Cara de pau: Depoimento de Flávio Bolsonaro a procuradores vai contra os fatos

O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos/RJ) deixa o anexo I do Senado Federal após prestar depoimentos para procuradores do MPF em seu gabinete. Foto: Pedro Ladeira/Folhapress.

Via UOL em 20/7/2020

Em depoimento ao procurador da República Eduardo Benones, o senador Flávio Bolsonaro negou ter recebido de um delegado federal, em outubro de 2018, informações sobre a movimentação bancária atípica do seu então assessor Fabrício Queiroz. A declaração do primogênito de Jair Bolsonaro não orna com os fatos.

Queiroz foi exonerado do gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em 15 de outubro de 2018, duas semanas antes do segundo turno da eleição presidencial. No mesmo dia, sua filha, Nathalia, foi afastada do gabinete de Jair Bolsonaro na Câmara. Ouvido antes do ex-chefe, Queiroz disse ter pedido para sair. Alegou que precisava cuidar da saúde. Não faz nexo.

Uma licença médica, permitiria ao paciente enfrentar o tratamento médico sem perder o salário e os benefícios do plano de saúde. De resto, o suposto problema de saúde do pai não justifica a exoneração da filha por Jair Bolsonaro.

Faz mais sentido a informação do empresário Paulo Marinho. Suplente de Flávio no Senado, Marinho diz que, beneficiado com o vazamento da informação sobre Queiroz, Jair Bolsonaro, à época um candidato prestes a disputar o segundo turno da campanha presidencial, decidiu tomar distância da família Queiroz.

Tudo aconteceu antes da chegada do escândalo da rachadinha às manchetes. A primeira notícia sobre a movimentação bancária atípica de Queiroz foi publicada em 6 de dezembro de 2018, no Estadão. Desde então, Bolsonaro e o filho vinham se afastando de Queiroz.

Distanciaram-se tanto que o amigo queixou-se de abandono. Surgiu do nada uma mensagem de WhatsApp na qual Queiroz mencionou a “pica do tamanho de um cometa” que o Ministério Público queria “enterrar na gente”. A imagem do cometa fálico levou Flávio a se referir a Queiroz como um “cara correto” e “trabalhador”.

O presidente da República também sentiu-se estimulado a tratar o amigo com apreço no único comentário que fez sobre a prisão de Queiroz, num imóvel do então advogado dos Bolsonaro, Frederick Wassef, em Atibaia (SP). “Parecia que estavam prendendo o maior bandido da face da Terra”, solidarizou-se o presidente.

Faltou a Flávio Bolsonaro eliminar duas dúvidas singelas: Afinal, por que exonerou em 15 de outubro um faz-tudo “correto” e “trabalhador”, que o assessorava havia mais de uma década? Por que diabos Jair Bolsonaro afastou Nathalia, a filha do amigo, da folha da Câmara?

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