Archive for the ‘Internacional’ Category

Quem está por trás da chegada da CNN ao Brasil?

17 de janeiro de 2019

Sobrinho do bispo Edir Macedo, dono da Record, e empresário mineiro estão liderando projeto para licenciar marca de TV.

Rute Pina, via Brasil de Fato em 15/1/2019

A chegada do canal de televisão CNN ao Brasil foi divulgada na última segunda-feira [14/1]. Sobrinho do bispo Edir Macedo, o jornalista Douglas Tavolaro, e o segundo empresário que mais investiu nas últimas eleições, Rubens Menin, encabeçam o projeto.

O canal estadunidense, no entanto, não vai operar no Brasil. A negociação para trazer a marca CNN para o país ocorreu por meio de um licenciamento com a Turner International, responsável pelas operações da CNN fora dos EUA.

Douglas Tavolaro: o CEO sobrinho de Edir Macedo
O CEO da CNN Brasil será o jornalista Douglas Tavolaro, que foi vice-presidente da TV Record por 14 anos. Ele é coautor da biografia de Edir Macedo – seu tio, líder da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da emissora.

A Record, segundo canal de televisão mais assistido no país, alinhou-se editorialmente ao novo governo e foi a escolhida por Jair Bolsonaro (PSL) para a primeira entrevista exclusiva após a divulgação do resultado das eleições.

Em outubro, durante o pleito presidencial, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) denunciou a pressão e assédio moral da direção da emissora para que o noticiário beneficiasse Bolsonaro em detrimento do candidato Fernando Haddad (PT). Tavolaro estava na vice-presidência do setor de jornalismo no período.

Paulo Zocchi, presidente do SJSP, afirma que houve “manipulação aberta” do noticiário para favorecer o então candidato do PSL, poucos dias após Edir Macedo anunciar apoio público a Bolsonaro.

“Órgãos de comunicação eventualmente podem ter posição política, editorialmente falando. Na nossa opinião, nada mais claro e razoável que tomem mesmo porque, assim, a posição do órgão fica explícita”, defende Zocchi. “Mas o fato é que a Record passou a adotar um posicionamento em que o noticiário passou a ter um viés consagrado a apoiar Bolsonaro e criticar os demais candidatos.”

“Na home do Portal R7, nesse período, tinha um padrão que eram quatro matérias de destaque: duas favoráveis ao Bolsonaro e duas críticas ao Haddad. Esse era o padrão”, lembra o sindicalista.

Segundo Zocchi, que apurou as denúncias pelo sindicato, a orientação vinha das chefias da empresa. “Isso foi uma posição, eu entendo, feita diretamente pelos donos da empresa, mas evidentemente o Douglas [Tavolaro] tinha responsabilidade nisso, na medida em que ele era o diretor editorial”, pontua.

Como presidente do sindicato, Zocchi comemora a contratação de novos profissionais pela CNN Brasil em um momento crítico para o mercado. Estima-se que 400 jornalistas integrem a equipe do canal. “A gente espera que todos sejam contratados regularmente e que eles sigam a lei trabalhista. E, pelo sindicato, vamos representar as pessoas e defender direitos.”

Além de escrever a biografia de Edir Macedo, Tavolaro também assina a produção executiva do filme Os Dez Mandamentos, versão cinematográfica da novela produzida pela TV Record. Em abril de 2016, o longa-metragem se tornou o filme nacional com mais ingressos vendidos desde 1970, quando a Embrafilme começou a medir a bilheteria do cinema nacional. Mas muitas sessões aconteceram com salas vazias, fato atribuído às vendas coletivas para igrejas.

No meio jornalístico, a saída de Tavolaro para a CNN Brasil foi recebida com surpresa, já que ele era cotado para assumir a presidência da Record.

Rubens Menin: O conselheiro investidor
O anúncio da chegada da CNN Brasil foi feito pelo empresário Rubens Menin pelo Twitter. Ele fará parte do Conselho Administrativo e será investidor do canal.

