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A primeira convenção brasileira sobre Terra plana foi exatamente como você imagina

19 de novembro de 2019

No geral, meio deprê.

Marie Declercq, via VICE Brasil em 12/11/2019

Não sei se poderia chamar de justiça poética, mas que gostosa surpresa foi descobrir que FlatCon, a primeira convenção brasileira sobre Terra plana, aconteceria em frente a uma loja maçônica gigantesca na capital de São Paulo. O local foi divulgado 12 horas antes do evento em um grupo de WhatsApp para todos os inscritos. Eu nem tinha pisado na convenção e o pau já estava torando no grupão de zap dos terraplanistas.

Acreditar em Terra plana não é só desacreditar a ciência, mas também acreditar nas centenas de teorias da conspiração sobre como um seleto grupo de poderosos esconde a verdade sobre a terra supostamente ser fixa, estacionária e, claro, plana. E isso inclui os maçons e, claro, a narrativa antissemita de que famílias judias multibilionárias, como os Rothschild, controlam o mundo. Por conta disso, muitos adeptos ficaram preocupados com tanta proximidade dos maçons. “E esse símbolo na frente do local?”, escreveu um dos participantes, visivelmente incomodado.

Não foi exatamente fácil alugar um auditório para o evento, como explicou Jean Ricardo, um dos organizadores. Mais ou menos um mês antes da conferência, o primeiro local – uma escola católica – rescindiu o contrato após descobrir o tema da conferência. Mesmo com a explicação do organizador, alguns inscritos falaram em desistir, mas as negativas eram abafadas pelo pessoal do deixa-disso.

“Ué, você não usa L’Oréal? Não usa produtos d’O Boticário? Tudo isso é maçom. Não come produtos Nestlé? Maçom! Já viu a última propaganda da Lâncome que a modelo espirra o perfume pro céu em cima de uma montanha? Isso é maçonaria”, argumentou uma senhora em um dos áudios enviado para o grupo.

No fim das contas a proximidade física de conspiracionistas com uma loja maçônica gigante não impediu que uma fila considerável se formasse na porta do teatro para o credenciamento e a retirada de camiseta, caneca e revista do evento. Já na fila, uma equipe de reportagem com o indefectível símbolo da Globo entrevistava alguns dos presentes. A própria presença da emissora logo no começo do evento foi, digamos, um gatilho para os terraplanistas, porque 1) “a Globo é um lixo”; e 2) “até no símbolo da TV eles querem zombar da gente”. O repórter passou alguns minutos conversando com um homem de 30 e poucos anos, que usava boné e uma camiseta com a frase “The Earth Is Flat” (“A Terra é plana”). Perguntou todas as perguntas que eu, você e o resto do mundo gostariam de fazer para uma pessoa que não acredita que a terra é esférica e gira em torno do sol.

Após o repórter se afastar, um dos amigos do entrevistado reclamou: “Porra, os caras só vêm aqui pra zoar com a gente”. E assim veio o primeiro tapa de empatia na minha cara, porque estava lá para fazer a mesma coisa que os outros jornalistas. Meu termômetro empático variou consideravelmente durante as 8 horas de evento, dependendo das falas que ouvia nos corredores. Cinco minutos depois do cara reclamar de ser zoado, ouvi um senhor de seus 50 e poucos comentando que não achava correto as escolas ensinarem só o modelo heliocêntrico.

Loja maçônica na frente do Teatro Liberdade, onde a convenção aconteceu. Foto: Marie Declercq/VICE.

Mais de dez palestrantes foram convidados para compor a programação, comentando diversos assuntos que giram em torno (desculpa) da Terra plana. Todos são youtubers, sem exceção. Reconheci também alguns membros do staff do evento, de vídeos que assisti sobre o tema. No próprio grupo de WhatsApp alguns pediam para compartilharem seus vídeos. Nem duas horas depois da conferência, já encontrei vídeos sobre ela. O terraplanismo contemporâneo é 100% dependente do YouTube e do Facebook.

