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Editorial da Folha de S.Paulo falsifica história da Revolução Russa

11 de outubro de 2017

Lênin dirigiu a Revolução Russa há 100 anos.

José Carlos Rui, via Vermelho em 8/10/2017

Um dos pontos altos da falsificação da história da Revolução Russa que a direita faz pode ser lido em um editorial publicado no domingo, dia 8/8, pelo suplemento Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, assinado pelo dono do jornal, Otávio Frias Filho, sob o título de 100 anos do golpe.

Ele comenta dois livros recém-publicados, que surfam no centenário da revolução – Manifestos vermelhos e outros textos históricos da Revolução Russa, organizado por Daniel Aarão Reis, e A Revolução Russa, de Sheila Fritzpatick.

O editorial parte de uma definição aceitável do que seja revolução – a derrubada de um governo na sequência de um levante popular e a troca das classes sociais à frente da sociedade.

Foi o que aconteceu na Rússia, em 1917. O povo se levantou por paz, terra e liberdade, como os bolcheviques registraram e defenderam. Na esteira, derrubaram o governo despótico do czar e, poucos meses depois, o próprio capitalismo na Rússia.

Anacronicamente, o editorial da FSP adere à tese da oposição menchevique na época. Na ocasião, Julius Martov, o dirigente menchevique, assim classificou a revolução: em sua avaliação, teria sido um golpe.

O editorial da FSP é um texto pobre, merecedor de figurar num panfleto político de má qualidade. Ele esbarra, sem aprofundar, numa questão que, para a revolução, foi fundamental e permitiu a consolidação do poder conquistado pelos bolcheviques. Aquilo que chamam de “golpe” foi a determinação de Lênin e dos bolcheviques de que a Constituinte deveria reconhecer o poder dos sovietes e as medidas já tomadas que asseguravam a terra aos camponeses.

Os proprietários não aceitaram, na época, e mesmo hoje a rejeitam, como o proprietário da FSP revela mais uma vez.

Ele diz, neste editorial que falsifica a história, que “os bolcheviques sabotaram uma revolução democrática no nascedouro”.

Defende uma política semelhante à adotada pela socialdemocracia naquela época, na Alemanha. Política que resultou, ao fim, no desastre que ensanguentou a história do século 20 – o nazismo.

A Alemanha havia saído da Primeira Grande Guerra numa situação revolucionária, com conselhos de operários e soldados em todos os cantos. O kaiser foi deposto e teve início a chamada República de Weimar. Mas os revolucionários cujo propósito era aprofundar as mudanças enfrentaram a resistência dos dirigentes do SPD, o partido socialdemocrata que não aceitaram a revolução e esperavam organizar uma república com a nobreza latifundiária, a burguesia e setores reformistas da classe operária. A tal ponto que, ao se despedir do deposto príncipe herdeiro da Alemanha, o dirigente social democrata Friedrich Ebert assegurou-lhe odiar a revolução e que tudo faria para evitá-la.

Não evitou. A revolução é um processo social muito profundo, que não depende da vontade individual dos dirigentes. Se não tomam as providências para cumprir as tarefas postas pela história, os outros (adversários) tomam. A revolução não para, e a Alemanha foi um exemplo disso – os socialdemocratas tentaram paralisá-la. Não deu certo. A direita enfrentou as contradições da sociedade alemã da época e deu a elas sua própria resposta, autoritária e antidemocrática. Derrotou a esquerda e o resultado trágico é conhecido: depois de uma crise grave, os nazistas tomaram o poder e ensanguentaram a história do século 20.

Os bolcheviques, não – tiveram a ousadia de enfrentar os problemas de seu tempo, na Rússia, e construíram uma história que mudou a humanidade. Começaram a construção da mais prolongada experiência socialista que a história já conheceu.

