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Ernesto Araújo mistura Gramsci com “alarmismo climático” e é ridicularizado por colunista do Washington Post

17 de setembro de 2019

“Não sabemos se ele alguma vez leu sobre teorias críticas neomarxistas além do que está escrito na Wikipedia”, disse colunista norte-americano.

Via Jornal GGN em 12/9/2019

O ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, participou de um dos principais “think tanks” conservadores dos Estados Unidos, a Heritage, na quarta-feira [11/9], carregando no discurso ideológico e criticando a imprensa brasileira por “alarmismo climático” contra o governo de Jair Bolsonaro. Em resposta, o colunista do The Washington Post, Ishaan Tharoor, disse que falas de Araújo era uma “lengalenga sem fim de vitimização de alguém que está no poder”.

Em seu discurso ideológico, Araújo chegou a dizer que o boicote a produtos brasileiros como forma de protesto pelas queimadas na Amazônia do governo Bolsonaro era um tipo de “justiça social” que já foi usada “como pretexto para ditadura” e que estão hoje fazendo o mesmo “com o clima”, ao se referir ao meio ambiente.

“Parece a justiça stalinista para mim: acusar, executar. Aí você diz: onde está a justiça? Onde está o Estado democrático? As pessoas respondem ‘crise climática, cale-se’“, falou o representante do Itamaraty. A fala ocorre, ainda, menos de duas semanas antes da participação do mandatário brasileiro na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, onde deve ser questionado sobre a situação da Amazônia.

Em outros momentos, Araújo usou narrativas de Olavo de Carvalho para criticar a “esquerda”, o “marxismo cultural” e para falar de “globalismo”. Disse que tanto Bolsonaro quanto o polêmico presidente dos EUA, Donald Trump, são a “insurgência universal contra a besteira”, assim como os defensores do Brexit, na Inglaterra, juntos, segundo ele, em uma “revolta contra a ideologia” da esquerda.

Isso ocorre, segundo Ernesto Araújo, diante da “percepção” destes presidentes de “que estávamos sendo desprezados por uma elite que tenta nos governar em nome da justiça social, ou da integração europeia, ou de um mundo sem fronteiras ou do progresso”, afirma, reunindo em uma mesma frase críticas às políticas sociais e imigração.

Ainda misturou em uma mesma fala o que chamou de “alarmismo climático” sobre o que está ocorrendo com o desmatamento da Amazônia com falta de “debate democrático” e que “nem comer carne é permitido mais”. Fez críticas a Antonio Gramsci, Bertolt Brecht e Rosa Luxemburgo. E afirmou que o “clima” e a defesa ambiental “se tornou o silenciador do debate”.

Diante de todas estas falas, o colunista do jornal The Washington Post dirigiu duras críticas ao representante brasileiro e mostrou-se perplexo: “Isso é incrivelmente ideológico para um chanceler no exterior”. Em suas redes sociais, Ishaan Tharoor, afirmou que estava impressionado com a incoerência das falas de Araújo.

“Agora ele está falando algo sobre o socialismo do século 21 ser (Antonio) Gramsci conhecer os cartéis de drogas. E agora está citando (Herbert) Marcuse e todos os membros da Escola de Frankfurt”, disse o jornalista. “Isso é incrível. Não sabemos se ele alguma vez leu sobre teorias críticas neomarxistas além do que está escrito na Wikipedia”, completou.

Para Tharoor, a própria direita norte-americana “jamais se importaria com essas pessoas ou envolveria suas ideias, ainda que absurdamente, em um discurso de política externa” e que ninguém na Heritage, o think tank conservador, se importava com isso.

A íntegra do discurso do ministro de Relações Exteriores de Jair Bolsonaro, Ernesto Araújo, pode ser acompanhada aqui:

Leia abaixo as publicações do jornalista:

REDES SOCIAIS

Vergonha alheia: Nos EUA, Ernesto Araújo diz que satélite não diferencia “fogueira de acampamento” de incêndio

17 de setembro de 2019

Em reunião com investidores e empresários, ministro contestou dados da Nasa e disse que queimadas estão na média.

Marina Dias, via UOL em 13/9/2019

Durante reunião fechada com investidores e empresários norte-americanos, na quinta-feira [12/9] em Washington, o ministro Ernesto Araújo (Relações Exteriores) criticou os dados divulgados sobre o aumento das queimadas na Amazônia e fez críticas a levantamentos baseados em satélites que, segundo ele, não diferenciam “fogueiras de acampamentos” de “grandes incêndios.”

Em uma palestra na Câmara de Comércio dos EUA, Ernesto distribuiu papéis produzidos pela embaixada do Brasil em Washington com dados para respaldar seu discurso de que as queimadas na floresta estão na média dos índices registrados nos últimos 15 anos.

O chanceler encerrou seu discurso sobre a relação entre Brasil e EUA com a mensagem de que os incêndios que atingem a Amazônia – com repercussão internacional – não são de grande proporção nem fruto de uma política ambiental negligente do governo Jair Bolsonaro.

Segundo relatos de participantes do encontro, Ernesto disse que as queimadas tinham maior alcance em outros anos, mas que a imprensa estrangeira não queria criticar o governo da época – em referência às gestões do PT.

No entanto, dados do próprio governo brasileiro apontam que os focos de queimadas cresceram 82% em relação ao ano passado. De acordo com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o desmatamento vem avançando em relação a anos anteriores. Os meses de junho, julho e agosto, respectivamente, apresentaram aumento de 90%, 278% e 222% no desmate em comparação aos mesmos meses de 2018.

Além disso, os satélites que fazem o monitoramento de queimadas só identificam incêndios maiores do que 30 metros, sendo impossível a detecção de fogueiras menores do que isso ou queimadas que afetem somente o chão de matas fechadas.

Em meio à crescente destruição, o governo brasileiro passou a contestar, sem provas, os dados do Inpe, e o diretor do instituto, Ricardo Galvão, acabou demitido.

A Nasa, agência espacial norte-americana, por sua vez, reportou que 2019 foi o pior ano de incêndios na floresta desde 2010, com “perceptível aumento de focos de queimadas grandes, intensas e persistentes ao longo das principais rodovias do centro da Amazônia do Brasil.”

O monitoramento da Nasa é feito justamente por satélites que, segundo especialistas, são os primeiros a detectar queimadas em áreas remotas.

[…]

Nicolas Maduro: A oposição na Venezuela é pior do que Bolsonaro

17 de setembro de 2019

Nicolas Maduro durante entrevista à Folha em Caracas, capital da Venezuela. Foto: Marlene Bergamo/Folhapress.

Presidente venezuelano diz que quer falar de paz, mas que mundo não deve se esquecer de que país tem Força Armada poderosa.

Mônica Bergamo em 17/9/2019

A entrevista exclusiva da Folha com Nicolas Maduro estava marcada para as 17h de quinta-feira [12/9]. Um dia antes, no entanto, a OEA (Organização dos Estados Americanos) havia decidido convocar uma reunião para estudar a ativação de um tratado que pode levar à intervenção militar no país.

A agenda do presidente caiu – uma marcha foi convocada, e ele partiu para discursar para a multidão de chavistas que se reuniu numa praça de Caracas, a capital do país.

“No more Trump”, ou não mais Donald Trump, presidente dos EUA, é o grito de ordem dos protestos, espalhado também por cartazes pela cidade.

Maduro vive dias frenéticos. Na sexta [13/9], voltou a participar de várias atividades.

A entrevista foi encaixada em sua nova agenda. A jornalista e a fotógrafa Marlene Bergamo tiveram que esperar seis horas em um prédio público até que ele participasse de mais um ato filmado por sua equipe e transmitido pelos canais oficiais.

À frente do governo venezuelano desde 2013, Maduro comanda o país em seu pior momento econômico.

