Fernando Horta: Por que não sou #70%, Estamos #Juntos ou qualquer coisa parecida

Hoje te querem como bucha de canhão contra Bolsonaro, o inaceitável. Amanhã você será o próximo “inaceitável” ou, pior, a próxima bucha de canhão. O jogo das elites é imoral, é asqueroso e não descansa nunca.

Fernando Horta em 3/6/2020

Uma das maiores mentiras do século 20 é a de que podemos separar “política” da “economia”. Consolidou-se uma visão advinda da Guerra Fria de que há assuntos “técnicos” e assuntos “políticos”. Sobre os políticos caberia “discussão”, “liberdade de opinião e pensamento” e até – veja só – uma certa democracia com um pouquinho de participação popular. Nos assuntos “técnicos”, aí opinam os “técnicos”.

Esta falsa dicotomia foi a tônica de todo o século 20. É uma releitura pobre da diferença weberiana entre “ciência” e “política” como duas vocações diferentes. Um é o saber “preciso”, “exato” e “científico”. A outra é o ramo do “achismo”, da “opinião” e das “disputas políticas”. Daí que algumas pessoas fazem uma escolha bastante política sobre o que colocar na cesta dos assuntos “técnicos” e na dos “políticos”. E querem enfiar goela abaixo esta divisão de coisas que já é – em si mesma – uma decisão política ditatorial tão ruim quanto o próprio fascismo.

De repente, 70% das pessoas no Brasil passaram a fica incomodadas com Bolsonaro. Pergunte-se: que informações não existiam em 2016 para que esta mesma “frente ampla” não tenha sido pensada lá atrás, quando o país tinha na memória recentíssima crescimento, inclusão e distribuição de renda?

O que não estava dito ou posto em 2016 – e que passou a estar nos últimos 30 dias – que pode ter o condão de fazer milhões de pessoas agora se juntarem para formar “70%”?

A resposta desta pergunta é exatamente o motivo de eu não aderir a movimentos políticos que estão se aproveitando do desespero para separarem Guedes de Bolsonaro. Estes “neopreocupados” com o fascismo querem um governo Bolsonaro sem Bolsonaro. Um governo Bolsonaro sem Bolsonaro é um governo Mourão-Guedes. Em que continue a destruição econômica que nos trouxe até aqui, a criminosa concentração de renda, o desmonte da educação e da saúde públicas, a “guerra contra a corrupção” como Moro e Dallagnol faziam e que nos livremos apenas da mixórdia bolsonarista e seus arrotos fascistas.

Em vez de falarmos em “frente ampla”, precisamos discutir a “agenda mínima” político-econômica para o Brasil.

Eu não aceito unir forças com ninguém que não esteja disposto a abraçar o projeto de renda mínima cidadão, o fortalecimento da educação e saúde públicas e a contenção completa dos abusos de militares e juízes. Guedes e Bolsonaro são duas metástases do mesmo câncer. Irmãos siameses na perversidade e ignorância. Defender as reformas neoliberais é defender o retorno do fascismo em pouco tempo. Trocar Bolsonaro por Mourão é seguir o golpe “banho-maria” que vivemos até que o dia volte a virar 21 anos.

Hoje te querem como bucha de canhão contra Bolsonaro, o inaceitável. Amanhã você será o próximo “inaceitável” ou, pior, a próxima bucha de canhão. O jogo das elites é imoral, é asqueroso e não descansa nunca. Que se matem contra Bolsonaro, eu só me movimento se o preço da batalha for um mundo melhor, e não apenas um mundo sem Bolsonaro.

***

LULA TEM RAZÃO
Leandro Fortes, via Jornalistas pela Democracia em 2/6/2020

Essa história de frente ampla, nos moldes do movimento das “Diretas Já!”, é a história se repetindo como farsa. O que está em curso é a reorganização dos interesses da burguesia nacional diante de um processo de recrudescimento autoritário sobre o qual ela não tem controle.

Assim, as mesmas figuras nefastas que organizaram o golpe parlamentar que retirou Dilma Rousseff do poder, em 2016, sob o falso argumento udenista de combate à corrupção, agora tentam montar uma tertúlia desesperada para arrancar Jair Bolsonaro do Palácio do Planalto, mas sem macular o que realmente lhes interessa: a agenda neoliberal criminosa que prevê a destruição do patrimônio nacional e o fim dos direitos dos trabalhadores, no Brasil. Aí incluído o Sistema Único de Saúde, em plena pandemia da covid-19.

Neste cenário, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma declaração contra hegemônica, muito ao seu estilo político, lembrando que há algo de podre nesse piquenique cívico aparentemente ecumênico, do qual pretendem se fartar figuras lamentáveis como Fernando Henrique Cardoso, Michel Temer e Luciano Huck.

Assim falou Lula: “Li os manifestos e acho que tem pouca coisa de interesse da classe trabalhadora. Não se fala em classe trabalhadora, nos direitos perdidos”.

Dúzias de colunistas isentões da mídia comercial, muitos dos quais diretamente culpados pela eleição do demente que ora nos governa, saíram de suas quarentenas gourmets para atacar o ex-presidente e acusá-lo de intolerância. Claro, com o auxílio luxuoso da esquerda namastê, esta que vislumbrou nesse gelatinoso movimento “Somos 70%” uma espécie de ciranda ideológica celestial em nome da paz, do amor e da harmonia entre os homens.

Lula, por sua vez, com a casca grossa de quem conhece tanto o chão da fábrica como as trevas da política brasileira, depois de duas prisões políticas, foi enfático: não tem mais idade de ser maria-vai-com-as-outras, e, acreditem, houve quem o acusasse de machismo por usar essa expressão.

Uma frente ampla contra o fascismo terá que ser feita, quanto a isso, não existem dúvidas. Mas para ser uma nova micareta liberal, como as tais “jornadas” de 2013, movimento imediatamente capturado pela mídia e pela direita golpista, melhor enfrentar Bolsonaro até o fim.

Lula, para variar, está certo.

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