Deixar de reconhecer isto, e dar o nome de “golpe” à revolução, é de uma pobreza intelectual que beira à indigência. Indigência reforçada na frase que fecha aquele editorial: os bolcheviques teriam agido por “uma doutrina que desculpava tudo em nome daquela utopia, passaram a agir como psicopatas”. Tal frase não tem amparo em nenhum historiador sério, mesmo contrários à revolução. Ela remete aquele editorial às piores diatribes e mentiras dos panfletos mais desqualificados da direita e se junta às mentiras dos fascistas e dos nazistas.

José Carlos Ruy é jornalista e escritor.

Após 50 anos da morte de Che Guevara, o caminho que o revolucionário trilhou na Bolívia

11 de outubro de 2017

Tributo ao Che em La Higuera, onde foi morto.

Nirlando Beirão, via CartaCapital em 8/10/2017

No dia 8 de outubro de 1967, o general Alfredo Ovando Candía, chefe das Forças Armadas da Bolívia, desmentiu os rumores de que o Che estivesse preso. Confirmou, isso sim, que um de seus companheiros de guerrilha tinha sido surpreendido na região de Vallegrande e se encontrava em poder dos batalhões de Rangers treinados pela CIA americana. Era Simeón Sarabia, boliviano. O governo de Fidel Castro tinha conhecimento de que o ex-ministro da Indústria estava na Bolívia, mas havia perdido contato com ele.

Na verdade, naquele dia, um dos mitos de Sierra Maestra e da Revolução Cubana, alquebrado, esquelético, maltrapilho, seu rifle pendendo sem ação de seu ombro, ferido por dois tiros após serem cercados, ele e seus derradeiros parceiros de armas, na ravina de Churo, por 1,8 mil soldados, padecia, de algemas e fortemente amarrado, na dilapidada escola para onde fora levado, na vizinha cidade de La Higuera.

Na manhã do dia 9, por determinação do general-presidente René Barrientos, foi fuzilado à queima-roupa. Só no dia seguinte a imagem nazarena do Che foi divulgada ao mundo, com a notícia de sua morte.

Os tempos mudaram, a Bolívia é hoje governada por Evo Morales e o Exército que dizimou o foco guerrilheiro se apressa, pela primeira vez, em participar, “ao lado das famílias dos antigos combatentes”, de uma homenagem à sua vítima. O vice-ministro da Coordenação, Alfredo Rada, anunciou o evento.

É a confirmação de que o país onde Che queria repetir Cuba não o tem como inimigo, mas com a mesma inspiração icônica destinada a um revolucionário romântico. A passagem frustrada de Guevara pela Bolívia acabou inspirando um empreendimento capitalista de bons resultados.

“La Ruta del Che” recupera, para turistas sem discriminação ideológica, momentos da empreitada insurrecional que terminou emblematicamente na figura do Che em frangalhos, faminto e deprimido. A jornada pode ser coberta em três ou quatro dias. Naturalmente, o elenco que se dispõe a palmilhar o rito quase religioso de veneração ao Che não compartilha da mesma cartilha dos devotos do Caminho de Santiago de Compostela.

La Higuera (A Figueira), no sul da Bolívia, é o início e o fim da jornada. É uma diminuta aldeia de menos de 130 habitantes, predominantemente da etnia guarani, a 150 quilômetros de Santa Cruz de la Sierra, capital da província, e 292 quilômetros de Sucre, capital administrativa da Bolívia. Fica numa região árida e desabitada, na qual os cactos abundam e os condores fazem circunvoluções em torno de cumes ancestrais.

O Che – que chegara a La Paz sob a identidade falsa de um empresário uruguaio na segunda metade de 1966 – pretendia instalar ali nas vizinhanças, no campo de Rancahuazu, um foco guerrilheiro a partir do qual, como uma labareda de liberdade, a rebelião iria incendiar o país, no mesmo padrão de contaminação espontânea que tinha sido bem-sucedida em Cuba.

A pequena fazenda em que Che e seus primeiros comandados se abrigaram não existe mais. Foi por lá que, no dia 31 de dezembro de 1966, apareceu o secretário-geral do Partido Comunista da Bolívia, Mario Monje, para conferenciar com Guevara.