Menin está à frente da MRV Engenharia, que patrocinou o filme Nada a Perder, biografia de Edir Macedo baseado no livro de Tavolaro.

Além de financiar filmes, o líder da construtora mineira MRV Engenharia foi o sexto empresário que mais injetou dinheiro em candidaturas nas eleições 2018. A construtora investiu mais de R$2,6 milhões na campanha de 23 candidatos que concorriam aos poderes Legislativo e Executivo. Os dois candidatos que mais receberam doações foram Aguinaldo Ribeiro (PP/PB) e Bruno Araújo (PSDB/PE). Ribeiro foi eleito como deputado federal.

Sócios e familiares de Menin também doaram para campanhas políticas nas últimas eleições. Sua filha, Maria Fernandes Menin, doou R$300 mil para o ex-governador de Minas Gerais, Antônio Anastasia (PSDB), que se candidatou ao cargo de senador, mas não foi eleito.

Trabalho escravo
Menin foi atuante em tentativas do meio empresarial para barrar a chamada “lista suja” do trabalho escravo. A MRV Engenharia foi flagrada cinco vezes, entre 2011 e 2014, por explorar mão de obra escrava. Segundo a Repórter Brasil, foram 203 trabalhadores resgatados em quatro anos em construções ligadas à empresa.

No final de 2014, a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) conseguiu suspender no Supremo Tribunal Federal (STF) a publicação da lista. Menin era o presidente da entidade, na época.

Além da MRV, a família Menin controla o Banco Inter e a Log Commercial Properties.

O que é a CNN
A Cable News Network (CNN) é um canal de televisão criado em 1980 que tem sede em Atlanta, nos EUA. É conhecido por sua cobertura de notícias breaking news, ou seja, factual e 24 horas.

Nos EUA, a CNN tem feito uma cobertura crítica ao governo do republicano Donald Trump.

A Turner International é dona da marca para operações fora do país. Ela atua no Brasil e é afiliada da AT&T, que, por sua vez, comanda a SKY no Brasil, o que pode ser um entrave, já que a legislação brasileira não permite que transmissores também tenham canal a cabo.

Aqui, a Turner era responsável pelo canal Esporte Interativo que, em 2018, foi extinto e cerca de 250 profissionais foram demitidos.

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Presença na posse de Nicolas Maduro rejuvenesce o PT

17 de janeiro de 2019

Breno Altman, via A Era da Idiocracia em 15/1/2019

A ida da senadora Glesi Hoffmann a Caracas, para a inauguração do novo mandato presidencial de Nicolas Maduro, provocou polêmicas. Essa viagem seria motivo para uma “insurreição dos progressistas” contra o Partido dos Trabalhadores, nas palavras de Mathias Alencastro, em artigo publicado dia 12 de janeiro pela Folha de S.Paulo.

Para o autor, a posição adotada representaria “ponto de ruptura” com “todos os princípios que nortearam a história do partido”. Decepcionado com o PT, Alencastro reclama que a dirigente petista agravou “o distanciamento com a social-democracia europeia, unânime em sua condenação do regime de Nicolas Maduro”.

Sua crítica, porém, parte de um grave equívoco. O PT, fundado em 1980, embora crítico do modelo soviético, tem suas raízes fincadas na esquerda latino-americana, na luta democrática e anti-imperialista, na solidariedade às revoluções cubana e nicaraguense, na defesa da autodeterminação dos povos.

Jamais aceitou se inscrever no campo geopolítico liderado pelos Estados Unidos, ao contrário da maioria dos partidos sociais-democratas europeus.

“Ponto de ruptura”, portanto, seria a omissão diante do cerco a que está submetido o Estado venezuelano, sob a batuta da Casa Branca e com a cumplicidade tanto da direita continental quanto da União Europeia.

Para além das sanções econômicas, que apenas agravam os problemas da população, o rechaço a um presidente eleito e o reconhecimento da Assembleia Nacional como “governo interino” são passos de uma estratégia cujo desfecho potencial é a intervenção militar estrangeira. Possivelmente disfarçada, como de hábito, em “missão de paz” sob a bandeira da OEA.

