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Intercept/Folha: Deltan mudou contratos de palestras e filantropia passou longe de ser verdade

23 de agosto de 2019

O procurador da República Deltan Dallagnol. Foto: Rodolfo Buhrer.

Desde 2017, procurador deixou doações em 2º plano e arrecadou ao menos R$580 mil; ele diz que seu propósito é cidadania

Flavio Ferreira, da Folha, Amanda Audi, Leandro Demori e Alexandre de Santi, do The Intercept Brasil, em 23/8/2019

A atividade de palestras remuneradas do procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da Operação Lava-Jato, passou por mudanças contratuais para deixar de ter a filantropia como principal destino dos valores.

Ele começou a focar o meio empresarial e arrecadou ao menos R$580 mil a partir de 2017, apontam diálogos e documentos obtidos pelo The Intercept Brasil e analisados em conjunto com a Folha.

Mensagens, planilhas, recibos e contratos que circularam no aplicativo Telegram de Deltan indicam um contraste entre os argumentos da defesa apresentada por ele à Corregedoria do Ministério Público em junho de 2017, que levaram ao arquivamento de uma reclamação disciplinar, e a conduta do procurador em relação às palestras a partir daquele ano.

Deltan sempre se recusou a divulgar a relação de empresas e entidades que pagaram por suas palestras, bem como as remunerações recebidas por esse trabalho.

A lista de contratantes do procurador traz unidades da operadora de planos de saúde Unimed, firmas do mercado financeiro e associações industriais e comerciais.

O valor de cada palestra variou entre R$10 mil e R$35 mil. O total arrecadado com elas a partir do início da Lava-Jato passou de R$1 milhão caso sejam somadas as quantias que Deltan também destinou para instituições filantrópicas – isso ocorreu principalmente em 2016.

Conforme mostrou a Folha em 14 de julho deste ano, Deltan montou um plano de negócios no ano passado para lucrar com a fama da Lava-Jato. Com um colega, cogitou abrir uma empresa em nome de suas mulheres para evitar questionamentos legais. As revelações levaram à abertura de novas reclamações disciplinares contra ele na Corregedoria.

Em nota, Deltan diz que, na soma de 2016 a 2018, destinou a maior parte dos valores para atividade beneficente ou ações anticorrupção, incluindo uma reserva de R$184 mil que mantém em aplicação financeira e que ele diz planejar para essa última finalidade. Ele não comenta as mudanças ocorridas especificamente após 2017.

O chefe da força-tarefa apresentou em junho de 2017 uma resposta a uma reclamação disciplinar sobre as palestras que havia sido protocolada na Corregedoria do CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) pelos deputados federais Paulo Pimenta (PT/RS) e Wadih Damous (PT/RJ).

Nessa manifestação, Deltan alegou que suas palestras deveriam ser enquadradas como atividade docente, o que é permitido por lei. Também argumentou que a atividade tinha como objetivo principal promover combate à corrupção e colaborar com ações de filantropia e sociais.

Segundo Deltan, até 2016 a maior parte do valor arrecadado com as palestras havia sido doada ao Hospital Oncopediátrico Erasto Gaertner, de Curitiba. A instituição médica informou à época ter recebido R$219 mil (R$240 mil em valores atualizados) do procurador.

No ofício à Corregedoria em junho de 2017, Deltan disse, porém, que tal procedimento havia mudado a partir daquele ano. Desde então, os contratos, de modo geral, não têm mais destinação automática de valores para entidades filantrópicas.

“Em 2017, após descontado o valor de 10% para despesas pessoais e os tributos, os valores das palestras sobre corrupção e ética em grandes eventos estão sendo destinados, até hoje, a um fundo que será empregado, ao tempo oportuno, em despesas ou custos decorrentes da atuação de servidores públicos em operações de combate à corrupção, tal como a Operação Lava-Jato, para o custeio de iniciativas contra a corrupção e a impunidade, ou ainda para iniciativas que objetivam promover, em geral, a cidadania e a ética”, de acordo com a manifestação.

“Presto esses esclarecimentos para deixar claro para a sociedade que o objetivo das palestras não é enriquecer, mas sim contribuir com a causa cívica, embora eu pudesse legalmente dar destinação pessoal aos recursos, como muitos profissionais da área pública e privada fazem”, completou o procurador.

A Corregedoria do CNMP considerou procedentes as alegações de Deltan, ressaltando a destinação da remuneração no ano anterior para entidades filantrópicas, e arquivou a reclamação disciplinar.

