O voo dos garimpeiros nas asas da FAB

Jair Bolsonaro e oficiais da Aeronáutica em Guaratinguetá. Foto: Edilson Dantas.

Bernardo Mello Franco em 23/8/2020

Num sábado de carnaval, um major e um capitão arrombaram o depósito de munições da Base Aérea dos Afonsos, no subúrbio do Rio. Os dois levaram armas e explosivos até um bimotor Beechcraft. Com o avião carregado, decolaram rumo ao sul do Pará para iniciar um levante contra o governo.

A dupla de aloprados queria derrubar o presidente Juscelino Kubitschek, que havia acabado de tomar posse. O plano era organizar um exército de índios e caboclos e articular o golpe a partir da selva amazônica. A Revolta de Jacareacanga teve vida curta: começou e terminou em fevereiro de 1956. Depois de 64 anos, a Aeronáutica volta a se enrolar na cidade paraense.

Na quinta-feira, o Ministério Público Federal abriu investigação por improbidade administrativa no uso de um avião da FAB. A aeronave pousou em Jacareacanga no último dia 5, a pretexto de apoiar o combate à mineração ilegal na terra indígena Munduruku. Na manhã seguinte, decolou para Brasília com sete garimpeiros a bordo.

“A lei proíbe o garimpo em terras indígenas. O avião da FAB foi usado para transportar criminosos”, resume o procurador Paulo de Tarso Moreira Oliveira. “Essa terra indígena já sofria com invasões. Agora há um avanço desenfreado, impulsionado pela valorização do ouro e pelo discurso de cumplicidade do governo”, acrescenta.

Na véspera do voo para Brasília, os garimpeiros se reuniram com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Após o encontro, o governo suspendeu a Operação Verde Brasil 2, que deveria reprimir os crimes ambientais na Amazônia.

Em ofício ao MPF, o Ministério da Defesa afirmou que a Aeronáutica transportou “lideranças indígenas” para “tratativas com o Ministério do Meio Ambiente”. A versão é contestada por associações que representam os munduruku. As entidades afirmam que o cacique-geral da etnia não autorizou a viagem e que o grupo não fala em nome dos povos locais.

“Os passageiros do voo não eram líderes indígenas, eram garimpeiros. Os índios estão frustrados com o fracasso da operação. Muitos deles já sofreram ameaças de morte”, conta o procurador Oliveira. Ele afirma que os donos das máquinas são brancos e aliciam parte dos locais com a distribuição de dinheiro e de cestas básicas.

O clima na região é tenso. Há duas semanas, a Polícia Federal apreendeu veículos e computadores usados pelos mineradores. Agentes do Ibama chegaram a destruir equipamentos da quadrilha. Em represália, garimpeiros ameaçaram derrubar um helicóptero usado pelos fiscais.

“Estamos falando de uma milícia que cooptou indígenas e se sente estimulada pelo governo”, diz o ambientalista Danicley de Aguiar, do Greenpeace. “O garimpo compromete o modo de vida dos povos tradicionais, destrói a floresta e contamina os rios da região. E tudo está sendo feito com a omissão do Estado brasileiro”, critica.

O presidente Jair Bolsonaro não disfarça. Já assinou projeto para abrir as terras indígenas à exploração mineral. Enquanto o Congresso faz cara de paisagem, o ministro Salles tenta passar sua boiada ao arrepio da lei. Falta explicar por que a Aeronáutica aceitou se misturar a essa agenda de destruição.

***

MPF INVESTIGA SE AVIÃO DA FAB LEVOU GARIMPEIROS PARA REUNIÃO COM SALLES
Via UOL em 21/8/2020

O MPF (Ministério Público Federal) investiga desde ontem o uso de uma aeronave da FAB (Força Aérea Brasileira) para transportar garimpeiros do Pará até Brasília no início do mês de agosto.

A FAB confirmou por um documento enviado ao órgão que cedeu um avião para levar “lideranças indígenas” das terras Munduruku até a capital federal no dia 6 de agosto para uma reunião com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

O ministro estava na região de Jacareacanga, no Pará, um dia antes da viagem e se encontrou com garimpeiros alvos de investigação do Ibama (Instituto Brasileiro e e dos Recursos Naturais Renováveis).

A mesma região recebeu aeronaves da FAB para auxiliar na operação Operação Verde Brasil 2 contra crimes ambientais – organizada pelo Ibama. A operação foi suspensa e, depois de retomada, não conseguiu localizar o maquinário usado pelos criminosos.

O pedido de uso do avião foi feito junto com o da suspensão da operação no Pará.

Lideranças indígenas das terras Munduruku enviaram uma carta para o MPF alegando que nenhuma figura que representa a etnia foi levada no avião.

Na verdade, eles alegam que sete moradores da região que defendem a mineração ilegal e são garimpeiros atuantes no interior da terra indígena Munduruku é que usaram a aeronave para a reunião com o ministro em Brasília.

O MPF apura se o houve improbidade administrativa por desvio de finalidade – já que o avião de um dos órgãos das Forças Armadas transportou garimpeiros e não ajudou na operação contra eles.

Procurada pela reportagem, o Ministério do Meio Ambiente afirmou que “tanto a decisão de interromper a Operação Verde Brasil 2 quanto a iniciativa de levar os indígenas para Brasília foram tomadas exclusivamente pelo Ministério da Defesa”.

Já o Ministério da Defesa disse que ainda não foi notificado pelo MPF sobre a abertura da investigação e que prestará informações se necessário. Disse ainda que a operação suspensa já retomou os trabalhos.

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