Ao se fazer presente em Caracas, Gleisi Hoffmann reforça os fundamentos originais do petismo e denuncia a ameaça principal que paira sobre os povos do continente: a sanha dos grandes grupos capitalistas pelas riquezas naturais da região, representados pelos governos de seus países, dispostos a destroçar qualquer ordem constitucional e atropelar o direito internacional na defesa de escancarados interesses econômicos.

Subordinados à política externa dos Estados Unidos, quem se distancia da esquerda são os setores da social-democracia que abandonaram bandeiras transcendentais como o respeito à soberania das nações e a denúncia à agressão externa como instrumento de poder.

Esses mesmos setores, aliás, abraçados às ideias neoliberais e transformados em correias de transmissão das maiores corporações financeiras, atualmente fazem parte da liquefação do Estado de bem-estar social e caminham para a completa desmoralização política, a exemplo do governo Macron, abrindo espaço para a extrema direita.

Alencastro, a partir de seu eurocentrismo, enxerga renovação em uma via na qual se entulham velharia, desonra e comodismo.

Trata-se exatamente do contrário: a postura valente do PT em relação a Venezuela é que ajuda o rejuvenescimento do partido, incorporando-o cada vez mais à resistência contra a onda conservadora e neocolonial que ameaça o planeta.

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O surgimento do Cristianismo para iniciantes

17 de janeiro de 2019

Macário Carvalho Jr., via A Era da Idiocracia em 15/1/2019

1) Nunca houve um único Cristianismo, mas vários. Desde os tempos de Jesus, se seus seguidores configuravam em polos de influência: a) os “12”; b) as mulheres, entre elas Maria Madalena; e c) possivelmente outro polo seria o da família de Jesus (mãe e irmãos)

2) Os evangelhos não foram escritos pelos nomes que conhecemos, Mateus, Marcos, Lucas e João. Esses nomes foram atribuídos posteriormente aos textos que circulavam nas comunidades que, segundo a tradição, eram influenciadas por tais figuras.

3) Vários evangelhos circularam na Antiguidade e Idade Média, mas não entraram no Novo Testamento. Sobreviveram o Evangelho de Tomé, de Judas, de Maria Madalena e até o da infância de Jesus, dentre outros. Eles nos ajudam a entender no que as pessoas acreditavam naqueles tempos.

4) Maria Madalena não era prostituta. Os evangelhos sinóticos afirmam que era uma pecadora. A prostituta que quase é apedrejada em João 4 não tem seu nome mencionado, e a maioria dos estudiosos não crê que essa passagem seja histórica.

5) 33 anos (provavelmente) não é a idade de Cristo. Um dos evangelhos afirma que o ministério de Jesus começou quando ele tinha 30 anos, mas é em outro, uma fonte completamente independente, afirma a duração de três anos. Nada garante que os dois estejam corretos.

6) As cartas de Paulo são mais antigas que os Evangelhos, e preservam tradições orais pré-literárias. Por meio da rima, do estilo de outros indícios literários, é possível identificar passagens que às vezes contêm informações preciosas para o historiador

7) Jesus seus discípulos mais próximos eram provavelmente analfabetos. Nenhum deles foi chamado apóstolo enquanto Jesus exercia o ministério. A palavra apóstolo só foi utilizada para denominar os missionários das primeiras comunidades alguns anos depois da crucificação

8) Jesus e seus discípulos mais próximos falavam aramaico, mas os livros que entraram no Novo Testamento foram todos escritos em grego.

9) Há pelo menos 3 Marias nos evangelhos: Maria Madalena, Maria irmã de Marta, e a mãe de Jesus. Às vezes é preciso muita atenção para não confundi-las.

10) Além de Jesus e João Batista, houve dezenas de outros profetas que falavam sobre o fim do mundo conhecido (dominado pelos romanos). Vários deles foram condenados e mortos por sedição, ou seja, incitação à revolta. Jesus, provavelmente foi acusado desse crime.

