Archive for the ‘Internacional’ Category

Desprestígio e vexames marcam turnê europeia de Temer

26 de junho de 2017

João Filho, via The Intercept Brasil em 25/6/2017

Com 2% de popularidade e prestes a ser denunciado pela Procuradoria Geral da República por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução à Justiça, o presidente ilegítimo Michel Temer saiu em nova turnê internacional. A primeira, em outubro do ano passado, quando visitou a China e a Índia, foi um deprimente festival de vexames. O momento mais triste foi quando Temer, mais “falastrão” que Josley, narrou em detalhes um almoço que teve com Putin durante o encontro dos Brics. Mas faltou combinar com o russo, já que o almoço nunca aconteceu. Muito pelo contrário, o brasileiro foi o único dos presidentes do encontro que não teve uma reunião com o presidente russo – porque Putin não quis.

Mas se Putin não foi até Temer, Temer agora foi até Putin. O presidente foi à Rússia para atrair investimentos e tentar passar uma imagem de normalidade enquanto o mundo desaba sobre sua cabeça. Um dos principais pontos da agenda bilateral era tentar convencer os russos de que a produção de carnes brasileiras continua passando por um sistema de controle sanitário confiável. Joesley agradece essa deliciosa ironia.

Antes da viagem, o Palácio do Planalto já começou a lambança publicando na agenda oficial que o presidente viajaria para a “República Socialista Federativa Soviética da Rússia”. Nada relevante, o equívoco ficou apenas 15 minutos no ar, mas já era um aperitivo dos vexames que estariam por vir. Na chegada a Moscou, Temer não foi recebido por Putin, mas por um representante do segundo escalão do governo russo.

O desprestígio se repetiu em outros episódios ao longo da passagem de Temer pela Rússia. Além de Sérgio Utsch do SBT, outros correspondentes brasileiros registraram a frieza com que nossos representantes foram recebidos:

Para piorar o cenário deprimente, Temer resolveu contar umas lorotas para agradar os russos. Segundo ele, a cultura russa está muito presente na nossa sociedade e os grandes escritores russos são devorados pelos brasileiros. Disse ainda que “Dostoievski e Tchaikovski fazem parte do nosso próprio panorama cultural”. Seria pretensioso demais cobrar honestidade de Temer, mas a influência russa na cultura brasileira se resume à vodka, ao strogonoff – em que sincretizamos colocando batata palha – e à Elke Maravilha.

Antes de ir embora e levar seu bonde para passar vergonha na Noruega, Temer fez questão de superlativizar a hospitalidade de Putin. “Ele ofereceu almoço. E foi algo finíssimo, algo elegantíssimo”. Mas o vexame diplomático também foi no superlativo, já que o presidente deixou a Rússia sem assinar nenhum acordo relevante.

 

Ao chegar em Oslo, nem o segundo escalão do governo norueguês foi receber Temer. A recepção ficou por conta do chefe interino do aeroporto.

Antes de sair em turnê internacional, o governo brasileiro havia recebido uma carta do ministro do Meio Ambiente norueguês demonstrando insatisfação com as decisões do Congresso em relação ao licenciamento ambiental e à redução das áreas de preservação ambiental. No documento, a Noruega deixa claro que poderia colocar em risco a parceria estabelecida entre os dois países nesta área. O país escandinavo é o maior doador de recursos para a preservação da Amazônia e já investiu quase R$3 bilhões nos últimos sete anos no Fundo Amazônia. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a diminuição do desmatamento no país foi interrompida nos últimos dois anos e teve um aumento de 58%. Por uma obviedade diplomática, este deveria ser o assunto central do primeiro discurso do presidente em solo norueguês. Mas Temer simplesmente ignorou o conflito e preferiu contar as maravilhas que tem feito na economia e de como é apoiado pelo Congresso.

Temer é recebido com protestos. Foto: Reprodução / Twitter @utsch.