Porém as mensagens e papéis examinados pela Folha e pelo Intercept não permitem constatar a formação do fundo mencionado pelo procurador à Corregedoria. Além de não haver mais previsão contratual nas palestras, a reportagem também não encontrou menções ou registros de altos valores de contribuições para caridade por parte de Deltan desde 2017.

Essa documentação mostra que Deltan usou em 2016 um tipo de contrato que previa a cobrança de valores pelas palestras, porém com destinação direta para a conta corrente do Hospital Erasto Gaertner.

Esse padrão mudou no ano seguinte, quando os contratos passaram a prever depósitos na conta corrente do procurador.

Um dos documentos de 2017 faz referência ao fundo de incentivo ao combate à corrupção mencionado por Deltan à Corregedoria, mas contratos de 2018 e 2019 já não previam esse tipo de destinação.

Exemplos de contratos das palestras do procurador Deltan Dallagnol. Reprodução.

A reportagem examinou os valores de 20 palestras de Deltan pagas ou programadas entre fevereiro de 2017 e fevereiro de 2019, conforme diálogos, planilhas, recibos e contratos que circularam em grupos de conversas do procurador. A maioria delas teve como tema corrupção e ética nos negócios.

Em valores atualizados pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), a soma das remunerações dos eventos desde 2017 encontrados na documentação é de cerca de R$580 mil.

Um quarto das palestras verificadas pela reportagem foi para unidades do plano de saúde Unimed. Os eventos foram remunerados pelas Unimeds central e de Santa Catarina, Porto Alegre, Presidente Prudente (SP) e Assis (SP).

Em uma ocasião, Deltan solicitou que a responsável pela organização de suas palestras pedisse à Unimed que o contratasse para palestrar em Salvador, pois ele queria ir à capital baiana promover uma campanha.

Essa solicitação foi feita a Fernanda Cunha, dona da firma Star Palestras, em 18 de julho de 2018. “Fernanda, será que a Unimed Salvador não quer me contratar pra uma palestra na semana de 24 de setembro?”, escreveu o procurador.

Cunha indagou se o procurador iria estar na cidade naquele dia, e Deltan respondeu negativamente. “É que não tenho nada relevante em Salvador e queria ir pra lá pra espalhar a campanha. Como Vc sempre tem contatos na Unimed, pensei que podia ser uma boa”, explicou o procurador.

A dona da empresa de eventos disse que iria verificar se o pedido de Deltan poderia ser atendido, mas não há na documentação registros de que a palestra tenha ocorrido.

O procurador também foi remunerado por instituições e firmas do mercado financeiro, da indústria e do comércio, como Febraban (Federação Brasileira de Bancos), B3, XP e Centro Industrial do Ceará (CIC).

As mensagens no Telegram mostram que o procurador receava que a divulgação dos dados de suas palestras pudesse levar à descoberta de situações embaraçosas e consequentemente promover questionamentos legais e críticas.

Em 3 de julho de 2017, após um pedido de esclarecimentos da Folha sobre o assunto, Deltan disse a um assessor da Procuradoria que colegas da força-tarefa da Lava-Jato compartilhavam dessa preocupação.

“Tenho pensado se devo soltar os nomes dos tomadores, mas o pessoal da FT acha que não, pq vão fuçar para dizer que um diretor da entidade tem isso ou aquilo, que o médico vinculado àquela unimed tá procesado por sonegação ou isso ou aquilo… acham que quanto mais ficar dando corda, pior será”, afirmou o procurador.

O assessor concordou com a posição de Deltan: “Sim, vão acabar querendo especular que vc deu palestra em entidade de tal pessoa que já foi citada em algo… etc…”.

Exemplos de contratos das palestras do procurador Deltan Dallagnol. Reprodução.

O procurador buscou evitar até mesmo que a Corregedoria-Geral do Ministério Público Federal, órgão interno de fiscalização dos procuradores da República, tivesse acesso às informações sobre as palestras, como a Folha e o Intercept informaram em 8 de agosto.

A falta de transparência sobre as palestras remuneradas realizadas por membros do Ministério Público difere do que é previsto em lei para os juízes brasileiros.

Os magistrados são obrigados a informar quem são os contratantes de suas palestras para que os dados sejam publicados nos sites dos tribunais, conforme resolução do CNJ (Conselho Nacional de Justiça). O objetivo da regra é permitir a verificação pública de eventuais situações de conflitos de interesse.

Outro lado
O procurador Deltan Dallagnol afirma que, ao longo dos anos, destinou a maior parte dos valores arrecadados com palestras para atividade beneficente ou anticorrupção.

