Nos bastidores da OMS, manipulação da doença por Bolsonaro já preocupa

Jamil Chade em 8/7/2020

Dentro da Organização Mundial da Saúde, a ordem é clara: a revelação de Jair Bolsonaro de que está contaminado pelo coronavírus deve ser usada como uma oportunidade para se aproximar do país e mostrar solidariedade. Imediatamente após o anúncio, a cúpula da entidade demonstrou seu desejo de uma recuperação rápida ao presidente que, por meses, tem fustigado a agência de Saúde.

Mas, nos bastidores, há uma preocupação por parte dos especialistas. Fontes na OMS temem que, assim como foi o histórico da pandemia desde seu início no Brasil, a nova situação vivida por Bolsonaro seja, uma vez mais, usada politicamente e que informações sejam manipuladas.

Na agência, a percepção da cúpula é que o “grande erro” do Brasil ao lidar com a crise foi a “politização do vírus”. Isso atrasou o reconhecimento de sua gravidade, orientou as decisões e pautou o governo.

Agora, a preocupação é de que a mesma tendência seja desenvolvida pelo Palácio do Planalto. O temor se divide em três:

Incentivar as pessoas a saírem e sem isolamento
Parte dos especialistas internacionais aponta que, se o impacto sobre Bolsonaro for suave e se a mensagem de cautela não for mantida, uma das repercussões poderia ser a de incentivar pessoas a deixarem suas casas e voltarem a levar uma vida normal, sem as medidas de proteção como o uso da máscara, o distanciamento social ou evitar aglomerações.

Bolsonaro, de fato, não recomendou o isolamento para pessoas que tiveram contato com ele, contrariando toda a estratégia da OMS de rastrear todos os contatos.

Cloroquina e sensação falsa de segurança
Outro fator considerado é o uso da situação para tentar mostrar que a cloroquina funciona, passando um falso sentimento de segurança para a população. Na OMS, a entidade já encerrou os testes com o remédio, depois de concluir que não houve uma diferença significativa nos pacientes que foram alvos do tratamento. Os testes avaliaram a redução da mortalidade.

Bolsonaro, por sua vez, já tem repetido que está se tratando com o remédio que não é recomendado oficialmente pela OMS. Ontem, ele ainda disse que “confiava” no remédio e que a “reação foi quase de imediato (hidroxicloroquina)”. “Poucas horas depois já estava me sentindo bem. Reforço aqui o que médicos têm dito pelo Brasil todo, eu não sou médico, eu sou capitão do exército, a hidroxicloroquina, na fase inicial, a chance de sucesso chega a 100%”, disse.

Gravidade minimizada
Outra repercussão poderia ser a de um comportamento da sociedade de minimizar a gravidade da doença. Ainda que o país conte com mais de 67 mil mortos, o impacto de seu chefe-de-estado afetado teria uma outra dimensão.

Entre suas declarações, ele indicou que o vírus “se dá melhor em climas mais frios”. Maria van Kerkhove, diretora técnica da OMS, e porta-vozes como Margaret Harris tem insistido que, por enquanto, não existem evidências científicas de que locais mais quentes tenham evitado o vírus.

Para uma parcela da entidade, uma manipulação política da doença poderia ampliar a crise no Brasil e aprofundar uma divisão na sociedade. O resultado, em determinados segmentos da população, seria um número ainda maior de mortes. No mesmo dia em que Bolsonaro sorria ao tomar remédio, 1,3 mil pessoas morriam da doença.

Na terça-feira, Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, insistiu que a situação no Brasil não é boa e mandou um recado claro. “Precisamos ser sérios”, disse. “É importante entender a gravidade desse vírus”; disse. “Nenhum país está imune, ou seguro, e nenhum indivíduo está a salvo”, insistiu.

Durante a coletiva de imprensa, porém, Michael Ryan, diretor de operações da OMS, fez questão de desejar saúde ao presidente. Mas também mandou seu recado: “Acho que (isso) mostra a realidade desse vírus”.

“Ninguém é especial nesse aspecto. Todos estamos potencialmente expostos ao vírus e o vírus não sabe se somos príncipes ou pobres. Somos todos vulneráveis”, afirmou. “O que mostra é nossa vulnerabilidade coletiva a essa doença”, afirmou.

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