O assunto que interessava aos noruegueses ficou a cargo do ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, que parecia não saber muito bem o que estava fazendo ali. Ao lado do ministro do Meio Ambiente norueguês, ouviu as reclamações do colega sobre desmatamento e afirmou que o “problema é dos governos passados”. É como se ele fosse um representante de um governo, e não de uma nação. O ridículo fica maior quando lembramos que ele também foi ministro do Meio Ambiente de FHC entre 1999 e 2002, época em que a Amazônia sofreu um dos maiores desmatamentos da história. Perguntado se poderia garantir para a Noruega que o desmatamento diminuirá, Zequinha Sarney não teve dúvidas e jogou a responsabilidade para os céus: “Só Deus pode garantir isso”.

Durante o encontro, a Noruega anunciou oficialmente que cortará R$200 milhões da doação para o Fundo Amazônia. Deve ser um caso inédito de um presidente que sai para buscar investimentos e volta com prejuízo. Claro, não é razoável investir tanto dinheiro para salvar a floresta quando o ministro do Meio Ambiente apresenta Deus como fiador do seu trabalho, quando Blairo Maggi – considerado o maior desmatador da Amazônia – é o ministro da Agricultura, e quando nosso presidente tem apoio maciço de uma bancada ruralista cada vez mais forte no Congresso.

O desprestígio de Temer na Rússia se repetiu na Noruega. Jamil Chade, correspondente do Estadão, disse que há 17 anos acompanha viagens de presidentes e essa foi a primeira vez que viu a imprensa local ignorar o Brasil.

A correspondente do Le Monde, Claire Gatinois, falou sobre a passagem de Temer pela Europa em artigo intitulado: “A estrela pálida do Brasil no cenário internacional”. A jornalista conta que Temer tenta mostrar ao mundo que o país não virou uma vergonhosa República das Bananas – “uma vã tentativa”, segundo ela. Claire destaca que o Brasil “perdeu sua atratividade internacional” e reproduz fala do presidenciável Joaquim Barbosa:

“Desde que tomou posse, há um ano, qual grande chefe de Estado veio visitar Michel Temer? Além do primeiro-ministro espanhol, também acusado de corrupção, ninguém. Na América Latina, Europa, Estados Unidos, não se presta mais atenção ao Brasil. O país tornou-se um pária”.

Antes de voltar ao Brasil, o presidente afirmou que a viagem “foi um sucesso absoluto” e mandou uma mensagem para tranquilizar o mundo – um mantra baseado em um delírio bastante similar àquele almoço com Putin que nunca existiu: “E as instituições, só para tranquilizar a todos, funcionam com uma regularidade extraordinária. Portanto, as instituições estão funcionando”.

Vai ficando cada vez mais claro para os brasileiros e para o mundo que o Brasil não tem governo. É apenas um amontoado de sanguessugas que golpearam a democracia para tentar se safar da cadeia e tomar o poder sem precisar de eleições.

O PCC agradece a Lava-Jato

26 de junho de 2017

Enquanto a PF persegue os holofotes, o PCC domina o tráfico na fronteira. Foto: Leonardo Benssatto / Futura Press.

Focada em operações internas contra a corrupção, a Polícia Federal deixa livre para a facção criminosa as fronteiras com o Paraguai e a Bolívia

Najla Passos, via CartaCapital em 16/6/2017

Com a Polícia Federal praticamente à disposição da força-tarefa da Operação Lava-Jato, a principal facção criminosa brasileira, o Primeiro Comando da Capital, encontrou o ambiente propício para prosperar, internacionalizar suas atividades e iniciar, no Paraguai, uma guerra contra o seu principal rival, o Comando Vermelho.

Nascido de São Paulo, o PCC tem ganhado musculatura nos últimos 20 anos, baseado em uma visão empresarial sólida e premiado pela sucessão de erros das forças de segurança pública, que vão das péssimas condições do sistema carcerário à falta de interlocução entre as polícias. Só agora, e não por acaso, a facção conseguiu entrar de fato no radar internacional.