Ele inclui em seu cálculo a quantia de R$184 mil, hoje em aplicação financeira, que diz reservar para fazer investimentos futuros em ações de combate à corrupção.

O coordenador da Lava-Jato diz que já realizou doações a instituições filantrópicas que totalizam cerca de R$100 mil além das contribuições feitas ao Hospital Erasto Gaerter em 2016.

Segundo Deltan, a maioria de suas palestras é gratuita e a atividade é legal, legítima e positiva para a sociedade.

“O propósito da atividade é promover cidadania e o combate à corrupção. No caso de palestras remuneradas, são regularmente declaradas em Imposto de Renda”, afirma em nota.

Apesar de a Folha ter pedido ao procurador esclarecimentos sobre a situação após as mudanças nos contratos das palestras, a partir de 2017, quando elas passaram a deixar a filantropia em segundo plano, Deltan fez considerações abrangendo fatos de 2016, ano em que ainda dedicava a maior parte dessa remuneração para entidades assistenciais.

Em sua resposta, o procurador também não contempla as receitas obtidas em 2019.

O procurador afirma que “ficou com menos de 40% dos valores das palestras prestadas desde 2016 até 2018 que envolveram pagamentos”, e, assim, “a maior parte dos valores tem sido destinada para atividade beneficente ou anticorrupção”.

Deltan diz que, desde 2016, a atividade de palestras “tem resultado em um benefício econômico direto para a sociedade de R$734.774,14”.

Para chegar a esse total, o procurador inclui cerca de R$200 mil que diz ter recolhido em tributos entre 2016 e 2018 em função da atividade de palestras, os R$184 mil atualmente em aplicação financeira para investimento futuro no combate à corrupção e os R$247 mil (em valores atualizados) doados ao Hospital Erasto Gaerter em 2016. Nessa conta entram também outras doações que somam cerca de R$100 mil.

Em resposta à Folha, o procurador afirmou que acertou a realização de novas doações para filantropia principalmente a partir de abril 2019, sendo beneficiadas no período as entidades ONG Amigos do Bem (R$10 mil), Acridas, que cuida de crianças e adolescentes em situação de risco (R$20 mil), Hospital Cajuru (R$20 mil) e Fundação Lia Maria Aguiar (R$10 mil).

Segundo Deltan, “Somando-se a esse montante [R$734 mil] o valor com o qual o procurador ficou de 2016 e 2018 (valores já apurados), a parcela do procurador corresponde a menos de 40% do total”. Indagado pela reportagem, o procurador preferiu não revelar o valor exato do total da remuneração das palestras destinada para fins pessoais.​

Em julho de 2017, o procurador Deltan Dallagnol conversou com dois assessores da Procuradoria no Paraná sobre um pedido de esclarecimento da Folha a respeito da atividade de palestras

3 de julho de 2017
Assessor 1
20:27:01 Folha e as palestras… Querem respostas.?
Assessor 2
20:31:26 Ele vai ser o personagem da matéria? Ela não especificou se vão falar com outras pessoas…
20:48:26 Melhor responder, pq vão fazer a matéria de qualquer jeito. Responder de forma clara, sem deixar brechas. E se sair algo fora de contexto teremos o email que vamos enviar. Há como levantar quantas palestras/pra quem ocorreram? Terceira pergunta pode-se aproveitar resposta enviada ao Valor. Última pergunta – tranquilo de responder. A segunda que tem que explicar direito.
Deltan Dallagnol
20:52:14 Acho que o caso é de enviar minha resposta para a corregedoria e pronto
20:52:19 Vejam a resposta e vejam o que acham
Assessor 1
21:03:40 A resposta está muito boa. Embora não tenha tudo que a Folha pediu, acho que podemos mandar do jeito que está.
Deltan
21:17:22 Tenho pensado se devo soltar os nomes dos tomadores, mas o pessoal da FT acha que não, pq vão fuçar para dizer que um diretor da entidade tem isso ou aquilo, que o médico vinculado àquela unimed tá procesado por sonegação ou isso ou aquilo… acham que quanto mais ficar dando corda, pior será.
Assessor 2
21:23:12 Sim, vão acabar querendo especular que vc deu palestra em entidade de tal pessoa que já foi citada em algo… etc…
21:26:25 Negócio é que haverá a possibilidade de sair algo negativo ou não.. vai depender…

Deltan enviou em julho 2018 um pedido a Fernanda Cunha, dona da empresa Star Palestras, para que ela buscasse viabilizar uma palestra dele em Salvador

18 de julho de 2018
Deltan
21:14:53 Fernanda, será que a Unimed Salvador não quer me contratar pra uma palestra na semana de 24 de setembro?

