Vídeo: Brasil paga para ele trabalhar para mim, diz comandante norte-americano sobre brigadeiro

Bolsonaro cumprimenta o almirante Faller, do Comando Sul, durante visita em março. Foto: Marco Bello/Reuters.

Fala do chefe do Comando Sul norte-americano sobre oficial-general é alvo de críticas entre militares.

Via UOL em 16/7/2020

“Os brasileiros estão pagando para ele vir para cá e trabalhar para mim.” Foi assim que o chefe do Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos, almirante Craig Faller, apresentou o trabalho do brigadeiro do ar David Almeida Alcoforado ao presidente Donald Trump.

Isso para “fazer diferença para a segurança”, segundo o comandante, que dispensou a mesma apresentação ao general de brigada Juan Carlos Correa, do Exército colombiano, também lotado no Comando Sul.

A frase foi dita em um contexto de elogio, com Faller chamando Alcoforado de “um dos mais destacados” das Forças Armadas brasileiras. Ele e Correa são chamados de “vencedores” e comparados a “melhores jogadores” trazidos para um time.

Mas o vídeo com o momento está circulando furiosamente entre militares e diplomatas como uma suposta prova de como os EUA tratam seus aliados – particularmente o governo de Jair Bolsonaro, que prega o alinhamento automático e que tem em Trump um ídolo político.

Talvez não seja para tanto, mas Faller enfatiza duas vezes na fala o “trabalham para mim”. Ele acabara de citar a participação de aliados regionais em 70% das operações antinarcóticos conduzidas pelo comando.

A referência ao fato de que os países de origem pagam sua estadia no Comando Sul remete à insistência de Trump para que outros governos paguem pela cooperação norte-americana. “O presidente [colombiano, Iván] Duque manda o seu melhor e está pagando por isso”, disse Faller sobre Correa.

A postura do presidente norte-americano vale tanto nas cúpulas da Otan (aliança militar liderada por Washington) quanto em agressivos discursos em que exige que o México custeie o muro que visa segurar a imigração ilegal para os EUA.

As falas ocorreram em um evento sobre trabalho contra o narcotráfico empreendido pelo Comando Sul, no dia 10, na Flórida.

David, como é conhecido na Força Aérea, é chamado de “nossa nova adição ao quartel-general” por Faller. O brigadeiro de duas estrelas, dois postos antes do topo hierárquico, assumiu o posto em 23 de março, após passar dois anos como comandante da Academia da Força Aérea. Deve voltar ao Brasil em 2022.

No Comando Sul, ele é vice-diretor do J5, departamento que cuida de estratégia, diretriz política e planos. O salário, como lembrou Faller, pago pelo contribuinte brasileiro, ganhou um bom incremento após sua ida aos EUA.

No Brasil, David ganhava R$29.101,70 brutos. Agora, seus proventos foram dolarizados: recebeu em abril US$9.535,46 (R$50,9 mil no câmbio de quinta, [16/7]). Além disso, naquele mês recebeu R$10.314,64 em verbas indenizatórias. Os dados são do Portal da Transparência.

David é o segundo oficial-general brasileiro, na história, a integrar o Comando Sul. O primeiro havia sido o general de brigada Alcides Valeriano de Faria Júnior, que virou subcomandante de Interoperabilidade no ano passado – num processo iniciado ainda no governo de Michel Temer (MDB).

A reportagem não localizou David. Em entrevista à Folha, Alcides, como é chamado no Exército, negou haver subordinação automática a ordens norte-americanas.

Se houver “decisão soberana dos EUA [que] não esteja de acordo com a posição política nacional, o Brasil pode determinar meu regresso, e eu, como militar, funcionário de Estado, retorno imediatamente”, disse na ocasião.

De lá para cá, o Brasil foi declarado por Trump um aliado preferencial fora da Otan, o que poderá render uma cooperação maior. Há divergências, também: em 2019 os EUA buscaram incitar Brasil e Colômbia a agir militarmente contra a ditadura da Venezuela, algo apoiado pelo Itamaraty sob Ernesto Araújo, mas descartado pelos militares.

Como os comentários irônicos ou irados nas redes que receberam o trecho do vídeo, disponível no site do Comando Sul, o episódio remonta às desconfianças históricas entre militares brasileiros acerca dos EUA.

Os países foram aliados na Segunda Guerra Mundial, fato lembrado por Faller, mas o Brasil sempre foi um anão militar ante o gigante do norte.

Os EUA apoiaram a ditadura instaurada em 1964, mas progressivamente o regime se afastou de Washington, e o ápice disso ocorreu com a política nacional-desenvolvimentista do governo Ernesto Geisel (1974-1979).

Após a redemocratização, o longo período do PT (2003-16) no poder aumentou a distância política, dada a orientação dita Sul-Sul do governo. A aproximação ensaiada sob Dilma Rousseff (PT), que previa até a compra de caças norte-americanos, foi abortada pelo episódio da espionagem norte-americana sobre a presidente.

Com Temer, houve um relaxamento, e Bolsonaro assumiu em 2019 prometendo uma relação próxima com os EUA. Os militares aprovam a ideia, mas, como no episódio da Venezuela, preferem manter o máximo de independência.

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