Além do Brasil, há provas da presença do PCC no Paraguai e na Bolívia e indícios de que o grupo alcançou a Argentina e o Uruguai. Segundo a própria Polícia Federal, a organização chegou à África Ocidental. Um crescimento vertiginoso, respaldado pela falta de articulação brasileira para enfrentar o problema.

Em tese, quem deveria combater facções com essa capilaridade deveria ser a PF, responsável por investigar crimes transnacionais. Há dúvidas, porém, se as leis permitiriam aos federais atuar em investigações de assaltos a carros-fortes ou assassinatos em pontos localizados. Na dúvida, ninguém faz nada. Ou quase nada.

O caso da PF é emblemático. De acordo com o presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais, Luís Antônio Boudens, está tudo errado. A corporação tem cerca de 15 mil profissionais, mas menos de mil atuam ao longo dos 17 mil quilômetros de fronteiras do Brasil com outros dez países da América Latina. Para agravar a situação, normalmente são designados agentes em início de carreira, menos experientes. Mais, explica Boudens: “Quando há uma ação prioritária, os agentes são realocados e deixam a fronteira aberta. Na época dos grandes eventos esportivos, a PF parou”.

Maior produtor de maconha da América Latina, o Paraguai é uma área cobiçada pelas facções. “O Brasil volta-se para questões internas, o que criou uma oportunidade enorme para o PCC e para o CV crescerem e atuarem nos países vizinhos. Assistimos neste momento a uma guerra de traficantes brasileiros em território paraguaio”, afirma o jornalista paraguaio Cândido Figueredo, do jornal ABC Color, especialista no tema.

Com o assassinato de Jorge Rafaat Toumani, o PCC e o CV dominaram a venda de drogas na fronteira paraguaia. Foto: Najla Passos.

O tráfico movimenta, segundo Figueredo, ao menos 300 milhões de dólares ao ano apenas no aglomerado urbano formado por Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, e Pedro Juan Caballero, no Paraguai, principal rota do tráfico para a América do Sul e a Europa, onde é possível atravessar de um país a outro sem nenhum trâmite burocrático ou aduaneiro. “Se o PCC e o CV não entrarem em acordo sobre como dividir esse dinheiro, será um banho de sangue”, prevê.

A circulação de drogas na fronteira é realmente livre. Reconhecido como o órgão mais eficiente no combate ao narcotráfico, o Departamento de Operações de Fronteira, ligado à Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul, apreendeu 7 mil toneladas de maconha entre janeiro e maio. O volume é 46% maior do que no ano anterior. No comando do órgão há um ano, o coronel Kleber Haddad Lane atribui o incremento ao trabalho da unidade. “Decidimos centrar nossas operações na região de Ponta Porã, que, por causa da localização geográfica, escoa também a cocaína produzida na Bolívia, no Peru e na Colômbia”.

Lane admite, entretanto, que a estratégia adotada está longe de deter o problema. “Somos reconhecidos pelo alto número de apreensões por fazermos um trabalho contínuo. Sabemos que, se partirmos para o enfrentamento direto com o narcotráfico, vamos perder”. No departamento, compara, falta até rádio para comunicação, enquanto os traficantes dispõem de drones, fuzis e aviões.

Crimes com alto grau de sofisticação e violência, com DNA atribuído ao PCC, são cada vez mais frequentes nas fronteiras com o Paraguai e a Bolívia. Os roubos de carros-fortes e, mais recentemente, dos depósitos das próprias empresas que transportam dinheiro, crescem vertiginosamente. O mais emblemático episódio, considerado o marco zero da guerra em curso, foi o assassinato do narcotraficante Jorge Rafaat Toumani, 56 anos, há um ano. Considerado “o rei do tráfico”, Rafaat dominou a fronteira durante duas décadas. Com prisão decretada no Brasil, circulava por Pedro Juan Caballero com status de chefe de Estado. “Ele fechava a rua para entrar ou sair de casa, sempre com dois carros de seguranças à frente e dois atrás”, conta Figueredo.