Embora o governo do general Barrientos estivesse longe de ser democrático, o PC boliviano havia saído da clandestinidade e gozava de certa liberdade. Monje considerou o plano de Guevara delirante, fora da realidade.

Do outro lado, o Che passara a desconfiar dos comunistas atrelados ao regime soviético e foi em razão da dependência do governo Fidel à União Soviética, como resposta ao bloqueio americano, que Che saiu pelo mundo para “criar dois, três… muitos Vietnãs”, como anunciou em sua mensagem à Tricontinental. A burocracia o sufocava. O dever de todo revolucionário – dizia – é fazer a revolução.

A conversa com Monje foi catastrófica. Os reforços humanos que a guerrilha esperava ter do PC não viriam oficialmente; os militantes que aderissem ao grupo de Che o fariam por sua própria conta e risco, avisou Monje.

Quando as escaramuças começaram, no início de 1967, o efetivo do foco era de quase 50 homens, aproximadamente: 17 cubanos, entre eles quatro membros do Comitê Central do PC, 27 bolivianos, alguns deles procedentes, à revelia, do PC, e três peruanos.

La Higuera, para onde Che foi levado para morrer, registra, em murais, em monumentos, em bandeiras, em nichos domésticos, em todo tipo de souvenir, sua devoção ao mártir. Prepara-se, como pode, para acolher estes dias os peregrinos da revolução.

Tem apenas dois hostels: a Casa del Telegrafista (quartos a R$50,00, tel. + 591 6773 3362), que aproveita para hospedar uma exposição de fotos de Che; e Los Amigos (diárias a R$45,00), que incentiva discussões políticas diante de um ousado boeuf bourguignon marinado em vinho tinto. O Museu La Higuera (ingresso a R$5,00) guarda modesta memorabilia da guerrilha.

Guias locais sugerem duas escalas na Ruta. Uma, na Quebrada del Churo, a 3 quilômetros de La Higuera. Ali, Che e seus homens foram surpreendidos e capturados. A figueira atrás da qual Guevara tentou se esconder adquiriu status de patrimônio histórico.

O ritual simbólico de tributo consiste em espargir folhas de coca sobre ela. A vizinha aldeia colonial de Samaipata foi incluída no roteiro, porque foi lá que ele buscou, com um farmacêutico, alívio para suas crises de asma.

Na atual Ruta del Che, com início em La Higuera, a outra extremidade da fatalidade histórica de Guevara situa-se em Vallegrande. Esta, sim, uma cidade de 10 mil habitantes, com traços coloniais e alguma vitalidade econômica concedida pelo vale fértil para a agricultura, aos pés dos Andes. Para Vallegrande foi levado o corpo do mais procurado dos guerrilheiros.

A vala onde ele foi enterrado com os companheiros também ganhou apelo turístico (Aizar Raldes/AFP).

Uma testemunha recorda: era pouco antes do pôr do sol e o cadáver de Che veio amarrado nos trens de pouso de um helicóptero, sacudindo-se até a aterrissagem no aeroporto. Uma pequena multidão aglomerava-se e invadiu a pista para ver o desumano troféu. Os policiais tiveram dificuldade para controlar a situação. E Che, por fim, foi enfiado num carro até o hospital local.

Na lavanderia do Hospital Señor de la Malta, improvisada em morgue, a imprensa internacional testemunhou o momento mesmo em que Che Guevara saía da vida para entrar na mitologia. A lavanderia virou santuário, com as paredes revestidas de mensagens de adoração. Até velas costumam ser acesas no lugar.

Os locais passaram a acreditar que “Santo Ernesto” operava curas miraculosas. A crença nasceu da suspeita de que Che, na verdade, estava vivo, já que seus olhos semiabertos pareciam acompanhar os observadores ao longo da sala.

Em Vallegrande, o turismo da guerrilha é altamente organizado. Há seis visitas guiadas por dia (a R$24,00). O Centro de Informação Turística (Plaza Principal 26 de Enero, tel. +591 7009 1023) recomenda o Centro Cultural Ernesto Che Guevara, o memorial erigido no sítio onde o corpo de Che foi enterrado numa cova rasa, sem identificação, de forma a que a campa não virasse local de culto.