Como já esperado, grande parte do público era masculino. Lembro que ao ser anunciada e viralizar rapidamente, a conferência foi ridicularizada por um site de entretenimento pelo fato de só ter palestrantes homens. Não sou de reclamar dos limites ridículos que esse assunto da representatividade costuma atingir às vezes, mas pela primeira vez achei positiva a falta de mulheres. O número esmagador de homens adeptos da Terra plana, cabe dizer, é algo de que a “cena” está bem ciente. Tanto que a revista distribuída para quem pagou o lote mais caro (Revista Terra Plana – Uma Resposta Para A Ciência de Verdade) inclui uma “Coluna Mulher”, em que algumas adeptas opinam sobre o tema: “A Nasa é uma agência muito mais de propaganda do que de ciência propriamente, a promover uma cosmologia baseada no ocultismo e na cabala”.

Edson douglas K. Neves posa ao lado de suas maquetes de terra plana. Foto: Marie Declercq/VICE.

Nem todos os participantes estavam 100% convencidos sobre a teoria. Um deles era o músico Edson Douglas K. Neves, que vendia maquetes e mapas da terra plana. Simpático, contou que descobriu o assunto no YouTube, assistindo vídeos sobre teorias da conspiração e arqueologia especulativa. No entanto, não se considera um terraplanista fervoroso. “A princípio achei uma loucura, mas pensei que se alguém tá falando isso, alguma coisa tem. O assunto pra mim é complexo. Não tenho certeza de nada, mas tô aberto a ouvir. De certa forma, não consigo mais acreditar completamente no modelo tradicional,” disse. “Pra mim não é válido levantar uma bandeira, mas na medida do possível a gente sempre acaba falando sobre o assunto.” As maquetes e mapas de Edson, feitas de jornal e papel crepom, variavam de 20 a 80 reais.

Curiosos também circularam pelo auditório, como os estudantes de Filosofia Ricardo Mantovani e William Cardoso. Segundo eles, vieram por gostarem de “coisas exóticas”. “O primeiro contato que tive foi pelo documentário da Netflix. Aí vi que tinha gente que acredita nisso no Brasil, me interessei e vim. Não tenho nenhuma convicção, vim para conhecer”, explica Ricardo.

William e Ricardo, dois curiosos, pousam em frente a um dos mapas espalhados pelo teatro. Foto: Marie Declercq/VICE.

A primeira palestra foi de Anderson Neves, um homem de terno e gravata que se apresentou para o auditório quase lotado (o Teatro Liberdade possui capacidade para 900 lugares) como administrador de empresas e programador neurolinguístico, uma abordagem de comunicação criada nos anos 1970 que hoje em dia se tornou sinônimo para coach. Durante mais de uma hora, Neves deu uma introdução completamente caótica sobre terraplanismo, citando diversas teorias da conspiração clássicas como a HAARP, chemtrails e “aqueles que controlam tudo”, arriscando uma explicação científica sobre a teoria não comprovada da gravidade até ser interrompido pelo organizador do evento quando seu tempo se esgotou.

Uma coisa é você passar três horas vendo vídeos sobre a terra ser plana. Outra é ver um homem na sua frente, falando essas coisas com uma certa autoridade, tendo ao seu redor muita gente assentindo com a cabeça. Em determinado momento, Neves mostrou um vídeo de um balão de hélio atingindo altas altitudes e disse: “Não tem curvatura. Estão vendo?” (Uma explicação: quem acredita que a terra é plana questiona o formato esférico porque não consegue enxergar a tal da curvatura do planeta quando viaja de avião ou olha para o horizonte.) O problema é que eu estava vendo a curvatura naquele vídeo. Estava ali. Era inegável que tinha uma curvatura. Olhei à minha volta procurando alguém que estivesse vendo a mesma coisa. Enxerguei na plateia muita gente séria, algumas pescando, várias concordando. Logo, o palestrante respondeu minha dúvida. “Passamos muito tempo aprendendo essas coisas, e é muito difícil abandonar esses ensinamentos errados.”