O preço do petróleo despencou. O desemprego e a pobreza aumentaram, a inflação explodiu. Faltam água e luz em Caracas. O governo contém a degradação social com a distribuição de cestas básicas.

A oposição ganhou impulso, com o apoio desabrido de Trump e do governo brasileiro.

Maduro passou a ser definido como ditador também por personagens da esquerda, como José “Pepe” Mujica, ex-presidente do Uruguai.

Maduro bate de volta. Diz que Bolsonaro elogia o ex-ditador chileno Augusto Pinochet, “o Hitler sul-americano”. Quem diz que a Venezuela é ditadura é “um estúpido”, afirma ele. Até mesmo Mujica.

E diz que “mentes loucas” querem criar pretexto para intervir na Venezuela. Nega perseguir a oposição e diz estar preparado para a guerra.

A OEA (Organização dos Estados Americanos) pode reativar o Tiar (Tratado Interamericano de Ação Recíproca), que pode resultar em uma intervenção militar na Venezuela. O país está preparado para uma guerra?
Eu penso que haverá paz. Essa decisão foi tomada por um grupo de governos de ultradireita que está colocando seu extremismo ideológico à frente das políticas e do direito internacionais.
Primeiro, [a decisão] não tem nenhuma aplicação. A Venezuela saiu do Tiar há muitos anos. Não somos parte desse tratado, que permitiu a invasão de vários países irmãos, como República Dominicana, Guatemala, Haiti, Panamá.
É um tratado morto, e o único que resta é sepultá-lo abaixo da terra, bem sepultado. E defender o direito à paz, à não intervenção militar do povo da Venezuela. Eu estou seguro de que isso vai prevalecer por cima de tudo.

E se não prevalecer? Estão preparados para uma guerra? Já houve rumores de que as Forças Armadas não estariam unificadas sob sua presidência.
A Força Armada Nacional Bolivariana está mais unida que nunca, mais coesa que nunca na defesa do direito à paz, à soberania, à independência e à autodeterminação da Venezuela.
Todas essas ameaças do governo de Donald Trump, de [Jair] Bolsonaro, de invadir a Venezuela, o que têm feito é unir ideologicamente e institucionalmente a Força Armada Nacional Bolivariana.
Eu decretei recentemente um conjunto de exercícios militares e vamos nos preparando para defender nossa terra.
O mundo não deve se esquecer de que a Venezuela tem uma força armada profissional, com um bom sistema de armas defensivo, poderoso. Além disso, temos 3 milhões de homens e mulheres voluntários, da milícia nacional.

Eles participariam de uma guerra?
Eles participam da defesa militar do país. Eu não quero falar de guerra. Quero falar de paz. Eu sou cristão, convencido, praticante, de oração e de ação. Estou convencido de que aqui vai triunfar a paz frente às ameaças e às loucuras da ultradireita, de Bolsonaro, de Trump e de toda essa gente.

O Tiar é uma ameaça vazia?
A ultradireita de Bolsonaro, de Donald Trump, gostaria de se meter militarmente na Venezuela. Porque eles acreditam que é pão comido.
É uma loucura, em primeiro lugar, pretender impor uma mudança de regime com invasão militar. Esse é um tempo superado pela humanidade.
Tem que ser um tempo de respeito ao direito internacional, à autodeterminação dos povos. Tem que ser o século da paz, e não das ameaças militares de Bolsonaro, de Trump.

A Rússia participaria de um esforço de defesa da Venezuela?
Com a Rússia temos alianças estratégicas, de cooperação militar. Temos equipamentos do mais alto nível mundial, antimísseis, de mísseis, de defesa aérea, terrestre.
Temos um bom sistema de armas graças à Rússia. Com a China também temos bons acordos militares. Mas a defesa da Venezuela depende dos venezuelanos e das venezuelanas. Sempre tem sido assim.

A Colômbia diz que vocês estão abrigando guerrilheiros das Farc, e o senhor ordenou exercícios militares na fronteira.
Eles vêm nos acusando há 20 anos. Jamais mostraram uma prova nem poderão mostrar jamais porque é falso. Eles somente querem prestar serviço ao governo dos EUA, buscar algum tipo de escalada militar Colômbia-Venezuela.
A verdade sabe qual é? É que a Colômbia tem 70 anos de guerra, 300 mil desaparecidos, mais de 300 mil mortos por essa guerra. E não estão conseguindo superá-la.
A verdade é que a Venezuela foi a protagonista das negociações e da assinatura do acordo de paz [do governo colombiano com as Farc, em 2016]. A verdade é que esse acordo de paz foi destroçado pelo atual presidente [da Colômbia], Iván Duque, e por Álvaro Uribe [ex-presidente do país].
A verdade é que há um recrudescimento da guerra na Colômbia e querem colocar a culpa em países terceiros. Eu tive que fazer uma mobilização militar porque tínhamos informações de inteligência de que essas ameaças e acusações falsas iam provocar um ataque ao território venezuelano.

E por que a guerra interessaria à Colômbia?
Porque têm 70 anos de guerra, e a guerra é um negócio para eles. Porque a oligarquia que governa Bogotá está subordinada, de joelhos, à estratégia militar e geopolítica do império estadunidense. É a ponta de lança da agressão contra a Venezuela.
Eles queriam uma escalada militar na fronteira para que o exército estadunidense viesse apoiar o exército da Colômbia. Essas são as mentes loucas que planejam cenários violentos e que nós, simplesmente com o uso da força persuasiva, seguiremos evitando.

Nesta semana perguntaram a Trump se conversaria com o senhor, e ele disse: “Não quero falar disso”. Há alguma gestão para um diálogo direto?
Nós temos sido vítimas da agressão mais brutal que se pode fazer a um país. Congelaram US$ 30 bilhões em contas nossas no exterior por culpa do governo Trump. Expropriaram, nos roubaram a petroleira Citgo nos EUA.
Perseguem as embarcações que trazem trigo, milho, comida e remédios à Venezuela. Nos proíbem de importar.
Nós reagimos denunciando. Recentemente foram coletadas 13 milhões de assinaturas de venezuelanos e venezuelanas que vamos entregar na ONU propondo que cessem o bloqueio e a perseguição econômica contra a Venezuela.
Agora, nesse marco, eu te digo: fui chanceler do comandante Hugo Chávez [morto em 2013] durante quase sete anos. Conheço a vida diplomática. E desde que sou presidente tenho dito aos EUA que o único caminho que temos no século 21 é o diálogo.

Seguem contatos de alto nível do governo dos EUA com o da Venezuela, como já foi admitido por ambos?
Bem, disse isso porque Trump saiu um dia dizendo. Claro que há contatos em distintos níveis. Sempre seguem os contatos. Em qualquer circunstância, a cultura do diálogo deve prevalecer.

E com o Brasil? Parece que há contatos das Forças Armadas venezuelanas com as brasileiras.
Bem, tem havido sempre contato com as forças militares do Brasil, e creio que eles devem continuar.
Com o governo, você sabe que Bolsonaro é um extremista ideológico. Recentemente ele declarou sua admiração pelo [ex] ditador [chileno] Augusto Pinochet, que é uma espécie de Hitler sul-americano.
E em sua mente está apenas a agressão contra a Venezuela. Ele não é um político. Lamentavelmente, à frente de muitos governos da América do Sul não há políticos com “p” maiúsculo, com doutrina, que saibam respeitar a diversidade.
Ele, como presidente do Brasil, com uma fronteira tão grande com a Venezuela, e uma história comum, estaria obrigado, se fosse um estadista, a ter uma comunicação mínima com a Venezuela. Voltarão os dias em que haverá um governo no Brasil com quem possamos nos entender.

