Archive for the ‘Internacional’ Category

Casuísmo paraguaio e a esquerda em Pindorama

3 de abril de 2017

Diogo Costa em 1º/4/2017

O que houve no Paraguai é que aprovaram uma emenda de reeleição – igual ao que fizeram no Brasil o FHC e o PSDB em 1997 – a toque de caixa e a portas fechadas.

Isso revoltou parte da população que partiu para o quebra-quebra contra a medida casuísta.

A medida casuísta partiu de um acordo entre a Frente Guasu e o Partido Colorado, alijando o Partido Liberal. Mas isso pouco importa pois é evidente que as regras do jogo estão sendo mudadas no meio da partida, o que deveria ser motivo de revolta em qualquer lugar do mundo (o PT e os movimentos sociais se esgoelaram de tanto denunciar – com toda a razão – a casuísta Emenda da reeleição de FHC).

Do mesmo modo que o Partido Liberal é uma espécie de “PSDB paraguaio”, é preciso dizer que o Partido Colorado, do atual presidente Horácio Cartes, é uma espécie de Arena.

Urge relembrar que o Partido Liberal ocupou a vice-presidência de Fernando Lugo e da Frente Guasu até o golpe de 2012 (quando liberais e colorados se uniram para dar o golpe).

O casuísmo na tentativa de aprovar a reeleição de Horácio Cartes é evidente e é incrível que certos setores de esquerda queiram defender este mesmo casuísmo somente por que Lugo e a Frente Guasu resolveram aderir à patranha.

Foi um casuísmo no Brasil em 1997 – corretamente denunciado – e está sendo um casuísmo também no Paraguai.

Por fim, também é bom relembrar que o Partido Colorado, com o qual Lugo e a Frente Guasu fizeram o acordão casuísta, é o partido da última e sanguinolenta ditadura militar paraguaia, comandada com mão de ferro pelo General Alfredo Stroessner durante quase 35 anos consecutivos.

Amanhã ou depois, se os golpistas brasileiros resolverem impor uma emenda casuísta – suspendendo as eleições de 2018, estendendo o mandato de Temer ou de qualquer outro até 2022 ou alijando o PT da disputa – estes setores de esquerda que não denunciam o casuísmo atual no Paraguai não terão como denunciar o mesmo aqui no Brasil.

Esse negócio de mudar as regras do jogo no meio da partida, instrumentalizando processos ao sabor de conveniências de ocasião, é uma espada apontada para a esquerda e não está com nada.

***

FOI NUM BAILE EM ASSUNCIÓN…
Diogo Costa em 1º/4/2017

Em 1997 o ex presidente FHC aprovou na surdina a emenda da reeleição – que beneficiou a si próprio e ao seu partido (PSDB).

Tudo seguiu como dantes no quartel d’Abrantes.

Hoje o povo paraguaio ocupou e ateou fogo no Congresso Nacional, além de bloquear pontes e rodovias em quase todo o país para manifestar a repulsa contra a emenda da reeleição incensada pelo atual mandatário Horácio Cartes, do Partido Colorado.

Os paraguaios mostram consciência política muito forte neste momento – também sofreram um golpe de estado em 2012 – enquanto nós outros mostramos apenas o nosso bovino caminhar.

Clique aqui para ler a matéria do El País Brasil.

Entreguismo confesso: Citibank é “conselheiro” de Temer nas privatizações

3 de abril de 2017

Fernando Brito, via Tijolaço em 28/03/2017

É ninguém menos que a BBC quem diz: o Citibank é “conselheiro informal” do governo brasileiro na privatização de empresas e reservas naturais do Brasil.

Apostando no programa de privatizações do governo brasileiro, que pretende transferir áreas de mineração e exploração de petróleo e gás (incluindo o pré-sal), usinas e empresas de energia, portos, ferrovias e outros, o banco norte-americano patrocinará um encontro entre seus principais clientes e ministros brasileiros em Nova Iorque no mês que vem. Não será a primeira vez. Em setembro do ano passado, dias depois do lançamento do pacote, o banco apresentou bilionários a Temer e aos ministros Henrique Meirelles (Fazenda) e Moreira Franco (Secretaria Geral da Presidência), que foram pessoalmente ao encontro de negócios em um hotel em Manhattan.

São negócios de bilhões que, claro, vão render gordas comissões, como admite o, diretor global de assuntos governamentais do Citigroup, Charles Johnston:

Não há nenhum contrato ou vínculo formal de cooperação entre o banco e o governo Temer. Mas a máxima dos investidores de Wall Street permanece intacta: “Não existe almoço grátis” nos Estados Unidos”. É claro que estamos aqui tentando proteger os interesses do banco”.

