Archive for the ‘Internacional’ Category

O Brasil ao lado das ditaduras mais cruéis do mundo

19 de julho de 2019

Bolsonaro na posse de Gustavo Montezano como presidente do BNDES em 16 de julho. Foto: Evaristo Sá/AFP.

No Conselho de Direitos Humanos da ONU, o nome do Brasil já não acompanha a Europa ou mesmo a América Latina, mas príncipes árabes, em nome da suposta defesa da família.

Jamil Chade em 18/7/2019

No final de junho, uma diplomata latino-americana que preparava uma declaração conjunta com o Brasil na ONU submeteu ao Itamaraty o texto que iria ler, dias depois, ao Conselho de Direitos Humanos.

No dia seguinte, ao abrir seu email, levou um susto ao ver a resposta do Governo brasileiro. O texto tinha sido devolvido com vetos a termos que, pelos últimos 25 anos, eram considerados como consensos internacionais e assinados até mesmo pelo Brasil.

Expressões como “igualdade de gênero”, direitos sexuais e reprodutivos e várias outras frases foram literalmente riscadas e substituídas por termos escolhidos para deixar claro uma visão de mundo em que direitos eram limitados, e não ampliados.

A diplomata estrangeira, surpreendida, apenas respondeu que aqueles termos originalmente colocados no texto não seriam modificados e, lamentando, notava que a postura da tradicional diplomacia brasileira sofria uma transformação inédita.

Nos bastidores da política externa, o Brasil de Jair Bolsonaro dava um claro sinal de que o posicionamento baseado em orientações religiosas, de restrições ou ultraconservadoras não se limitaria à retórica. Nas salas de negociação, nos corredores e trocas de telegramas, a guinada passara a ser uma realidade. E, com ela, novas alianças improváveis, sempre com governos marcados por posições polêmicas.

Nas semanas que se seguiram ao e-mail entre o Brasil e o governo latino-americano, o que as delegações estrangeiras ocidentais descobriram era um novo país, distante daquele que havia liderado um movimento progressista desde o final dos anos 90 no campo dos direitos humanos.

Nas fichas de votações publicadas ao final de cada resolução, o nome do Brasil já não acompanhava a Europa ou mesmo a América Latina. Mas sim algumas das ditaduras mais cruéis do mundo. Ali, o grupo de Bolsonaro e príncipes árabes encontraram um ponto em comum: a suposta defesa da família e valores.

Assim, o Brasil apoiaria propostas da Organização de Cooperação Islâmica para excluir educação sexual de textos da ONU, criticaria o uso do termo gênero, e até passou a concordar com sauditas sobre a necessidade de se manter em resoluções uma referência explícita à defesa do papel dos pais em casos em que se combatia o casamento forçado de meninas, muitas vezes patrocinados pelos próprios pais.

À medida que abandonavam suas tradicionais posições de ampliação de direitos, delegados brasileiros começaram a ser procurados por grupos do lobby antigay, que passaram a se sentir confortáveis em trocar impressões com a nova administração brasileira. Eventos com a presença do Brasil ainda foram patrocinados por ongs ultraconservadoras para falar da perseguição que cristãos estariam sofrendo.

Dias depois, o Itamaraty resistiria à ideia de que a ONU promovesse um maior espaço para que grupos indígenas pudessem se expressar e tomar posição, uma proposta apoiada por escandinavos e vários governos latino-americanos.

O Brasil ainda não apoiaria uma resolução amplamente patrocinada pelo Ocidente solicitando que a ONU iniciasse investigações sobre a campanha de Rodrigo Duterte, nas Filipinas, contra a suposta criminalidade. Em três anos, foram mais de 27 mil mortos, além de propostas como a redução da idade penal para apenas nove anos de idade.

Meses antes, o governo Bolsonaro havia abandonado sua tradição e votado em resoluções que condenam as violações de direitos humanos por parte de Israel.

Em todas as votações de emendas e mesmo no caso das Filipinas, o Brasil se aliou ao lado derrotado. Nenhuma das emendas foi aprovada e Duterte será investigado. Para completar, o governo de Jair Bolsonaro passou a receber cartas de protesto da ONU, denúncias e cobranças em relação a diversas políticas públicas de sua gestão.