Ele diz que o povo venezuelano é escravo de um ditador.
Ele não conhece a história da América Latina nem da Venezuela. Em 20 anos, fizemos 25 eleições, de presidente, governadores, prefeitos, parlamentares. As forças bolivarianas, chavistas, ganhamos 23 eleições.
De 23 governadores na Venezuela, 19 são bolivarianos. De 335 prefeitos e prefeitas, 307 são nossos, vencedores com votos. Tudo o que temos sempre foi pelo voto popular.
É uma estupidez que ele se declare admirador de Pinochet e diga que a revolução bolivariana é uma ditadura.

Outras personalidades falam o mesmo. Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, diz que não há outra coisa que uma ditadura na Venezuela. Alberto Fernández, candidato de Cristina Kirchner à Presidência da Argentina, diz que o governo comete abusos. E Michelle Bachelet, ex-presidente de Chile e Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, fez um informe muito duro sobre a Venezuela. Eles também são títeres de Donald Trump?
Eu tive uma longa conversa com Bachelet em sua visita aqui. E temos uma polêmica dura com ela. Bachelet repetiu o mesmo informe do antigo Alto Comissário [Zeid Al Hussein]. Ela repetiu as mesmas mentiras [Bachelet afirma, entre outras coisas, que há prisões arbitrárias, torturas e degradação econômica no país]. Sem sustentação, sem nenhuma prova.
A única coisa que ela pega e coloca no informe são cópias do jornal O Globo, de [jornais de] São Paulo, de New York Times etc. etc., que dizem mentiras sobre a Venezuela.

Mas não veio uma equipe dela falar com as pessoas? Conversaram também com venezuelanos que estão fora do país.
Falaram, mas não escutaram. Não viram o esforço imenso que nosso povo está fazendo em meio ao assédio do bloqueio econômico, profundamente criminoso. Dizer que a Venezuela é uma ditadura é uma estupidez histórica. E quem o diga é um estúpido.

Mesmo Mujica?
Quem seja.

Alberto Fernández diz que há abusos.
Quem o diga, onde o diga, é um estúpido. À Venezuela se respeita. A Venezuela é uma democracia sólida. Ameaçada. Assediada.
No momento em que a Venezuela sofre seu maior assédio, atacá-la desde a esquerda, a centro-esquerda, é uma covardia contra um povo nobre, que tem sabido resistir e vai seguir resistindo e vencendo com votos.
Essa é a nossa vantagem. E, com todos os ataques, com todas as misérias e agressões, não têm podido conosco. Nem vão poder. Nossa força, sempre digo, é de verdade. Nós somos de verdade.
Eu não estou aqui porque seja mago, bruxo. Eu estou aqui porque há um povo consciente e uma força popular que seguirá dando exemplos históricos.

O senhor disse em uma entrevista que somente eleições não são a garantia de que haja democracia em um país. E aqui se fala muito disso, que a oposição não tem condições iguais de disputa. Houve inclusive um boicote às eleições [por parte da oposição]. Não lhe parece que não há condições igualitárias já que alguns opositores estão presos, outros exilados ou impedidos de participar das eleições?
Eu, sim, creio que há condições desiguais: eles, oposição, são donos de todos os meios de comunicação. São donos de 80% dos jornais, de 90% das rádios. São donos de 80% das televisões.
São donos e dirigem 100% das redes sociais – WhatsApp, Facebook, Twitter, Instagram, que têm um impacto decisivo na sociedade moderna. Cancelam nossas contas, nos impedem de fazer publicidade [nas redes sociais].
E além disso eles têm o respaldo do império mais poderoso do planeta. E na Venezuela se expressam e participam livremente. Agora, eu não tenho culpa que no dia das eleições o povo foi votar e de 23 governadores nós ganhamos 19. Pode-se chamar isso de uma ditadura?

E o impedimento dos líderes da oposição?
Quem? Dê-me um nome. Quem está impedido?

Leopoldo López, Henrique Capriles.
Leopoldo López é treinado para ser agente dos interesses dos EUA na Venezuela. Ele responde judicialmente pelo assassinato de 40 pessoas [nas manifestações de 2014], pela tentativa de um golpe de Estado.
E o processo [contra ele] foi feito inclusive por uma pessoa que foi promotora-geral da República e que hoje é uma das principais porta-vozes da ultradireita desde Bogotá [Luisa Ortega Díaz, que hoje diz ter sido pressionada para abrir o processo].
Há regras, há leis, em um país, que são cumpridas. Mas isso não impede, nem impedirá, que a oposição esteja, como está, livremente nos meios, nas ruas. E que se apresente aos processos eleitorais e tenha vitórias e tenha derrotas.

No Brasil, Lula está preso depois de condenado em várias instâncias judiciais. Há uma polêmica, e inclusive personalidades internacionais dizem que foi um juízo político, com o uso da Justiça para neutralizar essa liderança nas eleições. Já pessoas que são contra ele dizem que não se trata de um preso político, mas de um político preso.
São casos totalmente diferentes.

Não acontece aqui o mesmo que acusam de acontecer no Brasil?
É uma análise superficial. Num caso, há um homem [Leopoldo López] de ultradireita, [condenado] com provas, testemunhos, num processo público, aberto, no qual se demonstra que ele tentou derrubar o governo. Houve 40 mortos ou mais [nos protestos]. A Justiça toma a sua decisão.
[No caso de Lula é] Um processo arranjado, que foi manipulado contra um homem da honorabilidade, da estatura de estadista de Lula da Silva.
É incomparável. É um crime moral comparar um homem como Lula da Silva, e seu tamanho na história do Brasil e da América, e a perseguição brutal [que ele sofreu], já demonstrada com provas, com esses opositores de extrema direita financiados pelos EUA na Venezuela. É um despropósito.

Eu não estou comparando as pessoas. Estou comparando a acusação de uso da Justiça contra os adversários políticos.
É incomparável. Totalmente incomparável. Teríamos que dedicar uma entrevista com todos os órgãos de Justiça para mostrar como o estado venezuelano se defendeu de um golpe de estado que deixou mais de 40 mortos. Que foi público, notório, comunicacional, nacional e além disso internacional.

Em 2018 houve um baixo comparecimento de eleitores nas eleições presidenciais, se comparadas com o passado recente da Venezuela. Em 2013, 80% participaram das eleições, e agora 46%. Não parece que o povo está desanimado com a democracia?
Eu acredito que foi uma boa eleição. Foi um processo eleitoral submetido a uma guerra econômica, a uma campanha mundial, multimilionária, para gerar abstenção, abertamente.

E, no nosso lado, houve uma campanha triunfalista, produto do poder de votos realmente que nós temos. Foi uma eleição legal, constitucional, transparente, reconhecida por mais de 300 observadores internacionais.
Há eleições com um altíssimo nível de participação, há outras em que ele é baixo. Eu ganhei com 68% dos votos. Quando fazemos as comparações, levamos grande vantagem em relação a gente como Donald Trump, a todos os primeiros-ministros da Europa, eleitos em geral por 12%, 14% dos eleitores.
E na Venezuela o voto não é obrigatório. “Ah, mas Nicolas Maduro foi eleito por 33% dos eleitores inscritos. Ah, Nicolas Maduro é menos legítimo.” Não aceitaremos essa chantagem. Nós temos legitimidade constitucional, eleitoral, com base na lei e legitimidade com voto.

Eu estou comparando com a própria Venezuela, onde a participação eleitoral é historicamente maior inclusive que a de outros países.
Todas as eleições são diferentes. Houve campanha para que os eleitores não votassem. E ganhamos com 68%.
A revolução bolivariana tem legitimidade de voto, legitimidade constitucional. Legitimidade moral, profunda, verdadeira. Se não tivéssemos essa legitimidade, teria sido impossível aguentar o que temos aguentado durante [os últimos] seis anos.

