A luta antifascista e antirracista só terá êxito se for transformada em uma luta anticapitalista e antiimperialista

Estátua do escravagista Robert Milligan é removida na capital britânica.

Ou a luta antirracista e antifascista evolui para uma sistemática coordenada e decidida luta anticapitalista ou antiimperialista, ou ela estará condenada a explosões cada vez mais violentas, mas nem por isto menos pré-condicionadas aos limites do sistema, estéreis e submissas à lógica do “não há alternativa”.

Roberto Ponciano, via Brasil 247 em 12/6/2020

Os manifestantes derrubaram uma estátua, mas a Inglaterra ainda tem uma rainha e uma família real e os ingleses a cultuam. A gente fica subalternamente entoando “como o movimento inglês é mais avançado do que o nosso”, e eu cá fico pensando de como o sistema capitalista consegue esterilizar a revoltas e os protestos populares. É algo que Adorno ou Guy Debord chamariam de estetização da violência e da rebeldia, que por mais explosiva e violenta que pareça, já de antemão, parte do pressuposto da ideia de que não há alternativa e estão circunscritas aos estreitos limites pré-configurados da extração ampliada da mais valia. O sistema as reverbera e pode até as legitimar, elas podem tudo, menos questionar o sistema capitalista.

Existe algo que representa mais o racismo, o colonialismo do que a monarquia (poder divino pelo sangue, pela genealogia, pelo DNA?). E se os manifestantes, em lugar de derrubarem a estátua, derrubassem a monarquia, expurgando de uma vez para todas todos os títulos de rei, rainha, príncipes, duques, condes etc.; as leis consuetudinárias e todo e qualquer valor gasto para sustentar quem matou, escravizou e usurpou os povos da América Latina, Ásia e África. O capitalismo não nasceu da economia frugal de um bando de capitalistas poupadores, nasceu da escravidão negra, do sequestro, diáspora e genocídio de milhões e milhões de negros africanos, do saque das minas de ouro e prata da América Latina se o extermínio dos povos originais, da recolonização e saque da Ásia e África pelo império no qual o sol nunca se põe. De quebra poderiam libertar a Irlanda.

É capaz de alguém ainda vir aqui escrever para defender a importância da rainha.

E podem ser as mesmas pessoas que amariam derrubar uma estátua. Lembrando que os corsários eram leais funcionários da coroa.

A canalização das revoltas para explosões dóceis ao sistema chega ao ponto de termos um movimento antifascista nos Estados Unidos que não é antissistema, que não é anticapitalista. E achamos “the must” (e ainda reverberamos como “nós somos atrasados”), como deveríamos ter inveja do movimento negro estadunidense (em que pese a importância das lideranças negras dos Estados Unidos na história da luta antirracista, há sempre uma dose de viralatismo nesta inveja do “Primeiro Mundo”). É óbvio que as análises e conclusões das lideranças negras estadunidenses são fundamentais para ajudar a consolidar a luta antirracista num país com racismo estrutural velado como o nosso; de outro lado, em qualquer análise que inveje os movimentos estadunidenses há a falta de senso-crítico de como falta, ao movimento social dos EUA, um mínimo de articulação política centralizada e um projeto político unificador que vá para além das reivindicações pontuais.

Nos Estados Unidos, os negros, latinos, asiáticos, a imensa quantidade de oprimidos pelo capitalismo, sequer consegue se organizar em um partido popular autônomo e concorrer às eleições, com uma candidatura que arranhe as estruturas do establishment, sequer conseguem impor a pauta de eleição direta para presidente, ou de um sistema universal público de saúde. Não, reformar a polícia de cabo a rabo não vai tornar o capitalismo menos desigual. Talvez evite morte de negros em confrontos com a polícia, mas não vai evitar que negros, latinos e outras minorias sejam maioria estatística nas prisões. Num sistema eleitoral censitário e perverso, os dois partidos da plutocracia estadunidense oferecem um teatro de títeres sobre uma não opção popular. Delegados de dois partidos previamente estruturados para que não haja nenhuma candidatura popular, que ameace o status quo concorrendo à presidência, num sistema pervertido de colégio eleitoral, que mina qualquer possibilidade de manifestação popular. Nada disso se converte em algo além da pauta de “direitos civis’. Mas ainda assim celebramos o quanto é “avançado” o movimento social ianque, que é proibido inclusive de se organizar em sindicatos – as leis antissindicais estão em plena vigência e consignam que, para fundar um sindicato há que se conseguir a adesão de 50% mais um dos trabalhadores de um setor ou empresa, e antes disto, a propaganda sindical é proibida.

