“Volta para a senzala, Marinho!” Ops, desculpa, me exaltei.

Diogo Silva em 5/8/2020

Na quinta-feira [30/7], Marinho foi ofendido publicamente pelo comentarista esportivo Fábio Benedetti, na rádio “Energia 97FM”. O triste episódio ocorreu após o atacante do Santos ser expulso na partida contra a Ponte Preta, pelas quartas de final do Campeonato Paulista.

O caso tornou-se público porque Fábio, que participava da transmissão ao vivo do jogo, deixou escapar para inúmeros espectadores aquilo que está introjetado no homem branco brasileiro: o racismo.

Marinho não foi só ofendido, ele foi estigmatizado, chamado de burro publicamente e remetido à violência dos tempos da senzala. Há anos no futebol o erro pode custar a dignidade, o emprego, o esquecimento e até a própria vida.

Este episódio acontece em meio a uma grande onda de protestos contra o racismo pelo mundo. Na retomada da NBA, depois da paralisação por conta da pandemia, os jogadores estão se ajoelhando e dando os braços durante o hino norte-americano para clamar pela ainda latente discriminação. O hexacampeão Lewis Hamilton também tem registrado a sua indignação a cada etapa da Fórmula 1.

Isto tudo acontece no momento em que testemunhamos o lançamento de um álbum/filme em homenagem à população negra, intitulado Black is King (Negro é Rei), protagonizado pela cantora Beyoncé, maior estrela pop dos últimos tempos.

Seguindo na contramão, parece que a única coisa que pega mesmo no Brasil é a covid-19.

Com toda a movimentação mundial contra o racismo, articulações de atletas, pesquisadores, artistas, jornalistas, intelectuais e ativistas a favor de uma mudança estrutural nos espaços de trabalho, com mais pluralidade de cores e opiniões em nosso país, ainda estamos longe de solucionar este problema.

Há anos o futebol tem sido um dos ambientes esportivos mais hostis para a população negra. Justo a modalidade que, assim como o atletismo, o boxe e o basquete, possui majoritariamente o negro como protagonista.

De acordo com o Observatório da Discriminação Racial no Futebol, houve 56 ocorrências de injúria racial em 2019 neste meio, aumento de 27,2% em relação ao ano anterior.

Mesmo sendo difícil entender o que leva alguém a sair da sua casa, participar de um programa esportivo e expressar sua opinião de maneira irresponsável, também precisamos refletir sobre a indústria da comunicação que sempre foi omissa a tais violências, recorrentes e cotidianas.

Como comentarista esportivo, Fábio Benedetti apenas escancarou o problema e me fez perguntar: Onde estão os comentaristas esportivos negros? Podemos observar que na grande maioria dos programas esportivos da televisão brasileira, do rádio e da internet, a diversidade e presença negra é quase inexistente.

Em resposta à grande exclusão, foi criado no mês de julho o Ubuntu Esporte Clube, primeiro podcast esportivo feito por jornalistas pretos e pretas em busca de maior protagonismo e representatividade.

A população negra no futebol brasileiro se encontra no trabalho braçal, no espaço onde é necessário fazer muita força. Para atravessar um campo correndo, ou dar uma arrancada de ponta a ponta na lateral, dividir, cabecear e chutar uma bola ao gol, é necessário ter muita aptidão física.

De acordo com a plataforma salario.com.br e dados oficiais do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), um jogador de futebol no mercado de trabalho brasileiro ganha em média R$4.920,58, para uma jornada de 43 horas semanais.

Em média, o jogador recebe a remuneração mensal de R$4.490,96. Com variações de R$1.200,00 a R$14.755,67, entre o piso e o teto, respectivamente – considerando profissionais com carteira assinada em regime CLT de todo o Brasil.

E nesse lugar de baixa remuneração e grande esforço, o negro é contratado, assim como nas obras de construção civil, nas patentes baixas do quartel, nos hotéis, nos estábulos… Mas nos cargos de chefia, gerencia, gestão e presidência, praticamente o público preto é inexistente ou é exceção.

O único dirigente negro no futebol brasileiro é Sebastião Salgado, conhecido como Tiãozinho. Em 120 anos da Ponte Preta, um dos times mais antigos do Brasil, Sebastião é o primeiro presidente negro da modalidade.

Observamos os pequenos avanços, mas ainda há muito a ser mudado.

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O momento não é dos melhores! Essa foto mostra e minha filha alicia negra como EU, cabelo black ou trança, nada esconde quem somos, ser humano igual a qualquer outro, e ontem um rapaz aí após minha expulsão, acabou falando pra eu voltar pra senzala! Mandar amigos me chamar não prova pra mim que você é diferente, eu te perdoo e perdoei por mensagem no insta , porém o tom de deboche ao falar que eu tinha que ir pra senzala não pegou bem, tenho orgulho daminha cor, orgulho de onde vim, você é pai e ensine teus filhos a ser diferente de você em pensamento! Quero que você se retrate e que isso não se repita nunca mais, nem comigo nem com ninguém! Eu luto pela causa! Contra preconceito e qualquer outro tipo de descriminação seja ela racial ou não! Quer me julgar por atitude em campo?ok! Errei e estou aqui pra assumir, esse é apenas um desabafo de alguém que passou a noite toda chorando por um erro! Mais não significa que até minha Cor venha ser colocada em assunto! Sou preto e orgulhoso de quem sou! Ensinando minha filha como se deve andar e mostrar que é orgulho e não vergonha ser PRETO

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