Em 2015, vocês perderam as eleições e a oposição ganhou maioria na Assembleia Nacional [equivalente ao Congresso Nacional]. Mas ela foi colocada pela Justiça em desacato. As leis que aprovam não têm validade. Depois foi criada uma Assembleia Constituinte. Ou seja, a oposição, quando ganhou, não levou. Não é um sistema autoritário quando a oposição ganha mas não leva?
Eu creio que devemos buscar as explicações nos próprios erros e nos próprios atos inconstitucionais da oposição. Nós na Venezuela temos uma oposição pior do que o Bolsonaro. À direita do Bolsonaro. Que tem o objetivo de derrubar inconstitucionalmente a revolução.
Em 2002, deram um golpe de estado no comandante Chávez [depois revertido]. Quando ganharam as eleições, em 2015, começaram a violar a Constituição. A tomar decisões contra as leis.

E o Tribunal Supremo de Justiça foi reagindo para colocar as coisas em seu lugar.
O que eles quiseram, com a maioria circunstancial da Assembleia Nacional, do Parlamento, foi derrubar o governo, passando por cima das leis, das instituições. Assim, há que buscar a resposta nos erros, na política golpista de extrema direita da oposição.
A Assembleia Nacional Constituinte foi uma necessidade. Entre os meses de abril, maio, junho, julho de 2018, se lançou uma ofensiva violenta para derrubar o governo. Eu convoquei a Constituinte com base na Constituição. O poder constituinte na Venezuela está vivo. E a Constituinte trouxe paz ao país.

As negociações com a oposição vão seguir? E o que o senhor põe sobre a mesa? Por exemplo, existe alguma possibilidade de antecipação das eleições presidenciais?
Eu sempre acreditei no diálogo. Eu já fiz mais de 600 propostas e chamados ao diálogo. Já logramos, em várias oportunidades. Em abril de 2014 nos sentamos durante mais de um mês com a oposição. Em 2015 e 2016, fizemos um processo de aproximação.
No começo de 2018, se fez uma negociação muito séria. Eles pediram que as eleições presidenciais fossem antecipadas. E nós aceitamos.
E chegamos a um acordo. E quando ele ia ser assinado, na República Dominicana, o secretário de Estado dos EUA chamou o chefe dos negociadores da oposição e deu a ele a ordem de não assinarem.

De todas as maneiras, nós chegamos a um acordo parcial com parte da oposição e fizemos as eleições em 20 de maio de 2018 – elas deveriam ser, como sempre foram, no final do ano, em outubro, novembro, dezembro. Nós adiantamos por proposta da oposição.
Agora, por iniciativa do governo da Noruega, com nossa aprovação, se deram várias rodadas de negociação, de conversas. De 60 pontos que foram vistos, conseguimos chegar a um consenso em uns 32.
Ainda falta. Se fossem retomadas as negociações, se poderia avançar em outros temas.
Eu não me adianto sobre que coisas são possíveis ou não são possíveis. O único que sim, te digo, aqui, sob esse céu venezuelano, sobre essa Caracas hermosa [linda], é que no ano de 2020, pela Constituição, cabe fazer as eleições para a nova Assembleia Nacional.
E essas eleições têm que acontecer com todas as garantias, para que sejam eleições que nos permitam renovar o poder legislativo do país. E isso está seguro.

Adiantar as eleições presidenciais, de nenhuma forma ou…
É uma proposta que eles [oposição] têm. Mas é um capricho. Porque de verdade a oposição não quer eleições. Eu te digo: nós fizemos o nosso trabalho, em meio a circunstâncias terríveis. Em meio ao bloqueio.
Fazemos o nosso trabalho, permanente, social, político, governamental. Atendemos ao nosso povo. Eu te digo, com muita responsabilidade: se na Venezuela hoje houvesse eleições, nós ganharíamos por uma ampla maioria.
O povo está cansado da ultradireita. Está cansado do bloqueio. Está cansado de tanta conspiração. O povo quer paz, tranquilidade.
E te digo mais. Nos veremos quando você quiser no próximo ano. No próximo ano há eleições parlamentares. E a nossa força revolucionária, bolivariana, chavista, vai recuperar a maioria da Assembleia Nacional com voto. Tenha segurança disso.

Anistia para os presos políticos, aos políticos de oposição, há alguma…
[interrompe] A Comissão da Verdade, Justiça e Paz da Assembleia Constituinte já tomou algumas decisões em torno de gente que estava detida pela violência nas guarimbas [protestos] de 2018. Cabe à Comissão da Verdade tomar essas decisões quando for correto e justo.

Uma última pergunta, sobre economia: o Banco Mundial prevê que pode haver uma queda de 25% na economia da Venezuela, o que equivaleria a 60% desde 2013. A pobreza extrema também subiu, segundo alguns estudos, subiu de 20% para 61%. O desemprego pode chegar a 44%, segundo o FMI.
Me surpreende que você cite esses dados. Na Venezuela nós temos quase pleno emprego, apesar das circunstâncias que estamos vivendo.
Temos programas especiais de incorporação ao emprego. E fazemos um grande esforço, por meio de um sistema chamado Carnê da Pátria, para proteger a renda das famílias.
Temos proteção especial para 6 milhões de famílias, para levar alimento mensalmente a elas. Levar saúde, educação. A proteção por meio de bolsas e de subsídios diretos.
A economia, sim, posso te dizer, está muito golpeada, perseguida, torturada.

Não há erros do governo? Porque a responsabilidade sempre…
Por que buscar erros de um país torturado, perseguido? Quem sabe nosso único erro é não fazer mais para superar os efeitos do bloqueio.
A Venezuela está torturada. Todas as nossas contas no exterior, para importarmos um grão de trigo, de milho – se eu quisesse trazer milho do Brasil, não poderia.
A Venezuela é submetida a uma perseguição financeira, comercial, que não se permite a ela trazer alimentos, remédios. Como você pode levar um país se o Fundo Monetário e o Banco Mundial são cúmplices disso? Mentem sobre a Venezuela.
Agora, nós temos um plano econômico, um programa econômico. Nesse ano, declaramos a economia em fase de resistência. E estamos fazendo as bases para terminar o ano em melhor condições do que as que nos têm cabido viver.
E começar 2020 e 2021 como dois anos de recuperação do crescimento econômico, de recuperação dos equilíbrios econômicos. E adaptação para poder superar os estragos da perseguição, do bloqueio e da agressão comercial e financeira, petroleira.
A Venezuela vai seguir adiante, e nosso povo vai ter a proteção social, a segurança social que tem tido na revolução, e que nos tem permitido superar todas os tipos de obstáculos, todas os tipos de agressões. Eu diria ao povo do Brasil que a Venezuela necessita mais solidariedade. Mais apoio.
Querem torturar e destruir a nossa economia para ver se tomam os controles das nossas riquezas. Não têm podido, nem poderão.

Obrigada, presidente, pela entrevista.
Que mais? Que mais? Você viu tudo que é negativo sobre a Venezuela. Não há nada positivo na Venezuela? [grifos do Limpinho]

[A entrevista acaba. Maduro se prepara para sair. A Folha comenta com ele que ficou surpresa com as declarações sobre Pepe Mujica. Ele fala de novo sobre o tema e o gravador é religado.]
Não, não, não. Isso é uma estupidez. Você tem um amigo que está sendo torturado. Você entra na sala de tortura e diz: ‘Amigo, por que gritas tanto?’. O que é isso? Estão torturando e ameaçando a Venezuela, impedindo que importe alimentos e remédios. Por favor.

[Ele retira os microfones da lapela e deixa a sala].

Lula ao Le Monde: “Bolsonaro é antes de tudo o resultado de uma rejeição da política”.

