Itamaraty estende tapete vermelho para monarquistas e olavistas atacar o “vírus do comunismo”

O ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e o deputado Eduardo Bolsonaro durante audiência pública na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil.

Jamil Chade em 16/6/2020

Nesta terça-feira, o Itamaraty promove uma palestra de Bertrand de Orleans e Bragança. No material de promoção do evento, porém, o convidado é apresentado como “S. A. I. R.”. Ou seja, “Sua Alteza Imperial Real”, um título que desapareceu no país com a chegada da República, há mais de cem anos.

A palestra com o descendente da família real é mais um encontro numa série promovida pela Fundação Alexandre de Gusmão (Funag) – órgão ligado à chancelaria – para avaliar o mundo “pós-pandemia”.

Quem acompanhou os debates nas últimas semanas se deparou com revelações importantes. Elas incluem a suposta relação da pauta de meio ambiente e o comunismo, além dos inúmeros outros riscos do marxismo. Também são apresentadas com exaustão as virtudes da aproximação do Brasil com os EUA, assim como a eficiência da cloroquina. A China também faz parte do debate, tanto no que se refere aos seus planos de colonização, assim como a suposta derrocada de sua economia. Os convidados ainda alertam sobre os riscos para a democracia que representam os atuais protestos nas ruas e como, com Deus e soberania, o Ocidente deve ser protegido.

Tampouco faltam convidados que, por videoconferência, se apresentam ao lado de bandeiras da monarquia e símbolos religiosos.

Para prever o futuro, estão sendo convidados personalidades que questionam o papel da ciência na definição de políticas e promovem ataques recorrentes ao sistema internacional. Cada intervenção é concluída por rasgados elogios por parte do mediador do debate, um diplomata próximo ao chanceler Ernesto Araújo.

Há ainda um ponto constante em muitos dos discursos e intervenções: as repetidas referências ao guru do governo, Olavo de Carvalho.

Antes do seminário desta semana com a “alteza imperial”, a Funag promoveu há poucos dias um evento com Rafael Nogueira, presidente da Fundação Biblioteca Nacional. Assim como vários outros, ele não fugiu do padrão e usou seu discurso para citar Olavo de Carvalho. Em mais de duas horas e meia, ele questionou inclusive o papel que se atribui ao nacionalismo como um dos motivos da Segunda Guerra Mundial.

O convidado ainda criticou a OMS em sua resposta pela pandemia e alertou que seria “muito perigoso” dar mais poderes para a agência internacional. “A OMS não conseguiu enxergar com antecipação o que estava ocorrendo”, disse, sugerindo que a agência tem “financiadores” e “interesses ideológicos”.

Ele, apesar do longo discurso, não citou o fato de a OMS ter declarado a emergência global no dia 30 de janeiro e que, por semanas, o presidente Jair Bolsonaro ter insistido em minimizar a crise.

Vírus do comunismo
Nogueira, porém, teve tempo para falar sobre a obra Vírus, do marxista Slavoj Zizek. Coincidência ou não, o livro foi o mesmo usado por Ernesto Araújo, o chanceler, para alertar sobre o risco de um plano comunista que se utilizaria da pandemia para ganhar força.

O moderador do debate, o diplomata Roberto Goidanich, lamentou que a “grande imprensa” não conceda mais espaço para nomes como Nogueira.

A lista de convidados da casa de Rio Branco também incluiu Bernardo Kuster, que se dedicou a criticar a China. No mês passado, ele foi alvo de mandados de busca e apreensão em operação da Polícia Federal no inquérito sobre “fake news”. Allan dos Santos, blogueiro também alvo da PF, foi outro nome convidado pelo Itamaraty.

Num outro debate, Leandro Ruschel, do site Conexão Política, alertou que existe uma “instrumentalização da pandemia para inserir toda a agenda de esquerda”. “As pessoas estão em cárcere privado”, disse. Ele, assim como os demais, atacou a OMS e o multilateralismo. “Governo global é um totalitarismo da pseudociência”, afirmou.

