Covid: Por que foto de praia cheia choca mais que de ônibus e trem lotados?

Dois flagrantes do Rio: BRT lotado em 8 de junho e praia de Ipanema lotada em 30 de agosto. Fotos: Yan Marcelo e Wilton Junior.

Leonardo Sakamoto em 31/8/2020

Duas fotos – do interior de um vagão de BRT, na zona oeste do Rio, em 8 de junho, e da praia de Ipanema, no domingo [30/8] – chocam. Se a da praia denota falta de empatia, a do coletivo é o retrato da nossa falência como civilização – que empurrou trabalhadores ao sacrifício e ainda os criticou por se “aglomerarem”.

Na segunda, com exceção dos empregados de quiosques e dos vendedores ambulantes, a massa está indo de livre e espontânea vontade se aglomerar. Considerando que o coronavírus continua circulando na capital fluminense, um dos locais onde a pandemia tem sido mais mortal, os banhistas estão colocando sua vida em risco de vida, bem como a vida de outras pessoas com quem terão contato nos próximos dias.

A primeira, contudo, é uma imagem da precisão. Não é apenas um atestado de desrespeito à razão, mas também de nossa falência como sociedade. Ela retrata um vagão de BRT na noite do primeiro dia de reabertura do comércio na capital fluminense. Em um ambiente de lata de sardinha como esse, o uso de máscaras pelos que lá estão é quase um tapa na cara do poder público. Ninguém pega um transporte lotado em meio a uma pandemia assassina por diversão pela mesma razão que roleta-russa não é esporte olímpico.

Quem utiliza ônibus e trem em uma pandemia tendem a ser os mais pobres. E muitos dos que foram obrigados a sair de casa sob o risco de infecção e morte não eram terraplanistas biológicos, mas não viram outra alternativa diante da negativa de seu pedido de acesso ao auxílio emergencial ou da insuficiência dele diante das necessidades básicas da família. Mas, convenhamos: a imagem de um coletivo lotado já deveria chocar antes mesmo da pandemia por que demonstra a incapacidade de uma sociedade em garantir dignidade a uma parcela da população que deseja simplesmente sair de casa e voltar a ela.

Na época em que essa foto viralizou, contudo, houve muitas críticas aos trabalhadores, como se fossem culpados por arriscar a vida de todos na sociedade. Há quem tenha os igualado a quem se aglomera em bares ou praias.

Não se resolve a precisão com críticas às vítimas. Muito menos limitando o número de ônibus e trens em circulação. Vimos, ao longo dos últimos meses, que alguns gestores municipais reduziram a quantidade de veículos públicos para evitar que pessoas saíssem de casa – o que, básico, levou à superlotação dos que sobraram e não necessariamente à redução do fluxo de pessoas. O que só reduziu o distanciamento social.

O cansaço de quase seis meses de quarentena, mesmo que flexibilizada, somado a um presidente que menospreza a doença e faz campanha para a economia retorne para evitar maiores danos à sua popularidade, ajudou a lotar as praias não só no Rio, como em São Paulo e em outros locais do país, neste final de semana. Compreende-se o cansaço. Mas o alívio desse sofrimento precisa estar acompanhado de embasamento científico. E o atual estágio da pandemia não justifica o liberou-geral na orla do Sudeste.

Não seria necessário termos tido quase seis meses de quarentena se ela fosse bem-feita, claro. Ou seja, se o país tivesse respeitado o isolamento social. Para tanto, precisaríamos ter contado com uma liderança que pensasse na população.

Como Jair Bolsonaro, desde o início, foi um dos principais adversários da quarentena, não houve interesse do seu governo em articular um plano nacional para a prevenção à covid-19. Se isso tivesse sido feito, saberíamos quando e como cada região iria se fechar e a partir de qual momento poderia se abrir, com indicadores claros. Sim, o presidente ajudou a estender a quarentena para além do necessário.

E ainda propagou a mentira de que o Supremo Tribunal Federal afirmou que apenas prefeitos e governadores eram os responsáveis por esse planejamento. Tirou o corpo fora e, agora, terceiriza a responsabilidade pelas mortes.

Aglomeração em praias e em ruas de bares parecem chocar mais que aquelas relacionadas a trabalho. Talvez por que nós a relacionemos a um motivo banal (por mais que lazer não seja nada banal) ou sinal de fraqueza diante da necessidade óbvia de quarentena. Ou acreditemos que isso representa um apoio tácito ao presidente e sua narrativa de negação da ciência, por mais que seja reducionismo chamar todo banhista de bolsonarista. Ou ainda por que nós mesmos gostaríamos de estar naquela muvuca, mas decidimos resistir firme, engolindo nosso próprio sofrimento, pelo nosso bem e o da coletividade.

Jogar a culpa no indivíduo, contudo, não vai resolver um problema que é da ordem de falta de governo.

Da mesma forma, o fato de trabalhadores terem ido para o sacrifício em ônibus e trens lotados, muitas vezes em nome da qualidade de vida dos demais que puderam ficar em casa protegidos, deveria chocar ainda mais pela nossa incompetência como civilização. Afinal, eles não tiveram a opção da escolha. A vida nos lembra, contudo, que alguns sempre foram mais descartáveis que outros.

A argamassa que dá liga à nossa República, aliás, é feita de cidadãos descartáveis.

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