Chega de tanto manifesto, é hora de a esquerda assumir que tem lado e projeto

O bolsonarismo é resultado disso, desse discurso conciliador que tomou conta da sociedade brasileira nos últimos 20 anos. Nossa democracia se restringiu exclusivamente ao ato de votar.

Eduardo Borges, via Jornal GGN em 2/6/2020

Com a mesma profundidade e efetividade das famosas “notas de repúdio” um grupo de artistas, intelectuais, políticos e alguns papagaios de pirata de manifestos públicos assinaram um manifesto intitulado “Estamos #Juntos”. Não quero ser o chato do aniversário nem o estraga prazeres, mas me causa certa impaciência, nessa altura do campeonato, esse tipo de manifesto. Se ele não chega a ser um problema e tampouco desonra a biografia de quem o assinou, tenho o direito de achar que já passou da hora desse tipo de ação.

É fato incontestável que o bolsonarismo rompeu com a “normalidade democrática” que nos foi brindada por anos pela insossa dicotomia PSDB e PT. Cada um a seu modo e mediado por suas respectivas histórias estabeleceram os limites de nossa ruptura sempre bem acoplada à tradicional conciliação brasileira. Getúlio Vargas, nosso ditador mais estimado, foi o grande responsável em criar o moderno Estado brasileiro na medida em que conseguiu estabelecer a “boa relação” entre o capital e o trabalho.

Com o PSDB a sofisticação intelectual liberal chegava ao poder depois da “experiência Collor”. Toda cartilha econômica, hoje imposta sob críticas, do ultraliberal Paulo Guedes, teve no governo FHC sua antessala. A privataria tucana, tão bem delatada no livro de Amaury Ribeiro Jr., já foi esquecida pelos atuais assinantes de manifestos. Uma vez no poder, ao PT caberia nos oferecer uma alternativa mais robusta e mais profunda de transformação comparado ao projeto tucano. A tradição sindical e de forte ligação com os movimentos sociais foram suficientes apenas para fazer dos governos petistas aqueles que mais investiram no social (isso não pode ser desprezado), mas não foram suficientes para uma tentativa mais contundente de “refundação” do Estado brasileiro, de repactuação das relações democráticas, de aprofundamento consistente em termos de construção de uma infraestrutura que pudesse dar à parcela mais vulnerável do país uma ascensão consistente e não apenas um simulacro de ascensão pelo simples ato de poder comprar uma smart TV.

Como costumava dizer o ex-presidente Lula, até com certa ponta de orgulho, “em meu governo os bancos nunca ganharam tanto”. As grandes fortunas passaram incólume nos governos petistas. A grande mídia familiar não teve um único dia em que lhe fosse exigida uma contrapartida social pelo fato de se tratar de uma concessão pública. A dívida pública continuou sem risco de auditoria e drenando para o grande capital nossas escolas e hospitais. Nosso imposto regressivo não foi corrigido, e a senzala continua pagando mais impostos do que a casa-grande.

Se a fase PT e PSDB foi necessária como instrumento de uma pax política e social pós ditadura militar, a chegada ao poder de uma figura nefasta como Jair Bolsonaro, trazendo com ele os valores abjetos do bolsonarismo, é resultado dessa pax conservadora petista-tucana. Se o PT avançou em termos de investimento no social, se adequou perfeitamente ao modus conservador de fazer política. Se moveu com desenvoltura no movimento de peças do chamado presidencialismo de coalizão. Abriu mão dos movimentos sociais, profissionalizando campanhas e tomando ares de partido unicamente cartorial. Não demonstrou interesse em criar um amplo movimento nacional de qualificação do debate político e dos valores sociais. Deixou o vácuo para o proselitismo religioso dos neopentecostais que não tardaram em transformar-se em tentáculos da política institucional.

As instituições como o STF e a classe política, hoje sofrendo terrivelmente nas mãos do bolsonarismo, foram fieis avalistas do moralismo seletivo do lavajatismo enquanto este tinha como inimigo o PT e, principalmente, o pensamento de esquerda e progressista do país. Nos mandaram tanto ir para Cuba e Venezuela que acabamos ficando no Brasil apenas de corpo presente, mas sem alma e disposição de lutar por maiores e mais profundas transformações sociais.

O bolsonarismo é resultado disso, desse discurso conciliador que tomou conta da sociedade brasileira nos últimos 20 anos. Nossa democracia se restringiu exclusivamente ao ato de votar. Em paralelo, os verdadeiros donos do poder (grande mídia e empresários) fatiavam a democracia brasileira para caber dentro de suas caixas de interesses privados.

