“Eu não sabia” tornou-se um código da desfaçatez

Via UOL em 24/6/2020

A coreografia executada na troca do defensor de Flávio Bolsonaro acentua a degradação da situação política do clã presidencial. No momento, o principal álibi dos Bolsonaro no caso da rachadinha é o cinismo. A exemplo de Lula, que “não sabia” da existência do mensalão; ou de Dilma, que não sabia que o PT e seus aliados plantavam bananeira dentro dos cofres da Petrobras; Flávio e Jair Bolsonaro, que nunca souberam das estripulias financeiras de Fabrício Queiroz, também não sabiam que o faz-tudo estava guardado num simulacro de escritório que o advogado da família, Frederick Wassef, mantinha em Atibaia.

A prisão de Queiroz, na semana passada, deixou Fred, como o agora ex-advogado dos Bolsonaro é chamado na intimidade do Alvorada, mais próximo da condição de investigado do que da posição de defensor. A troca de advogado tornou-se inevitável. Fred ainda não explicou como Queiroz foi parar no seu imóvel. Mas ele matou a encrenca no peito. Assumiu toda a responsabilidade pela irresponsabilidade ainda pendente de explicação.

Ironicamente, a lambança foi elogiada por Flávio Bolsonaro, que enalteceu “a lealdade e a competência do advogado Frederick Wassef”. E lamentou que, contra a sua vontade, o doutor tenha deixado a causa. Os elogios do Zero Um são tão sinceros quanto o medo de que o agora ex-defensor se torne um detrator, jogando segredos no ventilador. O novo advogado de Flávio, Rodrigo Roca, atuará em parceria com a colega Luciana Pires, que já auxiliava a defesa do filho do presidente.

A dupla requereu ao Ministério Público do Rio de Janeiro que Flávio seja ouvido. Trata-se de uma mudança de estratégia. Até aqui, o primogênito fugia dos depoimentos. Agora, quer acomodar nos autos do processo a versão segundo a qual seu patrimônio é compatível com a renda e que não tinha conhecimento do que Queiroz fazia no seu gabinete na época em que era deputado estadual.

Nesse ritmo, o “eu não sabia” passará à história como uma espécie de código da desfaçatez. Sempre que a expressão é mencionada, a plateia já sabe que aqueles políticos que se apresentavam como exemplos de retidão pedem para ser vistos como cegos abobalhados, incapazes de enxergar o que acontece ao seu redor.

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