O mundinho cercado de Bolsonaro

Moisés Mendes, via Extra Classe em 12/6/2020

Bolsonaro é uma gambiarra política criada pela direita que pode pifar a qualquer momento, quando os fios desencapados entrarem em curto com a extensão (também desencapada) de um general.

Por coerência, o lugar para o gran finale de Bolsonaro, para o curto circuito derradeiro, deveria ser o cenário do entorno do cercado do Palácio do Alvorada. O cercado é a sua vasta plateia. Ali ele fala, não para o país, mas para a sua claque atormentada.

Foi a escolha que fez, desde o famoso discurso por celular, no dia 21 de outubro de 2018, quando mandou esse aviso à multidão que comemorava na Avenida Paulista a performance no primeiro turno:

“Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria. Pretalhada, vai tudo vocês para a ponta da praia. Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil”.

Certo da vitória no segundo turno, Bolsonaro avisou que governaria só para os seus e que por isso falaria só para o cercado.

O cercado abriga amostras do Brasil bolsonarista que as pesquisas calculam em 18% dos eleitores. Numa simplificação, poderia se dizer que se acomoda naquele espaço apenas a parte debaixo do bolsonarismo.

Os ricos não aparecem no cercado. Essa parte debaixo pede uma abordagem não só do jornalismo, mas de quem tenta entender como o Brasil adoeceu. Quem é aquela gente?

Há, todas as manhãs no Alvorada, um Brasil gritando coisas para que apareçam nas redes e nas TVs mais tarde. Manicures, professoras, policiais, pedreiros, ambulantes, microempresários.

O Brasil sem o CPF ou com o CPF trancado está no cercado. A porção que não acredita na pandemia, mas acredita em Damares e está certo de que os filhos de Bolsonaro são caçadores de bandidos.

Se Trump tivesse um cercado parecido, ao lado da Casa Branca, o público seria semelhante. É o conservador, mas é também o americano desempregado e em desalento porque a indústria em que trabalhava sumiu e agora ele teme a invasão da China.

Bolsonaro e Trump vampirizam o mesmo tipo de alma aflita. E Bolsonaro ainda acolhe o moralista e o beato, que se misturam ao reaça, ao racista, ao cara que ama armas e odeia gays e mulheres.

O cercado é o brete desse Brasil que tem parentes espalhados pelo mundo todo. Mas só aqui há um Bolsonaro. Não há nada parecido com ele em lugar algum. Nem se tentarem imitar.

Nenhum ditador, nenhum déspota é como Bolsonaro. Todos eles falam diretamente para o povo e prometem sonhos e um mundo maravilhoso. Bolsonaro só promete perseguir e matar os inimigos.

Bolsonaro só fala de morte. E mesmo assim reúne no cercado os que acreditam que ele e os filhos serão capazes de limpar o Brasil de tudo o que é ruim, começando pelos comunistas.

O cercado é o minifúndio da miséria humana que alimenta o bolsonarismo. Mas um rico, parte da mesma miséria, nunca irá aparecer ali.

Os ricos estão na Fiesp, nas entidades secretas, nos milleniuns, nos clubes do fascismo. Nem os milicianos aparecem e tampouco os grileiros.

Há no teatro do cercado uma certa sordidez. Bolsonaro explora o fervor do povo que se posiciona como se fosse presenciar o milagre de um exorcismo.

O cercado é o espaço do beato e do religioso, e todos os que ali aparecem acreditam nos valores da família, com Deus acima de todos.

Pode ser ali naquele palco que Bolsonaro irá um dia se desintegrar, depois de um movimento em falso, uma fala mal-pensada, um gesto brusco.

O cercado do Alvorada é o teatro do que pode ser o ato final. O último show talvez aconteça ali. É provável até que, depois de muito ensaio, seja o golpe em que Bolsonaro será o golpeado.

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