É mais fácil Bolsonaro intervir no STF do que incomodar o coronavírus

Leonardo Sakamoto em 5/8/2020

O Brasil está prestes a registrar 100 mil mortes por covid-19, um marco vergonhoso na guerra contra o coronavírus. Enquanto isso, o ministro interino da Saúde, que é um general, gasta tempo precioso recebendo defensores da aplicação de ozônio pelo ânus para tratar a doença.

Médicos e cientistas dizem que o método tem tanta eficácia comprovada quanto ser bicado por emas.

Um governo coalhado de militares deveria ostentar capacidade estratégia para o enfrentamento à crise sanitária. Suas grandes batalhas, contudo, têm sido a terceirização da responsabilidade para o colo de prefeitos e governadores e o convencimento da população de que o inimigo é superestimado.

Agindo como um bom traidor, Bolsonaro vai conquistando territórios. Para o vírus.

Mas ao mesmo tempo em que demonstrou não ter interesse em liderar os atores públicos na articulação de um plano nacional de combate à doença, organizando a entrada e a saída do país em quarentenas e bloqueios totais, o que teria salvo a vida de milhares, o presidente foi bem rápido para planejar um autogolpe militar.

Reportagem de Monica Gugliano, na revista piauí, revela com detalhes como a Suprema Corte quase virou vinagre no dia 22 de maio deste ano. Irritado com a possibilidade de ter o seu telefone e o de seu filho, o vereador Carlos Bolsonaro, apreendidos no curso da investigação de uma notícia-crime, Jair disse a seus assessores diretos que iria baixar a borduna no Supremo Tribunal Federal.

“Bolsonaro queria mandar tropas para o Supremo porque os magistrados, na sua opinião, estavam passando dos limites em suas decisões e achincalhando sua autoridade. Na sua cabeça, ao chegar no STF, os militares destituiriam os atuais 11 ministros. Os substitutos, militares ou civis, seriam então nomeados por ele e ficariam no cargo ‘até que aquilo esteja em ordem’, segundo as palavras do presidente”, afirma a reportagem baseada em relatos de pessoas que estiveram na reunião.

O ministro-chefe da Casa Civil, general Braga Netto, o ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, o ministros da Justiça, André Mendonça, e o chefe da Advocacia-Geral da União, José Levi, participaram da discussão com Bolsonaro para descobrir uma forma de dar um verniz legal à deposição do STF.

Como não havia ordens para a apreensão do celular e com Heleno prometendo uma nota pública de claro teor antidemocrático, Bolsonaro voltou para a casinha. Por enquanto.

O bolsonarismo tem um componente revolucionário, subvertendo diariamente as instituições e falando diretamente com a parcela da massa que se identifica com o líder. Tomará de assalto a democracia quando aparecer a oportunidade, colocando uma coisa feia no lugar se a população e as instituições assim permitirem. Ou seja, o episódio é assustador porque não é surpreendente.

E ele lembra não apenas o fato de que vivemos com um candidato a tirano sentado no Palácio do Planalto, esperando uma chance, rodeado de viúvos da ditadura, militares e civis, mas também que Bolsonaro pode ser sim uma pessoa de ação – mas só quando isso diz respeito à preservação de seus interesses e os de seus filhos.

Se o presidente da República consegue tomar uma decisão de proporções apocalípticas, como mandar tropas para depor a cúpula de outro poder, ele não produz ações concretas diante do coronavírus por que não quer.

Aquilo que parece incompetência do governo no trato com a pandemia, portanto, é parte da estratégia do presidente de forçar os brasileiros a voltarem à vida normal, acreditando que isso levará a uma redução nas perdas do PIB. Está mais preocupado com a situação da economia em 2022, fundamental para sua reeleição, do que com as vidas das pessoas hoje. Afinal, como ele mesmo diz, todo mundo morre.

Por fim, há um certo sadismo dentro do sadismo.

Já temos que lidar com uma pandemia assassina que matou mais de 97 mil pessoas por aqui e com a ameaça de uma milícia tomar de assalto a democracia com um cabo e um soldado, para citar profética visão do deputado federal Eduardo Bolsonaro. O pior é que, ainda por cima, temos que aguentar um presidente que deve rir da nossa cara ao empurrar as arritmias da cloroquina e os enjoos da nitazoxanida e ao analisar o ozônio no reto.

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