16 de setembro de 2019

O ex-presidente do Brasil cumpre desde abril de 2018 uma pena de oito anos e meio de prisão por corrupção. “Tudo o que eu quero é que reconheçam minha inocência”, ele explica nesta entrevista ao Le Monde.

Bruno Meyerfeld, via Le Monde, tradução de Gabriel Uchoa, em 13/9/2019

Com passo firme, Luiz Inácio Lula da Silva surge em uma sala qualquer da sede da Polícia Federal de Curitiba (Paraná), adaptada para servir de sala de imprensa. É aqui, neste prédio sem alma, que o ex-chefe de Estado, condenado por corrupção, cumpre, desde abril de 2018, sua pena de oito anos e dez meses de prisão. Aos 73 anos, o líder da esquerda brasileira nada perdeu de sua verve. Ele se apresenta, de barba bem cortada, terno escuro e gravata escarlate no pescoço. O estilo é presidencial, o símbolo é bem claro: Lula continua trabalhando, ainda está em ação. Ao Le Monde, ele concede sua primeira entrevista a um veículo francês desde que foi preso.

Depois de um ano e meio de prisão, você se sente desencorajado, exausto?
Não, eu me sinto bem, moralmente e fisicamente. Minha alma está tranquila, porque eu sei por que estou aqui. Eu sei que sou inocente e que os que me colocaram aqui são mentirosos. Eu sou otimista. Puxei da minha mãe. Agora, a prisão é uma provação. Mas eu tenho muita energia, estou sereno. Eu tenho a certeza de que vou vencer.

Como se organiza o seu dia-a-dia?
Eu assisto filmes, televisão, falo com meus advogados. Eu ando, 9km por dia! Eu espero o tempo passar… Eu leio muito também, estudo a história das lutas sociais no Brasil. Eu fico espantado vendo que todos que lutaram pelo povo nesse país – como Zumbi, Tiradentes ou Antônio Conselheiro – foram decapitados, enforcados ou queimados vivos, e constatando que o povo não sabe quem eles são, como se eles nunca tivessem existido.

Você se identifica com eles?
Sim. Eu acho que eu sou um pouco a versão moderna deles. Com uma forma mais sofisticada. No meu caso, o poder judiciário foi usado não para fazer justiça, mas para fazer política.

A França e o Brasil passaram por uma crise diplomática em torno da questão da preservação da Amazônia, tendo como plano de fundo insultos feitos pelo presidente Jair Bolsonaro em direção a Emmanuel Macron. Como você viu esse episódio?
Eu sempre tive ótimas relações com todos os presidentes franceses, com Chirac, Sarkozy e Hollande. Eu sou solidário a Emmanuel Macron, depois desses xingamentos em direção à sua esposa. Foi uma grosseria tremenda, e isso não tem nada a ver com o povo brasileiro.

Na sua opinião, quais são as soluções para os incêndios que estão devastando a Amazônia atualmente?
O povo tem que reagir. Os brasileiros têm que se mobilizar e se manifestar em defesa do meio ambiente. Porque não pode se esperar nada de Bolsonaro e dos ministros dele com relação a esse assunto. Eu tenho que lembrar, falando nisso, que meu governo, do PT, foi o que melhor tomou conta da Amazônia. Foi no meu mandato que foi criado o fundo, financiado pela Alemanha e pela Noruega, para proteger a floresta. Fui eu que criei um plano de prevenção que permitiu a queda do desmatamento ilegal. Também fui eu que inaugurei 114 zonas de proteção ambiental no país. A gente tomou conta do meio ambiente, e fez isso bem.

Mas na sua presidência e na de Dilma Rousseff, houve muitas críticas feitas pelos defensores do meio ambiente. Principalmente em relação à barragem de Belo Monte, na Amazônia… O PT pode mesmo dar lições de moral sobre a questão da Amazônia?
Olha, nem Deus pode escapar das críticas! Um governo, pior ainda. A gente fez o que era possível fazer. Belo Monte era uma necessidade para esse país. Ela foi construída com o acordo de todas as comunidades indígenas que viviam lá. O Brasil precisava desenvolver o potencial hidrelétrico. 80% da eletricidade produzida no Brasil é limpa. E nós temos orgulho disso!

Você apoia a ideia de uma internacionalização da Amazônia, sugerida por Emmanuel Macron?
Não! A Amazônia é propriedade do Brasil. Ela faz parte do patrimônio brasileiro. E é o Brasil quem deve tomar conta dela. Isso, está claro! Mas isso não quer dizer que tem que ser ignorante, e que a ajuda internacional não é importante. Mas a Amazônia não pode ser um santuário para a humanidade. Eu lembro a vocês que 20 milhões de pessoas moram lá, precisam comer e trabalhar. A gente tem que tomar conta delas também, mas levando em consideração a preservação do meio ambiente.

Depois de 8 meses de governo, o que você pensa da presidência de Jair Bolsonaro?
Bolsonaro não está fazendo nada. Ele está destruindo. Ele está destruindo a educação cortando os orçamentos das universidades, que não conseguem mais pagar bolsas de estudos. Ele está destruindo os direitos trabalhistas, que a gente lutou pra ter. Ele está destruindo a indústria, privatizando as empresas brasileiras, principalmente a Petrobras – e isso é um crime! É um governo de destruição, sem nenhuma visão de futuro, sem programa, que não está qualificado para o poder. É por isso que Bolsonaro diz tanta besteira, que ele insultou a esposa de Macron e Michelle Bachelet, que ele briga com Maduro… é loucura total. E por trás disso, ele se submete completamente a Trump. Eu nunca vi nada parecido!

O “antipetismo”, a rejeição do PT, é muito forte numa parte da população brasileira. Não chegou a hora de uma autocrítica, ou até mesmo de virar a página, criar um partido novo ou mudar de nome?
O PT não precisa fazer autocrítica. Por que uma autocrítica? Com relação a quê? O PT não tem que mudar de nome, ele tem que mudar o que está na cabeça das pessoas. A verdade é que eu teria ganho as eleições, mesmo na prisão, se o juiz tivesse me autorizado! Inclusive Fernando Haddad mesmo assim teve 47 milhões de votos. Foi muita coisa!
O PT é grande, é o partido de esquerda mais extraordinário do mundo. É um partido muito bem organizado. Fica em primeiro ou segundo em toda eleição faz vinte anos. Sim, a gente perdeu uma eleição, é verdade. Mas perder é normal em uma democracia. A gente não pode ganhar sempre. No Brasil tem muito antipetista mas também tem muita gente que acredita no PT, e outros que ainda precisam ser convencidos.

Então não vai haver autoquestionamento da parte de vocês?
No Brasil, sempre houve gente com discurso ultrarreacionário ganhando eleição; isso não é novidade. Bolsonaro é antes de tudo o resultado de uma rejeição da política. Nesses momentos da história, onde a política é tão odiada, as pessoas são levadas pelo primeiro monstro que aparecer. É lamentável, mas aconteceu.

Apesar das revelações do site “The Intercept” sobre os bastidores da operação Lava-Jato, os seus pedidos constantes de liberdade foram rejeitados ou adiados pela Justiça. Você ainda tem esperança de ser solto?
Existe um pacto entre as grandes mídias, os procuradores e o juiz Sérgio Moro. Eles divulgaram tanta mentira sobre mim que eles não têm coragem de desfazer o julgamento. Domingo agora [8 de setembro], a mídia revelou novas informações mostrando que Moro mentiu no STF. Esse tipo de comportamento, vindo de um juiz, eu não perdoo. Mas eu tenho a certeza de que vou sair daqui, e que um dia essas pessoas vão ser responsabilizadas pelo que aconteceu nesse país. Eu ainda acredito na justiça, mesmo sabendo que ela sofre muita pressão.