E para comandar a exploração desta mina, o escalado é o insuspeitíssimo Wellington Moreira Franco, o “Angorá” da lista da Odebrecht, o homem escalado por Michel Temer que “queria roubar e eu não deixei”, nas palavras de Dilma Rousseff.

Como no caso da Odebrecht, Temer já cuidou de providenciar o “jantar no Jaburu”:

Há duas semanas, após se reunir pessoalmente com Temer no Palácio do Planalto, o presidente mundial do Citigroup, Michael Corbat, distribuiu nota à imprensa afirmando que “apoia as medidas de ajuste fiscal” e que “o Brasil é um mercado muito relevante” para o banco.

Será que também teve, em seguida, a “conversa na varanda” como a que relatou o delator da Odebrecht?

O Citibank se derrama em elogio aos cortes dos gastos da saúde, da educação, à perda de direitos trabalhista e à “aposentadoria no Dia de São Nunca” e, não à toa, considera Temer “um dos melhores políticos do Brasil”.

Os desmentidos do governo acabam sendo a confissão da parceria imoral: o secretário de articulação para investimentos de Temer, Marcelo Allain, diz que “o Citibank não é nenhum conselheiro formal do governo porque não poderia ser, mas que pede que ele que “organizem ou apresentem clientes que tenham interesse no Brasil”.

“Nesse papel, eu acho que de fato o Citi está ajudando bastante”, diz ele.

Não há dúvidas, não há dúvidas. Ajudando em todos os sentidos, menos o do interesse do Brasil. Sempre tivemos vendilhões nesta pátria. Agora, porém, temos uma quadrilha que assume estar fazendo isso.

A Amazon feriu Dória no lugar que mais lhe dói depois do bolso: o ego

3 de abril de 2017

Kiko Nogueira, via DCM em 28/3/2017

João Dória é um narcisista. Não pode ser contrariado. O que não é espelho não serve. Ou somos todos Lucilia Diniz (para quem o amigo é “um homem movido a desafios sempre em busca de novos projetos!”, com exclamação!), ou somos inimigos e não gostamos de São Paulo.

Em tempo recorde, ele foi inventado como candidato por Geraldo Alckmin, eleito e alçado à condição de alternativa da direita a Bolsonaro para 2018, tudo baseado na conversa mole de que é “gestor”.

Sem inteligência emocional, vulnerável a qualquer provocação, está abrindo várias frentes de batalha, como o velho Adolfo, e, como o velho Adolf, não dará conta de tantas brigas.

Chamou um cidadão para a porrada na Vila Madalena no Carnaval, onde achava que seria aclamado. Ciro Gomes, que o classificou de “farsante”, deveria “cuidar de sua saúde mental”.

Tudo isso enquanto xinga Lula de “vagabundo” em vídeos para manter acesa a chama do baixo nível e ver se atrai mais algum bolsominion para suas hostes.

Para Dória, as empresas são obrigadas a estar a seu lado, seja de que maneira suspeita for – ou isso, ou estão contra ele.

A Amazon é “oportunista”. A Ultrafarma, que ganhou um jabá numa reunião da prefeitura e agora banca placas vendendo Dória em jogos da seleção, é preocupada com o futuro do Brasil.

A campanha para divulgar o e-reader Kindle questiona os muros cinzentos da cidade depois do estupro da 23 de Maio.

Filmado à noite, numa atmosfera meio distópica, o vídeo começa com a pergunta: “Cobriram a cidade de cinza?”. Em seguida, citações de escritores famosos aparecem projetadas nas paredes.

Dória gravou uma resposta. Visivelmente incomodado, pede doações. Na legenda do post no Facebook, escreveu que “existem várias formas de a Amazon ter uma postura cidadã autêntica e não oportunista”.

Seus fiéis soldados do MBL já compraram a briga e estão tendo os chiliques combinados para defender o chefe.

JD repete seu ídolo não assumido Donald Trump, que mora no Twitter xingando e ameaçando seus detratores. A imprensa norte-americana especulou, recentemente, sobre uma possível doença mental do presidente norte-americano: transtorno de personalidade narcisista.

Em fevereiro, um grupo de psiquiatras e psicólogos enviou uma carta ao New York Times alertando para “a grave instabilidade emocional demonstrada nos discursos e nas ações do senhor Trump”.

