Por que os brasileiros deveriam ter medo do gabinete do ódio

Ilustração: Daniel Zender.

O presidente Jair Bolsonaro e seus aliados têm espalhado o ódio online contra as instituições que protegem a democracia. Agora, essa cólera está transbordando para as ruas.

Patrícia Campos Mello, via The New York Times em 5/8/2020

Em 13 de junho, integrantes do “300 do Brasil”, uma milícia de extrema direita formada por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, atiraram fogos de artifício em direção ao prédio do Supremo Tribunal Federal em Brasília, simulando um bombardeio. “Se preparem, Supremo dos bandidos… bando de bandidos, vocês estão levando o país para o caos, para o comunismo”, disse um dos líderes, que transmitiu o protesto ao vivo em um vídeo. “Acabou, porra”, disse um dos manifestantes, ecoando as palavras usadas por Bolsonaro ao condenar a investigação do Supremo contra alguns dos apoiadores do presidente, envolvidos em campanhas de desinformação e ameaças contra os ministros do STF.

De onde veio esse ódio contra o mais alto tribunal do Brasil?

Durante os meses que antecederam o incidente com os fogos, milhares de contas nas redes sociais, muitas delas falsas, ligadas a apoiadores de Bolsonaro ou a blogueiros de extrema direita, vinham postando obscenidades e ameaças contra os ministros do Supremo. Alguns apoiadores do presidente até falaram em matar e esquartejar ministros e seus familiares. Era só uma questão de tempo até essa animosidade transbordar para as ruas.

Esse ambiente tóxico tem sido estimulado pelo que os brasileiros chamam de “gabinete do ódio”. Trata-se de um gabinete de assessores de Bolsonaro, que apoiam uma rede de blogs bolsonaristas e perfis em redes sociais que espalham desinformação e ataques contra jornalistas, políticos, artistas e veículos de imprensa críticos ao presidente. O gabinete do ódio não é oficial, nem tem um orçamento específico, mas é bancado com dinheiro público. Não está claro quantas pessoas trabalham na operação, e nem se sabe quem são todos os envolvidos. Na realidade, Bolsonaro e seus aliados negam que exista um gabinete do ódio. Mas o fato é que as sementes do ódio e do sectarismo que vêm sendo espalhadas são uma ameaça à nossa democracia.

O governo Bolsonaro enfrenta atualmente três investigações diretamente ligadas a essa máquina do ódio. O Supremo Tribunal Federal está investigando ataques contra seus ministros, financiados por empresários e disseminado pela rede bolsonarista. Outro inquérito do Supremo examina o financiamento dos atos antidemocráticos, protestos pedindo o fechamento do Congresso e intervenção no Judiciário. Quatro ações correm no Tribunal Superior Eleitoral investigando o uso de disparos em massa de WhatsApp na tentativa de influenciar a campanha eleitoral de 2018, que teriam sido financiados por empresários.

Um protesto em Brasília. Foto: Andressa Anholete.

Em 8 de julho, o Facebook removeu inúmeras contas, algumas usadas por um funcionário de Bolsonaro e por seus filhos. Algumas estavam registradas no nome de Tércio Arnaud Tomaz, assessor de Bolsonaro que é apontado como um dos líderes do chamado gabinete do ódio.

Infelizmente, eu conheço bem essa máquina do ódio. Nos últimos dois anos, venho cobrindo o uso da desinformação na política. E acabei me tornando um dos alvos dessas campanhas desde 2018, quando revelei no jornal Folha de S.Paulo que empresários estavam pagando pelo envio de milhões de mensagens por WhatsApp para influenciar a eleição presidencial daquele ano.

Como resultado, tenho enfrentado uma campanha violenta de ameaças e ataques pessoais. Trolls e até políticos têm compartilhado memes onde meu rosto aparece em montagens pornográficas, e se referem a mim como prostituta. Recebi mensagens de pessoas dizendo que eu deveria ser estuprada. Estou processando o presidente Bolsonaro; seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, e um blogueiro bolsonarista por danos morais, por dizerem ou insinuarem que eu ofereço sexo em troca de reportagens exclusivas.

Não sou a única. Muitas jornalistas têm sido vítimas de ataques misóginos no Brasil. A imprensa, ao lado do judiciário e do Congresso, é uma das últimas barreiras contendo medidas autoritárias do presidente. Mas não sei quanto tempo conseguiremos resistir às pressões de Bolsonaro e seus apoiadores. A retórica e as ações cada vez mais agressivas do presidente, seus filhos e aliados funcionam como um sinal verde para que milícias bolsonaristas partam das palavras para as vias de fato.

Em 25 de maio, jornalistas que cobrem as coletivas improvisadas de Bolsonaro no palácio do Alvorada mais uma vez foram submetidos a uma chuva de xingamentos dos apoiadores do presidente. Vídeo daquele dia mostra os repórteres sendo chamados de “cambada de safados” e “mídia comprada”. “Escória! Lixos! Ratos! Ratazanas! Bolsonaro até 2050! Imprensa podre! Comunistas!”.

Apoiadores do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em Brasília. Foto: Eraldo Peres.

Jornalistas estão longe de serem os únicos alvos. Ao longo do último ano, a máquina do ódio vem colocando os brasileiros uns contra os outros, e contra aqueles que têm funcionado como freios e contrapesos para os arroubos autoritários de Bolsonaro. Essa máquina vem corroendo a confiança das pessoas nas instituições concebidas justamente para protegê-las.

