raciais e feministas nos últimos 13 anos. Não podemos esquecer que as ações afirmativas, a educação especial indígena e a quilombola, por exemplo, são ganhos que socialmente e politicamente vieram a ter um efeito social. No próprio plano feminista, houve avanços nesse período.
O que acontece é que esses avanços são totalmente subordinados a um modelo de desenvolvimento. Era possível ter ações afirmativas, mas não era possível garantir os direitos dos indígenas Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul, entre tantos outros povos indígenas, que chocavam de frente com o agronegócio, por exemplo. Sempre que essas conquistas do plano étnico racial ou de combate ao patriarcado chocaram com o modelo de desenvolvimento tiveram que ceder.
A renovação, no caso da esquerda brasileira, é particularmente complicada. O PT cometeu erros, mas também houve hostilidade da mídia corporativa contra ele e interferência do imperialismo norte-americano, que é muito forte no Brasil. Ao mesmo tempo, o PT devorou um pouco as energias da esquerda, não há outros partidos protagonistas. Os partidos pequenos enfrentam o estigma do isolamento.
Somado a esse quadro, há o problema da criminalização do presidente Lula. Eu li a sentença do juiz Sérgio Moro e fiquei envergonhado, porque além de sociólogo, também sou jurista. Como é possível que aquela sentença possa vir a prevalecer no sistema jurídico brasileiro? Porque não vi provas consistentes que pudessem levam à condenação. Aliás, para mim, é muito problemático o juiz que investiga e que acusa ser também o juiz que julga. Não há isso em qualquer sistema jurídico do mundo porque, obviamente, o juiz que investiga tem interesse em condenar para provar que estava certo.
As forças conservadoras querem varrer da memória dos brasileiros a ideia da alternativa feita por alguém que não pertence às classes dominantes, no caso o presidente Lula. Mas não fizeram isso confrontando-o como um problema político, mas como um problema jurídico. A esquerda está sem saber se Lula pode ser candidato e, se não pode, o que vai acontecer. A direita pretende que esse período de indefinição seja o mais longo possível para não permitir às forças de esquerda reorganizarem-se. Pois sabem que, enquanto não souber o que vai acontecer com Lula, será muito difícil apresentar alternativas.

Há alguma força de renovação no Brasil capaz de fazer um novo projeto de transformação social levando em consideração isso que o senhor coloca?
A esquerda não é burra e também está a ver este filme e reage. De uma maneira fragmentada, a resistência está nos movimentos. Temos, por exemplo, o MTST [Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto] que tem vindo a ter um protagonismo maior. Veja o caso agora da ocupação de São Bernardo [a ocupação Povo Sem Medo reúne mais de 7 mil famílias em um terreno vazio nesse município da Grande São Paulo], onde estive. É extraordinária a luta pela dignidade e a resistência contra condições indignas.
É um sinal de que a sociedade está a acordar, mas não está acordando organicamente, politicamente. Começam a surgir embriões, o Vamos [movimento para elaboração de um projeto de esquerda para o país da qual participam o MTST, o PSOL, entre outros], por exemplo, é um bom embrião. A frente Brasil Popular [que reúne MST, parte do PT, entre outros] tem vindo a criar um movimento também. Mas a distância ainda é muito grande.
Penso que é um período de maturação política, um ciclo que leva tempo, que infelizmente vai ser atropelado pelas eleições de 2018, porque as dinâmicas sociais normalmente são prejudicadas em processos eleitorais. Pois os modelos de democracia liberal privilegiam os partidos. Há cooptação dos movimentos por parte dos partidos, o que já começa a acontecer.

A impressão é que as pessoas estão céticas quanto a seu futuro. E, mesmo em desacordo com a opinião da maioria da população, reformas que colocam em xeque direitos previstos na Constituição Federal têm sido implementadas. Como é possível alterar esse quadro?
Penso que necessário uma unidade das forças de esquerda. A resistência que vemos nos movimentos não está conectada com os partidos. Tenho defendido que setores de esquerda do PT e do PSOL deveriam se unir mais, uma frente que não seria eclética, mas com um programa muito detalhado como fizemos em Portugal. O PT não é o PSOL, o PSOL não é o PT, o Vamos não é o PSOL, o Vamos não é o PT, a Frente Brasil Popular não é nenhum deles também. Mas para efeitos eleitorais deveriam acordar um programa mínimo. Em Portugal, duas medidas que estão nesse programa mínimo: parar as privatizações, sobretudo da Previdência, e repor rendimentos, salários e pensões mais baixos. Pontos muito concretos.
Os partidos têm que reunir em uma base, contra qualquer dogmatismo. Se os partidos não se derem conta que estamos em uma situação pré-fascista, em que a democracia foi sequestrada por antidemocratas, se pensarem que estamos em um período em que ainda podemos apenas divulgar e alardear nossas diferenças ideológicas, no final estarão todos destruídos por essas forças conservadoras. Que são, ao meu entender, antidemocráticas. E, se não ganham nas eleições, procuram ganhar de modos violentos. E essa unidade deve ser forte, ancoradas nos movimentos sociais.
Um dos grandes problemas do PT é que seu governo se esqueceu dos movimentos sociais, sobretudo na fase da presidente Dilma. E só recorreram a eles quando já era tarde demais. Tem que ser uma frente em que os partidos cedam aos movimentos.
Penso que há uma emergência interessante. Sou amigo e muito solidário a Guilherme Boulos [coordenador nacional do MTST], figura que penso que está a emergir dessa necessidade de renovação não-dogmática, não-sectária, ancorada nos movimentos, mas sem hostilizar os partidos. Penso que ele pode ter um papel importante no futuro. Quando, não sabemos muito bem, porque tudo isso é incerto.
No curto prazo, o imperialismo americano está dedicado a controlar o pré-sal. Basta ver os leilões das jazidas de petróleo. Eles não privatizam, eles doam as riquezas nacionais. É o que fizeram em Portugal com a empresa de telecomunicações.