Você aceitaria um regime semiaberto? Ou cumprir pena domiciliar, com uma tornozeleira eletrônica, como deve ser permitido a partir do fim de setembro?
Eu não peço favor nenhum, nenhuma redução de pena. Apenas justiça! Minha casa não é uma prisão. E tornozeleira é pra pombo correio! Tudo o que eu quero, é que reconheçam minha inocência.

A sociedade brasileira hoje está muito polarizada. Você não teme que sua vida esteja ameaçada caso saia da prisão?
Uma pessoa como eu, que nasceu onde nasceu, que comeu pão pela primeira vez na vida aos 7 anos, que muitas vezes foi dormir sem jantar e que chegou aonde eu cheguei, essa pessoa não pode ter medo. O Brasil é um país pacífico, com um povo que tem alegria de viver. Os que tentam fazer do Brasil uma nação de ódio deveriam ter vergonha! Eu quero sair da prisão e ir falar com o povo, pra que volte esse gostinho de ser brasileiro. Eu sou um homem sem espírito de vingança, sem ódio. O ódio dá dor na barriga, na cabeça e nos pés! Eu estou bem, justamente porque eu estou do lado da verdade. E, no fim, ela sempre ganha.

Para Thomas Piketty, a desigualdade é ideológica e política

11 de setembro de 2019

Via Unisinos em 11/9/2019

O economista francês publica, na quinta-feira[12/9], pelas edições Seuil, Capital e Ideologia, um livro que investiga a formação e a justificativa das desigualdades. Le Monde publica alguns extratos.

Após O Capital no Século XXI, publicado em 2013 e que vendeu 2,5 milhões de exemplares em todo o mundo, Thomas Piketty, diretor de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales e professor da École d’Économie de Paris, além de cronista no Le Monde, publica, nesta quinta-feira, 12 de setembro, Capital et Idéologie (Seuil), um livro de investigação sobre a formação e a justificativa das desigualdade de mais de 1.200 páginas.

O texto é de Thomas Piketty, publicado por Le Monde, em 4 de setembro de 2019. A tradução é de André Langer.

LEVAR A IDEOLOGIA A SÉRIO
A desigualdade não é econômica ou tecnológica: é ideológica e política. Esta é, sem dúvida, a conclusão mais óbvia da investigação histórica apresentada neste livro. Em outras palavras, o mercado e a concorrência, os lucros e os salários, o capital e a dívida, os trabalhadores qualificados e não qualificados, os nacionais e os estrangeiros, os paraísos fiscais e a competitividade, não existem como tais. São construções sociais e históricas que dependem inteiramente do sistema jurídico, fiscal, educacional e político que escolhemos estabelecer e das categorias que escolhemos criar. Essas escolhas referem-se, primeiramente, às representações que cada sociedade se faz da justiça social e da economia justa e às relações de poder político-ideológicas entre os diferentes grupos e discursos presentes. O ponto importante é que essas relações de força não são apenas materiais: são também e acima de tudo intelectuais e ideológicas. Em outras palavras, ideias e ideologias contam na história. Elas permitem permanentemente imaginar e estruturar novos mundos e sociedades diferentes. Múltiplas trajetórias são sempre possíveis.

“As elites das diferentes sociedades, em todas as épocas e em todas
as latitudes, têm a
tendência de “naturalizar” as desigualdades”.
Thomas Piketty

Esta abordagem difere de muitos discursos conservadores que visam explicar que existem fundamentos “naturais” para as desigualdades. De maneira pouco surpreendente, as elites das diferentes sociedades, em todas as épocas e em todas as latitudes, têm a tendência de “naturalizar” as desigualdades, ou seja, tentam dar-lhes fundamentos naturais e objetivos, de explicar que as disparidades sociais existentes são (como deve ser) do interesse dos mais pobres e da sociedade como um todo, e que, em todo caso, sua atual estrutura é a única possível e não pode ser substancialmente modificada sem provocar imensos infortúnios.

Reprodução da capa do livro.

A experiência histórica mostra o contrário: as desigualdades variam muito no tempo e no espaço, em tamanho e estrutura, em condições e com uma velocidade que os contemporâneos teriam tido dificuldades para antecipar algumas décadas antes. Foi, às vezes, o resultado de infortúnios. Mas, em seu conjunto, as diversas rupturas e processos revolucionários e políticos que permitiram reduzir e transformar as desigualdades do passado foram um imenso êxito e, ao mesmo tempo, desembocaram na origem das nossas instituições mais valiosas, aquelas que permitiram, precisamente, que a ideia de progresso humano se tornasse uma realidade (o sufrágio universal, a escola gratuita e obrigatória, a universalização do seguro-saúde, o imposto progressivo). É muito provável que o mesmo aconteça no futuro. As desigualdades atuais e as instituições presentes não são as únicas possíveis, apesar do que possam pensar os conservadores, e elas também são chamadas a se transformar e a se reinventar permanentemente.

Mas esta abordagem, centrada nas ideologias, nas instituições e na diversidade das trajetórias possíveis, também se diferencia de certas doutrinas às vezes chamadas de “marxistas”, segundo as quais o estado das forças econômicas e as relações de produção determinariam quase mecanicamente a “superestrutura” ideológica de uma sociedade. Eu insisto, ao contrário, no fato de que existe uma autonomia real da esfera das ideias, isto é, da esfera ideológico-política. Para um mesmo estado de desenvolvimento da economia e das forças produtivas (na medida em que essas palavras têm um significado, o que não é certo), há sempre uma multiplicidade de regimes ideológicos, políticos e desigualitários possíveis.

Por exemplo, a teoria da passagem mecânica do “feudalismo” para o “capitalismo” após a revolução industrial não permite explicar a complexidade e a diversidade das trajetórias históricas e político-ideológicas observadas nos diferentes países e regiões do mundo, especialmente entre regiões colonizadoras e colonizadas, bem como dentro de cada conjunto, e, sobretudo, não nos permite tirar as lições mais úteis para as etapas seguintes.

Ao acompanhar os fios desta história, constatamos que sempre existiram e existirão alternativas. Em todos os níveis de desenvolvimento, existem muitas maneiras de estruturar um sistema econômico, social e político, definir relações de propriedade, organizar um sistema fiscal ou educacional, lidar com um problema de dívida pública ou privada, regular relações entre diferentes comunidades humanas, e assim por diante. Sempre existem vários caminhos possíveis de organizar uma sociedade e as relações de poder e de propriedade dentro dela, e essas diferenças não são apenas detalhes, longe disso. Em particular, existem muitas maneiras de organizar as relações de propriedade no século XXI, e algumas podem constituir um salto muito mais real do capitalismo do que o caminho que consiste em prometer sua destruição sem se preocupar com o que se seguirá.

O estudo das diferentes trajetórias históricas e das muitas bifurcações inacabadas do passado é o melhor antídoto para o conservadorismo elitista e para a expectativa revolucionária da grande noite. Essa atitude de esperar geralmente dispensa a reflexão sobre o regime político e institucional realmente emancipador a ser aplicado após a grande noite, e geralmente leva a confiar em um poder estatal ao mesmo tempo hipertrofiado e indefinido, o que pode se mostrar tão perigoso quanto a sacralização proprietarista à qual se pretende opor. Esta atitude causou consideráveis danos humanos e políticos ao século XX, danos dos quais ainda não terminamos de pagar o preço. O fato de que o pós-comunismo (na sua variante russa e na sua versão chinesa, assim como, até certo ponto, na sua variante do leste europeu, apesar de tudo o que diferencia essas três trajetórias) tornou-se no início do século XXI o melhor aliado do hipercapitalismo é a consequência direta dos desastres comunistas stalinistas e maoistas e o abandono de qualquer ambição igualitária e internacionalista que se seguiu. O desastre comunista conseguiu inclusive colocar em segundo plano os danos provocados pela escravidão, pelo colonialismo e pelas ideologias racialistas, assim como os laços profundos que os vinculam à ideologia proprietarista e hipercapitalista, o que não é pouca coisa.