Considerando outras teorias da conspiração e o mar de chorume na forma de desinformação que tomou conta das redes sociais nos últimos anos, acreditar que a Terra é plana parece quase inofensivo à primeira vista. Sinceramente, havia ali uma coisa até interessante de querer fazer ciência com as próprias mãos e buscar respostas sobre o universo. Assim, tirando todo o absurdo, devemos mesmo culpá-los por serem curiosos? Meu termômetro de empatia começou a subir novamente.

Aí vem a parte que torna tudo isso perigoso: por que que a Igreja Católica, as agências espaciais e sei lá mais quem guardaram esse segredo por tanto tempo? Por que esconder que a Terra é plana? É então que entra em cena a paranoia, porque qualquer coisa pode ser uma resposta.

Manter o controle e ganhar dinheiro é uma das respostas mais usadas entre os terraplanistas, seguida por uma explicação religiosa sobre o modelo atual da terra esférica reduzir os homens à insignificância e fazê-los parar de acreditar em Deus. Essa tese é reproduzida por Elaine e Amanda, mãe e filha, donas de um canal bastante conhecido sobre o assunto. Ambas possuem o famoso cabelo “loira odonto” e foram bastante tietadas pelos seguidores do canal antes e depois de sua palestra sobre as vantagens de ser terraplanista. “Escondem a verdade da Terra plana da gente pelo controle. Porque nos colocam como seres insignificantes e nos distanciam do nosso Criador,” explica Elaine.

Amanda e Elaine são donas de um dos canais mais conhecidos sobre terra plana. Foto: Marie Declercq/VICE.

No geral, os adeptos do terraplanismo são pessoas bastante religiosas, com uma intensa aversão pela Igreja Católica, que dissemina o modelo heliocentrista. Há também os que são religiosos mas não concordam em basear a teoria da Terra plana na Bíblia, pois o importante seria questionar a ciência.

“Descobrir sobre Terra plana mudou minha vida. Eu era completamente ateu, vivia a vida só por mim mesmo e foda-se. E nossa, mudou muito. Entrei mais em contato com o cristianismo”, explica Edson Ruberovitch, que conversou comigo na frente do auditório, fumando um vape. “Quando descobri a Terra plana o país estava completamente dividido entre esquerda e direita. Não vejo salvação no sistema. Não é votar no Haddad ou no Bolsonaro que mudaria alguma coisa. Porque quando a gente vota no Haddad, avança algumas agendas de feminismo, vegetarianismo e transhumanismo. Por outro lado, votar no Bolsonaro é apoiar o avanço das pautas sionistas e da tecnocracia. Não tem muito por onde fugir, são dois braços da mesma cabeça.”

Edson diz que conhecer a teoria da terra plana mudou sua vida. Foto: Marie Declercq/VICE.

Prisca Côco, uma das três mulheres que palestraram, chegou a se dizer escolhida por Deus para falar sobre o Terra plana. Um dos seus argumentos é que a Terra só poderia ser plana, porque essa é a explicação mais simples de entender. “Terra plana é simples, já o globo não. É impossível entender aquilo,” defendeu. No ato pensei que bem, isso é um problema dela e o único jeito de resolver é estudando, mas não quis interferir na temperatura já bem baixa do meu termômetro de empatia.

A palestrante possui um canal com mais de 100 mil inscritos, cujos vídeos abordam da Terra plana até o significado do sapato vermelho do Papa Francisco, passando por uma receita de bife de cenoura. Prisca relatou a perseguição da sociedade contra terraplanistas, e disse que é preciso ter coragem para acreditar. “Terra plana é cabra macho, não é pra qualquer um. É pra mulher macho,” afirmou. Prisca terminou sua fala cantando sua música autoral sobre a Terra plana, desafinando sempre que possível. Chequei o grupo do evento: “Ela canta demais,” resenhou um dos membros.