29 de julho de 2018
Fernanda Cunha
01:09:05 Nao tinha visto essa mensagem. Vc estará por lá nesta ocasiao?
Deltan
13:07:11 Não. É que não tenho nada relevante em Salvador e queria ir pra lá pra espalhar a campanha. Como Vc sempre tem contatos na Unimed, pensei que podia ser uma boa
Fernanda
19:07:49 Ok, vou falar com eles

A transcrição das mensagens manteve a grafia original dos arquivos obtidos pelo The Intercept.

Submissão de Moro após interferência de Bolsonaro causa irritação na cúpula da PF

23 de agosto de 2019

Depois de interferências, crise aumenta com aviso do presidente de que pode trocar diretor-geral.

Camila Mattoso, via Folha em 23/8/2019

O silêncio do ministro da Justiça, Sérgio Moro, diante dos sucessivos movimentos de interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal tem causado estranheza na cúpula do órgão.

Nos sete dias que se seguiram desde a primeira manifestação do presidente, no último dia 16, o ex-juiz não deu nenhuma declaração sobre esse assunto e tentou, por meio de interlocutores, passar a impressão de que estava distante do problema.

Depois de atropelar a PF e anunciar uma troca na superintendência do Rio, sugerindo inclusive um nome para a mudança, Bolsonaro colocou em xeque na quinta-feira [22/8] a permanência do diretor-geral, Maurício Valeixo, à frente do órgão.

“Agora há uma onda terrível sobre superintendência. Onze [superintendentes] foram trocados e ninguém falou nada. Sugiro o cara de um estado para ir para lá: ‘Está interferindo’. Espera aí. Se eu não posso trocar o superintendente, eu vou trocar o diretor-geral”, afirmou Bolsonaro.

“Se eu trocar hoje, qual o problema? Está na lei que eu que indico e não o Sérgio Moro. E ponto final”, completou.

Moro, em seu Twitter, postou mensagens sobre assuntos diversos, mas não tocou nessa polêmica. Em eventos da pasta ao longo da última semana, o ministro fez discursos e falou sobre o projeto de abuso de autoridade, que foi aprovado na Câmara e aguarda sanção presidencial.

A Polícia Federal é uma instituição subordinada ao Ministério da Justiça. Valeixo virou chefe da PF por escolha de Moro. Os dois se conhecem há vários anos e trabalharam juntos na Operação Lava-Jato.

Além da interferência na PF, Bolsonaro enfrentou críticas nos últimos dias por mudanças na Receita Federal e no Coaf – órgão de inteligência financeira que passou para a alçada do Banco Central, com alteração de nome e a saída de um aliado de Moro do comando.

“Ora, eu fui [eleito] presidente para interferir mesmo, se é isso que eles querem. Se é para ser um banana ou um poste dentro da Presidência, tô fora”, justificou Bolsonaro na última quarta-feira [21/8].

As últimas declarações do presidente provocaram críticas de policiais federais e fez ganhar força a proposta de necessidade de autonomia do órgão.

Enquanto isso, pessoas próximas a Moro passam o discurso de que não há chance de ele deixar o governo por causa da interferência de Bolsonaro e que vai dar continuidade aos seus compromissos, sem tempo para priorizar a questão da PF.

No início da crise, Valeixo decidiu publicar uma nota oficial desmentindo o presidente, defendendo Ricardo Saadi, superintendente do Rio, e dizendo que já havia escolhido Carlos Henrique Oliveira, atual superintendente de Pernambuco, para o cargo.

O movimento, considerado ousado, foi feito contando com um suposto respaldo do ministro, que já estava ciente da escolha da PF. A expectativa era de que Moro bancasse o nome da direção-geral, inclusive publicamente.

Mais do que isso, a cúpula do órgão esperava que o assunto já estivesse resolvido entre o presidente e o ministro.

Durante todas as primeiras horas do período mais conturbado, Valeixo disse diversas vezes a pessoas próximas que deixaria o cargo caso Carlos Henrique fosse impedido de assumir o posto no Rio. Afirmava, também, que esperava o mesmo do ministro.