Dória ataca o destempero de Ciro, mas reage de maneira desproporcional a qualquer sinal que não seja um afago. Está acreditando piamente no personagem que criou, com a mãozinha de Alckmin, que a essa altura deve estar desesperado.

Uma das frases do anúncio da Amazon lhe cai bem: “Os melhores livros, compreendeu, são aqueles que dizem o que você já sabe”. É de George Orwell em “1984”.

Dória espera da Amazon – e da sociedade – o que fazem seus assessores: sabujice e um bom negócio. Qualquer coisa fora do script deixa Narciso en-lou-que-ci-do.

Folha de S.Paulo e “grande mídia” espalham notícia falsa sobre golpe na Venezuela

3 de abril de 2017

O FANTASMA DO GOLPE PERFEITO
Jair Pinheiro, via Jornal GGN em 1º/4/2017

“Corte alinhada com Maduro assumiu funções do Congresso”, é a manchete do UOL (empresa da Folha de S.Paulo) no sábado, dia 1º/4, data adequada para a pós-verdade. De um só golpe a manchete difunde a ideia de que dois pilares básicos da democracia foram atacados: o rompimento da divisão dos poderes e a usurpação da independência do judiciário e, imediatamente, a falsa notícia é disseminada por toda América Latina, curiosamente sem citar fontes venezuelanas.

Aos fatos, pois! Dois deputados oposicionistas a Maduro vinham sendo investigados por crime eleitoral, desde as eleições de 2015. Terminado o processo, o TSJ – Tribunal Supremo de Justiça, após responsabilizá-los, determinou à Assembleia Nacional as providências para a cessação do mandato. Ante a recusa da AN de cumprir a ordem judicial, o tribunal tomou para si, o que a lei venezuelana permite, as funções estritamente vinculadas ao cumprimento da ordem judicial, preservando as prerrogativas do legislativo. Em seguida, num movimento aparentemente coordenado, diversos líderes oposicionistas deixaram o país em direção a diferentes países (Colômbia, Panamá, México, EUA e Espanha).

Enfim, está montada a cena do golpe perfeito: as manchetes insinuam uma dissolução do legislativo que não houve, os comentários dos mal-denominados especialistas e de âncoras celebridades ratificam e o movimento de líderes oposicionistas deixando o país, e dando entrevistas no aeroporto pedindo apoio internacional, confirmam: rompeu-se a ordem constitucional no país vizinho.

Na sequência, as manchetes reiteram o que parece ser um desdobramento natural: “Argentina pede reunião do Mercosul para discutir crise venezuelana”, “Brasil [não é piada] pede suspensão da Venezuela do Mercosul”, “Peru pede retirada de embaixador venezuelano”. Portanto, no plano discursivo vai se criando o isolamento internacional do país vizinho, na expectativa de que tal isolamento se concretize, um dos quesitos normalmente aceitos pelos bem-pensantes senhores que se arrogam o papel de representantes da comunidade internacional para justificar a intervenção imperialista contra governos que se opõem ao império.

A esta altura já estamos muito distantes dos fatos, mas estes nunca tiveram importância mesmo, a não ser como referência a ser superficial e maliciosamente aludida para criar a ilusão reconfortante de que se está restabelecendo a ordem constitucional, quando, o que se visa de fato, é alterá-la. É neste contexto de manobra alusão/ilusão que a imprensa informa como algo excepcional e não prerrogativa do cargo, que a fiscal geral (equivalente a procurador geral da república) Luisa Ortega Díaz considera inconstitucional as sentenças de número 155 e 156 e pede a revisão à Sala Constitucional do TSJ (equivalente ao nosso STF na função, mas melhor na execução) a anulação. Passados poucos minutos da meia-noite, Maduro anuncia deliberação do Conselho de Defesa da Nação de, entre outras coisas, “exhortar al Tribunal Supremo de Justicia a revisar las decisiones 155 y 156, con el propósito de mantener la estabilidad institucional y el equilibrio de Poderes, mediante los recursos contemplados en el ordenamiento jurídico venezolano”.

Oportuno registrar que, em seu pronunciamento, Maduro cita a anulação pela corte suprema do plebiscito na Colômbia para ratificar o acordo de paz com as Farc, medida de grande gravidade por anular o voto popular, sem que nenhuma agência multilateral ou liderança regional tenha proposto intervenção no país vizinho, o que, a seu ver, está correto, pois trata-se de problema interno do povo colombiano.