Não há um posicionamento político muito evidente entre os terraplanistas, mas nas entrelinhas das falas dos palestrantes e de algum dos presentes percebi um flerte grande com a extrema-direita. Como é uma ideologia baseada em muita paranoia, simplificação, criação de inimigos e pânico moral, a Terra plana se encaixa perfeitamente nesse ecossistema. Especialmente com adeptos negacionistas climáticos muito convictos, que abraçam com força discursos anti-intelectuais e anticientíficos. Já que extrema-direita não é muito exigente em termos de agregar seguidores, está tudo junto e misturado.

Pelos aplausos, Siddartha Chaibub Lemos, dono de um canal com quase 30 mil inscritos, era um dos palestrantes mais aguardados. Durante mais ou menos meia hora, o youtuber exibiu um slideshow de memes explicando a razão da verdade sobre o formato da Terra ter sido escondida por tanto tempo. Envolve desde a criação de uma sociedade niilista cujo Deus é o dinheiro, envenenada pelo ar por conta de rastros químicos, alienada através do controle mental da grande mídia, que nos faz acreditar que dinossauros existiram, distorcendo o conceito de família e os bons costumes. Fazendo a gente acreditar, inclusive, na “farsa da vacina”.

Quando ouvi “farsa das vacinas”, qualquer rastro de empatia e curiosidade dentro de mim foi para o espaço, até porque pensei nos riscos dentre centenas pessoas aglomeradas dentro de um auditório, várias não acreditarem em se vacinar contra, sei lá, sarampo. O youtuber terminou sob aplausos, alguns minutos depois de mostrar um meme de Keanu Reeves com a frase (atribuída e ele) “A verdade é, Matrix foi um documentário”. Outro filme hollywoodiano bastante mencionado pelos adeptos é o Show de Truman, onde o protagonista interpretado por Jim Carrey vive dentro de um domo. Joguei fora meu termômetro.

Não sei ao certo se devemos deixar em paz os terraplanistas, até porque não vejo qualquer sentido em refutar suas ideias com argumentos científicos sólidos: quanto mais fazemos isso, mais ficam determinados em acreditar em suas próprias teorias conspiratórias. Não há como trazer a razão para um evento onde as pessoas ovacionam um youtuber que mostra vídeos editados para afirmar que as agências espaciais são mentirosas e que o homem nunca foi à Lua. Terraplanistas sentem orgulho da perseguição, isso valida suas crenças.

No final do dia, quando o pessoal partiu para uma hamburgueria temática de Terra plana na Vila Madalena, o grupo de WhatsApp se encheu de elogios sobre a conferência e de críticas sobre “infiltrados” globaloides (termo negativo usado para quem acreditam no globo terrestre), e sobre a imprensa não ter se focado nas refutações científicas trazidas pelos palestrantes. “O GLOBO finalmente ACABOU”, escreveu um dos membros do grupo.

Não é improvável que a segunda edição da conferência aconteça novamente no ano que vem, mesmo que seja na frente de uma loja maçônica.

Relatório norte-americano rebate OEA e afirma que não houve fraude em eleição boliviana

19 de novembro de 2019

Via Brasil 247 em 15/11/2019

Estudo feito pelo Center for Economic and Policy Research (CEPR), com sede em Washington, refutou a acusação da Organização dos Estados Americanos (OEA) de que houve fraude nas eleições da Bolívia que reelegeram o presidente Evo Morales.

No domingo [10/11], Evo Morales foi vítima de um golpe de estado com atuação das Forças Armadas, de grupos militares e paramilitares e de líderes políticos de extrema-direita. Evo chegou na terça-feira [12/11] ao México, onde recebeu asilo político.