Em um evento no Rio Grande do Sul, o senhor disse que “em nossas sociedades as classes dominadas aceitam as ideias dominantes. Vítimas se viram contra as vítimas. Vítimas votam e elegem seus próprios opressores”. Como isso se traduz no processo eleitoral brasileiro que deve eleger um novo presidente no ano que vem?
Nas classes populares mais vulneráveis, na base da pirâmide social, pelos dados disponíveis até agora, o primeiro voto é Lula, o segundo é Bolsonaro. Isso mostra que houve um grande processo de perda de ideologia na sociedade brasileira. Que começou, aliás, com o próprio presidente Lula, devido ao seu pragmatismo, com o “Lula, Paz e Amor”. Em uma sociedade com clivagens de classe, raça e sexo tão fortes cria-se uma desideologização, que é também promovida na mídia corporativa. Uma agenda que procura a perda de ideologias, ou seja, uma ideologia altamente conservadora. O movimento Escola sem Partido é uma escola altamente partidária, obviamente.
O sistema se apresenta como antissistema neste momento. Bolsonaro é um homem do sistema, chegou à posição que está pelo sistema. Trump só pode ser bilionário porque é um homem do sistema, mas se apresenta como antissistema. Portanto, essa perda das definições ideológicas está a criar uma massiva falsa consciência que faz com que vítimas se voltem contra vítimas, e os pobres contra pobres. O racismo na África do Sul é um racismo de pobres sul-africanos contra pobres, também negros, de Moçambique e do Zimbábue, mas não contra os brancos – que têm 97% da riqueza da África do Sul. É um projeto eleitoral, bem manipulado. Fazer com que os oprimidos pensem que a melhor maneira de saírem da opressão é votarem no opressor, que se apresenta como libertador populista, de direita.

Recentemente a filósofa Judith Butler foi alvo de protestos violentos em sua passagem por São Paulo. Chegaram a queimar um boneco que a representava em frente ao local em que deu uma conferência, gritando “queimem a bruxa”. Depois, foi agredida fisicamente no aeroporto. Como o senhor tem visto a questão dos ataques promovidos por milícias digitais a manifestações artísticas e ao livre pensamento?
Antes de mais nada, toda a solidariedade a Judith Butler por aquilo que aconteceu. As forças conservadoras estão muito ativas internacionalmente. Há processos que contam com financiamento dos irmãos Koch, nos Estados Unidos, grandes bilionários do petróleo. São eles que têm controlado a agenda conservadora nos Estados Unidos, o chamado Tea Party, a parte mais conservadora do Partido Republicano. Também estão envolvidos com agendas evangélicas ultraconservadoras. Que também têm o mesmo objetivo de perda de ideologia, de fazer com que as populações se sintam resignadas ao sacrifício.
Só assim pode-se entender como a teologia da prosperidade, a teologia conservadora das igrejas evangélicas, tem tanto êxito junto a camadas da população que não têm prosperidade nenhuma. São vítimas do sistema desigual e discriminatório que tem muita eficácia em incutir a ideia do sacrifício. Tivemos em Portugal uma ideia branda no mesmo sentido, de que os portugueses estavam a viver bem demais, acima de suas possibilidades, e era preciso reduzir os direitos e os salários.
Essa agenda pretende, inclusive, que seja punido o aborto em caso de estupro no Brasil, uma agenda reacionária como nunca pensei que fosse possível. Mas também nunca pensei que as forças de extrema direita na Europa teriam a visibilidade e o crescimento que têm. É um momento de lutas para os movimentos de esquerda, por isso seria importante aumentar a unidade, deixando o sectarismo e o dogmatismo de lado. Temos que unir as forças de esquerda, não de uma maneira eclética, mas com programas concretos.
Como foi a experiência portuguesa, que é uma experiência de êxito: o único país governado pela esquerda na Europa, com uma agenda antineoliberal, que já repôs salários, rendimentos e pensões aos portugueses, pôs fim às privatizações e mostrou que o neoliberalismo é uma mentira. Porque, como temos no Brasil, não cria emprego e crescimento econômico. Portugal tem um dos níveis mais baixos de desemprego e é o que mais cresce, neste momento, na União Europeia. As forças conservadoras sabem que há alternativas, mas fazem de tudo para liquidá-las.
E querem liquidar nas mais diferentes frentes. O que aconteceu com a criminalização da exposição de cultura gay e QueerMuseu em Porto Alegre [fechada após protestos e pedidos de censura de movimentos ultraconservadores e milícias digitais] mostra muito bem até onde eles podem ir. E temos no Brasil uma comunidade artística extremamente criativa, livre e irreverente e mundialmente conhecida. É um momento difícil, mas penso que não terá lastro na sociedade por muito tempo.