[…]

Progresso humano, retorno das desigualdades, diversidade do mundo
Vamos ao cerne da questão. O progresso humano existe, mas é frágil e pode fracassar a qualquer momento devido aos desvios desigualitários e identitários do mundo. O progresso humano existe: basta, para se convencer disso, observar a evolução da saúde e da educação no mundo nos últimos dois séculos […]. A expectativa de vida ao nascer aumentou de cerca de 26 anos no mundo em média em 1820 para 72 anos em 2020. No início do século XIX, a mortalidade infantil atingiu cerca de 20% dos recém-nascidos em todo o mundo no primeiro ano, em comparação com menos de 1% hoje. Com foco nas pessoas que atingem 1 ano de idade, a expectativa de vida ao nascer aumentou de cerca de 32 anos em 1820 para 73 em 2020.

Poderíamos multiplicar os indicadores: a probabilidade de um recém-nascido atingir a idade de 10 anos, a de um adulto atingir a idade de 60 anos, a de um idoso passar cinco ou dez anos da aposentadoria com boa saúde. Em todos esses indicadores, a melhoria a longo prazo é impressionante. Podemos, certamente, encontrar países e momentos em que a expectativa de vida diminui, inclusive em tempos de paz, como a União Soviética na década de 1970 ou os Estados Unidos nos anos 2010, o que geralmente não é um bom sinal para os regimes em questão. Porém, a longo prazo, a tendência de melhoria é inquestionável em todas as partes do mundo, independentemente dos limites das fontes demográficas disponíveis.

A humanidade vive agora com melhor saúde do que jamais viveu; também tem mais acesso à educação e à cultura do que nunca. A Unesco não existia no início do século XIX para definir a alfabetização como passou a fazer a partir de 1958, ou seja, como a capacidade de uma pessoa “ler e escrever um enunciado simples e breve relacionado à sua vida diária”. No entanto, as informações coletadas em várias pesquisas e censos sugerem que apenas 10% da população mundial acima de 15 anos era alfabetizada no início do século XIX, em comparação com mais de 85% hoje. Aqui, novamente, indicadores mais refinados, como o número médio de anos de escolaridade, que teria passado de apenas um ano, há dois séculos, para mais de oito anos no mundo de hoje e mais de doze anos nos países mais avançados, confirmariam o diagnóstico. Na época de Austen e Balzac, menos de 10% da população mundial tinha acesso à escola primária; na de [Chimamanda Ngozi] Adichie e de Fuentes, mais da metade das gerações mais jovens dos países ricos ingressam na universidade: o que sempre foi um privilégio de classe torna-se aberto à maioria.

Para perceber a magnitude das transformações em jogo, convém lembrar também que a população humana e a renda média aumentaram mais de 10 vezes desde o século XVIII. A primeira passou de cerca de 600 milhões em 1700 para mais de 7 bilhões em 2020, enquanto a segunda, até onde se pode mensurar, passou de um poder de compra médio (expresso em euros em 2020) de apenas 80 euros por mês e por habitante do planeta em torno de 1700 para cerca de 1.000 euros por mês em 2020. Não é certo, no entanto, que essas progressões quantitativas significativas, em relação às quais é útil lembrar que ambas correspondem a taxas de crescimento médio anual de apenas 0,8%, acumuladas, é verdade, ao longo de três séculos (prova de que não é necessário aponta para um crescimento de 5% ao ano para alcançar a felicidade terrena), representam “progressos” em um sentido tão incontestável quanto aqueles alcançados em termos da saúde e educação.

Nos dois casos, a interpretação dessas evoluções é ambígua e abre debates complexos para o futuro. O crescimento demográfico certamente reflete parcialmente a queda da mortalidade infantil e o fato de um número crescente de pais ter conseguido crescer com os filhos vivos, o que não é nada. Entretanto, esse aumento da população, se continuasse no mesmo ritmo, nos levaria a uma população de mais de 70 bilhões de pessoas em três séculos, o que não parece ser nem desejável nem suportável pelo planeta. O crescimento da renda média reflete parcialmente uma melhoria muito real nas condições de vida (três quartos dos habitantes do mundo viviam perto do nível de subsistência no século XVIII, comparado a menos de um quinto hoje), bem como as novas possibilidades de viagens, lazer, reuniões e de emancipação.

No entanto, as contas nacionais mobilizadas aqui para descrever a evolução a longo prazo da renda média e que desde a sua invenção no final do século XVII e início do século XVIII, no Reino Unido e na França, tentam medir a renda nacional, o produto interno bruto e às vezes o capital nacional dos países, apresentam muitos problemas. Além de seu foco em médias e agregados e sua total falta de consideração das desigualdades, estão começando muito lentamente a integrar a questão da sustentabilidade e do capital humano e natural. Por outro lado, sua capacidade de resumir em um único indicador as transformações multidimensionais das condições de vida e do poder de compra de períodos tão longos não deve ser superestimada.

“Os reais progressos realizados em termos de saúde, educação e
poder de compra ocultam enormes desigualdades e fragilidades”.
Thomas Piketty

Em geral, os reais progressos realizados em termos de saúde, educação e poder de compra ocultam enormes desigualdades e fragilidades. Em 2018, a taxa de mortalidade infantil antes de 1 ano era inferior a 0,1% nos países europeus, norte-americanos e asiáticos mais ricos, mas elas atingem quase 10% nos países africanos mais pobres. A renda média mundial certamente era de 1.000 euros por mês e per capita, mas era de 100 a 200 euros por mês nos países mais pobres e era superior a 3.000 a 4.000 euros por mês nos países mais ricos ou mais ainda em alguns micro-paraísos fiscais que algumas pessoas suspeitam (não sem razão) de roubar o resto do mundo, quando não se trata de um país cuja prosperidade se assenta sobre as emissões de carbono e o aquecimento à frente. Alguns progressos foram feitos, mas isso não muda o fato de que sempre é possível fazer melhor ou, em todo caso, de se interrogar seriamente sobre isso, em vez de se entregar a um sentimento de felicidade diante do sucesso do mundo.

Acima de tudo, esse incontestável progresso humano médio, se compararmos as condições de vida prevalecentes no século XVIII e no início do século XXI, não deve nos fazer esquecer que essa evolução de longo prazo esteve acompanhada por terríveis fases de regressão nas igualdades e na civilização. O “Iluminismo” euro-americano e a Revolução Industrial dependiam de sistemas extremamente violentos de dominações proprietaristas, escravistas e coloniais, que assumiram uma escala histórica sem precedentes durante os séculos XVIII, XIX e XX, antes das próprias potências europeias afundarem em uma fase de autodestruição genocida entre 1914 e 1945. Essas mesmas potências foram forçadas as descolonizações nos anos 1950-1960, quando as autoridades estadunidenses acabaram estendendo os direitos civis aos descendentes de escravos.

Os temores do apocalipse atômico ligados ao conflito comunismo-capitalismo mal tinha sido esquecido após o colapso soviético de 1989-1991, e o apartheid da África do Sul mal tinha sido abolido em 1991-1994, quando o mundo entrou, a partir dos anos 2000-2010, em um novo torpor, o do aquecimento global e de uma tendência geral ao fechamento identitário e xenófobo, em um contexto de aumento sem precedentes das desigualdades socioeconômicas nos países desde os anos 1980-1990, impulsionado por uma ideologia neoproprietária particularmente radical. Afirmar que todos esses episódios observados desde o século XVIII ao século XXI eram necessários e indispensáveis para que o progresso humano fosse realizado faria pouco sentido. Outras trajetórias e regimes desigualitários eram possíveis, outras trajetórias e outros regimes mais igualitários e mais justos ainda são possíveis.