Eleição?
Mas é exatamente neste contexto que o Brasil se apresentará à eleição para mais um mandato de três anos no Conselho de Direitos Humanos da ONU. A votação ocorre em outubro e a verdade é que dificilmente Bolsonaro será derrotado. Afinal, são oferecidas duas vagas para a América Latina e apenas dois candidatos se apresentaram: Brasil e, ironicamente, a Venezuela. Um espelho de uma região dividida e sem direção, para nenhum dos lados.

Para ser eleito, basta o país ter 97 dos 194 países da Assembleia Geral. Mas o teste será outro. Nas urnas, o Governo Bolsonaro vai descobrir até que ponto é aceito pela comunidade internacional e, no fundo, a votação se transformará em uma espécie de termômetro da popularidade do país.

Ao longo dos últimos anos, o Brasil viu de fato essa popularidade despencar. Depois de acumular 175 voto em 2008 e 184 em 2012, o governo brasileiro viu o apoio internacional cair na gestão de Michel Temer. Visto com hesitação, o Itamaraty perdeu quase 50 votos e, na eleição de 2016, ficou com apenas 137 apoios.

Para a campanha de 2019, o programa brasileiro tem uma linha clara: a delimitação de direitos, e não sua expansão.

Em seu programa apresentado aos demais governos, o centro das propostas brasileiras é a proteção à família, entendida apenas como aquela composta entre um homem e uma mulher.

Entre suas prioridades, nenhuma referência foi feita ao combate à tortura, ao direito à verdade, a processos de reconciliação, à garantia de direitos para imigrantes ou à educação. Em toda a campanha brasileira, a menção ao combate à homofobia ou direitos de LGBTs foi simplesmente omitida.

Bolsonaro, assim, caminha para a eleição em outubro em Nova Iorque fazendo acenos não a uma expansão de direitos. Mas a governos que, abertamente, buscam ampliar o número de aliados dentro do Conselho da ONU para enfraquecer uma tendência de abrir novas fronteiras nos direitos fundamentais no mundo.

Assim, quando os sauditas, egípcios e paquistaneses derem seu voto por Bolsonaro, não estarão aplaudindo os avanços na proteção à vida no Brasil. Mas sim considerando que terão, a seu lado, mais um governo hostil a investigações internacionais, a homossexuais e às eventuais violações ao caracter sacro da soberania.

Quando Duterte der seu voto ao Brasil, não estará apostando em uma nova forma de lidar com as drogas e nem uma visão mais humana do combate ao crime. Mas por ter tido, em Bolsonaro, um aliado contra a ingerência da ONU em assuntos domésticos.

Quando poloneses e húngaros derem seu voto ao Brasil, não será por sua abertura de fronteiras. Mas por sua recusa em assinar pactos de migração, assim como fizeram os governos do leste-europeu.

Quando o Itamaraty se apresentar para a eleição na ONU, portanto, sua bandeira não será a da expansão de direitos. Mas justamente a de impedir que as fronteiras das liberdades fundamentais sejam cada vez mais amplas.

Poderia parecer uma contradição o Brasil de Bolsonaro se candidatar ao Conselho de Direitos Humanos. Mas não o é, especialmente se o objetivo for o de formar uma aliança contra qualquer ideia de direitos internacionais que se sobreponham à soberania.

Minando esses direitos por dentro, o Brasil se alia a outros governos que, de forma hipócrita, usam as tribunas internacionais para desmontar um sistema criado há 70 anos e que serve de bússola moral ao mundo.

Entre as delegações ocidentais, o dia de votação promete ser um momento amargo: os diplomatas estarão entre dar seu voto a Bolsonaro ou a Nicolas Maduro, reconhecido pela própria ONU como violador de direitos humanos.

Mas, nos corredores da entidade, não faltam ironias diante da situação constrangedora. “Tem horas que dá uma enorme vontade de votar pela Venezuela”, debocha uma diplomata europeia.

Leia também: O Brasil do chanceler Ernesto Araújo: Da luta contra o Foro de SP ao voto com islâmicos sobre mulheres

O Brasil do chanceler Ernesto Araújo: Da luta contra o Foro de SP ao voto com islâmicos sobre mulheres

19 de julho de 2019

Eduardo Bolsonaro e Ernesto Araújo no gabinete do chanceler no Palácio do Itamaraty, em Brasília. Foto: Arthur Max.