De acordo com o levantamento do CEPR, no momento em que a contagem foi interrompia, marcando 83,85% das urnas apuradas, Morales já possuía grande vantagem com relação a seu opositor, Carlos Mesa. Além disso, uma projeção com os votos que ainda precisavam ser apurados, e constatou que o resultado era idêntico à porcentagem que o presidente eleito conquistou quando as urnas retornaram a contagem.

“As conclusões desta projeção estatística são consistentes com os resultados oficiais da contagem eleitoral na Bolívia (que mostra a vitória de Morales com uma margem de 10,5%)”, relata a pesquisa, que também conclui que os resultados da contagem oficial seguiram uma tendência similar aos da contagem rápida.

Clique aqui para ler a íntegra do documento em espanhol.

Mais de 20 mortos: Entidades internacionais criticam “uso desproporcional da força” contra seguidores de Evo Morales

16 de novembro de 2019

O ex-presidente da Bolívia Evo Morales em entrevista à Reuters na Cidade do México. Foto Edgard Garrido/Reuters.

Via BBC Brasil em 16/11/2019

A Bolívia viveu na sexta um dia de violência, repressão e luto. Na província de Chapare, um dos bastiões de Evo, ao menos cinco pessoas morreram.

As imagens que chegam de La Paz e Cochabamba, entre outras cidades bolivianas, dão conta que o país viveu outro dia de repressão, violência e luto nesta sexta, 15.

No final do dia, o governo, divulgou dados policiais e militares informando que cinco pessoas foram mortas, atingidas por tiros, e ao menos 22 foram feridas. Os números ainda podem ser atualizados.

A cidade de Sacaba, onde produtores de folha de coca protestam contra a saída de Evo Morales da presidência, foi o epicentro dos maiores enfrentamentos. A cidade fica no centro da Bolívia e é capital da província de Chapare.

A grave crise boliviana, que está próxima de completar quatro semanas e que soma ao menos 13 mortos, e cenas de forte repressão registradas nos últimos dias causaram preocupação de entidades internacionais.

Uma delas é a CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) da OEA (Organização dos Estados Americanos), que condenou o “uso desproporcional da força militar e policial”. “As armas de fogo devem ser eliminadas dos dispositivos utilizados para o controle dos protestos sociais.”

A CIDH declarou, também, que “o uso indiscriminado de gás lacrimogêneo pelas forças policiais e militares na Bolívia atentam gravemente contra as normas jurídicas internacionais”.

“O Estado tem o dever de respeitar o direito humano de protestar pacificamente”, indicou a entidade.

Campo de batalha

Os enfrentamentos em Sacaba começaram quando a polícia tentou dispersar um protesto de cocaleiros de Chapare, a emblemática selva onde Morales se forjou líder sindical.

A massiva mobilização campesina rechaçava o governo transitório de Jeanine Áñez, que assumiu a presidência da Bolívia depois da saída de Evo.

Os produtores de folha de coca, como os grupos indígenas e de camponeses de diferentes cidades da Bolívia, não reconhecem seu mandato e pedem o retorno do ex-presidente, que agora está no México como asilado político.

Diferentes meios de comunicação bolivianos divulgaram, atribuindo a informação a fontes policiais, que objetos explosivos foram encontrados em poder dos manifestantes. Além disso, que a violência teria começado por causa da explosão de uma dinamite que os grupos mobilizados carregavam.

Em Laz Paz, também houve episódios de violência protagonizados por manifestantes “evistas” e forças policials e militares.

Trincheiras, fogueiras e barricadas se multiplicaram em ruas e avenidas de diferentes pontos da cidade sede dos poderes na Bolívia.

Os gases lacrimogêneos foram o principal recurso com que as forças de ordem tentaram dispersar os grupos mobilizados, embora vários deles tenham permanecido nas ruas até o começo da noite.

Alguns desses grupos são qualificados por vizinhos como gangues ou blocos de delinquentes que aproveitam a grave crise política para saquear e destruir.