Por precaução, as mãos do Che já tinham sido cortadas – também para dificultar uma futura identificação. Em 1997, os restos mortais foram exumados e levados para o jazigo perpétuo, em Cuba.

Programações variadas estão agendadas para estes dias em Vallegrande (no Facebook, veja a página do Turismo Vallegrande Bolivia) e em La Higuera, com a presença dos quatro filhos de Guevara, que moram em Cuba, e a apresentação do documentário As Mãos de Che Guevara.

A cruel ironia é que sobra, em morte, o entusiasmo solidário que faltou a Che Guevara em vida, naqueles grotões em que ele sonhou mobilizar os camponeses locais para a causa da revolução. Em vão. No diário encontrado em sua mochila, ele anotou sua desilusão: “Os habitantes desta região têm cabeças impenetráveis como rochas”.

Documentário francês sobre crise política do Brasil destaca “golpe” e perseguição de Moro a Lula

11 de outubro de 2017

Obra descreve país em frangalhos, polarizado, desmoralizado e exausto.

Via Jornal do Brasil em 2/10/2017

O documentário das jornalistas francesas Frédérique Zingaro e Mathilde Bonnassieux chamado “Brésil – Le Grand Bond en Arrière” (Brasil – O Grande Passo para Trás, tradução livre) retrata as consequências do impeachment de Dilma Rousseff para a sociedade brasileira e a tomada de poder por uma classe política dedicada a seus próprios interesses e conservadora.

O filme foi exibido no sábado, dia 30/9, dentro da programação do Festival Biarritz América Latina 2017.

Obra descreve caos político que se instalou no Brasil com o início do processo de destituição da líder petista e começa retratando a emblemática votação na Câmara dos Deputados, em 17 de abril de 2016, pela destituição de Dilma Rousseff, inclusive as imagens chocantes dos deputados gritando xingamentos contra a presidente e votando “pela família, pelas esposas e por Deus – jamais em nome do povo ou do país” fizeram a volta do mundo, “apenas um ano e meio após sua eleição, apesar das 54 milhões de pessoas que confiaram nela [Dilma Rousseff] para um segundo mandato”, defende.

O longa apresenta um Brasil em frangalhos, polarizado, desmoralizado, exausto e observa como a destituição de uma presidente “eleita democraticamente” pode se efetivar tão rápida e facilmente.

As jornalistas Zingaro e Bonnassieux retratam uma justiça obcecada pela perseguição de políticos do Partido dos Trabalhadores e, principalmente, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, “apesar de a corrupção se estender a todos os partidos”, aponta o documentário.

Dinheiro do MBL vai todo para família do “fundador” Renan Santos, que acumula 125 processos na Justiça

3 de outubro de 2017

Kim Kataguiri, Renan Santos e outros membros MBL protestam a favor do impeachment de Dilma, em março de 2016.

RENOVAÇÃO LIBERAL: A ASSOCIAÇÃO FAMILIAR PARA ONDE VAI O DINHEIRO DO MBL
Renan Santos, um dos líderes do grupo, e seus irmãos são os associados da entidade que controla os recursos e as doações ao movimento. Família Santos é ré em 125 processos

Via El País Brasil em 29/9/2017

O Movimento Brasil Livre (MBL), que surgiu em 2014 carregando a bandeira do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff e do combate intransigente à corrupção, se autodenomina uma entidade sem fins lucrativos, segundo consta em sua página no Facebook. Porém, há um lado nebuloso sobre como se organiza e se mantém financeiramente este movimento, que conta com 2,5 milhões de fãs em seu perfil na rede social. Todos os recursos que recebe por meio de doações, vendas de produtos e filiações são destinados a uma “associação privada” – como consta no site da Receita Federal –, chamada Movimento Renovação Liberal (MRL), registrada em nome de quatro pessoas, sendo três deles irmãos de uma mesma família: Alexandre, Stephanie e Renan Santos. Este último é um dos coordenadores nacionais do MBL e um dos rostos mais conhecidos do grupo.

