A “Frente Ampla” de Rodrigo Maia

Carlos Fernandes em 5/8/2020

Em sua entrevista ao Roda Viva, Rodrigo Maia fez muito mais do que implodir qualquer viabilidade de uma dita “Frente Ampla” nos moldes em que parte da esquerda brasileira ora se aventura.

Ao afirmar categoricamente que não enxerga nenhum crime de responsabilidade cometido por Jair Bolsonaro e, adicionalmente, reiterar seu apoio quase que incondicional ao programa econômico de Paulo Guedes, as duas principais razões de ser desse projeto – o “Fora Bolsonaro” e o “Fora Guedes” – simplesmente se esvaem no ar.

Analisando um pouco mais detalhadamente esses dois pontos, a postura de Maia sobre esses dois temas demonstra um cálculo político meticuloso e com vistas a 2022.

Vamos a eles, separadamente.

A determinação do presidente da Câmara em não dar prosseguimento ao processo de impeachment de Bolsonaro vai muito além do simples fato do momento político e a atual correlação de forças.

Limitar essa questão a esse único ponto é de uma miopia sem tamanho, além de incorrer no erro infantil de achar que Maia possui algum interesse em destituir Bolsonaro e só não acata um dos pedidos por acreditar que não terá sucesso.

Política é em si uma construção. Narrativas são conquistadas e apoios são somados ao sabor dos acontecimentos. O fato do MDB e do próprio DEM de Rodrigo Maia terem abandonado o “Centrão” já mostra que a força de Bolsonaro no Congresso não é tão forte assim e muito menos imutável.

Porém, ao bater o martelo que arquivará todos os processos de impeachment sob sua guarda, Maia simplesmente esteriliza esse debate e dá um conforto a mais ao presidente que, pelo menos sobre essa questão, já não precisa se sentir acuado.

Rodrigo Maia, dessa forma, anula de imediato um poder de fogo da oposição e ganha musculatura como personagem de conciliação na direita e centro-direita.

Quanto às vítimas diárias do genocídio bolsonarista, que morram à mingua.

Mas é sobre seu apoio à manutenção irretocável da política econômica de Guedes que o elo de sua estratégia se fecha.

Quando Maia afirma que votou em Bolsonaro no segundo turno em função justamente do que Guedes propunha e, em concomitância, não faz a menor questão de esconder que defendia que seu partido apoiasse Ciro Gomes, o que Maia constrói é a sua própria “Frente Ampla”.

Percebam, aqui não se trata de uma aliança qualquer.

De forma pragmática, não existe nenhum impedimento para que a esquerda brasileira (o que obviamente não inclui Ciro) forme uma aliança com qualquer partido de direita.

O que realmente importa em um movimento como esse é que em função dessa aliança não se perca a essência de seu programa.

O caso do apoio de Maluf a Haddad é autoexplicativo. Apesar do apoio, Maluf não participou de absolutamente nada da gestão do petista em todo o tempo que esteve à frente da capital paulista.

Nesse caso, é Maluf quem tem que explicar aos seus eleitores o porquê de ter apoiado um candidato do PT.

Já no caso do apoio declarado de Maia a Ciro Gomes, claro está que todo o DEM só o considerou em função de importantes semelhanças e congruências entre os dois programas.

Assim como o DEM não vê nenhum problema em apoiar um candidato do PSDB, no caso Alckmin, da mesma forma não viu nenhum problema em apoiar Ciro Gomes, afinal, pensando direitinho, o PDS é a origem que os une, ou seja, DEM e Ciro não são, em nada, organismos estranhos.

Daí a grande explicação do DEM preferir apoiar Bolsonaro novamente em um hipotético segundo turno em 2022 a ter que apoiar um candidato do PT.

São projetos inconciliáveis. O que, como podemos ver, não acontece com Ciro Gomes.

Tudo exposto, resta evidente que Rodrigo Maia, que de bobo só tem a cara, enxerga corretamente que a maneira mais fácil de seu partido voltar a ter protagonismo no executivo nacional é formando uma “Frente Ampla” que abarque Ciro, Guedes e, como cereja do bolo, Sérgio Moro a quem já reconhece como candidato forte.

O que acontecerá até 2022 é uma incógnita, pois, como já afirmado, política é uma construção e nada pode ser descartado, mas que para o partido oriundo da ditadura militar a união das peças acima mencionadas seria o melhor dos mundos, sobre isso já não restam dúvidas.

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