Futebol nas mãos da Globo: propina não é único problema

21 de novembro de 2017

Escândalo reforça a urgência de democratizar o futebol e a mídia.

André Pasti e Iago Vernek, via Intervozes em 17/11/2017

As últimas semanas do departamento jurídico do principal conglomerado de comunicação brasileiro, o Grupo Globo, não devem ter sido das mais fáceis. Primeiro, o afastamento de William Waack, âncora de um dos principais jornais da emissora, devido ao vazamento de vídeos que mostram o jornalista tendo atitudes racistas. Agora, os dirigentes do grupo Globo viram a acusação de que a empresa pagou propina para adquirir direitos de transmissão de futebol virar manchete em jornais do mundo todo.

O grupo foi acusado por Alejandro Burzaco, ex-executivo da empresa Torneos y Competencias (TyC), no escândalo de corrupção da Fifa em investigação nos Estados Unidos. Além da Globo, outros gigantes da comunicação como a estadunidense Fox e a mexicana Televisa foram citados em suas denúncias. Burzaco só poupou o grupo Clarín, sócio da TyC, nessas delações.

A notícia parece ter atingido a Globo, que negou tudo e apresentou uma defesa através de comunicado oficial, relatado por 6 minutos em pleno Jornal Nacional, além de cobertura diária do caso. O irônico é que a empresa tem colocado em pauta, de forma seletiva e hipócrita, a “corrupção” como problema central do Brasil e assumido delações como provas de envolvimento em corrupção.

Mas, para além da hipocrisia do grupo, o caso traz pistas sobre a capacidade de a Globo intervir politicamente nos rumos do futebol. Entender o papel do monopólio da Globo e dos grandes conglomerados envolvidos nesse escândalo no funcionamento do nosso futebol é fundamental para pensar outras formas de organizar o esporte e sua relação com a mídia.

Os “rolos” no negócio midiático do futebol
O esquema de propinas que Burzaco afirma existir seria a ponta do iceberg de irregularidades e pactos políticos que sustentaram o poder das empresas de mídia no futebol.

Os direitos de transmissão de futebol correspondentes aos torneios nacionais e à seleção brasileira são controlados pela CBF. Há trinta anos a Globo vence a concorrência e detém os direitos televisivos do campeonato brasileiro, apesar das constantes ofensivas das outras redes de televisão.

O negócio da transmissão de futebol é muito lucrativo: apenas as receitas publicitárias da empresa com a transmissão do Campeonato Brasileiro de 2017 foram da ordem de R$1,8 bilhão, enquanto o repasse anual aos clubes pelo direito de transmissão é de R$1,3 bilhão. Esse repasse é uma das principais formas de financiamento dos clubes. Ele reproduz e amplia as desigualdades no futebol nacional: mais da metade do montante total foi distribuída aos “quatro grandes” do Rio de Janeiro e de São Paulo, sendo que Flamengo e Corinthians obtiveram R$170 milhões cada.

Nos jogos da seleção brasileira, a Globo mantém o monopólio de exibição há mais de duas décadas. Para se ter uma ideia da vantagem desse monopólio, os ganhos da empresa no ano de 2014, com a Copa do Mundo, subiram 8% em publicidade, fechando um faturamento líquido anual de R$12,4 bilhões. Globo e CBF já firmaram um novo acordo de transmissão exclusiva dos jogos da seleção até 2022, em TV aberta, fechada e pay-per-view.

O controle do grupo Globo das transmissões do futebol nacional está sendo investigado pelo órgão brasileiro antimonopólio, o Cade. Outros grupos de mídia acusam diversos problemas com o modelo atual dos direitos de transmissão, que privilegia a Globo.

Parte dos privilégios da Globo são explicados pela ausência de uma regulação que impeça os monopólios da mídia no país. Essa lacuna possibilitou à Globo o controle da propriedade cruzada de meios de comunicação, de vários tipos de mídia: o grupo é dono da principal rede da TV aberta, de mais de 30 canais na TV paga (incluindo os canais SporTV), de duas das principais redes de rádio nacionais, jornais, revistas e dezenas de outros veículos de mídia, como mostra o Monitoramento da Propriedade da Mídia.

Os vínculos do grupo com o escândalo são muitos: além da proximidade da Globo com as federações estaduais e a CBF – envolvida de forma inegável nos escândalos de corrupção da Fifa –, o grupo também garantiu muitos dos acordos de transmissão por parcerias com cartolas dos clubes, alguns deles ocupando cargos políticos. A empresa Traffic, também denunciada no escândalo da Fifa, é de um sócio do grupo, dono da afiliada da rede Globo TV Tem, da região de Sorocaba (SP).

