Eleição nos EUA provou que Araújo não tem condições de ser chanceler

O presidente dos EUA, Donald Trump, cumprimenta o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, na Casa Branca. Imagem: Reprodução/Twitter.

Jamil Chade em 9/11/2020

Benjamin Netanyahu teve em Donald Trump um aliado fundamental. Viktor Orban, na Hungria, se apoiou no republicano para se justificar diante do mundo, assim como ocorreu com a liderança polonesa. Narendra Modi, na Índia, usou do nacionalismo para o aproximar de Trump e forjar uma relação próxima.

Mas menos de 24 horas depois do anúncio de que o presidente americano havia sido derrotado pelo voto popular, todos eles adotaram a mesma postura e saudaram a chegada de um novo chefe-de-estado nos EUA, Joe Biden.

Em cada gesto desses líderes, uma confirmação de uma velha máxima na diplomacia: países não têm amigos. Países têm interesses.

Ou como resumiria Lord Palmerston, no Parlamento em 1º de março de 1848: “Não temos aliados eternos, e não temos inimigos perpétuos. Nossos interesses são eternos e perpétuos, e é nosso dever seguir esses interesses”.

Mas um dos poucos aliados de Trump no mundo que manteve um silêncio ensurdecedor foi o Brasil, conduzido por uma diplomacia que mistura elevadas doses de ideologia, elevado grau de miopia e elevado nível de desrespeito pelos interesses nacionais.

Ernesto Araújo não tem condições de continuar na condução da política externa de uma das maiores economias do mundo e de influência decisiva na América Latina. Nunca teve. Mas, sem seu único lastro internacional, mergulha o país num caminho tão perigoso quanto irresponsável, inclusive na relação com o futuro governo americano.

Ao longo dos últimos meses, Araújo, admirador de Olavo de Carvalho, não manteve uma relação com os EUA. Mas com Trump. Antes mesmo de assumir o cargo no Itamaraty, o chanceler escreveu que o americano seria “o único” que poderia salvar o Ocidente. Ao tomar posse, promoveu uma guinada na diplomacia nacional e passou a servir, pelo mundo, como “chef de claque” de toda e qualquer política adotada pela Casa Branca.

Modificou os votos do Brasil na ONU sobre Israel e Cuba, abriu mão de uma postura de vanguarda do país em acesso a remédios, assumiu o papel vergonhoso de defender a pauta religiosa ultraconservadora ditada por Washington em questões de direitos das mulheres, atacou a capacidade de órgãos de direitos humanos de fiscalizar abusos, saiu em defesa da polícia em meio ao debate sobre a morte de George Floyd, seguiu de forma cega as ordens americanas na OMS e abriu mão da condição de país em desenvolvimento nos futuros tratados comerciais.

O chanceler que mais falou em patriotismo em décadas é, no fundo, quem mais prova como tais conceitos são manipulados.

Há poucas semanas, Araújo declarou com orgulho que, se precisasse ser pária para defender sua política, que assim o faria. Mas uma coisa é ser pária sobre os ombros de Trump. Outra coisa é ser pária e órfão.

No desespero de ver Trump reeleito, o Itamaraty abriu mão dos interesses nacionais para salvaguardar o seu próprio interesse. Um ato de traição. Aceitou barreiras comerciais contra produtos nacionais, colocou em risco a defesa nacional para emprestar seu território para servir de palco para Mike Pompeo fazer campanha eleitoral, e flertou com violações à Constituição ao defender o indefensável em matéria de direitos humanos.

A estratégia não funcionou.

Hoje, resta a pergunta: Quem pagará pelos dólares não exportados? Quem pagará pelo ensaio de traição promovida na cúpula do estado?

Ridicularizado por governos estrangeiros, ignorado por organismos internacionais, zombado até mesmo por ex-ministros do governo Bolsonaro e, acima de tudo, desprezado por seus próprios soldados, Araújo não tem a credibilidade necessária para liderar o que já foi uma das diplomacias mais respeitadas no Ocidente.

O chanceler, hoje, parece confirmar o que Alexandre Dumas uma certa vez escreveu: “A diferença entre o patriotismo e a traição é apenas uma questão de datas”.

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