O traficante foi morto durante uma ação conjunta do PCC com o CV, quando circulava em uma caminhonete blindada, que não suportou o impacto da metralhadora de calibre 50, utilizada pelo Exército dos Estados Unidos para derrubar aviões. Mais de cem homens fortemente armados participaram da operação, cujos custos foram estimados em cerca de 1 milhão de dólares. O “narcoexército” desapareceu no ar. Até hoje ninguém foi preso, nem no Brasil nem no Paraguai. Depois da operação conjunta e da eliminação do inimigo comum, o PCC e o CV entraram em guerra pelo controle da área.

Sem efetivo necessário para garantir a segurança dos seus próprios agentes, a delegacia da PF em Ponta Porã terceirizou o serviço. Glauber Araújo, delegado responsável pela área, não informa o tamanho do atual efetivo, por “questões de segurança”. E não nega a contratação de segurança privada. “Sabemos que a região de fronteira é mais delicada e tomamos mais precauções”, limita-se a dizer. Boudens critica a terceirização. “Em Pernambuco há decisão judicial para a PF retirar os terceirizados dos aeroportos, pois segurança pública é função do Estado”. A Polícia Federal não respondeu às perguntas encaminhadas por CartaCapital.

Depósito de drogas apreendidas pelo DOF. Este ano foram mais de 7 mil toneladas. Foto: Najla Passos.

Na Polícia Civil, a questionável solução serve de apoio ao baixo efetivo. Com apenas três agentes para cuidar dos registros e investigações de ocorrências, o titular da 2ª Delegacia de Polícia de Ponta Porã, Patrick Linares da Costa, decidiu tomar uma atitude discutível quando soube que o PCC pretendia invadir o local para resgatar um dos seus integrantes preso: amarrou o criminoso em um bujão de gás e colocou na porta. “Até hoje não apareceram”, gaba-se.

A falta de recursos causa outros constrangimentos. O principal aeroporto da região está localizado há cerca de 100 quilômetros do foco da guerra, no município de Dourados. Mantida pela prefeitura, a pista recebe dois voos comerciais nos dias de semana e um aos sábados e domingos. Conforme um servidor municipal que pediu o anonimato, o aeroporto não tem raio X para inspecionar bagagens. E o controle com cães farejadores, função da PF, foi interrompido há meses.

De todas as soluções inusuais utilizadas pelas forças de segurança da fronteira para sobreviver à guerra do tráfico, a mais polêmica foi adotada pela Polícia Militar paranaense, em parceria com a Polícia Nacional do Paraguai. Após a morte de Rafaat, quando o aumento dos roubos passou a assustar a população e os enfrentamentos com os narcotraficantes começaram a atemorizar os policiais, firmou-se o seguinte pacto bilateral.

“Pelo nosso acordo, qualquer uma das polícias pode atuar no país vizinho, em caráter excepcional, desde que em situação de diligência. Isso aumenta a segurança da população, pois os criminosos sabem que não podem mais atravessar uma rua e sair impunes como ocorria antes”, acredita o coronel Waldomiro Centurião, comandante do Batalhão da PM em Ponta Porã. “Nossa parceria prevê também que, em caso de ataque do narcotráfico, possamos acessar os dois países para uma ação mútua”, acrescenta o comissário Manuel Irrazabal, comandante do Grupo de Operações Táticas da PNP. “A população quer resultados. Não importa quem prenda o criminoso. Com esse acordo, reduzimos a criminalidade em 80%”.

“Nossa parceria prevê também que, em caso de ataque do narcotráfico, possamos acessar os dois países para uma ação mútua”, afirma o comissário Manuel Irrazabal, comandante do Grupo de Operações Táticas da PNP. Foto: Najla Passos.