Ricardo Senra, via BBC Brasil em 17/7/2019

Na noite de quinta-feira [11/7], horas depois de o presidente Jair Bolsonaro surpreender até os assessores mais próximos ao anunciar o filho Eduardo como seu preferido para a embaixada brasileira em Washington, diplomatas foram avisados sobre uma reunião marcada por “motivos de força maior” para a primeira hora da sexta-feira [12/7], no gabinete principal do Palácio do Itamaraty.

Na manhã seguinte, perto da famosa tapeçaria que reproduz o planisfério de Marini – um mapa desenhado em 1502, primeiro da história em que o Brasil aparece representado –, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, confirmaria ao ex-escrivão da Polícia Federal que apoiava sua indicação ao cargo mais alto da principal embaixada brasileira.

O encontro durou pouco mais de uma hora. Na saída, Eduardo Bolsonaro falou a jornalistas sobre o aval do chanceler à empreitada. Ernesto Araújo, simultaneamente, contava à BBC News Brasil que o principal assunto havia sido outro.

“Conversamos sobre uma pauta nossa de coordenação sobre temas de política latino-americana. Muito especialmente a questão do Foro de São Paulo, que vai se reunir no final do mês e é um tema que nos preocupa e a outras pessoas também.”

Enquanto muitos começaram a especular sobre possíveis atritos entre o chanceler e o deputado, o apoio de Araújo à nomeação não foi surpresa para nenhum de seus auxiliares e conselheiros mais próximos. “Eduardo é o grande – e um dos únicos – apoiadores do Ernesto”, disse uma embaixadora à reportagem, sob condição de anonimato.

O ministro sabe que disputar protagonismo com o filho do presidente tende a ser uma batalha perdida, a exemplo de outros ministros que entraram em conflito com outro filho, Carlos. Ernesto Araújo e Eduardo Bolsonaro estão do mesmo lado na gestão bolsonarista e lideram uma agenda comum que ocupa o topo das preocupações do presidente: consolidar uma alternativa conservadora ao famoso grupo criado em 1990 por Luiz Inácio Lula da Silva e o então presidente cubano Fidel Castro para articular forças de esquerda na América Latina e no Caribe.

Na entrevista mais detalhada que concedeu desde que assumiu o cargo, em janeiro deste ano, Araújo explica as bases do que tenta emplacar como Aliança Liberal Conservadora – uma versão à direita do Foro de S. Paulo que reúne elementos-chave da lógica bolsonarista, pautada pela ruptura com pautas globais como as mudanças climáticas e princípios históricos da agenda de direitos humanos, como a consolidação de direitos LGBT, o combate a exploração sexual por meio da educação na infância e o repúdio à violência policial.

“Acho que às vezes os conceitos atrapalham a realidade”, diz o Araújo durante quase uma hora de conversa. A frase serve como fio da meada para tentar entender a cabeça do chanceler.

Você pode assistir à entrevista completa, na íntegra, no canal da BBC News Brasil no YouTube.

O fim da diplomacia como ela acontecia até hoje
A principal ruptura da gestão de Araújo à frente do Itamaraty é com a própria tradição da pasta.

“Nós precisamos fazer coisas que sejam importantes para o povo brasileiro e não apenas coisas que sejam importantes para outros diplomatas”, disse o ministro à BBC News Brasil ao defender a nomeação de Eduardo Bolsonaro em meio a acusações de nepotismo e despreparo do deputado. “Não é nepotismo nenhum.”

Bolsonaro não tem formação em Relações Internacionais e sua única vivência no exterior, além de viagens acompanhando ou representando o pai, foi um intercâmbio em 2005, durante a faculdade, quando trabalhou numa lanchonete.

“Acho que ter, nessa hipótese, um embaixador não de carreira em uma embaixada como Washington ajudaria nesse processo muito necessário de romper um ensimesmamento do Itamaraty e romper um ciclo vicioso onde nós trabalhamos só para nós mesmos e esquecemos a sociedade do lado de fora.”

A exemplo do que ocorre nos EUA de Donald Trump, de quem Araújo e Bolsonaro são admiradores confessos, o nacionalismo está na base desta ruptura com o passado recente.

“O Brasil é parte de um movimento de recuperação do papel de nação como ator no sistema internacional. Uma nação que atue tanto domesticamente quanto no sistema internacional em função do bem do seu próprio povo”, diz.

