General Santos Cruz: Bolsonaro está cercado de bandidinhos vagabundos com acesso a seu gabinete

Carlos Alberto dos Santos Cruz: “Intervenção militar não tem cabimento”. Para quê? Se já recebeu 58 milhões de votos das urnas, agora é só governar”.

Ricardo Lessa, via Valor em 26/6/2020

“Um líder político inconsequente acarreta danos enormes a seu país.” A frase é de Carlos Alberto dos Santos Cruz, de 68 anos, ministro da Secretaria de Governo nos seis primeiros meses do mandato de Jair Bolsonaro (sem partido).

“Não vou faltar com o respeito”, prossegue o general, que não menciona o nome de seu ex-companheiro de esportes, a quem conheceu ainda jovem e chegou a ser vizinho na Vila Militar de Deodoro, no Rio. Só deixa explícito que tem sérias discordâncias de ponto de vista com o presidente da República. Para Santos Cruz, o governo desperdiça a grande oportunidade que a sociedade lhe deu para atender aos anseios da família classe média conservadora, “cansada de escândalos e violência”, como a dele mesmo.

Ideologizaram o vírus, botaram uma coloração
vermelha que seria da China, ideologizaram
até mesmo um medicamento.

Bolsonaro, acrescenta Santos Cruz, se ampara em um pequeno grupo ideológico de fanáticos, “bandidinhos vagabundos com acesso a seu gabinete”. E perde o foco sobre os reais problemas do país, diz ele. “Medíocres, escória. Acham que podem manipular a opinião pública, enchem a paciência da população. Não vai colar, a população não tem essa motivação ideológica e vai responder nas urnas.”

Partiu desse “gabinete do ódio”, como ficou conhecido, reforçado pelo apoio dos filhos de Bolsonaro, o ataque que terminou por afastá-lo há um ano. Uma suposta conversa de WhatsApp, em que Santos Cruz teria criticado o presidente, foi a gota d’água. A Polícia Federal (PF) apurou e concluiu em janeiro que se tratava de uma montagem grosseira, mas o chefe do Executivo não se retratou, nem se desculpou.

O combate à corrupção, uma grande promessa de campanha, foi um dos principais motivos que o levaram a aceitar o convite para ocupar um dos quatro gabinetes do Palácio do Planalto mais próximos da Presidência. “A corrupção”, para o ex-ministro, “é o pior dos crimes, porque incentiva os outros crimes”. Mas o governo, em seu ponto de vista, não vem fazendo o suficiente.

A demissão barulhenta de Sérgio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que deixou o governo acusando o presidente de interferência na PF, é mais um revés: “Ele era um ícone, uma esperança de que era possível vencer os corruptos. Em um ano colocou quase uma centena de empresários, políticos, poderosos, na cadeia. Os seguidos desacertos entre presidente e seus ministros causam balbúrdia, uma má impressão na população”.

Com tristeza, no isolamento de seu sítio a 50km de Brasília, o general vê o Brasil galgar os primeiros lugares do mundo em número de óbitos na atual pandemia. “A cada vez que uma pessoa morre, morre um pedaço da gente”, diz Santa Cruz, que recorre a citação ao clérigo John Donne feita por Ernest Hemingway em “Por Quem os Sinos Dobram” (1940).

Os desencontros de orientações dentro do próprio governo agravaram os efeitos da pandemia no Brasil, afirma. “Ideologizaram o vírus, botaram uma coloração vermelha que seria da China, ideologizaram até um medicamento.” Extremismos, para ele, atrapalham o país, “não levam a lugar nenhum”.

Como a doença se espalhou inicialmente em outras nações, Santos Cruz diz acreditar que o Brasil poderia ter aproveitado a chance de enfrentá-la de uma maneira mais eficiente, com união e mais harmonia entre os Poderes. “Falta recuperar a credibilidade, a liderança, dar o bom exemplo, não adianta só reclamar.” Nenhuma das frases se refere diretamente a Bolsonaro, mas tem endereço certo. Os frequentes movimentos do capitão da reserva em direção aos quartéis e os apelos de participação das Forças Armadas lhe despertam estranheza. “Para quê? Se já recebeu 58 milhões de votos das urnas, agora é só governar.”

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