Em 2014, resolveu-se que aquele período concedido ao petismo tinha vencido o prazo. O PT já tinha feito a parte dele, era necessário ao grande capital retomar novamente, sem riscos mínimos de concessões, as rédeas do país. Era o momento de retorno do sempre bem comportado PSDB. Apesar do apoio irrestrito de figuras como Luciano Huck (ele é um dos signatários do atual manifesto) o andar de baixo decidiu se sublevar momentaneamente ao andar de cima. Uma vez eleita Dilma Rousseff, a estratégia seria não deixá-la governar. As pautas bombas do Congresso resolveram a questão. Em paralelo, o processo de demonização do PT e da esquerda deveria ser aprofundado com o apoio da grande mídia (hoje alternando entre eles quem faz o mais criativo e contundente editorial contra o bolsonarismo) e das recém-nascidas estrelas da mídia alternativa, como os youtubers com grande quantidade de seguidores ( a exemplo do novo queridinho da esquerda, o youtuber Felipe Neto, que passa por um oportunista reposicionamento de marca, também signatário do manifesto, e que em 2016 comemorou com pizza o impedimento de Dilma e a possível morte do “partido mais corrupto da história desse país”).

Em 2015 o impeachment entrou na ordem do dia e contou com o apoio de vários assinantes do manifesto “Estamos #Juntos”. Eles também são parte do problema que hoje oportunisticamente dizem tentar resolver. Bolsonaro é filho de vocês. Gente como o cantor Lobão (já fez live ao lado de Alan dos Santos e Olavo de Carvalho) que em show chegou a trocar a letra da canção “Vida Bandida” por “Dilma Bandida”. Hoje ele assina o manifesto pela “ordem, pela política e pela diversidade”. Ou o filósofo Luiz Felipe Pondé aquele que em 2015 no contexto de impeachment de Dilma disse a seguinte perola sobre o maior partido de esquerda da América Latina: “Temos que reconhecer: chegamos ao fim de uma era. O PT vive seu outono. Melhor voltar para o pátio da fábrica onde nasceu e de onde nunca deveria ter saído”. Ele também está entre os indignados que como diz o manifesto querem “combater o ódio e a apatia com afeto, informação, união e esperança”.

O manifesto também leva a assinatura do deputado Rubens Bueno que ao assumir a liderança do PPS disse, na época, que a prioridade do partido seria a “defesa do impeachment da presidente da República, Dilma Rousseff”. Rubens Bueno está lá, ao lado do grande Caetano Veloso, assinando um manifesto que prega a defesa de “uma administração pública reverente à Constituição”. Assina também o “ex-coxinha” e antipetista convicto Marcelo Serrado (votou em Haddad no segundo turno) que certamente ao ir às ruas com a camisa amarela ao lado dos colegas Suzana Vieira e Marcio Garcia (esses não assinaram o manifesto) devem ter tirado fotografia ao lado daqueles que hoje pedem o fechamento do STF e a intervenção militar. Gente como o ator Marcos Palmeiras e o sociólogo Luís Eduardo Soares (esse parece ser um assinante compulsivo de manifestos) que assinaram em 2014, motivados por um antipetismo tosco e desproporcional, um manifesto com o intricado nome de “Esquerda Democrática com Aécio Neves”. Eles acreditavam mesmo que a candidatura de Aécio Neves representava um projeto de esquerda?

O manifesto “Estamos #Juntos” tem o apoio de muita gente séria e bem intencionada. Mas o tom conciliador do documento, na tentativa de criar essa tal “Frente Ampla” contra o fascismo, e no sentido de abarcar a “massa cheirosa” da direita liberal, como bem disse o professor Luís Felipe Miguel em artigo, “reduz nossos horizontes e enfraquece a exigência de uma transformação social profunda”. Derrubado Bolsonaro, e de volta a “normalidade conservadora”, não sejamos ingênuos, o day after de parte dos assinantes do manifesto é o colo de Dória, Huck, Amoedo, Sérgio Moro ou um novo Collor de Mello.

Desculpem-me a franqueza, não precisamos mais de manifestos de conciliação nacional. E me desculpem novamente, não somos 70% de nada, chega de “hashtags de ordens” que somente servem para massagear o ego de quem as lança. Chegou a hora de separar o joio do trigo. De definir os lados e estabelecer como critério aqueles que sempre estiveram na trincheira de luta ao lado de um país de esquerda, socialista, voltado radicalmente para o bem estar da classe trabalhadora e dos Brasil profundo. Se isso não é estratégico para ganhar as próximas eleições, pouco importa, fomos forjados nas ruas e na oposição. O importante é voltarmos nossas energias para a construção de uma agenda que nos orgulhe de sermos chamados de esquerda. Não se enganem Olavo de Carvalho fez isso do outro lado, e deu certo.

Eduardo Borges é doutor em História e professor da Uneb/Campus 14.

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