A Aliança Liberal Conservadora, que Araújo tenta criar como oposição ao Foro de S. Paulo, ressoaria estas ideias junto a países como EUA, Hungria, Itália, Argentina e Colômbia.

“Há uma sensação de que a gente pode derrotando percepções ideológicas que dizem que você não pode ter nação, não pode ter povo, tem que ter padrões globais que valham para todos independentemente das suas identidades e só assim você pode atingir a prosperidade.”

“Isso está acontecendo cada vez mais, e ao mesmo tempo, países e atores internacionais que acham que para isso você não precise renunciar à sua identidade e se transformar em uma geleia geral, como a gente diz aqui no Brasil. Pode-se ter uma comunidade internacional forte, dinâmica, pacífica, próspera, construída a partir de nações também saudáveis, pacíficas, com povos vivendo em harmonia e prosperidade”, avalia.

LGBTs como “coisas abstratas”
A diplomacia brasileira é conhecida no exterior pela vanguarda em temas ligados a minorias.

O país foi, em 2003, o primeiro do mundo a propor uma resolução na Organização das Nações Unidas (ONU) sobre “Direitos Humanos e Orientação Sexual”, abrindo caminho para discussões sobre o tema na instituição. Em 2008, patrocinou um documento na Organização dos Estados Americanos (OEA) para a prevenção da violência contra pessoas LGBT. No mesmo ano, o país foi o primeiro a realizar Conferência Nacional de Promoção dos Direitos das Pessoas LGBT, um modelo repetido no exterior desde então.

Para Araújo, no entanto, o Brasil pré-Bolsonaro “procurava se pautar por aquilo que não desagrada ninguém, que procurava sempre ver ‘se eu posso dizer isso, se eu posso dizer aquilo’, que cada vez se limitava mais dentro do politicamente correto”.

Na visão do chanceler, o país “vinha simplesmente copiando o discurso oficial e padrão do politicamente correto, e isso não é influenciar. Estávamos simplesmente indo com uma onda”.

Araújo ilustra a mudança de maré quando explica, por exemplo, por que o Brasil retirou menções ao termo LGBT em sua recém-apresentada candidatura ao Conselho de Direitos Humanos da ONU.

“Nossa plataforma é colocar a nossa contribuição no Conselho de Direitos Humanos em favor da defesa dos direitos humanos reais de pessoas reais, e não de coisas abstratas que são sempre usadas para distorcer a realidade e a realidade daquilo que as pessoas geralmente querem”, diz.

A reportagem pergunta se LGBTs não são pessoas reais ou algo concreto – no Brasil, segundo dados de 2017 do Ministério de Direitos Humanos, o Brasil registra 552 pessoas mortas por ano vítimas de homofobia – ou uma a cada 16 horas.

“(O termo) é usado como se fosse simplesmente um mecanismo para controle do discurso, daquilo que se pode falar, dizer, e não como algo que seja usado realmente para a igualdade às pessoas com opções sexuais diferentes nesse sentido aí”, responde Araújo.

“Nós queremos defender os direitos das pessoas, né, independentemente de a gente usar ou não uma determinada denominação padrão ou não.”

Acordo com islâmicos em discussões sobre mulheres
O ministro defende uma ruptura definitiva com o pensamento de esquerda a partir do que chama de “resgate de valores cristãos e ocidentais” – em coro com o presidente, que já fez críticas ao alinhamento de governos petistas com países como Irã, Rússia e China.

Recentemente, no entanto, o Brasil se afastou das principais democracias europeias e das Américas ao se unir a países como Arábia Saudita, Paquistão, Bangladesh, Afeganistão e Egito em discussões na ONU sobre mulheres.

Emissários de Araújo apoiaram estes países em discussões sobre referências à educação sexual como forma de combate a violência contra mulheres e casamentos forçados.

“O que aconteceu? Estamos junto com o Ocidente ou esta é uma pauta em que estamos mais próximos dos islâmicos?”, pergunta a reportagem.

“Tem que ver o que é Ocidente, né?”, responde o chanceler.

“Ocidente não é necessariamente aquilo que determinados países ocidentais defendem nas Nações Unidas ou em outras instâncias. Nós nos consideramos parte do Ocidente e temos uma voz em dizer o que é Ocidente, né? E uma das coisas que achamos que é Ocidente é você, no caso, não sexualizar a infância, digamos assim. É uma das coisas que fazem parte da ética, digamos, ocidental. Claro, cada país tem sua maneira de defender e interpretar quais são os seus valores. A nossa é essa maneira.”