Esse grupo disseminador de ódio está por trás de uma campanha de difamação que acusava o ex-juiz Sérgio Moro, que liderou a LavaJato e foi ministro da justiça de Bolsonaro, de ser “traidor” e “comunista”. Moro pediu demissão em abril, acusando Bolsonaro de tentar interferir na Polícia Federal, que investigava um dos filhos de Bolsonaro e alguns aliados. Logo depois de ele deixar o cargo, contas falsas inundaram as redes sociais com memes atacando Moro.

Com a disseminação do coronavírus, fake news e curas supostamente milagrosas começaram a proliferar nas redes sociais, muitas vezes compartilhadas por legisladores com centenas de milhares de seguidores. Bolsonaro tem sabotado as medidas de distanciamento social implementadas por governadores, e contas ligadas a assessores como Tércio Arnaud divulgaram que a reação à covid-19 era exagerada e que a cloroquina, alardeada por Bolsonaro como uma cura para o coronavírus, consegue matar o vírus.

Em abril, o governo começou a divulgar no Twitter e Facebook o que chama de “Placar da Vida”, que enumera apenas o número de pacientes que se recuperaram da covid-19. Depois, em junho, o Ministério da Saúde deixou de divulgar o número acumulado de casos e mortes, e mostrava apenas os registrados nas últimas 24 horas, além de mudar a maneira de contabilizar. O STF determinou que o governo tinha de voltar a publicar os dados de forma integral.

Agendas políticas, no entanto, não conseguem demover o coronavírus. A “gripezinha” – termo que Bolsonaro usou para se referir à doença que foi contraída por ele e sua mulher em julho – já matou mais de 92 mil brasileiros. Trata-se do país com o segundo maior número de mortes pela doença.

Com as campanhas de difamação e a manipulação de informações, o objetivo da máquina do ódio é muito mais nefasto – é enfraquecer as instituições democráticas do Brasil. Investigações da Procuradoria Geral da República apontam que alguns legisladores bolsonaristas usaram a cota parlamentar, dinheiro público, para promover pelas redes sociais protestos contra o Supremo Tribunal Federal e a favor de intervenção militar.

Esse tipo de incitamento tem como objetivo convencer apoiadores de que os ministros do Supremo são ditadores, e que o Congresso e a mídia são golpistas e impedem o presidente de governar. Dessa maneira, o governo pode estar preparando o terreno para justificar uma intervenção militar. E em uma democracia jovem como a brasileira, as instituições podem ser mais frágeis do que aparentam.

Apesar de ter sido eleito democraticamente, Bolsonaro já declarou repetidamente sua admiração pela ditadura militar que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985. Muito antes de se candidatar à presidência, Bolsonaro disse que só uma guerra civil faria o trabalho que o regime militar não havia feito e afirmou que fecharia o Congresso se fosse presidente. Durante a campanha eleitoral de 2018, seus filhos e apoiadores usaram camisetas estampadas com o rosto do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, condenado pela Justiça como um dos maiores torturadores da ditadura – uma figura celebrada pelo presidente.

Bolsonaro tem tentado implementar essa visão. Para contornar o Congresso, ele assinou um número recorde de medidas provisórias que reduziam a independência das universidades, que ele considera antros de comunistas, restringir acesso à informação, enfraquecer sindicatos e jornais. Ele também ameaçou desobedecer ordens judiciais.

Um manifestante em Rio de Janeiro. Foto: Bruna Prado.

O presidente afirmou que seu objetivo era armar toda a população, para que as pessoas pudessem se defender da “ditadura” dos governadores e do Supremo. “Eu quero todo mundo armado! Que o povo armado jamais será escravizado”, disse o presidente em uma reunião ministerial em maio. Depois da reunião, ele assinou um decreto que facilitou a importação de armas e aumentou a quantidade de munição que as pessoas podem comprar por ano. Em qualquer democracia, isso seria considerado um chamado à insurreição.

O presidente e seus aliados adorariam silenciar aqueles que tentam investigar as facetas obscuras de seu governo.

No último ano, o objetivo do gabinete do ódio tem ficado cada vez mais claro: fazer os brasileiros se voltarem contra aqueles que têm servido de freios e contrapesos às medidas autoritárias de Bolsonaro.

Ataques como o ocorrido contra o Supremo e como a recente agressão contra um fotojornalista em um protesto contra o Congresso são uma amostra de que a máquina do ódio tem sido, de certa maneira, bem sucedida em seu chamado à insurreição.

Na última quarta-feira, dois homens acompanhados de um carro de som foram até a entrada do condomínio onde mora Felipe Neto e o acusaram de destruir “a instituição mais importante de todas, que é a família”, em uma tentativa de intimidação ao famoso youtuber. Um dos homens que ameaçou Felipe Neto havia participado do ataque com fogos de artifício contra o prédio do Supremo em Brasília. Alguns dias antes, esta seção havia veiculado um vídeo em que Felipe Neto chamava a Bolsonaro “o pior presidente da pandemia”. O ataque é mais um exemplo de que, cada vez mais, o fel propagado pela máquina do ódio está se espalhando para além da internet.

Bolsonaro e seus aliados adorariam nos intimidar e silenciar. Mas para que haja esperança de que nossa democracia vai resistir, precisamos nos manter vigilantes e garantir que o governo seja responsabilizado por suas ações. Não apenas as vidas de brasileiros estão em jogo, mas as próprias instituições – Congresso, Judiciário, mundo acadêmico e a imprensa – que, por enquanto, têm conseguido brecar a ascensão do autoritarismo.

Patrícia Campos Mello é jornalista do jornal brasileiro Folha de S.Paulo e autora da “Máquina do Ódio”, sobre campanhas de desinformação e Bolsonaro.

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