Condenação internacional à saída dos militares

Uma das principais observações da CIDH foi sobre a participação das Forças Armadas nas ações repressivas.

“A CIDH expressão sua preocupação com o acionamento das Forças Armadas nas operações combinadas realizadas na Bolívia desde o início da semana”, diz a entidade.

O órgão compartilhou por meio de sua conta no Twitter diversos vídeos e fotos que mostram um alto grau de repressão.

A Human Rights Watch (HRW), uma entidade de defesa de direitos humanos com sede em Washington, por sua vez, declarou que apoia o pedido de organizações civis bolivianas para que a CIDH envie uma comissão “para monitorar a situação”.

José Miguel Vivanco, diretor para as Américas de HRW, disse que era “alarmante” que algumas autoridades do governo de Áñez queiram perseguir políticos adversários ou processar jornalistas.

“Áñez não deve esquecer que assumiu o cargo sem um só voto. Sua missão é convocar eleições o mais rápido possível”, afirmou.

Reações na Bolívia

O governo de transição, por meio do ministro da Presidência, Jerjes Justiniano, reiterou na noite de sexta seu chamado à pacificação e ao diálogo com os setores mobilizados.

“Convocamos absolutamente todos os setores, movimentos sociais, à pacificação do país para que junto possamos nos sentar em uma mesa de diálogo”, disse.

Mais cedo, a presidente Áñez falou sobre a identificação de grupos subversivos formados por “cidadãos bolivianos e estrangeiros”, denunciando que seu objetivo era o bloqueio dos serviços básicos nas principais cidades do país.

“Identificamos grupos subversivos armados, formados por estrangeiros e nacionais. Identificou-se uma estratégia de bloqueio aos serviços básicos como mecanismo de asfixia às capitais, com grupos de pessoas que não estabelecem um argumento específico para justificar esses delitos contra a sociedade”, declarou a mandatária.

A Andean Info Net (AIN), uma entidade de pesquisa que trabalha na Bolívia e tem diversos contatos com cocaleiros de Chapare, compartilhou listas de pessoas feridas por balas que, segundo as publicações, chegam a 33. Declarou, também, que o país vive um “estado de violência”.

Enquanto isso, a “Defensoria do Povo”, uma instituição boliviana estabelecida pela constituição e encarregada de assegurar o cumprimento dos direitos humanos no país, exigiu que o Ministério Público abrisse uma investigação imediata para estabelecer quem são os responsáveis pelas mortes em Sacaba.

“Instamos o governo a investigar se a atuação de ambas forças (militares e policiais) se deu dentro que estabelece a Constituição e os protocolos internacionais a respeito dos direitos humanos”, declarou a entidade.

A Defensoria indicou que o governo transitório havia anunciado que “buscaria a pacificação do país”.

“No entanto, hoje o povo boliviano deve lamentar 5 mortes que se somam às 13 contabilizadas pela instituição durante esse conflito”, concluiu a entidade.

***

DENÚNCIAS DE 23 MORTOS APÓS GOLPE DE ESTADO
Na TeleSur, Teresa Zubieta, confirmou que “23 pessoas em todo o país morreram em meio a um contexto de golpe de Estado”, especificamente “quatro em La Paz (todos por disparo de bala), cinco em Sacaba (região de Cochabamba)” e os outros no resto do país.
Via Jornal GGN em 16/11/2019

Desde a renúncia de Evo Morales em consequência do golpe de Estado na Bolívia, são reportados 23 mortos. As informações são da TeleSur, que está presente no país.

Na emissora, a delegada defensora do Departamento de La Paz, Teresa Zubieta, rejeitou a ‘violação dos Direitos Humanos, sobretudo de nossa gente humilde e simples.

Nesta entrevista, a delegada confirmou que “23 pessoas em todo o país morreram em meio a um contexto de golpe de Estado”, especificamente “quatro em La Paz (todos por disparo de bala), cinco em Sacaba (região de Cochabamba)” e os outros no resto do país.