Dados do governo federal apontam que, em 2018, foram registradas 17.093 denúncias de violência sexual contra menores. Mais de 70% dos casos foram praticados por pais, mães, padrastos ou outros parentes – e dentro de casa.

A reportagem lembra que a argumentação dos países que se opunham ao Brasil e aos árabes defendiam não se referia à sexualização de crianças, mas à formação de jovens para que possam identificar, se defender e aprender a denunciar abusos.

“São interpretações diferentes, né? Cada um tem a sua. Nós queremos tentar ter uma política coerente em que você defenda os direitos das mulheres, das meninas, evidentemente, mas ao mesmo tempo que se evite uma coisa que nos preocupa há muito tempo que é educação sexual precoce e esse tipo de coisa que não nos parece permanente e que eu acho que não corresponde ao que a sociedade brasileira como um todo deseja, né?”

Ele prossegue: “Você pensa ‘valores ocidentais’. Tem muitos países que são democracias estabelecidas, alguns pelo menos, na Europa que ainda reconhecem a ditadura Maduro como legítima na Venezuela. Aí também temos uma diferença, digamos de interpretação, do que seja democracia”.

Otan, Filipinas e o novo Brasil militarista
Em junho, o presidente Jair Bolsonaro anunciou que os EUA aceitaram o Brasil aliado extra-Otan – a Organização do Tratado do Atlântico Norte – em um desdobramento de sua visita oficial ao presidente Donald Trump em Washington, em março.

“Isso já foi consignado pelos EUA, é uma decisão deles que já foi anunciada ao Congresso americano e começando a ser implementado”, diz Araújo à reportagem.

“Nós acreditamos que vai nos trazer benefícios para a recapacitação da nossa capacidade militar sobretudo, que é algo que já se tem dito que foi um pouco negligenciado em governos recentes. Isso é um processo e esse é um dos elementos desse processo de o Brasil ter um aparato de defesa compatível com as nossas necessidades.”

A BBC News Brasil pergunta por que exatamente o país quer ampliar investimentos e poderio militar. “Por que isso é importante nesse momento na prática?”

“Isso, enfim, faz parte das relações internacionais você ter uma capacidade inclusive de dissuasão, uma capacidade de defesa do seu território”, diz Araújo, que nega que os investimentos tenham relação com a oposição do Brasil ao governo de Nicolás Maduro na Venezuela.

No passado, tanto Ernesto quanto Eduardo Bolsonaro não descartaram, em declarações públicas, uma eventual ação militar no país bolivariano. Mais tarde, sob pressão de militares membros do governo, ambos recuaram.

“Isso (militarização) é uma função clássica de qualquer Estado. Um país das dimensões do Brasil, com a diversidade de interesses que nós temos, litoral inclusive, é um país que tem um desafio muito grande nessa área de defesa e para isso nós precisamos de parcerias que deem a capacidade inclusive tecnológica de uma presença de defesa.”

Sob a égide de Araújo, o Brasil se absteve no início do mês de votar a favor de uma investigação na ONU sobre a política de guerra as drogas nas Filipinas, que teria deixado mais de 27 mil pessoas mortas. O presidente Rodrigo Duterte defende execuções sumárias contra suspeitos de tráfico. A reportagem pergunta por que o Brasil não defendeu a apuração.

“A gente está totalmente numa linha de evidentemente combate ao crime em todas as suas vertentes e isso não é problema nenhum. No caso das Filipinas, nos pareceu que era um tema que estava mal definido e por isso o Brasil se absteve. A gente é sempre a favor de que tudo que seja necessário se esclarecer se esclareça, né, e ao mesmo tempo somos a favor, tanto no Brasil quanto em outros lugares, de combate ao crime”, respondeu o ministro.

“Nos pareceu um tipo de proposta mal enquadrado. Isso é um recurso que muitas vezes se utiliza no sistema multilateral quando você acha que determinada questão está mal enquadrada em um projeto você se abstém”, disse. “Por um lado, não queremos limitar nenhum país no seu direito de combater o crime dentro do seu território e por outro lado queremos que seja feito sempre respeitando normas, direitos humanos e tudo isso.”