A família Santos responde atualmente a 125 processos na Justiça, relativos a negócios que tiveram antes da criação do MRL. O El País teve acesso a estes processos. A maioria é relativa à falta de pagamento de dívidas líquidas e certas, débitos fiscais, fraudes em execuções processuais e reclamações trabalhistas. Juntos, acumulam uma cobrança da ordem de R$20 milhões, valor que cresce a cada dia em virtude de juros, multas e cobranças de pagamentos atrasados.

Três membros desta mesma família, além de uma quarta pessoa, aparecem como únicos associados da Renovação Liberal, a entidade privada “sem fins econômicos e lucrativos” que recebe o dinheiro do MBL. Seu estatuto, registrado em cartório em julho de 2014, diz que se trata de uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP). De acordo com a legislação brasileira, doadores de uma OSCIP podem descontar do Imposto de Renda as colaborações feitas a uma entidade como o MRL.

Até hoje, o Movimento Renovação Liberal não consta no cadastro nacional de OSCIP disponibilizado pelo Ministério da Justiça. Consultando o CNPJ do Renovação Liberal (22779685/0001-59) no site da Receita Federal, o que se encontra é uma associação privada, criada em março de 2015, cuja atividade principal é “serviços de feiras, congressos, exposições e festas”.

Além disso, apenas Stephanie Liporacci Ferreira dos Santos, irmã de Renan Santos, aparece na Receita Federal como presidenta da entidade. Ou seja, o que aparece na Receita não corresponde ao quadro societário que aparece no estatuto da associação. O endereço do Renovação Liberal fica, atualmente, num bairro nobre da zona sul de São Paulo, no mesmo imóvel onde está a sede nacional do MBL. De acordo com fotos e publicações em suas páginas de Facebook, Stephanie mora na Alemanha, onde foi visitada por seus pais e irmãos em julho deste ano.

Segundo Cecília Asperti, advogada e professora de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP), o mero fato de que o estatuto social diga que a entidade se trata de uma OSCIP não significa que ela seja uma. “Somente podem qualificar-se como tal as pessoas jurídicas (de direito privado sem fins lucrativos) que tenham sido constituídas e que se encontram em regular funcionamento há, no mínimo, três anos”, afirma Asperti. “Para tanto, é necessário fazer um requerimento perante o Ministério da Justiça observando-se os critérios estabelecidos em lei. Cabe, então, à pasta federal julgar se a associação enquadra-se ou não nos requisitos”, explica a advogada.

O dinheiro doado ou repassado ao MBL é canalizado para o Movimento Renovação Liberal da seguinte maneira: quando alguém doa (e se filia) ao MBL, paga uma taxa por meio de um serviço de internet (PayPal). O dinheiro, então, é direcionado ao CNPJ do Renovação Liberal. Também a venda de artigos vinculados à marca, como bonecos pixulecos, canecas e camisetas, tem os recursos direcionados à entidade de Renan e seus irmãos, como constatou este jornal ao fazer compras na página do movimento.

Imagem de uma compra feita na loja online do MBL. No destaque em vermelho, na parte inferior, o CNPJ do MRL.

Questionado pelo El País, o MBL diz que “não se deve confundir” o Renovação Liberal com o grupo. “O MBL é uma associação de fato, que congrega milhares de indivíduos de diversas localidades do país identificados com causas de natureza política, social e econômica. Para não perder sua essência de movimento cívico compreendido como reunião espontânea de pessoas, optou-se por essa formatação. O Movimento Renovação Liberal presta apoio formal ao MBL, por exemplo em relação à realização de eventos”, disse nesta sexta-feira, por e-mail. [Veja as respostas na íntegra no box abaixo].

Ausência de prestação de contas
Tanto o MBL quanto a associação Renovação Liberal nunca apresentaram ao público uma prestação de contas. O El País questionou o grupo sobre sua arrecadação e recebeu a seguinte resposta: “O MBL é o movimento político mais perseguido do Brasil. E, portanto, como entidade privada, não tornamos público o balanço financeiro, em respeito à privacidade e integridade de nossos colaboradores, membros e doadores”. Também não consta no cartório em que a entidade está registrada atas de assembleias gerais ou registro da instituição de um conselho fiscal, contrariando o que está previsto no próprio estatuto do Renovação Liberal – e o que, em tese, prevê a natureza de uma OSCIP.

Os chamados coordenadores nacionais do MBL já foram impelidos em outras ocasiões a apresentar suas contas publicamente por órgãos de imprensa, adversários políticos, simpatizantes e até partidos aliados, mas nunca o fizeram. No dia 22 do mês passado, por exemplo, a Juventude do PSDB/SP – importantes dirigentes deste partido contam com o apoio declarado do MBL para as eleições de 2018 –, divulgou uma nota em que critica a falta de transparência financeira do movimento: “Hoje, o MBL tem sua agenda esgotada, e não se observa mais utilidade a esta organização que, aliás, nunca deixou clara sua origem, seu funcionamento e, principalmente, seu método de financiamento. […] A Juventude do PSDB do Estado de São Paulo aproveita, ainda, para convidar o Movimento Brasil Livre ao debate honesto e transparente sobre o seu modo de financiamento, desafiando-o publicamente a disponibilizar prestação de contas periódica do movimento”.

A nota acima foi divulgada após a notícia de que o MBL e parlamentares jovens do PSDB estavam ensaiando uma aliança para as eleições de 2018. O El País entrou em contato com Juventude paulista do PSDB, que, por meio de sua assessoria de comunicação, confirmou que a nota publicada na imprensa representa o posicionamento do órgão estadual até hoje. Já André Morais, presidente da Juventude Nacional do PSDB, disse à reportagem que respeita a posição da ala paulista da entidade, mas que ela não representa a opinião do órgão nacional. “Temos mais semelhanças do que diferenças com o MBL”, afirmou Morais.

“Agentes da CIA”
A falta de transparência para divulgar suas contas já gerou uma série de teorias sobre quem patrocina o MBL. De testas de ferro da CIA a fantoches dos Irmãos Koch, um grupo empresarial norte-americano que apoiou o presidente Donald Trump nas últimas eleições. Os jovens do grupo não perderam tempo de capitalizar sobre as teses que os cercam para atrair doadores. Os interessados em colaborar com o MBL podem se filiar ao movimento de acordo com diversas escalas de valores, que variam de R$30,00 a R$10 mil. Pelo valor mais baixo, o doador se registra na categoria chamada Agente da CIA. Segundo informa a página cadastral, este plano dá direito a acesso a fóruns de debates, votações em questões internas e participação em sessões de videoconferências. Por R$100,00, é possível tornar-se um doador Irmãos Koch.

Há ainda outras seis categorias, com nomes como Exterminador de Pelegos, Imperialista Yankee e Privatiza Tudo. A filiação premium chama-se I am the 1% e custa R$10 mil por mês, teoricamente dando direito à participação em congressos, votações e jantares. Apesar desse controle no número de filiações, o MBL disse o seguinte para o El País: “Estamos em 24 Estados da federação e em centenas de municípios. Cada núcleo é independente, não sendo possível afirmar quantos somos”.

Além disso, os colaboradores que se filiam não possuem qualquer direito sobre a entidade que controla as finanças do movimento. Conforme consta no estatuto da Renovação Liberal, a entidade possui apenas quatro associados, e somente eles têm direito a voto, cadeiras em assembleias gerais, no conselho consultivo e no conselho fiscal. O Artigo 15 do estatuto prevê que apenas a assembleia geral poderá aprovar a entrada de novos membros. Mas isso jamais foi feito desde que a associação foi fundada, conforme mostram os documentos referentes à entidade, entabulados no 8º Cartório de Registro Civil de Pessoa Jurídica de São Paulo.

Aqueles que são chamados de coordenadores nacionais do MBL, como Kim Kataguiri, Fernando Holiday e o próprio Renan Santos, não foram eleitos por ninguém e jamais poderão ser substituídos em eventual votação dos que supostamente se filiam ao movimento. Tampouco poderão os doadores do MBL votar ou decidir sobre qualquer destinação do dinheiro que o movimento acumula, nem mesmo aprovar suas contas. Tudo isso cabe apenas aos irmãos Santos e ao quarto associado, Marcelo Carratú Vercelino, empresário morador de Vinhedo, no interior paulista.

Problemas na Justiça
Os irmãos Santos e seus pais são alvos de pelo menos 125 processos na Justiça brasileira. Somente em nome de Renan Santos e das empresas familiares de que é sócio, há 16 ações cíveis e mais 45 processos trabalhistas. Ele nega ter agido de má fé em qualquer um desses casos, embora admita as dívidas, fruto, segundo ele, das “dificuldades de ser empresário no Brasil”, conforme afirmou ao portal UOL. Em mais da metade das ações judiciais a que respondem, o tempo para Renan e sua família se defender já passou, tornando a dívida líquida, certa e exequível. Esses processos correram à revelia, o que quer dizer que os acusados sequer se deram ao trabalho de defender-se na Justiça. As cobranças estão sendo realizadas pelos tribunais, mas não têm tido resultado, visto que oficiais de Justiça não encontram valores nem nas contas das empresas, nem nas de seus proprietários. Há casos de oficiais de Justiça que foram cobrar Renan e seus irmãos em endereços anunciados como sedes das empresas, mas não encontraram ninguém.

AS RESPOSTAS DO MBL AO EL PAÍS
Pergunta. Qual a relação entre o MBL e a empresa Movimento Renovação Liberal?
Resposta. Antes de tudo há um erro na pergunta: O Movimento Renovação Liberal não é uma empresa, mas sim uma Associação Civil sem fins lucrativos. A relação entre o Movimento Renovação Liberal e o Movimento Brasil Livre precisa ser compreendida a partir da natureza jurídica de cada um deles. Não se deve confundir um com o outro. O MBL é uma associação de fato, que congrega milhares de indivíduos de diversas localidades do país identificados com causas de natureza política, social e econômica. Para não perder sua essência de movimento cívico compreendido como reunião espontânea de pessoas, optou-se por essa formatação. O Movimento Renovação Liberal presta apoio formal ao MBL, por exemplo em relação à realização de eventos, tendo inclusive registrado perante o INPI e cedido o uso da marca MBL, evitando-se que pessoas de má-fé pudessem se aproveitar de todo trabalho realizado por indivíduos que lideram o movimento. Atualmente, os ataques sofridos pelo MBL apenas confirmam o acerto da medida.

Quanto o MBL já arrecadou neste ano com a filiação de novos membros e venda de produtos pelo site? E desde sua fundação?
R. O MBL é o movimento político mais perseguido do Brasil. E, portanto, como entidade privada, não tornamos público o balanço financeiro, em respeito à privacidade e integridade de nossos colaboradores, membros e doadores.

Quantos membros o MBL possui em todo o Brasil? E só em SP?
R. Estamos em 24 Estados da federação e em centenas de municípios. Cada núcleo é independente, não sendo possível afirmar quantos somos.

P. Vocês estão disputando na Justiça a propriedade do nome e da logomarca do MBL. Por que não conseguiram a propriedade antes?
Essa questão é risível. A marca está devidamente registrada e não há qualquer questionamento judicial nesse sentido. MBL tem cara e sempre teve seus líderes, tais como Kim, Holiday e Renan. O resto é papo de oportunista.

Liberalização de armas de fogo para iniciantes

3 de outubro de 2017

A postagem de Maurício Santoro no Twitter em 2/10/2017 é alarmante. Na guerra civil que o Brasil vive os números não devem ser muito diferentes, mas imagine se houver a liberalização das armas de fogo por aqui.


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