No dia seguinte, porém, o primeiro momento mais crítico da crise – na sexta passada [16/8], quando Bolsonaro disse que é ele quem manda na polícia –, a cúpula da PF esperava que Moro se posicionasse, ao menos para defender a autonomia do órgão, ainda que fosse de forma sutil. Minutos depois da declaração, Bolsonaro arrefeceu e disse que tanto fazia quem seria o escolhido para a superintendência do Rio.

Enquanto delegados e dirigentes especulavam se Moro havia falado com o presidente para ele ter baixado o tom, pessoas próximas ao ministro diziam garantir que os dois não tinham se encontrado e não tinham nem sequer se falado ao telefone.

Na quinta [22/8], ao tempo em que Carlos Henrique Oliveira já não sabia mais se mantinha ou desfazia as malas para assumir a superintendência do Rio e Valeixo não tinha mais certeza da permanência, Moro permanecia calado.

“O Valeixo pode querer sair hoje. Não depende da vontade dele. E outra, ele é subordinado a mim, não ao ministro. Deixo bem claro isso aí. Eu é que indico. Está bem claro na lei, o diretor-geral”, afirmou Bolsonaro de manhã.

No início da noite, com a PF quase de cabeça para baixo, o ministro postou no Twitter uma foto com juízes federais.

“Recebi a visita ilustre dos dirigentes da Associação Paranaense dos Juízes Federais, Fabrício Bittencourt e Gabriela Hardt, com manifesto com receios sobre o projeto de abuso de autoridade. Estamos avaliando com atenção todos os lados da questão”, escreveu na rede social.

Valeixo passou os dois últimos dias em Salvador, onde participou e discursou em dois eventos, um organizado pela ADPF (Associação dos Delegados da Polícia Federal) e outro pela própria direção, reunindo comunicadores internos de todo o país. Segundo pessoas que o acompanharam, ele estava mais abatido que o normal, embora fazendo brincadeiras, como é de costume.

No encontro interno da PF, de acordo com pessoas presentes à reunião, Valeixo fez uma breve análise do cenário no Brasil, dizendo continuar havendo uma polarização e pedindo cuidado para os servidores na comunicação do órgão. Em seu breve discurso, provocou risadas no público, especialmente quando disse que a polícia sempre está em meio a crises.

Mesmo com a chance de troca do diretor-geral, a avaliação da cúpula da PF e de delegados é de que o mais grave ato de Bolsonaro até agora foi ao mostrar interferência na superintendência do Rio, que tradicionalmente é uma decisão interna.

No entendimento de dirigentes, a escolha do diretor-geral nunca deixou de ser uma escolha política, enquanto a do superintendente era blindado de pressões externas.

Em 2018, o ex-presidente Michel Temer trocou Leandro Daiello, o mais longevo diretor-geral da PF desde a democratização, por Fernando Segovia, que ficou apenas três meses no cargo. O nome de Segovia era vinculado a políticos do governo e sofreu resistência de servidores do órgão.

Colaboraram Talita Fernandes, em Brasília, e Wálter Nunes, que viajou a Salvador a convite da Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal

Leia também: Globo diz que Moro não vai se demitir e “aguentará calado” a humilhação de Bolsonaro

Alética e deôntica: Juiz usou 500 páginas e fórmulas de linguística em sentença que condenou Haddad

23 de agosto de 2019

Moisés Mendes em 22/8/2019

A coluna da Mônica Bergamo está sensacional, com a reprodução de trechos da sentença que condenou Fernando Haddad pela acusação de caixa 2.

O que ela conta:

“A sentença do juiz Francisco Shintate, que condenou Fernando Haddad a – quatro anos e seis meses de prisão por crimes eleitorais, tem mais de 500 páginas. O magistrado só começa a examinar o caso concreto na 361.

Nas páginas anteriores, ele fala sobre linguística – “veículo sígnico (o suporte físico), designatum ou significatum (a significação) e denotatum (o significado)” –, de lógica “alética e deôntica” e inclui citações de 50 páginas contínuas de trechos de livros.

O juiz chega a usar dezenas de fórmulas de lógica formal, como “(-q v –r –S)”. E esclarece: S é a relação processual entre “sujeito da relação primária e o Estado, titular do monopólio da coação”.

Enquanto isso, Onyx Lorenzoni, o caixa 3, está solto e cuida do melhor sistema de esquartejamento para privatização da Petrobras.

A direita ocupou todas as áreas e está colocando fogo na Amazônica, na educação e no Judiciário.

Essa sentença parnasiana é mais um devaneio de alguém que teve frustrado o sonho de ser escritor ou professor. Mas no século 19.

