Maquiavel explica o novo ministro da Educação

Ministro-pastor Milton Ribeiro.

Na Educação, um pastor que coloca pesquisa a reboque de sua fé – e sintetiza a filosofia de O Príncipe: Deus usado para corromper a República. Assim, cargos tornam-se púlpitos, o moral suplanta o público e as divergências são eliminadas…

Bárbara d’Alencar Dragão, via Outras Palavras em 13/7/2020

Uma vez anunciado Milton Ribeiro, como novo ocupante do Ministério da Educação – que de novo parece não ter nada –, ficam às claras, na medida em que vem à tona seu passado recente, o que se pode esperar de sua atuação: mais, ou o pior do mesmo. Com efeito, o que mais tem despertado a atenção pública é sua atuação como religioso. Não que isto seja algo deletério ou criticável por si, porém o que se mostra é a incapacidade de separação entre sua atuação como homem público e o caráter privado de exercício da fé professada por ele. De fato, mais do que nobilitante, suas convicções religiosas parecem ter sido usadas como elemento habilitador para o cargo.

Ele não nos aparece com as credenciais de um pesquisador renomado, ou educador que professa certo credo religioso, ao contrário, é um ocupante de cargo religioso (pastor) no qual o estudo e a pesquisa estão a reboque da sua fé. O seu doutorado parece não deixar dúvidas sobre disto. Por sinal, não conseguimos localizar sua tese de doutoramento, cujo título é “Calvinismo no Brasil e organização: o poder estruturador da educação”, na Biblioteca Digital/Banco de Teses e Dissertações da USP. Nos ajudaria muito conhecer o pensamento do nosso novo ministro, se ele nos disponibilizasse sua tese para leitura e escrutínio geral, uma vez que ele é ocupante de cargo público.

Ademais, uma visita ao seu currículo Lattes (acessado na noite de sábado 11 de julho de 2020) nos mostra que ele é um pesquisador relapso ou medíocre, pois seu currículo não é atualizado, segundo dados da própria plataforma, desde 15 Abril de 2019. Ou é falta de tempo, ou falta do que colocar no currículo. Comparado com seu antecessor the flash, chega mesmo ser uma virtude, pois ao menos não inventa: quem sabe, até a publicação desse texto, ele não atualiza o currículo. Ainda que o faça, não resta dúvidas de seu fraco desempenho como pesquisador e conhecedor da educação pública.

Sua alçada ao cargo é como se estivessem a nos dizer: “Cidadão não, pastor com doutorado (!)”, pois neste caso, se confundem pretensas virtudes privadas com as qualidades institucionais, mais especificamente republicanas, que o cargo exige. Como o Brasil é um caso anedótico – onde, por exemplo, os que se dizem liberais são anti-iluministas, é raro encontrar virtudes republicanas, mesmo que vivamos em uma “República”. Quem procurar tais virtudes, não as achará: ainda que usando uma lupa ao meio dia.

A erosão institucional, tão debatida desde a chegada do atual grupo ao poder, não é um fenômeno novo, porém um reflexo da incongruência entre as instituições políticas modernas do país e a sua formação histórico-social pautada na completa negação dos avanços civilizatórios da Modernidade. Isto não é novidade para qualquer um que não tenha perdido a lucidez, contudo, atentar apenas para o caso do atual ministro da educação, é não compreender as razies de um fenômeno longo, que não se esgota nas tragicidades do presente. Nisto, ninguém poderia nos auxilia melhor que o bom Maquiavel. Antes, todavia, é preciso que o leitor esteja despido dos preconceitos do senso comum pseudointelectual contra o pensador florentino: bastar saber que Maquiavel não é maquiavélico.

Dessa forma, vejamos o que ele nos diz no capítulo VI de O Príncipe, onde trata dos principados novos adquiridos com armas e virtudes próprias: “Mas, para passar àqueles que pela própria virtude e não por fortuna se tornaram príncipes, digo que os mais excelentes são Moisés, Ciro, Rômulo, Teseu e semelhantes. E se bem que sobre Moisés, não se deva discutir, dado ter sido um mero executor das coisas que lhe eram ordenadas por Deus, deve, contudo, ser admirado, ao menos por essa graça, que o fazia digno de falar com Deus. Mas considerando Ciro e os outros que adquiriram ou fundaram reinos, achá-los-eis todos admiráveis; e, se consideramos as suas ações e ordens particulares, não aprecem discrepantes das de Moisés, que teve tão grade preceptor”. (Trad. Diogo Pires Aurélio, Editora 34).

Nos perdoará, o nosso leitor, se a passagem não é breve, contudo possui força de síntese expressiva, revelando algo essencial do modo como Maquiavel nos faz ver a relação entre política e religião, ainda que o próprio autor não nos diga isso claramente.

Com efeito, o leitor pouco atencioso, ou o leitor religioso, não encontram maiores questões, na superfície da afirmação de Maquiavel, que desabonem Moisés e firam a fé. O pensador florentino parece elogiar, como outros, a figura de Moisés: o carisma e as habilidades políticas excepcionais. Todavia, a questão principal, embora não esteja nas entrelinhas do texto, está diluída na enganosa clareza destas linhas. Por isso, o leitor atento já deve estranhar, de início, que Maquiavel tenha colocado em pé de igualdade, Moisés ombreado com Crio, Rômulo e Teseu. Isto é, no mesmo balaio que autores de tempos ditos mitológicos e pagãos.