A funcionária boliviana expressou sua grande preocupação pela situação que vive atualmente o páis “diante da barbárie, diante da violação dos Direitos Humanos” e, sobretudo, pela situação dos pobres.

Zubieta disse que “mataram nossos irmãos como se fossem animais”, e considerou que esta situação representa “um retrocesso de mais de 30 anos no que diz respeito à pessoa humana e aos Direitos Humanos”.

Neste sentido, Zubieta disse que o Parlamento tenta entabular uma aproximação com o governo de fato para encontrar uma saída institucional para a situação atual do país.

Por outro lado, ela enfatiza as denúncias recebidas sobre a ação de grupos paramilitares, que estariam “reprimindo e amedrontando pessoas que estavam simplesmente caminhando para sua casa do trabalho”.

Após o golpe de estado contra o legítimo presidente Evo Morales, o povo boliviano continua mobilizado exigindo respeito pela democracia, bem como a renúncia da senadora Jeanine Áñez, autoproclamada presidente interina do país.

REDES SOCIAIS

Chavista disse que defenderia “até golpista Temer” se Brasil fosse invadido

16 de novembro de 2019

Ministro de Relações Exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza durante conferência de imprensa em Moscou. Foto: Kirill Kudryavtsev/AFP.

Jamil Chade em 16/11/2019

Um dos principais nomes do chavismo na Venezuela garante: se um dia o Brasil fosse invadido, Caracas estaria ao lado de Brasília. A frase é de Jorge Arreaza, chanceler de Nicolas Maduro e chefe da diplomacia do governo venezuelano.

Seus comentários fazem parte de uma conversa que ele manteve, por WhatsApp, com o ex-presidente do Panamá, Juan Carlos Varela. As mensagens foram vazadas por um grupo anônimo à imprensa panamenha. A coluna pode confirmar que o telefone é de fato do chanceler.

“A nós nos dizem amanhã que vão invadir o Brasil e fechamos fileiras com o golpista (Michel) Temer”, escreveu Arreaza a Varela, no dia 17 de abril de 2018. Entre 2013 e 2016, ele ainda havia sido o vice-presidente de Maduro.

O chanceler se queixava naquele momento da ofensiva do Grupo de Lima contra seu país e da falta de solidariedade latino-americana contra a ofensiva de Donald Trump, que chegava a sinalizar para uma “opção militar”.

Momentos antes, Varela havia alertado a Arreaza sobre a crise em seu país. Mas insistiu que continuava a tentar um diálogo. “Fui o único que disse que Nicolas (Maduro) era um presidente escolhido democraticamente”, disse. “Diante do presidente dos EUA”, insistiu.

Alguns dias antes, também para defender sua posição, o chanceler compara a situação da Venezuela com o restante da região e volta a citar “golpe” no Brasil. “No México matam estudantes e jornalistas. Em Honduras, roubam eleições e comanda um ilegítimo. No Brasil, dão um golpe parlamentário de corrupção. Na Colômbia, matam um dirigente social diariamente e produzem cada dia mais droga. No Peru, a corrupção sai pelos poros. Mas aqui os corruptos, ditadores e assassinos são os venezuelanos”, se queixou.

Negação
A conversa, que se prolonga por meses, alterna momentos ríspidos e troca de mensagens de amizade. Há ainda elogios à classificação do Panamá para a Copa do Mundo de 2018 e inúmeros comentários sobre Trump.

Mas as mensagens também revelam a resistência dos venezuelanos em admitir o êxodo de milhões de pessoas.