A situação dos direitos de transmissão e as acusações de corrupção por parte de grupos de comunicação, instituições nacionais e supranacionais do futebol, expõem uma estrutura política corrompida, um mercado de mídia concentrado e um tratamento do futebol e da comunicação apenas como mercadorias. Quem perde com isso é o torcedor e o futebol em geral.

Prejuízos vão muito além das propinas
O que está vindo à tona sobre o futebol e a mídia revela prejuízos maiores do que possíveis propinas. A monopolização da transmissão, a ausência de uma regulação que defenda o interesse público e a falta de participação da sociedade e dos diversos agentes envolvidos nas decisões vêm trazendo inúmeros problemas.

Como já apontamos aqui, há estados brasileiros que não assistem na televisão seus campeonatos estaduais, mas o do Rio de Janeiro. Além de invisibilizar o futebol regional, essa situação inviabiliza financeiramente os clubes dessas regiões. A concentração geográfica da veiculação de conteúdos faz com que os clubes do sudeste e sul, além de receberem as maiores cotas televisivas, tenham maior tempo de exposição. Assim, eles conseguem maiores receitas de patrocínio e renda. Pior para os clubes e jornais regionais, que se veem cada vez mais enfraquecidos em um modelo que amplia as desigualdades.

A Globo, em parceria com os cartolas e as federações, estabelece o calendário do esporte e os horários dos jogos. Ambos são duramente criticados. Jogadores e profissionais ligados ao futebol criticam o calendário, absurdamente extenso, que obriga jogadores e outros profissionais a uma rotina exaustiva de trabalho.

Já o horário é alvo de campanhas como “Jogo 10 da Noite, NÃO!” (do Coletivo Futebol, Mídia e Democracia), pois torcedores trabalhadores são muito prejudicados com os jogos às dez da noite, após a novela. O horário definido pela Globo prejudica os trabalhadores que não conseguem transporte público para retornar a suas casas, ou chegam no meio da madrugada.

Outro modelo é possível?
Apesar de o grupo Globo estar se adaptando às novidades do mercado de mídia e ser um dos maiores conglomerados midiáticos globais, algumas mudanças no mercado possibilitaram a muitos torcedores ter esperanças do fim no monopólio das transmissões. O avanço de empresas internacionais como Facebook, Google e Netflix, que já realizam experiências de transmissão de jogos, poderia trazer novidades ao mercado de transmissões.

Entretanto, um possível cenário de “transferência” de um monopólio a outro manteria a concentração da mídia e os problemas decorrentes, com grupos ainda maiores, que concentram poder de comunicação em nível internacional. Não é essa a solução para o problema.

As poucas experiências recentes de rompimento do monopólio de transmissão pela Globo se deram na TV por assinatura, com a participação de outros gigantes da comunicação global. Em 2011, a empresa americana Fox Sports conquistou os direitos de transmissão da Copa Libertadores da América e Copa Sul-Americana em TV fechada.

Mais agressiva que a atuação do canal da Fox, foi a do Esporte Interativo (EI), canal esportivo de propriedade da americana Turner Broadcasting System, que por sua vez é de propriedade do conglomerado global Time Warner. Além de conquistar os direitos de transmissão da Copa dos Campeões da Europa, o EI negociou, no início de 2016, altas “luvas” com 15 clubes do Campeonato Brasileiro, sendo sete da Série A, para a transmissão dos jogos em TV fechada, entre 2019 e 2024. O processo ainda está em andamento.

Experiências como a democratização das transmissões de futebol na Argentina nos mostram que é possível pensarmos em outro modelo, benéfico aos clubes, torcedores e profissionais do esporte. Lá, reconheceram o futebol como um dos patrimônios culturais do país, ampliaram as transmissões na TV, rádio e online e redistribuíram as verbas, garantindo mais competitividade ao campeonato nacional.

No Brasil, é preciso associar o fim do monopólio das transmissões com mais democracia na organização do futebol. Clubes dos mais diversos lugares do país, jogadores e torcedores hoje não participam efetivamente das decisões do futebol – enquanto a Globo controla horário, calendário e verbas. A diversidade regional não está presente nas transmissões futebolísticas e o futebol feminino segue sendo invisibilizado.

São muitos os coletivos e organizações de futebol discutindo e pautando outro futebol no país, com democracia dentro e fora dos estádios. Para citar alguns: Movimento Agir – Arquibancada Ampla, Geral e Irrestrita, Coletivo Futebol, Mídia e Democracia, Respeito Futebol Clube, Dibradoras, Rede Brasileira de Futebol e Cultura e muitos grupos de torcedores organizados.

As relações dos grupos de mídia com cartolas corruptos e um comando autoritário do futebol revelam a urgência da democratização do futebol e da mídia. Outro modelo é possível, e sua elaboração deve partir de uma grande diversidade de vozes.

