Quem for de direita toma cloroquina, quem for de esquerda, toma a vacina!

Maitê Ferreira, via Revista Movimento em 22/7/2020

A CoronaVac já está em fase de testes no Brasil: trata-se de uma vacina do laboratório chinês Sinovac Biotech, que já conta com 90% de eficácia e é uma das mais avançadas no Brasil. A partir de negociação do governo de São Paulo 20 mil doses chegaram no Brasil e a vacina será testada em 9 mil pessoas – preferencialmente em profissionais da Saúde. Os testes já começaram no Hospital das Clínicas. Caso apresente eficácia, a vacina poderá ser produzida no Brasil pelo Instituto Butantã e distribuída no Sistema Único de Saúde em 2021 [1]. Tudo nos conformes protocolares da ciência experimental, porém empírica e promissora.

Enquanto isso, Bolsonaro segue atuando como o curandeiro das massas. Em seu segundo teste, continua infectado pelo covid-19 [2]. Há quem o chame de louco, mas burro ele certamente não é, pois monitora os efeitos cardíacos da cloroquina ao menos duas vezes por dia [3]. O resultado pareceu surpreender o presidente: seu tratamento milagroso não está funcionando nem lhe rendeu a cura. Todavia, este revés não lhe impediu de “saudar a cloroquina”, para um caloroso aplauso de bolsonaristas em mais uma aglomeração no Palácio do Planalto [4].

O Presidente tem motivos ocultos para insistir na “cloroquina de jesus”. Está sendo investigado pelo Tribunal de Contas da União por superfaturamento na produção de milhões de comprimidos de cloroquina [5] – um protocolo que mata mais do que cura, sem qualquer eficácia comprovada e que foi rejeitado até nos Estados Unidos da América. Bolsonaro segue em seu curso solitário como o último garoto-propaganda da Cloroquina no globo terrestre.

O militarizado Ministério da Saúde, apesar de deixar Bolsonaro exercer seu devir curandeiro a própria sorte, está apostando na vacina britânica AstroZeneca, que também está sendo testada pelo Instituto Fiocruz [6]. Doria aposta na vacina chinesa, seguindo o princípio de que a solução para a pandemia virá do mesmo país onde ocorreram os primeiros casos.

Com a imunidade de rebanho dando ou não um fim natural – e catastrófico – à pandemia brasileira até o final do ano, alcançando talvez 200 mil mortes (uma em cada mil brasileiros) até setembro, a vacina certamente passará a ser produzida no Brasil. Bolsonaro de toda maneira vai precisar dar um destino aos 4,2 milhões de comprimidos de cloroquina que estão no país: 2,2 milhões produzidos pelo Exército, e mais 2 milhões doados por Trump (presente de grego!) [7]. Caso contrário, poderá ser indiciado por superfaturamento. A este impasse, oferecemos uma singela sugestão: quem for de direita, toma cloroquina, e quem for de esquerda, toma a vacina!

Os estudos já indicam que as cidades com maior taxa de eleitores de Bolsonaro lideraram os contágios do covid-19 [8], e se seguirem tomando a cloroquina, também liderarão as taxas de morte. Em especial aqueles apoiadores idosos, cardiopatas e diabéticos – que são os mais vulneráveis à medicação. Vamos ver até que ponto os bolsonaristas sustentam seu discurso negacionista: afinal de contas, quem há de confiar em uma vacina da “China comunista”?

Maitê Ferreira é advogada, jornalista, pesquisadora em História do Brasil e transfeminista. É militante do Movimento de Esquerda Socialista (MES) no Rio Grande do Norte.

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