Militarização da saúde: Os generais e o genocídio

Sem máscara, o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello. Foto: Pablo Jacob.

Bernardo Mello Franco em 14/7/2020

Os militares toparam assumir o Ministério da Saúde de um governo que nega a ciência e sabota o combate à pandemia. Agora se irritam com quem aponta as consequências da decisão.

No sábado [11/7], o ministro Gilmar Mendes disse que o Exército está se associando a um “genocídio” ao endossar o desgoverno na Saúde. “Isso é péssimo para a imagem das Forças Armadas”, acrescentou.

O supremo ministro pode ter carregado no tom, mas disse uma obviedade. Ontem o general Fernando Azevedo, ministro da Defesa, ameaçou processá-lo. Foi apoiado pelo general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional.

Em nota enfeitada com o brasão da República, Azevedo se disse “indignado” com a fala de Gilmar. “Trata-se de uma acusação grave, além de infundada, irresponsável e sobretudo leviana”, sentenciou. Os comandantes de Exército, Marinha e Aeronáutica também assinaram o documento. Eles controlam 390 mil homens armados e não deveriam se meter em disputa política.

Desde a chegada do coronavírus, Jair Bolsonaro forçou a saída de dois ministros da Saúde. O cargo foi entregue ao general da ativa Eduardo Pazuello, que cumpre as ordens do chefe sem reclamar. Quando ele assumiu a pasta, o Brasil contava 14 mil mortos na pandemia. Terça [14/7] registra mais de 73 mil. Isso significa que o Exército já se associou a um saldo de 59 mil cadáveres.

No futuro, caberá aos tribunais e aos livros de História dizer se o desgoverno do Capitão Corona ficará lembrado como um genocídio. A crônica desses dias vai registrar que a gestão de Pazuello tentou maquiar estatísticas para esconder mortes de brasileiros.

Se estivesse preocupado com a imagem das Forças Armadas, o ministro Azevedo aconselharia o presidente a trocar o general por um médico. Sem isso, sua nota soa como corporativismo e tentativa de intimidação.

A boa notícia do episódio está nas entrelinhas. Desta vez, os militares informaram que vão pedir à Procuradoria-Geral da República que tome “medidas cabíveis” contra Gilmar. Até a prisão de Fabrício Queiroz, as notas da caserna sugeriam uso de tanques e golpe de Estado.

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