11) O primeiro evangelho na Bíblia é Mateus, mas o primeiro escrito foi o de Marcos. Pode-se inferir datas a partir de vários indícios diferentes, um deles é a Guerra contra os romanos. Em Marcos não aparece a expectativa de uma guerra. Em Mateus, ela parece já estar acontecendo

12) A guerra aconteceu entre os anos de 66 e 73. Assim, e com auxílio de outros indícios, costuma-se datar Marcos um pouco antes do início da guerra, e Mateus em seus últimos anos

13) Mateus está cheio de referências a costumes e práticas judaicos. Durante séculos pensou-se que era um texto de comunidades judaico-cristãs. Mas, no século 20, os estudiosos se deram conta de que só faz sentido explicar termos e costumes judaicos para quem não os conhecia. Assim, hoje em dia, é mais corrente considerar que Mateus foi escrito para um público gentio, ou seja, politeístas que não conheciam bem a cultura judaica.

14) Do ponto de vista histórico, Lucas é o pior dos evangelhos, pois apesar de afirmar fazer uma investigação histórica, reúne relatos desencontrados, às vezes divergentes, ora optando por umas versões, ora por outras, às vezes tentando conciliar o impossível.

15) Marcos, Mateus e Lucas são chamados de evangelhos sinóticos, pois são semelhantes. Têm muitas passagens relatando acontecimentos em comum. Isso acontece porque um foi utilizando o outro como fonte de informações

16) Além disso, os estudiosos inferem a existência de uma outra fonte, chamada “Q” (de Quellen, fonte em alemão), que seria o material comum a Mateus e Lucas, mas ausente de Marcos.

17) João é um caso à parte. É bastante posterior aos outros evangelhos que entraram na Bíblia, cerca de 90-95. Seu autor não é o ex-discípulo de Jesus, o apóstolo João, mas provavelmente alguém que se coloca como tal para dar mais peso a seu escrito.

18) João tem uma estrutura e uma cronologia completamente diferente de Marcos, Mateus e Lucas. As tentativas de harmonizar sua cronologia com a dos sinóticos são ridículas ou simplesmente trabalhosas demais para terem credibilidade.

19) João tem poucas passagens com correspondentes nos sinóticos, e a maneira de representar Jesus é substancialmente diferente. Ainda assim, algumas passagens mais marcantes dos evangelhos vêm dele: “Jesus como verbo, a mulher que ia ser apedrejada”, por exemplo. Além disso, as declarações de Jesus sobre sua própria suposta natureza divina vêm todas de João: O caminho a verdade e a vida, o pão da vida, o da terra e a clássica João 3:16 “porque Deus amou o mundo de tal maneira…”

20) João tem características de um tratado teológico, o que nos leva a pensar que talvez seja uma tentativa de harmonizar certas visões teológicas divergentes a respeito de Jesus no interior das primeiras comunidades cristãs.

21) Na Antiguidade alguns humanos normais tornaram-se divinos ou foram reconhecidos como tendo sido divinamente concebidos ou ainda foram exaltados a uma posição sobre-humana: Rômulo, Alexandre o Grande, Júlio César e Apolônio de Tiana são exemplos desse processo.

22) No Judaísmo antigo, conforme aparece nos livros deutero-canôonicos, anjos podiam tornar-se humanos e humanos podiam ser exaltados à condição sobre-humana. Exemplos são o Anjo do Senhor, os anjos enviados a Abraão e Ló, Moisés e Elias que acendem aos céus.

23) Quando alguns começaram a sussurrar que Jesus poderia ser: a) O Filho do Homem; b) O Messias; c) um profeta; d) o rei dos judeus. Nenhuma dessas afirmações foi negada por Jesus, que deixava os boatos sobre a sua pessoa correrem livremente

24) Filho do Homem e Messias são dois títulos que costumamos relacionar com Jesus, mas no século 1 eram diferentes. O Filho do Homem seria o libertador, que traria um fim ao domínio estrangeiro, enquanto o Messias seria o novo rei colocado no poder para governar o povo judeu.