Leia também: Fernando Haddad foi condenado por “crime” que não está no processo

Tic-tac-tic-tac: Amazônia em chamas torna impeachment de Bolsonaro uma questão de tempo

23 de agosto de 2019

Antes de outubro chegar o grito pelo impeachment de Bolsonaro já será atordoante. Evidente que ele não deve derrapar na primeira curva, mas o caminho estará aberto para que o seu governo seja interrompido antes das eleições de 2020.

Renato Rovai, via Revista Fórum em 23/8/2019

A destruição da Amazônia provocada pelas ações do governo Bolsonaro e da nova política, que tem como ministro do Meio Ambiente um dos quadros mais importantes do Partido Novo, o advogado Ricardo Salles, tem todos os ingredientes para levar o Brasil a uma crise sem precedentes.

O grito de Macron pedindo a convocação em caráter de urgência de uma reunião do G7 não é nada mais do que uma ação oportunista de um governante que aprendeu a interpretar os sinais das ruas depois de viver uma crise que quase o derrubou.

A Europa foi tomada ontem por imagens de uma floresta em chamas, de animais queimados, de fumaça cobrindo cidades, de relatos catastróficos, porém realistas, do que ocorre por essas paragens.

Em menos de 24 horas a cidadania ativa dos países desenvolvidos ligou os pontos. Um presidente fascista e bufão, que já tinha péssima imagem pública por lá, virou o responsável pelo maior crime ambiental da história recente.

Os europeus têm razão. O programa de governo e os discursos de Bolsonaro referendam o que está acontecendo. Não foi acidente. É crime.

E a cidadania ativa europeia exige um posicionamento dos seus governantes. Macron foi apenas o primeiro a trucar. Outros seguirão sua linha nos próximos dias.

Em breve, os produtos agrícolas brasileiros serão boicotados e interditados nos supermercados europeus. Sanções serão decretadas para importações de produtos como soja e carne. E haverá protestos na frente de embaixadas verde e amarela mundo afora.

Bolsonaro tentará usar a mesma tática da política interna para lidar com essa avalanche internacional e provocará mais crise.

A economia que já se arrasta na estagnação tende a entrar rapidamente em recessão. O nível de desemprego que já é alto se ampliará. E os filhos das madames de laquê e dos mascus de pulover vão abandonar o barco do capitão. Porque é impossível pra eles se manter a favor de um governo que destrói a Amazônia. Nem o discurso mais neoliberal moderno aceita esse roteiro demoníaco.

Para que imensas manifestações de rua sejam construídas falta apenas uma boa convocação. Serão milhões em todos os cantos do planeta.

E antes de outubro chegar o grito pelo impeachment de Bolsonaro já será atordoante. Evidente que ele não deve derrapar na primeira curva, mas o caminho estará aberto para que o seu governo seja interrompido antes das eleições de 2020. Foi assim com Collor. Foi assim com Dilma.

Já há condições para um pedido de impeachment de Bolsonaro antes do Natal chegar. Talvez de muitos pedidos.

A economia, essa donzela, será decisiva. E o crime contra a Amazônia tende a esfarelar qualquer perspectiva (que já era baixa) de reação.

A queda de Bolsonaro se tornou uma questão de tempo. O tic-tac mudou de lado.

Quer ser embaixador: Eduardo Bolsonaro compartilha vídeo que chama Macron, presidente da França, de idiota

23 de agosto de 2019

Deputado federal Eduardo Bolsonaro Foto: Adriano Machado / Reuters.

Em rede social, o deputado afirmou que a publicação era um “recado” para o presidente francês.

Via O Globo em 22/8/2019

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) compartilhou em sua conta do Twitter na quinta-feira um vídeo que chama o presidente da França, Emannuel Macron, de “idiota”. O tuíte foi feito horas após o líder francês convocar o bloco econômico G7 a discutir as queimadas na Amazônia. A Cúpula do G7 começa neste fim de semana em Biarritz, na França.

O presidente Jair Bolsonaro deve apresentar ao Senado em setembro a indicação oficial do deputado Eduardo Bolsonaro para assumir a Embaixada do Brasil em Washington. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM/AP), o líder do governo no Senado Fernando Bezerra Coelho (MDB/PE) e o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, comandam a articulação na Casa para a aprovação da eventual indicação do filho do presidente.

Informalmente, integrantes da Comissão de Relações Exteriores, que sabatinarão o deputado, dizem que há oito integrantes contrários à indicação; sete, a favor; e quatro indecisos. Na tentativa de ganhar votos, Eduardo tem feito visitas a senadores.


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