André Pasti integra o Conselho Diretor do Coletivo Intervozes e é torcedor do São Paulo F.C. Iago Vernek é professor e também são-paulino.

Luis Nassif: MPF e Lava-Jato vão ter coragem de peitar a Globo no caso das propinas da Fifa?

21 de novembro de 2017

XADREZ DO CBF, FIFA E A GLOBO FAZ A DIFERENÇA NA JUSTIÇA
Luis Nassif em 17/11/2017

PEÇA 1 – AS RELAÇÕES HISTÓRICAS COM O MPF
Antes da Lava-Jato e das jornadas de junho de 2013, já havia um acordo tácito entre a imprensa – Globo à frente – e procuradores.

Matérias penais sempre renderam leitura e audiência. A mídia ia atrás dos escândalos investigados, selecionava alguns e lhes dava visibilidade. Sua participação era duplamente vantajosa para o procurador contemplado. Dando visibilidade ao processo, reduzia as resistências dos juízes. E elevava o procurador, ainda que provisoriamente, ao status de celebridade.

Cunhou-se uma expressão no MPF: só vai para frente processos que a mídia bate bumbo.

Nas décadas 1990 e 2000, a parceria produziu vários episódios de repercussão e algumas injustiças flagrantes, como o episódio do hoje desembargador Ali Mazloum.

No início do Twitter, era notável a quantidade de procuradores que colocava no perfil uma foto com um microfone da Globonews, como sinal de status, confirmando o extraordinário poder de persuasão dos holofotes da mídia.

Com o tempo, essa parceria foi institucionalizada.

Gradativamente, o uso do cachimbo passou a entortar a boca do MPF. Ao se preocupar em atender às demandas da mídia, o treinamento ia amoldando sua forma de atuação àquilo que fosse mais atraente para os jornais. Um número cada vez maior de procuradores passou a buscar o endosso da mídia para seus processos.

Essa aproximação se ampliou com o endosso da Globo a prêmios como o Innovare – por si, uma iniciativa relevante – e “Faz a Diferença” – uma tentativa canhestra, provinciana (e eficiente) de cooptar pessoas através da lisonja.

No “mensalão” a parceria se consolidou.

O MPF descobre que, dando foco na aliança com a mídia, poderia passar do estágio das cooperações pontuais para uma parceria capaz de torna-lo um poder de fato, fugindo das limitações nem sempre legítimas impostas pelo Judiciário e Executivo.

Mundialmente, já estava em andamento a crise das instituições, atropeladas pela nova ordem midiática, com a velha mídia ou através das redes sociais.

A manipulação não veio de jovens procuradores deslumbrados, mas do cerne da organização.

As figuras referenciais do MPF, aliás, nos devem explicações sobre essa primeira incursão no ativismo político, que se baseou em falsificação de provas – o tal desvio da Visanet que nunca houve – para tentar derrubar o governo.

Essa falsificação passou por dois PGRs – Antônio Fernando de Souza e Roberto Gurgel –, um ex-procurador – Joaquim Barbosa – e um grupo de procuradores de ponta atuando nos grupos de trabalho.

Barbosa escandalizou-se com os abusos do impeachment. Mas cabe a ele o duvidoso mérito de ter inaugurado a manipulação dos processos para fins políticos e de autopromoção.

A trajetória do Procurador Geral Antônio Fernando de Souza, aposentando-se e ganhando um megacontrato da Brasil Telecom de Daniel Dantas – a quem ele poupou na denúncia –, sem nenhuma reação da corporação, já era um indício veemente de que alguma coisa estranha ocorria no âmbito do MPF. Tudo pelo poder passou a ser a bandeira.

O clima de catarse, proporcionado pela aliança com a mídia, contra um alvo fixo – o governo do PT – abriu um leque de possibilidades inéditas para a corporação. Gradativamente trocou a velha senhora, a Constituição, pelo deslumbramento com o novo mundo que se abria, ofertado pelo Mefistófeles do Jardim Botânico.

Quando eclodiram os movimentos de rua de junho de 2013, a parceria foi formalizada. A Globo montou uma campanha contra a PEC 37 – que ninguém sabia direito o que era, mas sabia que era de interesse do MPF. Quando veio a Lava-Jato, assumiu as redes da corporação.

PEÇA 2 – O NOVO PADRÃO DE PARCERIA
Com a Lava-Jato consolida-se definitivamente o novo padrão de parceria. E o MPF se torna um instrumento da Globo, conduzido pela cenoura e o chicote. Bastava dar foco nas investigações de seu interesse, e jogar no limbo as investigações que não interessavam, para tornar o MPF um instrumento dócil de seus objetivos políticos.

O caso Rodrigo De Grandis é exemplar. Há indícios veementes de que o atraso na liberação de provas para o MP suíço visou blindar políticos paulistas envolvidos com os escândalos da Alstom.

Cobrado pelos suíços, o Ministério da Justiça solicitou diversas vezes os documentos, o que afasta definitivamente a hipótese de que a não entrega foi fruto de um esquecimento pontual da parte dele. Bastou a mídia tirar foco das investigações para o procurador ser inocentado.