De fato, na mente dos homens religiosos que confundem – premeditadamente para benefícios de seus objetivos – os limites entre teológico e político, Moisés é tradicionalmente alçado ao posto do máximo estadista: líder político excepcional, estando ao lado de outras figuras bíblicas de funções políticas como Davi e Salomão. Tal se fazia nos tempos de Maquiavel, tal voltou a ser feito hoje. Acaso aquele que foi eleito presidente não acorreu, logo após as eleições, a pastores midiáticos para ser ungido, apagando as diferenças entre teológico e político, como se não bastasse o ato republicano do juramento constitucional?

Ora, Maquiavel quebra esta longa tradição, ao retirar Moisés da comparação com outras figuras bíblicas de mesma dimensão teológica-política. Ao fazer isso, se desfaz a aura de Moisés como homem religioso, ficando só a de político. Não que isso seja feito por ato deliberado de Maquiavel, mas se ele o faz, é porque a tradição cristã já havia estabelecido a exemplaridade política de Moisés. É como se nos dissesse Maquiavel: se queremos alçá-lo ao posto de modelo político, façamos então da maneira correta, comparemos suas ações com as de outros homens políticos, não apenas com àqueles que lhe são próximos, do contrário, não saberemos se é verdadeira a excepcionalidade que lhe garante o lugar de exemplo.

Não deixa de ser irônico que Maquiavel jogue a teologia-política cristã contra ela mesma, porém seguindo justamente o que ela prega, indo ao exemplo que ela oferece. Mas o que professa esta teologia-política que sempre foi uma ferrenha adversária da vida republicana e democrática? Ora, sua afirmação basilar é que o fundamento da política é transcendente, portanto, sagrado. Tal fundamento se conserva fora do mundo, sendo, portanto, acessível apenas àqueles que são os “escolhidos dos céus.” De fato, Moisés é o exemplo deste homem escolhido, capaz de conduzir o povo com desígnios do alto.

Desse modo, nesta tradição, a coisa pública deve ser dirigida por valores que são apresentados como superiores ao próprio bem público. A boa política, nesse sentido, dependeria das virtudes dos homens religiosos; e, não das instituições – qualquer semelhança com o Brasil atual não é mera coincidência – tais homens, conhecendo os valores do alto melhor que ninguém, podem dirigir a vida de todos. Ademais, como esses valores são apresentados como eternos e os únicos verdadeiros, todos os outros ou são falsos, ou inferiores. Ou seja, por princípio fica eliminado o reconhecimento das diferenças que constituem a vida republicana.

Assim, tiremos a devida conclusão da passagem de Maquiavel: se Ciro, Rômulo e Teseu fizeram grandes coisas, ainda que não falassem com Deus, como Moisés, significa que o fundamento das ações não é teológico, divino ou sagrado, porém, puramente político e mundano. Do contrário, os pagãos não teriam feito o mesmo que Moisés, e em alguns casos, bem mais que o personagem do velho testamento, pois, Ciro, por exemplo, obteve impérios e conquistas bem maiores.

Mas, então, por que ao longo dos séculos se tende a ver no sucesso dos homens de fé um sinal da graça divina? Justamente porque tais homens, agindo politicamente, sendo matreiros e espertos, ocultam os mecanismos puramente humanos de suas ações e estratagemas de poder. Eles não se mantêm no poder porque Deus os sustenta, mas sim porque usam de modo eficaz os meios políticos que o momento lhes oportuniza. Não por acaso, aqueles que costumam citar o versículo bíblico – “(…) conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” – não são os que mais fazem uso de bem arquitetadas mentiras?

Desse modo, o discurso religioso vai adentrando espaços que outrora lhes era alheio, mas fazendo uso das lógicas comuns que possibilitam o alcance e a manutenção do poder. Isto gera uma corrosão do corpo político que poderá chegar ao seu pleno colapso, pois uma vez no poder, as facções religiosas não se sentem satisfeitas até gozarem do poder absoluto. Tal é constitutivo da lógica do poder: quer se diga exercido em nome de Deus, quer se diga exercido em nome de uma outra ideologia.

Por isso, é preciso ir ocupando os espaços, fazendo do cargo uma extensão do púlpito. Não se surpreendam se o nosso novo ministro disser que a educação pública só será melhor se pautada pela religião, ou que seu novo cargo público será usado para a glorificação da fé. Isto não será novidade, pois tal só ocorre nos corpos políticos onde as instituições públicas, de tão fracas, já não podem fazer freio aos vícios privados, mas são geridas ao bem prazer de projetos de poder pessoais e de facções.

Quando os ditos homens de fé alcançam cargos públicos, afirmando que tal se deve ao poder de Deus, não é a política que se santifica, mas a fé que se torna mero instrumento de poder. Isto nos mostrou Maquiavel, talvez, por isso, não o perdoem até hoje.

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