Por causa da presença das facções brasileiras, descreve o comissário, policiais passaram a comprar armas e munições com o próprio salário para se defender. O major Ulisses Canete encaixa-se nesse perfil. Apesar de carregar um fuzil de propriedade do governo paraguaio, achou por bem pagar 2 mil dólares por uma pistola de fabricação tcheca. “O Paraguai possui uma política muito permissiva em relação à venda e ao porte de armas. Qualquer um pode comprar com facilidade. Os criminosos, por consequência, estão muito mais bem armados do que as polícias”, avalia Irrazabal.

O pacto local não tem respaldo das relações diplomáticas dos dois países, também inoperantes em relação ao tema. Centurião rebate, porém, as críticas de que a atuação de policiais estrangeiros em outro país possa ferir a soberania nacional. “O acordo respalda-se no princípio da garantia da dignidade humana, que se sobrepõe ao da territorialidade. O intuito não é atentar contra a soberania dos países, mas proteger as populações”.

A parceria na fronteira anima quem vive e atua na região, principalmente os agentes ameaçados pelo poder de fogo do tráfico. Em maio, Irrazabal foi condecorado com a Medalha Tiradentes pelo comando da PM em Campo Grande (MS). Tornou-se herói em uma terra sem lei.

Imagem do Brasil no exterior se deteriora rapidamente, diz fundação alemã ligada a partido de Merkel

26 de junho de 2017

Michel Temer na Noruega: para a Fundação Konrad Adenauer, presidente “perdeu credibilidade e continua conseguindo manter-se no poder por meio de manobras políticas questionáveis”.

Em relatório sobre o Brasil, a Fundação Konrad Adenauer, ligada à CDU, afirma que Temer se mantém no poder “por meio de manobras políticas questionáveis” e que país “está desperdiçando seu potencial geopolítico”.

Via Opera Mundi em 23/6/2017

A Fundação Konrad Adenauer, ligada à União Democrata-Cristã (CDU), partido de Ângela Merkel, chanceler alemã, divulgou um relatório em que afirma que o Brasil perdeu “importância no cenário internacional” e que o país “está desperdiçando seu potencial geopolítico”.

O documento, publicado em alemão no dia 13 de junho e em português na sexta-feira, dia 23/6, critica Michel Temer e diz que ele “perdeu credibilidade e continua conseguindo manter-se no poder por meio de manobras políticas questionáveis”. “Não obstante, a saída de Temer tampouco parece ser a solução do problema”, acrescenta o documento que diz que “não há saída à vista”.

A Fundação ainda critica o poder Legislativo, que não votou e não debate as reformas estruturais do país porque a maior parte dele também está envolvido na Operação Lava-Jato, e o Judiciário, por estar ficando cada vez “mais politizado”.

O texto também classifica como uma “farsa” o julgamento da chapa vencedora das eleições de 2014, formada por Dilma Rousseff e Michel Temer, feito recentemente pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Os únicos elogios vão para a Lava-Jato que, para a entidade, é um sinal na mudança da “cultura da impunidade” do Brasil.

Com tantos problemas internos, o país está perdendo espaço no campo internacional, provocando um isolamento que pode ser difícil de reverter, diz a Fundação. “É sintomático que a chanceler alemã Ângela Merkel (CDU) tenha deixado o Brasil de fora de sua viagem de quatro dias à América Latina, cuja pauta incluía temas relacionados ao G20, grupo do qual o Brasil faz parte; e as consultas de governo em alto nível, previstas para serem realizadas entre Brasil e Alemanha no início do verão europeu, tenham sido canceladas”, afirma a entidade.

“O Brasil, que já era considerado um global player, está desperdiçando seu potencial geopolítico. Esse isolamento é um passo que o Brasil não deveria arriscar, pondo a perder conquistas políticas e econômicas – mas não há saída à vista”, finaliza o documento.

Em seu site, a Fundação Konrad Adenauer se descreve como “uma fundação política alemã, independente e sem fins lucrativos”, presente no Brasil desde 1969, cujos “interesses específicos são a consolidação da Democracia, o fomento da unificação europeia, a intensificação das relações transatlânticas e a cooperação na política em prol do desenvolvimento”.