A parceria consolidou-se com um padrão cômodo de acolhimento de denúncias por parte do MPF. Só é aceito como denúncia o que parte dos seus aliados da mídia. Denúncias de outras fontes, ainda que bem fundamentadas, são ignoradas.

Esse mesmo padrão viciado – embora menos óbvio – ocorreu com grupos jornalísticos de outros países. A ponto de os grandes escândalos recentes – do assédio sexual em Hollywood aos escândalos dos grupos de mídia com a Fifa – serem levantados por sites alternativos, como o BuzzFeed e Intercept, bancado por bilionários do setor de tecnologia visando quebrar os tabus na cobertura da mídia tradicional.

No Brasil, essa estratégia, de só aceitar denúncias vindas da velha mídia, gerou o estilo viciado de investigações, com todo o sistema de investigação subordinado ao que é acordado pela Globo com o MPF e, subsidiariamente, com a Polícia Federal.

A maior prova dessa parceria foi a mudança da linha de cobertura do Jornal Nacional.

Dia após dia, passou a ser dominada pela cobertura policial-jurídica, de difícil compreensão pelo público mais amplo, mas essencial para o controle e direcionamento das ações do MPF.

Sacrificou-se a audiência em favor de um protagonismo político explícito, investindo na parceria com o MPF.

PEÇA 3 – AS INTERFERÊNCIAS DIRETAS
O episódio da delação da JBS foi o corolário dessa atuação. Ocorreu dias depois do Ministério Público espanhol denunciar Ricardo Teixeira por corrupção na venda dos direitos de transmissão da Copa Brasil – da qual a única compradora foi a Globo.

Ou seja, um escândalo brasileiro, com personagens brasileiros, ocorrido em território brasileiro, e desvendado pelo Ministério Público espanhol. Outra parte do escândalo levantado pelo FBI. Uma terceira parte pelo Ministério Público suíço. E nada pelo Ministério Público Federal do Brasil.

Poucos dias antes, vazou a informação de que o Ministério Público espanhol tinha levantado a prova decisiva da corrupção da Globo: a compra dos direitos de transmissão da Copa Brasil, sem o uso de “laranjas”. Três pessoas sabiam disso na Globo: João Roberto Marinho, Ali Kamel e o vice-presidente de Relações Institucionais.

A saída foi o pacto de sangue com o procurador-geral da República, dando endosso total à delação da JBS, levando a Globo a romper com a organização criminosa que ela levou ao poder.

No mesmo dia da conversa, o material foi encaminhado para o colunista Lauro Jardim. E à noite recebeu cobertura intensa e desorganizada, porque improvisada, do Jornal Nacional.

Quando teve início a campanha para a eleição da lista tríplice, dos candidatos a PGR, a Globo atuou como cabo eleitoral explícito de Rodrigo Janot, sendo cúmplice em várias armações contra Raquel Dodge. Como na reunião do Conselho Superior do Ministério Público, na qual Janot se baseou em interpretações falsas para acusar Dodge de pretender prejudicar a Lava-Jato. E a manipulação foi endossada nas publicações da Globo.

PEÇA 4 – A ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA
Têm-se, portanto, um poder de Estado sendo conduzido por uma organização privada, a Globo. Aí se entra em um terreno pantanoso: como se comporta essa organização na sua atividade corporativa?

É importante a diferença entre as palavras e os atos.

O gráfico abaixo foi produzido pelo relatório alternativo da CPI do Futebol, uma das muitas CPIs que apontavam explicitamente o envolvimento da Globo na corrupção esportiva. E que não deram em nada.

Ele se refere à quinta forma de corrupção na Fifa e na CBF, onde o ponto central, de onde fluíam os recursos para toda a cadeira criminosa, eram os patrocínios adquiridos pelas emissoras de TV.

Têm-se aí todos os ingredientes de uma associação criminosa. Conforme descrito pela CPI:

O núcleo diretivo da CBF está conformado nos seus principais dirigentes (presidente, vice-presidentes e diretores) que, com unidade de desígnios, executam planos criminosos, objetivando o enriquecimento ilícito.
O núcleo empresarial está assentado nas empresas contratualmente ajustadas com a entidade nos acordos comerciais, com combinação de preços para pagamento de vantagens indevidas.
O núcleo financeiro comporta determinadas empresas responsáveis pela transferência dos ativos ilícitos aos dirigentes e funcionários da CBF, além daquelas interpostas nos acordos comerciais celebrados entre a CBF e as contratadas (núcleo empresarial), cabendo as postadas de permeio o repasse de parte das comissões ao núcleo diretivo, como forma de propinas.
O esquema montado pela organização criminosa extremamente sofisticado e de difícil elucidação. Por isso, a atuação do FBI na prisão do ex-presidente JOSÉ MARIA MARIN, na Suíça, por crimes relacionados ao Fifa CASE, mesmo caso em que RICARDO TERRA TEIXEIRA, MARCO POLO DEL NERO e outros brasileiros foram denunciados pelo Departamento de Justiça americano.