O chanceler optou por não responder quando questionado sobre o que estaria mal enquadrado na proposta. “Nós achamos que nesse momento não era a maneira de encaminhar essa questão em relação às Filipinas”, disse.

Dúvidas sobre aquecimento global e “o frio na Itália que não aparece tanto”
Araújo já disse que as noções de aquecimento global e mudanças climáticas são uma “trama marxista”.

Durante a entrevista, ele se absteve de afirmar se acredita ou não nas mudanças como fruto da ação do homem, mas questionou métodos da comunidade científica e defendeu “liberdade de expressão e de debate” para “que as pessoas que, com base em argumentos científicos, contestam a teoria do aquecimento global antropogênico não sejam demonizadas”.

“O comportamento da temperatura tem ficado sempre abaixo do que os modelos pressupõem”, diz Ernesto. “Você tem estudos sobre isso e é claro que isso não é muito divulgado.”

A reportagem lembra que a preocupação com as mudanças climáticas associada ao desmatamento e a poluição são um consenso em todas as principais universidades e entidades científicas do planeta, como a Nasa.

“Cada vez que há algo que parece confirmar o aquecimento global, isso vai para a imprensa e todo mundo acha que está sendo confirmada a teoria do aquecimento global. Quando algo desmente, não aparece.” Segundo Araújo, os modelos científicos que preveem a evolução do aquecimento global são falhos.

Ele ilustra seu ponto. “Visitei a Itália no começo de maio. Cheguei lá e estava muito frio na Itália para maio. Me disseram que havia sido o abril mais frio em Roma dos últimos 60 ou 70 anos. Isso não aparece tanto. Se tivesse sido o abril mais quente dos últimos 70 anos, claro, estaria em todas as manchetes.”

Em seu site, a Nasa desmente a ideia de que recordes de temperatura fria poriam em xeque a mudança climática, explicando que o aquecimento global vem acompanhado de temperaturas extremas, para cima e para baixo.

“O caminho até um mundo mais quente terá muitos episódios de tempos extremamente quentes e extremamente frios”, diz a agência especial americana

Para cientistas, mesmo que esteja fazendo mais frio que a média em uma região específica, o mundo como um todo está, na média, mais quente. Esse aquecimento da temperatura média da Terra provoca eventos climáticos extremos, desde inundações na África até seca no Brasil, passando por invernos muito mais rigorosos na América do Norte.

“Ou seja, estamos falando de grandes flutuações. E esses eventos climáticos tendem a ficar cada vez mais frequentes e exagerados”, explicou recentemente à BBC News Brasil Alexandre Köberle, pesquisador do Grantham Institute na Universidade Imperial College London.

Ricos não respeitam o Acordo de Paris
Mesmo colocando o tema em xeque, o ministro reiterou a participação do Brasil no Acordo de Paris, um tratado assinado em 2015 por 195 países, a fim de reduzir a emissão de gases de efeito estufa, um dos vilões por trás do aquecimento global, segundo a comunidade científica.

“O Brasil é parte do acordo do Paris então é importante não assumir que, pelo fato de eu e outras pessoas termos dúvidas sobre se realmente está havendo esse aumento de temperatura e se isso tem origem no homem, não pensar que isso significa que a gente necessariamente fosse denunciar o acordo de Paris. Não é. O acordo é construído a partir de compromissos nacionais, contribuições nacionalmente determinadas, que a meu ver são boas em si mesmas”, diz Araújo.

Pelo acordo, o Brasil deverá reduzir em 37% suas emissões até 2025 e chegar a 43% em 2030.

“Sobretudo, no nosso caso, desmatamento: o Brasil quer de toda forma controlar o desmatamento porque mesmo que se daqui a algum tempo se prove que não tem nada a ver o CO2 com temperatura, há uma virtude em si mesma em se preservar, como o Brasil preserva 66% da cobertura nativa, coisa que pouca gente sabe. Que o Brasil continue sendo um grande preservador ambiental porque isso tem valor em si mesmo”, disse.

Ele também apontou problemas, citando “a falta de contrapartida por parte sobretudo de países desenvolvidos”.

A argumentação não é novidade na diplomacia e também era citada em governos petistas frente à imposição de metas mais ambiciosas a países em desenvolvimento.

“O que há é um compromisso por parte de países desenvolvidos em controlar as emissões deles, o que não está acontecendo em muitos casos, não estão concluindo as suas próprias contribuições”, diz.