No dia 22 de março de 2018, Varela escreve sobre a possibilidade de um diálogo entre Maduro e a oposição:

– Jorge (Arreaza), amigo, ustedes han visto que ya vam a llegar casi a 4 millones de venezolanos fuera de el pais. Por favor piesen bien esto. Nicolas, ustedes y el chavismo son una realidad politica por siempre en veneZuela. Busquemos el dialogo

Em resposta, sempre mantida em sua grafia original, o chanceler responde:

– Presidente (Varela) esos no son los números. De donde los saca? Los 700 mil que se fueron a Colombia la mitad son colombianos y los demás se fueron a Perú, chile, argentina. La cifra real real es de 1.6 millones que han salido en 2 años.

Minutos depois, ele ainda complementa:

– Es una migración nueva. Importante. Pero aquí hay 32 millones de venezolanos.

Hoje, meses depois daquela conversa, a ONU estima que 4,5 milhões de venezuelanos já estão fora do país e que, até o final de 2020, esse número pode superar a marca de 6 milhões, 20% da população do país.

Em outro trecho da conversa, o venezuelano critica a aliança entre os EUA e o Grupo de Lima, assim com o fato de que os bloqueios impostos por Trump estariam levando a um aprofundamento da crise.

“Os EUA com o apoio do Grupo de Lima colocaram a Venezuela contra a parede”, admitiu Arreaza. “Até as contas dos funcionários da chancelaria e de empresários privados foram fechadas. Depois perguntam por que há migração. É meio esquizofrênico”, criticou.

Ele ainda conta ao presidente do Panamá como esteve pessoalmente na Índia e na Turquia, abrindo contas em moedas locais “para poder mandar petróleo ou ouro”.

Renúncia
O vazamento de mensagens que também envolveriam as investigações sobre a corrupção da Odebrecht no Panamá levou à renúncia da procuradora-geral do país centro-americano, Kenia Porcell. Ela liderava as investigações contra a empresa brasileira e dezenas de políticos locais, inclusive ex-presidentes.

Mas as revelações sobre possíveis pressões políticas acabaram gerando sua queda. Ela insiste, porém, que não teve qualquer atitude ilegal.

Além dos jornais locais, as informações estão reunidas em um website em que os autores apenas se apresentam como “um grupo de cidadãos latino-americanos comprometidos com a democracia e fartos com a corrupção e abuso de nossas autoridades”.

Conhecido como “Varelaleaks”, o caso levou Varela a emitir um comunicado criticando o vazamento. Segundo o ex-presidente, a interceptação de suas conversas foi “ilegal” e representa “o ato mais baixo de covardia de adversários políticos”.

“O principal objetivo desses vazamentos é, sem dúvida, minar a credibilidade de nossas instituições democráticas e desviar a atenção sobre os casos de corrupção e luta contra o crime organizado no país”, disse.

Oposição chilena rejeita proposta fake de Piñera e quer nova Constituinte

15 de novembro de 2019

Via Fundação Perseu Abramo em 13/11/2019

Partidos de oposição no Chile divulgaram nota oficial em que exigem que uma nova Constituição seja elaborada por representantes eleitos exclusivamente para este fim, tendo como base as propostas que já vêm sendo debatidas pelas assembleias populares que acontecem em diferentes cidades do país.

Dessa forma, os partidos rejeitam a proposta, feita pelo presidente Sebastián Piñera, de entregar a elaboração de uma nova Constituição para o Congresso que já existe.

Na nota, a oposição diz que o texto de uma nova Constituição, desde que elaborado por uma Assembleia Constituinte Exclusiva a partir de reivindicações populares, deve depois ser aprovado por um “plebiscito vinculante”.

Assim, seguem as manifestações nas ruas do Chile, iniciadas em 18 de outubro. Se no início havia ainda dúvidas se a direita poderia apropriar-se das mobilizações, após quase quatro semanas de rebelião popular contra a desigualdade social e a concentração de renda, as forças progressistas, neste momento, conseguem conduzir o rumo da insatisfação.

Além da exigência de uma nova Constituinte Exclusiva, os partidos de oposição pedem na nota oficial que seja adotada “com urgência uma agenda que combata os abusos e as desigualdades para aliviar a situação em que vivem milhares de famílias”.

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