O papel da Globo não foi apenas o de provedora inicial dos recursos distribuídos pelas diversas peças da engrenagem criminosa. Foi fundamental também para a blindagem política de Ricardo Teixeira.

Na CPI da Nike, em 2001, o Senado Federal levantou 13 imputações de crime a Teixeira. Nada resultou no âmbito do Ministério Público Federal. Houve outras CPIs, outras descobertas retumbantes, enterradas sob o silêncio do MPF e da mídia.

Houve apenas um início de investigação, que parou em uma juíza da 1a instância.

PEÇA 5 – A HORA DA VERDADE
Dia desses saiu a notícia, sem muito alarde, de que o ex-procurador Marcelo Miller vibrou quando a Lava-Jato chegou em Aécio Neves. Miller não era um petista, longe disso; nem um anti-aecista. Mas estava nítido, para parte relevante da corporação, que a blindagem de Aécio tornava o MPF uma instituição de segunda categoria, porque restrita a um espaço delimitado.

Pelas redes sociais foi visível o alívio de procuradores, tirando de si (na opinião deles) a carga de terem espaço para agir apenas contra o PT.

Agora, se chegou à hora da verdade em relação à Globo.

As evidências de crime são enormes, e não apenas na confissão do lobista Alejandro Burzaco, à corte de Nova Iorque. Há os inquéritos na Espanha, batendo direto na Copa Brasil. Há as investigações na Suíça.

E há uma nova procuradora-geral da República, Raquel Dodge, no maior desafio que um PGR enfrentou, provavelmente desde a Constituição: provar que o MPF é um poder de Estado de fato, e que não existem intocáveis na República.

São tão abundantes as informações que jorram do exterior, que não será possível esconder o fato debaixo do tapete, como foi feito em outros tempos com tantos inquéritos.

Do desafio de investigar a Globo se saberá se o MPF se assumirá como poder de Estado, ou se continuará atrelado a uma organização criminosa.

Correção
1) A mídia training do MPF não visa provocar manchetes, mas ensinar como se portar frente ao jornalista.
2) É claro que as regras, acima, não se aplicam a todos os procuradores, mas especificamente à área penal.
3) Tenho, no meu círculo pessoal, procuradores que discordam das interpretações acima. Talvez pela dificuldade em separar o trabalho meritório de muitos deles, com as tendências políticas que levaram o MPF a ser agente central do impeachment.

***

LEANDRO FORTES: A HORA DA GLOBO
Leandro Fortes em 18/11/2017

Não vejo Jornal Nacional por recomendação médica, mas fui ver o VT da edição recente, sobre o escândalo da Fifa.

É pânico em estado puro.

Sem nenhum outro argumento, o JN anunciou, em quatro oportunidades, num jogral constrangido de seus apresentadores, que uma “investigação interna” nada encontrou que corroborasse a denúncia de pagamento de propina feita, nos Estados Unidos, pelo empresário argentino Alejandro Burzaco.

“Investigação interna” é, obviamente, uma fantasia ridícula pensada às pressas para ser colocada no Jornal Nacional, uma vez que a outra alternativa – não falar sobre o assunto – deixou de ser viável, por causa das redes sociais.

Qualquer mentecapto, mesmo entre os que veem o JN todo dia, percebeu que nunca houve investigação interna nenhuma, mas a construção de uma desculpa esfarrapada para segurar as pontas enquanto a turma decide como sair dessa enrascada com a cabeça em cima do pescoço.

Explica-se: o crime de perjúrio, nos Estados Unidos, é gravíssimo, e o processo de delação, ao contrário do que ocorre na República de Curitiba, existe para gerar consequências práticas dentro do processo legal. Em suma, o Judiciário norte-americano não usa a delação para fustigar inimigos, mas para produzir provas.

Burzaco não iria acusar a Globo e outra meia dúzia de ultrapoderosos grupos internacionais de mídia se não tivesse como provar o que está dizendo.

E como a Globo não tem como amansar juízes dos EUA com diáfanas premiações do tipo faz-a-diferença, é certo que, pela primeira vez na vida, os Marinho correm um risco real de se dar mal.

A conferir.

Governo Temer, na contramão do bom senso, recebe o prêmio “Fóssil do Dia” na COP23

21 de novembro de 2017

Subsídios multibilionários aos combustíveis fósseis rendem ao Brasil o prêmio “Fóssil do Dia” na COP23.

Sílvia Dias, via Neo Mondo em 16/11/2017

O prêmio mais tradicional das Conferências da ONU sobre Mudanças Climáticas, o “Fóssil do Dia”, está indo para o Brasil. Não por causa dos seus negociadores, mas por causa do presidente. De acordo com o grande grupo de ONGs ambientais que selecionam os vencedores do prêmio – uma brincadeira para sinalizar aqueles que tornam as negociações climáticas mais difíceis – o Fóssil de hoje vai ao Brasil por causa da Medida Provisória enviada por Temer ao Congresso que pode dar às empresas de petróleo US$300 bilhões em subsídios para perfurar suas reservas offshore.