Num dos trechos do seminário, Silvio Grimaldo, editor do Brasil Sem Medo, contou como, numa conversa com Olavo de Carvalho, chegou a falar em uma brincadeira no que seria uma “Internacional Nacionalista”, com governos como os do Brasil, Japão, Índia e outros pressionando por uma agenda na qual a soberania seria revalorizada.

José Carlos Sepúlveda, do canal Terça Livre, também tomou a palavra para alertar que existe uma ação progressista mundial sendo infiltrada no país. “Estamos assistindo um assalto ao direito à propriedade”, disse, alertando para a arbitrariedade das decisões de distanciamento social.

Procurado pela coluna, o diplomata Paulo Roberto de Almeida, ex-diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipri), apontou que, desde o início do governo Bolsonaro, “a Funag só faz o que o gabinete (de Ernesto Araújo) e Filipe Martins querem, e só convidam olavistas”. Em 2019, o embaixador Paulo Roberto de Almeida foi demitido pelo chanceler e, neste mês, publica o livro “O Itamaraty num labirinto de sombras”.

Outro convidado da Funag em 2020 foi Arthur Weintraub, assessor especial da Presidência da República. Ele é irmão do Ministro da Educação, Abraham Weintraub. Durante o evento, ele sugeriu um novo “tribunal de Nuremberg” para julgar aqueles que se recusaram a dar cloroquina aos pacientes da covid-19, apontando que vidas poderiam ter sido salvas. O tribunal foi criado na Alemanha para julgar os crimes dos nazistas. Na OMS, não existe ainda recomendação para o uso do remédio, enquanto estudos alertam para a falta de evidências de que o produto tenha sua eficácia comprovada.

O debate de mais de duas horas e meia era, oficialmente, sobre a “conjuntura internacional no pós-coronavírus”, com Hélio Angotti Neto, diretor do Departamento de Gestão da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, e Marcelo Hermes Lima, diretor-presidente da Associação Docentes pela Liberdade.

Mas no centro da fala de Weintraub estava a ameaça que o Brasil e outros países atravessam diante dos protestos e do que ele acredita ser um fortalecimento dos movimentos “globalistas” diante da pandemia.

“Passando o momento da covid, você vê nitidamente que a mídia e a esquerda já estão fugindo do assunto. Agora estão engrenando no próximo discurso, o próximo discurso é a favor da democracia. É sempre pela coisa mais pura e incontestável. Quem pode ser à favor do racismo? Quem pode ser à favor do câncer? Quem pode ser contra a democracia. Então eles são os donos da verdade”, disse.

“E eles pegam toda essa miríada de discursos e se apoderam deles. O racismo é deles. Se você disser: sou contra cotas, vão te dizer que você é racista”, disse.

“E agora mudou a chave. A chave antes era covid. Eles adquiriram muito poder. Desestabilizaram as economias. Monopolizaram o discurso”, destacou.

“Agora, o mundo ocidental, tirando honrosas exceções – a Suécia, por exemplo – caiu de joelhos. Vamos ficar todos em casa. O impacto disso nas futuras gerações, endividamento, quebra de empresa, que se dane”, afirmou Weintraub. Na própria Suécia, porém, questionamentos ganham força sobre a estratégia que o país usou.

Risco de vertente ditatorial
Ao final, ao ser questionado sobre onde achava que o Brasil estaria em cinco anos, o assessor de Bolsonaro se disse otimista. “Houve uma mudança forte no Brasil, no sentido conservador”, afirmou. Mas alertou que “vão tentar segurar isso”, sem explicar quem. “Eu imagino que pode se inclinar para uma vertente mais autocrática ditatorial de esquerda. Eu não gostaria de ter que sair do Brasil”, afirmou.

Mas indicou que “se (o Brasil) virar uma grande Venezuela, não dá para ficar”. “Seremos mortos”, disse.

Hélio Angotti Neto, diretor do Departamento de Gestão da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, completou a lógica de Weintraub. “Se for por guinada ditatorial, aí é fugir ou morrer”, completou.

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