Moro, Lava-Jato e interesses dos EUA

26 de junho de 2017

Fotoilustração: Joana Brasileiro.

Cesar Locatelli do Jornalistas Livres e lido no Jornal GGN em 24/6/2017

O juiz Sérgio Moro é louvado em verso e prosa pelos meios de comunicação tradicionais, nacionais e estrangeiros. Foi “personalidade do ano” por O Globo, esteve entre “as 100 personalidades mais influentes” da revista Time, alçado à condição de 13º entre “os maiores líderes mundiais” pela revista Fortune e 10º entre os mais influentes da agência de notícias financeiras Bloomberg.

O que teria levado o juiz federal ao estrelato? Que apoios teria acumulado para se tornar uma quase unanimidade internacional? Certamente muitos se apressarão em concluir que foi seu trabalho destemido e incansável contra a corrupção. No entanto, outros tentaram e não tiveram sucesso com seus processos, nem tampouco viraram ídolos mundiais, muito ao contrário.

As ocorrências com o juiz Fausto De Sanctis nos dão um exemplo marcante do caminho oposto ao de Moro. De Sanctis teve sua condenação do banqueiro Daniel Dantas revertida e toda a operação Satiagraha anulada, mesmo de posse da gravação da entrega da propina aos policiais federais para que paralisassem as investigações de lavagem de dinheiro e evasão de divisas no Banco Opportunity. Sua carreira, especializada em crimes financeiros, foi encerrada pela “promoção” ao Tribunal Regional Federal para atuar na área previdenciária.

Por que os processos de Moro não tiveram a costumeira gaveta como destino? Qual teria sido seu diferencial?
Alguns amigos do juiz paranaense declararam ao jornal Washington Post que sua abordagem pode ter sido influenciada pela exposição que teve aos processos legais nos Estados Unidos: ele participou de um programa especial na Universidade de Harvard em 1998 e de um programa para líderes potenciais em 2007, patrocinado pelo Departamento de Estado daquele país.

As relações de Moro com as autoridades estadunidenses já pareciam consolidadas quando ele “determinou em 2007 a criação de RG e CPF falsos e a abertura de uma conta bancária secreta para uso de um agente policial norte-americano, em investigação conjunta com a Polícia Federal do Brasil. No decorrer da operação, um brasileiro investigado nos EUA chegou a fazer uma remessa ilegal de US$100 mil para a conta falsa aberta no Banco do Brasil, induzido pelo agente estrangeiro infiltrado”, conforme reportagem dos Jornalistas Livres.

Em seminário sobre o crime organizado no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, em maio de 2009, o juiz defendeu a delação premiada e revelou conhecimento sobre os métodos da justiça estadunidense. Ele afirmou que “nos Estados Unidos entende-se como acordo precioso aquele que tem efeito dominó” e que “a sugestão de juiz dos Estados Unidos é pedir uma amostra ao delator com o compromisso de não utilizá-la, a não ser que haja acordo”.

“Outra experiência que o juiz contou é de que, nos Estados Unidos, foi levada à Suprema Corte um caso em que delator grava declarações do investigado. Alguns sustentaram que isso era vedado, por entender que era autoincriminação. Os EUA, diz Moro, entenderam que o devido processo legal não protege quem confia na pessoa errada e que a autoincriminação só ocorre quando é feita diante de autoridade pública”, revela, ainda, a matéria do Consultor Jurídico.

Projeto Pontes: Construindo pontes para a aplicação da lei no Brasil
No final de outubro, ainda em 2009, a comunicação interna da Agência de Contraterrorismo do Departamento de Estado dos EUA, vazada pelo WikiLeaks, destacou a cooperação com juízes, procuradores e policiais brasileiros na realização de uma conferência, denominada Projeto Pontes, no Rio de Janeiro, financiada pela Agência. Sérgio Moro, que fez parte do time de apresentadores, falou sobre os casos de lavagem de dinheiro nas cortes brasileira. Os apresentadores estadunidenses discutiram vários aspectos relativos à investigação e ao julgamento de casos de transações financeiras ilícitas e de lavagem de dinheiro, incluindo cooperação internacional formal e informal, arresto de bens, delação premiada, entre outros assuntos.