O “Fóssil do Dia” é uma tradição das negociações climáticas que teve início em 1999 – quando a COP também foi realizada em Bonn, na Alemanha. A premiação foi iniciada pela NGO alemã Forum e é conduzido pela Climate Action Network (CAN): seus membros elegem os países que julgaram ter feito o seu “melhor” para bloquear o progresso nas negociações ou na implementação do Acordo de Paris durante as negociações das Nações Unidas sobre mudanças climáticas.

Veja abaixo a declaração lida pelas ONGs ao premiar o Brasil com o prêmio fóssil:

BRASIL ACOMETIDO PELA FEBRE DO PETRÓLEO
O Fóssil para hoje (quarta 15/11) vai para o Brasil, por propor um projeto de lei que poderia dar às companhias de petróleo US$300 bilhões em subsídios para perfurar suas reservas offshore.
Você ouviu isso certo, US$300 bilhões.
Pensemos sobre isso por um minuto – é aproximadamente o valor de uma Torre Eiffel ou seis torres de Londres. Basicamente, uma quantidade insana de dinheiro. Também é cerca de 360 vezes mais do que o mundo inteiro fornece em apoio anual para financiamento de resiliência climática e desastre nos Pequenos Estados insulares em desenvolvimento, destacando como os fluxos de financiamento do clima atual são diferentes em comparação com os subsídios maciços de combustíveis fósseis.
O Brasil, o gigante verde sul-americano, a terra dos biocombustíveis sustentáveis e o orgulhoso portador de uma mistura de energia com baixa emissão de carbono, é a mais nova vítima da febre do petróleo.
Uma Medida Provisória enviada ao Congresso pelo presidente Michel Temer, que pode ser votada nas próximas semanas, abre o país a um frenesi do petróleo, dando às empresas um pacote de isenções fiscais que podem ascender a US$300 trilhões nos próximos 25 anos. O ministro do Meio Ambiente do Brasil chamou o projeto de lei “inaceitável”.
A taxa de aprovação pública da Temer é de 3%, aproximadamente a mesma que a margem de erro das pesquisas. Mas certamente, as grandes empresas de petróleo têm uma opinião sobre ele melhor do que os eleitores brasileiros.
O objetivo da medida é acelerar o desenvolvimento da camada de pré-sal ultraprofunda, uma reserva do petróleo offshore que se pensa conter 176 bilhões de barris recuperáveis. Se esse óleo fosse queimado, o Brasil sozinho consumiria 18% do orçamento de carbono restante por 1,5 graus, acabando com nossas chances de afastar o mundo de uma catástrofe climática.
O engraçado é que o governo brasileiro parece estar totalmente ciente de que está cometendo uma falta. Como um funcionário do governo disse com franqueza, “o mundo está indo em direção a uma economia de baixo carbono. Haverá petróleo no chão, e esperamos que não seja nosso”.
O cinismo flagrante da administração Temer está em contraste com a posição bastante progressiva tomada pela delegação brasileira em Fiji-em-Bonn. Enquanto os diplomatas aqui pedem biocombustíveis como uma solução climática e pressionam para a ambição pré-2020, de volta para casa, a atitude é “drill, baby, drill!”.
Brasil, você faz uma cara boa, mas abaixo daquela camada de tinta verde encontra-se uma petrocracia em construção. É hora de levar subsídios absurdos e destiná-los a um melhor uso, mais verde.

GREENPEACE
Projeto irresponsável do governo Temer de conceder R$1 trilhão em subsídios à indústria do petróleo deu o “prêmio” ao país.

Nesta quarta-feira (15/11), dia em que celebra a Proclamação da República, o Brasil passou por um novo vexame internacional ao receber o “Fóssil do Dia”, na Conferência do Clima da ONU em Bonn, na Alemanha. O motivo foi a Medida Provisória do governo Temer de conceder à indústria do petróleo um trilhão de reais para incentivar a exploração do pré-sal. O consumo dessas reservas aniquilaria a meta de limitar o aquecimento do planeta a 1,5°C.

A MP do trilhão, como está sendo chamada, aguarda aprovação na Câmara dos Deputados, mas expõe a contradição do governo em pregar por mais ambição no combate às mudanças climáticas ao mesmo tempo em que busca incentivar a indústria atrasada do petróleo, além de promover diversos retrocessos ambientais.

“Para as negociações do clima, o Brasil é um país decisivo. Porém, para o presidente Temer, os problemas climáticos parecem ser dispensáveis. A MP 795 nos coloca na contramão do que o mundo precisa. As mudanças no clima atingirão principalmente os mais necessitados, por isso são necessárias ações urgentes e ambiciosas. Porém, sabemos que não temos um presidente à altura de tais atos”, afirma Márcio Astrini, coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace.

O prêmio “Fóssil do Dia”, uma iniciativa da Climate Action Network, é entregue diariamente por organizações da sociedade civil na COP como forma de denunciar os países que menos contribuíram para o progresso das negociações e mais se afastaram do cumprimento das metas para conter o aquecimento global.


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