“Vemos esse tipo de problema e vemos às vezes o problema de que o acordo pode ser usado como pretexto de atuação de ONGs no Brasil que a gente não sabe bem às vezes o que estão fazendo e agem de uma maneira um pouco opaca.”

O Brasil para os próximos anos
“Se eu puder, gostaria de colocar a contribuição do Itamaraty para a construção de um Brasil grande e forte, um Brasil que influencia nos destinos do mundo e, ao mesmo tempo, uma política externa que traz desenvolvimento e crescimento econômico para o Brasil, desenvolvimento tecnológico, capacitação econômica, abertura comercial. Basicamente isso”, diz o ministro, questionado sobre a marca que pretende deixar em sua gestão.

O chanceler se mostra otimista com a guinada conservadora em curso em um Brasil e diz, ao mesmo tempo em que imprime a marca ideológica do governo, que lida “com problemas reais e não com problemas imaginários ou ideológicos”.

“Vejo uma evolução muito positiva porque cada vez há mais países que querem trabalhar, claro, pelo crescimento econômico e por uma economia global que ajude na prosperidade de todos os povos com abertura, com crescimento tecnológico”, afirma. “No Brasil, temos hoje uma economia liberal se consolidando depois de décadas de isolamento e economia fechada, ao mesmo tempo em que se tem uma sociedade de valores conservadores se afirmando e uma coisa reforça a outra e não atrapalha. Isso acontece na nossa dimensão nacional no Brasil e de certa forma acontece também ao redor do mundo.”

“Então vejo décadas bastante ensolaradas pela frente.”

Bernardo Mello Franco: Moro saiu de férias, mas não saiu de cena

19 de julho de 2019

O PEDESTAL DE MORO
Moro se diz vítima de uma “campanha contra a Lava-Jato e a favor da corrupção”. Mas a operação não se limita à figura dele, e apontar excessos não significa defender a impunidade.
Bernardo Mello Franco em 17/7/2019

Sérgio Moro saiu de férias, mas não saiu de cena. Diante de um novo lote de vazamentos, o ministro imitou o chefe e foi ao Twitter. Mais uma vez, ignorou a mensagem e atacou o mensageiro. “Sou grande defensor da liberdade de imprensa, mas essa campanha contra a Lava-Jato e a favor da corrupção está beirando o ridículo”, escreveu.

O ex-juiz cometeu duas impropriedades na mesma frase. Na primeira, indicou que a sua fé na liberdade de imprensa não é tão desinteressada assim. Quando a notícia não o favorece, o jornalismo deixa de merecer sua defesa.

Na segunda [15/7], Moro tentou desqualificar as reportagens como uma “campanha contra a Lava-Jato e a favor da corrupção”. É um argumento duplamente falso. A operação não se limita à figura do juiz, e apontar excessos em investigações não significa defender a impunidade dos investigados.

Desde que os diálogos começaram a vir à tona, o ministro já adotou ao menos três estratégias diferentes. Inicialmente, disse que o único “fato grave” seria a invasão dos celulares de procuradores. O discurso só convence quem não quer ler o conteúdo dos chats.

Em seguida, Moro passou a sugerir que as mensagens seriam falsas ou adulteradas. A conversa caiu por terra quando ele se desculpou por ter chamado os militantes do MBL de “tontos”, em bate-papo com o procurador Deltan Dallagnol.

Agora o ex-juiz tenta vender uma tese conspiratória. A se acreditar no tuíte de ontem [16/7], imprensa e oposição teriam se associado num complô contra a Lava-Jato. É um discurso enganoso, semelhante ao de políticos que ele condenou.

Retratado em atos governistas como um Super-Homem, Moro parece ter se convencido de que está acima dos mortais. Do alto de seu pedestal, ele não teria que se submeter a cobranças e questionamentos como qualquer agente público. Quem ousar criticá-lo deve ser queimado na fogueira dos hereges.

A favor do ex-juiz, diga-se que ele não está sozinho. Ontem Jair Bolsonaro adotou o mesmo tom ao defender a indicação de seu filho Eduardo para o cargo de embaixador do Brasil em Washington. “Se está sendo criticado pela mídia, é sinal de que é a pessoa adequada”, afirmou.

Quando faltam argumentos, o presidente e o ministro atacam os culpados de sempre.