Cumpre anotar que o Conselho de Defesa Nacional tem sua existência estabelecida pelo artigo 323 da Constituição venezuelana e é composto pelo presidente da república, que o preside, o vice-presidente, o presidente da AN, o presidente do TSJ, o presidente do Conselho Moral Republicano (órgão sem equivalência no sistema brasileiro) e os ministros dos setores de defesa, segurança interna, relações exteriores, planejamento e outros cuja participação se considere pertinente. Portanto, a ordem constitucional está preservada segundo disposições e instrumentos estabelecidos, algo bem distante das medidas de exceção que se vão tornado rotina no Brasil. Entretanto, não será surpresa se este desdobramento constitucionalmente previsto for anunciado pela imprensa brasileira como vitória da oposição venezuelana e resultado da pressão internacional.

Jair Pinheiro é professor do Departamento de Ciência Política da Unesp/Marília.

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3 de abril de 2017

Ao contrário do que a mídia golpista espalha pelo mundo, o Supremo venezuelano não fechou o Congresso nem o impede de legislar. Desde julho do ano passado o Congresso venezuelano vem ignorando e desafiando decisões da Suprema Corte. A medida tomada agora pelo Supremo já podia, constitucionalmente, ser adotada há quase um ano.

Aline Piva, via Nocaute em 31/3/2017

O Supremo venezuelano acaba de tomar uma decisão que tem levantado muitas controvérsias: a Sala Constitucional desse organismo deve assumir, de maneira temporária e conjuntural, algumas das funções da Assembleia Nacional para cobrir o estado de omissão constitucional que já se prolonga por mais de um ano. Já vozes se alçam reforçando a narrativa de que está em curso um golpe de Estado – em sua maioria, os suspeitos de sempre, como Luís Almagro, os governos de direita da região, o governo ilegítimo do Brasil, mas inclusive algumas vozes progressistas – ou consideradas progressistas.

Em primeiro lugar, para a gente entender o que está acontecendo, a gente precisa lembrar que a Assembleia venezuelana está em desacato (ou seja, em desacordo com a ordem jurídica vigente), desde julho de 2016, quando empossou três deputados do Estado do Amazonas cujas candidaturas haviam sido impugnadas por suspeita de fraude. Estando em desacato, a Assembleia não tem legitimidade para exercer suas funções, levando a uma omissão constitucional no seio do Estado venezuelano que impede que decisões fundamentais para o funcionamento do país possam ser tomadas.

E é exatamente para sanar essa omissão constitucional que o Judiciário estabeleceu que sua Sala Constitucional poderá decidir – reforço –, de maneira temporária e pontual e somente em alguns casos extraordinários sobre temas que são de competência do Legislativo. “Ah, mas isso é um golpe”, “ah, a Assembleia foi dissolvida”, dizem aqueles a quem interessa reforçar a narrativa de que o governo de Maduro é uma ditadura. Não, na realidade, o parlamento poderia voltar à sua normalidade em apenas dois dias, simplesmente retirando os deputados que tomaram posse ilegalmente e convocando novas eleições para a presidência da Casa, uma vez que a atual mesa diretiva foi eleita depois que a Assembleia já se encontrava em desacato. Ou seja, não há dissolução: o Poder Legislativo segue existindo e seus membros seguem empossados.

É importante lembrar que estamos falando de uma Assembleia Nacional que vem pedindo abertamente intervenções estrangeiras no país, afrontando diretamente preceitos constitucionais elementares, e que já tentou destituir ilegalmente não só Maduro mas também o próprio Supremo e o Conselho Nacional Eleitoral.

Através das duas sentenças pronunciadas essa semana, o Supremo venezuelano ratificou sua tarefa central de preservar o Estado de Direito frente a ataques que pretendem desconhecer o ordenamento jurídico e violar a soberania nacional. Digo mais: se também contássemos, no Brasil, com um Judiciário sério, algo semelhante deveria ter acontecido durante o escandaloso golpe contra Dilma Rousseff.

Assim como aconteceu no Brasil, a guerra agora é pela construção de uma opinião pública negativa sobre o governo Maduro e o sobre o Chavismo. Vinte líderes da oposição estão nesse momento, um dia após a decisão, fora do país, em reuniões para avançar suas agendas. Henrique Capriles está nesse momento, agora, aqui em Washington, reunido na sede da OEA com Luís Almagro e com outros embaixadores de países que justamente nessa semana fizeram um Conselho Permanente Extraordinário para discutir questões internas da Venezuela. Se a oposição venezuelana e seus apoiadores internacionais consolidarem essa matriz de opinião de que há um Golpe de Estado em curso, nós veremos em um horizonte não muito longínquo uma intervenção estrangeira no país. Não é hora para nos perdermos em conjecturas.

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