25) É nossa leitura cristã dos documentos do século 1 que nos faz identificar o Filho do Homem e o Messias à pessoa de Jesus, como se os três fossem um só. Mas uma leitura atenta dos textos mostra que não necessariamente é assim. Nos evangelhos sinóticos, Jesus fala muitas vezes do Filho do Homem como se fosse uma figura distinta de si mesmo, o que não faz com o título de Messias. Provavelmente ele acreditava que poderia ser o Messias, mas não o Filho do Homem.

26) Jesus provavelmente se considerava um humano divinamente escolhido, ou exaltado a uma posição sobre-humana, mas não Deus no sentido cristão do termo. Só quem pode pensar em Jesus dessa forma são os cristãos, e Jesus não era cristão, era judeu.

27) O Novo Testamento não foi instituído por decisão de um concílio nem pela instituição Igreja. Ele foi resultado da construção de um consenso entre diferentes comunidades ao redor do Mar Mediterrâneo, escolhendo quais escritos eram considerados mais úteis e sagrados que outros. E esse processo levou de quatro a seis séculos pelo menos.

28) Essas informações não são novas nem surpreendentes, são o que se estuda normalmente nas faculdades de teologia, tanto católicas quanto protestantes e ortodoxas. Os padres, pastores e teólogos sabem disso, mas não falam do assunto para não abalar a fé dos seguidores.

29) Algumas pessoas me perguntaram de onde tiro as minhas informações. Aqui vai:

30) As mulheres tinham papel destacado nas primeiras comunidades cristãs. Mulheres ricas ajudavam a sustentar e eram próximas de Jesus. Paulo teve várias colaboradoras mulheres a quem cumprimenta em suas cartas: Tecla e Júnia são duas delas.

31) No Novo Testamento há referências a mulheres em posições de destaque, mas ao mesmo tempo, alguns livros pregavam manter as mulheres em papéis subordinados. Assim são as chamadas epístolas pastorais, falsamente atribuídas a Paulo 1 e 2, Timóteo e Tito.

O avesso da verdade: Mundo obscuro ajudou a eleger um presidente

17 de janeiro de 2019

Henry Bugalho em 14/1/2019

“Até agora, todos os ditadores tiveram de trabalhar duro
para suprimir a verdade. Nós, por meio de nossas ações,
estamos dizendo que isto não é mais necessário […]
decidimos livremente que queremos viver num mundo pós-verdade”.

Steve Tesich, dramaturgo sérvio, 1992.

A verdade está perdendo importância na compreensão do mundo. Esse é um fenômeno de forte conteúdo político que busca impor uma narrativa que prescinde ou distorce os fatos.

Hoje, muitos youtubers direitistas veiculam uma mensagem padronizada: nas últimas décadas, estava em curso a implantação do comunismo no Brasil. Nessa teoria conspiratória, o filósofo Antônio Gramsci seria o pilar de um movimento global para destruir o capitalismo a partir das instituições educativas, políticas e culturais. Uma revolução secreta para desintegrar nossos valores tradicionais.

Nessa guerra psicológica, a agressividade de vários influenciadores não é apenas questão de estilo. É funcional, mesmo que muitos deles a adotem por imitação ou intuitivamente. Deve-se confundir o oponente, desacreditá-lo, abalar o seu moral.

A estratégia é a construção de uma narrativa pós-verdade, alheia ao conhecimento consolidado. Afinal, todos navegamos pelo mundo por meio de nossas histórias. Para aceitarmos dada interpretação da realidade, antes de tudo ela precisa fazer sentido. Uma história mentirosa coerente convence mais que uma verdade incoerente.

Esse esforço de reinvenção da interpretação da realidade está em curso. Todos os dias somos bombardeados por afirmações de ideólogos apresentando uma versão revisitada do passado e uma nova visão para o presente.