Moro se diz vítima de uma “campanha contra a Lava-Jato e a favor da corrupção”. Mas a operação não se limita à figura dele, e apontar excessos não significa defender a impunidade.

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Exército de robôs: Metade de todos os tuítes de #EduardoEmbaixadorSim vieram de apenas 10 “pessoas”

19 de julho de 2019

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil.

Via DCM em 18/7/2019

Tiago Rogero na coluna de Ancelmo Gois em O Globo informa que a cada momento importante de Bolsonaro nas redes, logo aparecem as hashtags de apoio ao governo. A da vez é #EduardoEmbaixador ou #EduardoEmbaixadorSim.

De acordo com a publicação, mesmo depois da eleição, o “exército” virtual continua na ativa.

Com a mobilização, #EduardoEmbaixadorSim chegou aos assuntos mais comentados do Twitter. Só que metade do número total de tuítes veio de apenas 10 “pessoas”. A que mais postou (35 vezes) escolheu um horário curioso para demonstrar apoio ao filho do presidente: entre 2 e 3 da manhã, completa o Jornal O Globo.

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Brasil vive novo tipo de ditadura: “A orwelliana, de ocupar as mentes”, diz Castells

19 de julho de 2019

O sociólogo espanhol Manuel Castells.

As redes sociais hoje são usadas “tanto pelos manipuladores como pelos jovens que tentam mudar o mundo”, e a esquerda perdeu neste jogo para a extrema-direita

Via Jornal GGN em 17/7/2019

O Brasil vive, desde a eleição de Jair Bolsonaro, um novo tipo de ditadura. Nela, “as instituições estão preservadas, mas se manipulam tanto por poderes econômicos, quanto por poderes ideológicos.” Como os regimes autoritários já não ocorrem mais com golpes e tanques nas ruas, o que temos é uma “ditadura orwelliana, de ocupar as mentes.” É o que afirma o pensador Manuel Castells em entrevista divulgada pelo jornal O Globo na terça [17/7].

“O Brasil, nesse momento, perdeu a influência da Igreja Católica que foi muito tradicional durante muito tempo na História, mas ganhou algo muito pior que são as igrejas evangélicas, para quem claramente não importa a ciência e a educação, porque quanto mais educadas e informadas estejam as pessoas, mais capacidade terão de resistir à doutrinação. O mesmo acontece com o presidente (Bolsonaro) e com o regime que está instalando. Não se pode fazer uma ditadura antiga, que se imponha com o exército, mas uma ditadura orwelliana, de ocupar as mentes”, disse.

“Isso se faz acusando de corrupção qualquer tipo de oposição. Como a corrupção está em toda parte, então persegue-se apenas a corrupção de políticos e personalidades que se oponham ao regime. Esse tipo de ditadura só pode funcionar com um povo cada vez menos educado e mais submetido à manipulação ideológica”, acrescentou.

Segundo Castells, a direita e extrema-direita conseguiu aprender as técnicas “de desinformação e manipulação, que incluem a utilização massiva de robôs manipulados por organizações como o Movimento Brasil Livre (MBL) e financiadas pela extrema direita internacional, que estão preenchendo as redes sociais e manipulando-as muito inteligentemente, de forma que a construção coletiva do que ocorre na sociedade está totalmente dominada por movimentos totalitários, que querem ir pouco a pouco anulando a democracia.”

Bolsonaro alimenta essa ditadura com ataques à educação, porque a chave está aí: “pensar é perigoso”. “Por isso, digo que é uma ditadura, ainda que de novo tipo. É uma ditadura da era da informação.”

É entendendo o que aconteceu com a sociedade na era da informação que podemos compreender o fenômeno Bolsonaro. Não basta o cidadão ter acesso a dados e informações massivamente através das redes. Ele preciso ter educação para interpretar o que está recebendo de informação. E, de outro lado, há um componente psicológico e emocional que interfere no tipo de informação que é consumida por cada cidadão.

“As pessoas não leem os jornais ou veem o noticiário para se informar, mas para se confirmar. Leem ou assistem o que sabem que vão concordar. Não vão ler algo de outra orientação cultural, ideológica ou política”, afirmou Castells.

“Vivemos em uma sociedade de informação desinformada. Temos mais informação do que nunca, mas a capacidade de processá-la e entendê-la depende da educação.”

Leia a entrevista completa aqui.

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