Editorial do Estadão: Uma escolha difícil ou a mídia nunca vai perdoar o “presidente Luiz”

Para dar autoridade ao dito – polarização e equivalência de biografias – o jornal usa a referência a Maquiavel, que é formulada em bases calcadas no senso comum.

Eliara Santana, via Jornal GGN em 26/5/2020

“Não há dúvidas: Jair Bolsonaro e Lula nasceram um para o outro”.

Assim começa o editorial do Estadão de terça-feira, 26 de maio, mais um vaticínio para corroborar a ideia da polarização, da equivalência entre Lula e Bolsonaro.

Já no primeiro parágrafo, percebemos, na forma de referenciação a um e a outro, que as preferências do jornal se inclinaram em outros tempos mais para um deles. Diz o parágrafo:

Tanto o presidente da República como o chefão petista se associam na mais absoluta falta de escrúpulos, em níveis que fariam até Maquiavel corar”.

Ora, se um dos sujeitos retratados é presidente da República, e se trata de elencar equivalências, o outro sujeito é ex-presidente do maior partido de esquerda da América Latina, e talvez pudesse ser assim apresentado.

Para dar autoridade ao dito – polarização e equivalência de biografias – o jornal usa a referência a Maquiavel, que é formulada em bases calcadas no senso comum (não me lembro, nas aulas de Ciência Política, de discutir qualquer abordagem de Maquiavel sobre “retidão moral absoluta como fator essencial para o bom governo”), mas importante para dar o verniz de domínio conceitual político de que o jornal precisa para se colocar como uma voz a estabelecer a equivalência entre um ex-presidente que tirou 40 milhões de brasileiros da miséria e um que chama governadores de “estrume” e nega a ciência.

Prosseguindo, o editorial abandona Maquiavel e recorre à ciência biológica para dizer que:

“Jair Bolsonaro e Lula da Silva unem-se como siameses. Enxergam o mundo e seu papel nele da mesmíssima perspectiva. Tudo o que fazem diz respeito exclusivamente a seus projetos de poder, nos quais o Estado e o povo deixam de ser o fim último da atividade política e passam a ser meros veículos de suas aspirações totalitárias”.

Não sei se minha leitura está equivocada, mas me parece que essa predicação não é adequada para explicar por que são siameses. Enfim, mas isso também não vem muito ao caso.

O que vem mesmo ao caso é a desfaçatez do jornal, que elenca como crime inexpugnável a fala infeliz e equivocada de Lula sobre a covid – frase pela qual ele já pediu desculpas, tendo emitido nota e gravado um vídeo. E cita apenas as frases idiotas de Bolsonaro, sem expor seus atos e sua beligerância, como se as falas infelizes fossem suficientes para dizer que se equivalem. Durante a campanha eleitoral, Jair Bolsonaro já dizia frases “polêmicas”, segundo a mídia. Algumas eram realmente idiotas, outras, no entanto, denotavam sua postura racista, machista, homofóbica, de extrema-direita, beligerante. Mas elas nunca foram rechaçadas, expostas, questionadas. Na verdade, eram muito pouco citadas, talvez para que o conjunto da obra não se mostrasse antes da eleição.

Segundo o editorial,

“Lula trabalha desde sempre para cindir o País – e sua recente celebração do coronavírus pode ser vista como uma espécie de corolário macabro da concepção doentia segundo a qual os brasileiros recalcitrantes, que ainda não aceitam o projeto de Estado autoritário idealizado pelo lulopetismo, devem ser castigados pela natureza para que aprendam de uma vez por todas que Lula sempre tem razão. Bolsonaro faz exatamente o mesmo, e ainda enxovalha publicamente quem se recusa a aceitá-lo como salvador”.

Talvez o Estadão tenha se esquecido, mas no “projeto de Estado autoritário do lulopetismo”, a PF tinha plena autonomia, não havia gabinete de fake news com recurso público, as pessoas tinham acesso a atendimento médico com o fortalecimento do programa Saúde da Família, os presidentes em questão nunca mandaram a imprensa calar a boca e nem ousaram dizer que iam retirar anúncios de determinados veículos, âncoras famosos e outros jornalistas não eram perseguidos, o judiciário não sofria intimidação, Lula e o Brasil eram reconhecidos internacionalmente, os povos indígenas eram respeitados e tinham espaço de proteção (apesar da agressividade do garimpo), as empregadas domésticas passaram a ter direitos, todo mundo podia viajar de avião (aeroporto virou rodoviária, diziam os piadistas). Hoje, bem, nem é preciso dizer muita coisa, basta lembrar que o presidente atual critica a OMS e renega a ciência – demitiu dois ministros da Saúde em meio a uma pandemia –, libera a Amazônia para garimpeiros e grileiros, insiste num medicamento que o mundo inteiro já disse que não é eficaz contra a covid-19, diz em reunião ministerial que tem um sistema particular de informação.

Por fim, diz o editorial:

“O bolsonarismo é um monstrengo antidemocrático que só ganhou vida e ribalta por obra e graça do lulopetismo”.

Não. Bolsonaro e o bolsonarismo são monstrengos criados em grande medida pelo conjunto de atitudes covardes e negligentes da mídia corporativa, que, entre outras coisas, contribuiu para a criminalização da política, fez vistas grossas a atitudes e falas racistas e homofóbicas e negligenciou denúncias crescentes do uso de fake news na eleição de 2018. Toma que o filho é de vocês, e comparações idiotas não vão adiantar.

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