Em grande medida, as falas revisionistas de Bolsonaro, negando fatos sobre a ditadura militar ou alardeando uma “ameaça comunista”, têm origem em Olavo de Carvalho, um dos responsáveis por importar e reembalar teorias conspiratórias norte-americanas.

Originalmente vinculado a seitas esotéricas e tariqas islâmicas, ele foi consolidando, em círculos marginais sem nenhum reconhecimento acadêmico, uma reputação de filósofo conservador, negando o legado do Iluminismo, da ciência moderna e dos valores democráticos decorrentes da Revolução Francesa.

Pouco importou que seu autodidatismo e falta de critério o levassem, por exemplo, a incitar o temor de um movimento global pela legalização da pedofilia. Esse mundo obscuro foi relevante na eleição de um presidente.

Neste instante, uma guerra ocorre no ambiente virtual. De um lado, arautos da pós-verdade, alguns ocuparão cargos políticos ou ministérios. De outro, cientistas, pesquisadores, professores, historiadores e filósofos esforçando-se para preservar uma compreensão mais criteriosa da realidade.

Confrontamos agora o avesso da verdade. Este é o instante no qual profissionais que trabalham com o saber devem estar dispostos a defender o conhecimento contra as investidas do obscurantismo, e no qual agentes políticos terão de evitar a corrosão das estruturas democráticas por figuras autoritárias que habitam um mundo de ilusões conspiratórias, onde comunistas espreitam a cada esquina.

Henry Bugalho é formado em Filosofia, youtuber de temas filosóficos e contemporâneos e autor de O Rei dos Judeus e O Personagem.

Para Onyx Lorenzoni, arma em casa oferece o mesmo risco que um liquidificador

16 de janeiro de 2019

Além da comparação esdrúxula para defender o decreto, ministro-chefe da Casa Civil disse que a PF terá que acreditar na “boa-fé” do cidadão que diz que tem compartimento com tranca em casa, pré-requisito para a aquisição de uma arma de fogo.

Via Revista Fórum em 15/1/2019

Em conversa com jornalistas em Brasília na tarde de terça-feira [15/1], o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, comparou a posse de uma arma em casa à posse de um liquidificador para defender o decreto assinado mais cedo pelo presidente Jair Bolsonaro.

Para Lorenzoni, o risco que uma arma de fogo oferece às crianças é o mesmo que seria oferecido pelo eletrodoméstico.

“A gente vê criança pequena botar o dedo dentro do liquidificador e ligar o liquidificador e perder o dedinho. Então, nós vamos proibir os liquidificadores? Não. É uma questão de educação, é uma questão de orientação. No caso da arma, é a mesma coisa. Então, a gente colocou isso [a exigência de cofre] para mais uma vez alertar e proteger as crianças e os adolescentes”, disse.

A exigência do cofre para guardar a arma de fogo, no entanto, é simbólica. Além de bastar um “compartimento com tranca”, o ministro afirmou que a Polícia Federal terá que acreditar na “boa fé” do cidadão que quiser ter arma em casa, já que a PF não teria efetivo para fazer a fiscalização.

Decreto é “irresponsável”, avalia especialista
A assinatura do decreto que facilita a posse de armas de fogo no Brasil, na terça-feira [15/1], desagradou especialistas e estudiosos dos temas de segurança pública e violência. “Essa medida é irresponsável, porque vai gerar uma explosão de criminalidade no país”, avalia Isabel Figueiredo, conselheira do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

“A posição do Fórum e de outras entidades, que trabalham com essa questão, é de muita preocupação com relação à alteração no decreto que regulamenta o Estatuto do Desarmamento. A gente tem uma percepção baseada em estudos sérios de que a medida de controle de armas produzida com o Estatuto do Desarmamento foi algo muito importante para reduzir o ritmo da escalada da violência no país”, revela Isabel.

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BOULOS SOBRE ONYX LORENZONI: “PARECE QUE A SENSATEZ E O SENSO DO RIDÍCULO ENTRARAM NA LEVA DAS DEMISSÕES”
Via DCM em 16/1/2019


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