“Se há uma lição a ser tirada da história mundial dos
três últimos séculos, é que o progresso humano não é linear”.
Thomas Piketty

Se há uma lição a ser tirada da história mundial dos três últimos séculos, é que o progresso humano não é linear e que seria errado supor que as coisas sempre vão melhorar, e que a livre concorrência dos poderes estatais e dos atores econômicos seria suficiente para nos levar, como por um milagre, à harmonia social e universal. O progresso humano existe, mas é uma luta e, acima de tudo, deve se basear em uma análise fundamentada dos desenvolvimentos históricos passados, com o que eles comportam de positivo e de negativo.[…]

A justificação da desigualdade nas sociedades de proprietários
Basicamente, o argumento formulado pela ideologia proprietarista, de maneira implícita nas declarações dos direitos e nas Constituições, e de maneira muito mais explicitamente nos debates políticos em torno da propriedade que ocorreram durante a Revolução Francesa e ao longo do século XIX, pode ser resumido da seguinte maneira. Se começarmos a questionar os direitos de propriedade adquiridos no passado e sua desigualdade, em nome de uma concepção da justiça social certamente respeitável, mas que inevitavelmente seria sempre imperfeitamente definida e aceita, e nunca poderia ser totalmente consensual, não correríamos o risco de não saber onde parar esse processo perigoso? Não existe o risco de ir direto para a instabilidade política e a caos permanente, o que terminaria se voltando contra os mais modestos? A resposta proprietarista intransigente consiste em que não se deve correr esse risco e que a Caixa de Pandora da redistribuição das propriedades jamais deve ser aberta.

Esse tipo de argumento está constantemente presente durante a Revolução Francesa e explica muitas das ambiguidades e hesitações observadas, particularmente entre as abordagens “históricas” e “linguísticas” dos direitos antigos e de sua transcrição para novos direitos de propriedade. Se questionarmos as corveias e os royalties, não existe o risco de questionar também os aluguéis e todos os direitos de propriedade? Encontraremos esses argumentos nas sociedades de proprietários do século XIX e início do século XXI, e veremos que eles continuam a desempenhar um papel fundamental no debate político contemporâneo, particularmente com o retorno de um discurso neoproprietarista desde o final do século XX.

“A sacralização da propriedade privada é, no fundo,
uma resposta natural ao medo do vazio”.
Thomas Piketty

A sacralização da propriedade privada é, no fundo, uma resposta natural ao medo do vazio. A partir do momento em que abandonamos o esquema trifuncional, que propunha soluções que permitiam equilibrar o poder de guerreiros e clérigos, e que se apoiava em grande parte em uma transcendência religiosa (essencial para garantir a legitimidade dos clérigos e de seus sábios conselhos), é preciso encontrar novas respostas para garantir a estabilidade da sociedade. O respeito absoluto dos direitos de propriedade adquirido no passado fornece uma nova transcendência para evitar o caos generalizado e preencher o vazio deixado pelo fim da ideologia trifuncional. A sacralização da propriedade é de certa forma uma resposta ao fim da religião como uma ideologia política explícita.

Com base na experiência histórica e na construção de um conhecimento racional baseado nessas experiências, parece-me que é possível ir além dessa resposta certamente natural e compreensível, que é ao mesmo tempo um tanto niilista e preguiçosa e pouco otimista em relação à natureza humana. Tentarei, neste livro, convencer o leitor de que podemos nos apoiar nas lições da história para definir um padrão de justiça e de igualdade mais exigente em matéria de regulação e distribuição da propriedade mais além da simples sacralização dos direitos do passado, norma que certamente só pode ser evolutiva e aberta a deliberações permanentes, mas que é menos satisfatória que a opção cômoda que consiste em assumir como dadas as posições adquiridas e naturalizar as desigualdades produzidas pelo “mercado”. Além disso, é sobre essa base pragmática, empírica e histórica que as sociedades socialdemocratas se desenvolveram no século XX (que, apesar de todas as suas insuficiências, mostraram que a extrema desigualdade patrimonial do século XIX não era de forma alguma indispensável para garantir a estabilidade e a prosperidade, muito pelo contrário) e que ideologias e movimentos políticos inovadores podem ser construídos no início do século XXI.

A grande fraqueza da ideologia proprietarista é que os direitos de propriedade do passado frequentemente colocam sérios problemas de legitimidade. Acabamos de vê-lo com a Revolução Francesa, que transformou sem dificuldades as corveias em aluguéis, e encontraremos esta dificuldade em muitas ocasiões, em particular com a questão da escravidão e sua abolição nas colônias francesas e britânicas (onde se decidirá que era essencial compensar os proprietários, mas não os escravos), ou ainda com as privatizações pós-comunistas e os saques privados de recursos naturais. De maneira mais geral, o problema é que, independentemente da questão das origens violentas ou ilegítimas das apropriações iniciais, desigualdades patrimoniais consideráveis, duradouras e amplamente arbitrárias tendem a ser permanentemente reconstituídas, tanto nas sociedades hipercapitalistas modernas quanto nas sociedades antigas.

Não obstante, a construção de um padrão de justiça aceitável para o maior número de pessoas apresenta problemas consideráveis, e só poderemos tratar verdadeiramente desta questão complexa somente após nossa investigação, após o exame das diferentes experiências históricas disponíveis e, em particular, das experiências cruciais do século XX em matéria de progressividade tributária e, mais geralmente, da redistribuição das propriedades, o que forneceu a demonstração histórica material de que a desigualdade extrema não era indispensável, bem como os conhecimentos concretos e operacionais sobre os níveis de igualdade e desigualdade que poderiam ser considerados mínimos. De qualquer forma, o argumento proprietarista, baseado na necessidade de estabilidade institucional, deve ser levado a sério e avaliado com precisão, pelo menos tanto quanto o argumento meritocrático, que insiste mais no mérito individual, argumento que desempenha, sem dúvida, um papel menos central na ideologia proprietarista do século XIX do que na reformulação neoproprietarista em vigor desde o final do século XX. Teremos amplamente a oportunidade de retornar a esses diferentes desenvolvimentos político-ideológicos.

“A ideologia proprietarista dura deve ser analisada
pelo que é: um discurso sofisticado e potencialmente
convincente sobre certos pontos”.

Thomas Piketty

De um modo geral, a ideologia proprietarista dura deve ser analisada pelo que é: um discurso sofisticado e potencialmente convincente sobre certos pontos (porque a propriedade privada, corretamente redefinida dentro de seus limites e direitos, faz, efetivamente, parte dos arranjos institucionais que permitem que as diferentes aspirações e subjetividades individuais se expressem e interajam construtivamente) e, ao mesmo tempo, uma ideologia desigualitária que, na sua forma mais extrema e mais severa, visa simplesmente justificar uma forma particular de dominação social, muitas vezes de maneira excessiva e caricatural.

De fato, é uma ideologia muito prática para aqueles que estão no topo da escala, tanto no que diz respeito à desigualdade entre indivíduos quanto à desigualdade entre nações. Os indivíduos mais ricos encontram argumentos para justificar sua posição em relação aos mais pobres, em nome de seus esforços e méritos, mas também em nome da necessidade de estabilidade que beneficiará a sociedade como um todo. Os países mais ricos também podem encontrar razões para justificar sua dominação sobre os mais pobres, em nome da suposta superioridade de suas regras e instituições. O problema é que esses argumentos e os elementos fatuais apresentados por uns e outros para apoiá-los nem sempre são muito convincentes. Mas antes de analisar esses desenvolvimentos e essas crises, é importante começar por estudar a evolução das sociedades de proprietaristas no século XIX, na França e em outros países europeus, ao final desse momento importante e ambíguo que foi a Revolução Francesa.


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