Por mais violentos que sejam os protestos (e estas explosões violentas são a expressão periódica da revolta e da impotência política dos explorados e excluídos do “sonho norte-americano”), ela está previamente canalizada pelo sistema, quando não tem uma pauta política centralizada e uma pauta mínima anticapitalista. Quando recebe a adesão alegre de milionários e bilionários pró sistema, que só querem que o capitalismo pegue mais leve nas batidas policiais. Ou alguém acredita que a quase bilionária Oprah Gail Winfrey apoiaria alguma pauta antissistêmica? Vão se os anéis ficam os dedos. “Educar a polícia”, ou tornar a exploração mais “humana” não vai mudar quem vai continuar a ser a elite branca lá e quem serão as minorias trabalhadoras exploradas, ou as possibilidades de “empoderamento pessoal” de indivíduos ou grupos reduzidos negros não são a emancipação necessária de toda a classe de explorados e humilhados.

As reivindicações de movimentos cada vez mais violentos e explosivos (porque o capitalismo cada vez gera mais miséria, inclusive nos Estados Unidos) se tornaram todas muito dóceis ao sistema. Você pode fazer muita coisa como protesto na “democracia estadunidense”, desde que você não ameace o sistema capitalista. Se você ousar transformar o movimento antifascista em anticapitalista, será caçado e exterminado como foram os Black Panthers. Por mais que a violência se amplie pelas ruas, a falta de pauta, unidade, bandeiras, a falta de perspectiva unitária antissistêmica e anticapitalista, faz com que a elite controle as explosões, com repressão, mortes e prisões, é verdade, mas sem nenhum arranhão no status quo. Após a passagem dos furacões, milionários e bilionários acionam as companhias de seguro e, salvo talvez a reformulação de estruturas policiais inteiras, que são apenas o braço executor do sistema, toda a estrutura de mando e dominação continua intocada, saudável, reconfirmada como democrática e robusta frente às intempéries. É a confirmação absoluta da tese de que “não há alternativa”, confirmada em discurso e ratio, talvez com a liberação de mais fundos públicos para políticas de subvenção à ascensão social de pequenas minorias.

É verdade, talvez consigamos derrotar Trump e o que ele significa para o avanço do nazifascismo no mundo, isto não é pouca coisa e deveremos aos corajosos lutadores de rua de Minneapolis (questionar a falta de política não é, de forma nenhuma deixar de reconhecer a coragem e a valentia destes lutadores e lutadoras). Mas temos que reorganizar estas explosões violentas e voluntárias num patamar superior. Necessitamos de uma Nova Internacional Socialista, necessitamos transformar estas lutas de rua num movimento superior com uma pauta global unificada antiimperialista e anticapitalista.

Trocar estátua é uma catarse, mas não muda nada, é capaz mesmo de os bilionários incentivarem e financiarem a trocadas estátuas. É simbólico, mas eu ainda prefiro antes derrubar os bilionários que chegam a financiar a troca de estatuas e lacram no Instagram incentivando um antifascismo liberal, uma criação oligofrênica que tem uma personalidade que o paralisa desde o nascimento. Temos mirar no sistema capitalista em lugar de mirar nas estátuas. Sim, podemos derrubá-las também, mas isto não pode virar um totemismo que, de maneira mágica, substituiu derrubar o capitalismo. Em lugar de jogarmos as estátuas de antigos mercadores ao mar, joguemos ao mar os modernos mercadores de escravos.

Trocar toda a polícia vai evitar que alguns negros morram asfixiados, não vai fazê-los se emancipar socialmente ou que sejam presos preferencialmente aos brancos. Acho ótimo derrubar Borba Gato, mas cuidado para a gente aqui não entrar nesta catarse, em lugar de focar em derrubar Bolsonaro, Witzel, Crivella, o nazifascismo real; e entremos em orgias catárticas de achar que derrubaremos o sistema quebrando vitrine de banco e pontos de ônibus.

Se o antifascismo se tornar anticapitalista… Aí rapidamente os bilionários doadores “empoderados” desaparecerão e pararão de apoiar as ruas. O sentido oculto do empoderamento é “você individualmente também pode participar do sonho norte-americano”. O negro também pode ser bilionário. O escravo também pode se tornar senhor, pode ascender à casa-grande, a senzala só não pode acabar com a dominação.

Emancipação já é outra coisa. É a senzala exterminar a casa-grande, o capitalismo para sempre. Notaram sutilmente como esta palavra emancipação sumiu do nosso vocabulário?

Emancipação é pauta de toda a classe trabalhadora, a única capaz de conjugar e coordenar os vários movimentos de resistência ao capitalismo: antirrascismo, feminista, LGBTQI, ecológico, trabalhista, contra um inimigo comum: o capitalismo, o imperialismo.

Ou a luta antirracista e antifascista evolui para uma sistemática coordenada e decidida luta anticapitalista ou antiimperialista, ou ela estará condenada a explosões cada vez mais violentas, mas nem por isto menos pré-condicionadas aos limites do sistema, estéreis e submissas à lógica do “não há alternativa”.

Conjugar as lutas contra o racismo com as lutas de emancipação nacional e às lutas dos povos por sua libertação da condição de periféricos e explorados pelo centro capitalista.

Como diziam Fidel Castro e Hugo Chavez, não há uma terceira via, a única alternativa ao capitalismo é a via socialista.

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