Para os treinamentos futuros, o comunicado do Departamento de Estado sugere que: “Idealmente, o treinamento deve ser de longo prazo e coincidir com a formação de forças-tarefa de treinamento. Dois grandes centros urbanos com apoio judicial comprovado para casos de transações financeiras ilícitas, em particular São Paulo, Campo Grande ou Curitiba, devem ser selecionados como local para este tipo de treinamento. Em seguida, as forças-tarefa podem ser formadas, e uma investigação real utilizada como base para treinamento que evoluiria, sequencialmente, desde a investigação até a apresentação do caso no tribunal e a conclusão do caso. Isso proporcionaria uma experiência real aos brasileiros, em trabalhar em uma força-tarefa proativa, de longo prazo, de transações ilícitas e permitir o acesso a peritos dos EUA para orientação e suporte contínuos”. Destaque-se que a sugestão de “orientar” uma força-tarefa em um caso real ocorreu pouco mais de quatro anos antes do início da operação Lava-Jato.

O “monitoramento” da NSA sobre a comunicação da Petrobras
O cientista político brasileiro Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, ao unir as relações de Moro com os Estados Unidos, apontou, em entrevista ao Jornal do Brasil, que: “a Agência Nacional de Segurança (NSA), que monitorou as comunicações da Petrobras, descobriu a ocorrência de irregularidades e corrupção de alguns militantes do PT e, possivelmente, forneceu os dados sobre o doleiro Alberto Youssef ao juiz Sérgio Moro, já treinado em ação multijurisdicional e práticas de investigação, inclusive com demonstrações reais (como preparar testemunhas para delatar terceiros)”.

Moniz Bandeira denunciou que os prejuízos, causados pela Lava-Jato à Petrobras, às construtoras e a toda a cadeia produtiva associada, ultrapassam “em uma escala imensurável” os prejuízos que dizem combater. Contabilizando a desestruturação, a paralisação e a descapitalização das empresas nacionais, públicas e privadas, ele pergunta: “a quem serve o juiz Sérgio Moro, eleito pela revista Time um dos dez homens mais influentes do mundo? A que interesses servem com a Operação Lava-Jato? A quem serve o procurador-geral da República, Rodrigo Janot?”

Os crimes apurados nos EUA e na Europa não destruíram as corporações que os cometeram
Na mesma linha de Moniz Bandeira, o professor de Economia Política Internacional da UFRJ, Maurício Metri, observou, na GGN, que os vazamentos de Snowden, em 2013, já revelavam que um dos alvos da espionagem da NSA era a Petrobras. O que torna absolutamente plausível a conclusão que informações sobre a empresa devam ter sido repassados aos operadores da Lava-Jato. Processo que culminou com “uma conjuntura que tem fragilizado a própria empresa para além do necessário à averiguação de responsabilidades por malversações, forçando-a a se desfazer de ativos estratégicos e comprometendo a cadeia produtiva ligada a ela”.

O contexto político produzido abriu espaço para a mudança do marco regulatório que dava prioridade à Petrobras na exploração do pré-sal. Metri complementa: “em nome do combate à corrupção, acaba-se por retirar do Estado brasileiro sua capacidade de iniciativa estratégica no setor, atendendo aos objetivos geopolíticos de outros países e de suas respectivas empresas nacionais”.

Para Metri as potências estrangeiras perceberam a política externa autônoma exercida pelo Brasil nos últimos governos, a política de defesa com acesso à energia nuclear e as grandes reservas descobertas de petróleo. O professor finaliza: “alguns dos alvos da operação Lava-Jato constituem-se pilares deste conjunto de iniciativas. Sob a névoa das disputas políticas domésticas, as conexões estrangeiras da operação Lava-Jato ainda não estão claras, mas seus efeitos já se fazem sentir”.

O Brasil se insinuava forte candidato a tornar-se uma potência média, o que gerou imediatas hostilidades da Superpotência, os EUA, aponta Bruno Lima Rocha, mestre e doutor em ciência política pela UFRGS. “Assim, simplesmente não estamos negando a existência de corrupção, ou mesmo de corrupção estrutural. Afirmamos sim que para a Superpotência, as acusações de práticas empresariais criminosas são um recurso de guerra, uma arma com emprego tático, assim como o uso da força ou da espionagem. Logo, o alvo estratégico da relação EUA com os frutos das delações da Lava-Jato, é o desmonte da Petrobras e das empresas de engenharia complexa operando a partir do Brasil”.

Uma bactéria alienígena que se nutria de frações de classes nacionais.
“Os órgãos de inteligência americanos, ao passarem as informações da Petrobras, inocularam uma bactéria perigosa no organismo institucional brasileiro, mas que, provavelmente, poderia ter sido contida por anticorpos institucionais básicos em sua fase inicial”, asseverou o estudo A Guerra de Todos contra Todos: A Crise Brasileira, do Instituto de Economia da UFRJ.

A flagrante desestruturação econômica, política e institucional do país atende os interesses externos, especialmente dos EUA, na medida em que “(i) possibilita a abertura da exploração do pré-sal para as empresas estrangeiras; (ii) retarda/paralisa o projeto nuclear brasileiro; (iii) desestabiliza o engajamento do Brasil aos arranjos configurados pelos Brics; e (iv) desestabiliza a presença das empresas de construção civil nacional na América Latina e África, abrindo mercados para novos entrantes”, complementa o estudo.

“[…] o projeto político aliado com a Lava-Jato não se importa com a “justiça”, somente em perpetuar uma crise política viciosa como meio de arrastar a sétima maior economia do mundo para a lama”, já afirmava Pepe Escobar antes do impedimento de Dilma Rousseff.

The Economist traça o perfil do metrossexual João Dória

25 de junho de 2017

Dória parece não ter impressionado muito à The Economist.

DÓRIA PARA INGLÊS VER
Um novato com credenciais frágeis e ar de metrossexual, e ainda assim com chance de ser presidente. Eis como a The Economist enxerga João Dória.
Sergio Saraiva, via Jornal GGN em 19/6/2017

Pelo menos é o que se denota da reportagem de 15 de junho de 2017: “Who will survive Brazil’s political cull?”– algo como “quem irá sobreviver no refugo político do Brasil”. Cull também pode significar lixo.

Escândalos abrem oportunidades para recém-chegados, complementa a revista.

Dória é visto como um político neófito que tem como principais características um charme discreto de comunicador profissional e um ar de metrossexual.

Nenhuma menção à sua Lide e aos eventos que promove, nem à forma como suas revistas sobrevivem sendo praticamente desconhecidas do público. A única menção sobre a experiência anterior de Dória é como apresentador de “O Aprendiz” e, se serve como elogio, uma citação à Trump que também apresentou o programa nos EUA.

No mais, em um ligeiro balanço da gestão Dória até aqui, a The Economist crava: na melhor das hipóteses, não passaria de um começo possivelmente promissor.

Por isso se espanta de que Dória esteja cotado como um sério candidato a presidente em 2018. Para, logo em seguida, explicar a seus leitores que isso se dá porque “as investigações de corrupção e uma crise econômica derrubaram a classe política como uma colheitadeira em uma plantação de soja”. Imagem interessante.

Assim sendo, Dória que conseguiria ser, ao mesmo tempo, um iniciado e um novato em política, teria chance de se eleger presidente. Embora suas credenciais sejam frágeis, destaca a The Economist.

E conclui citando um professor da FGV: “No Brasil de hoje, o imprevisível é provável”.

Realmente, parece que Dória não impressionou muito a The Economist.


%d blogueiros gostam disto: