Se soubesse que reunião seria gravada, teria falado de covid-19, diz Salles

Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. Foto: Agência Brasil.

Via UOL em 25/5/2020

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou hoje ao UOL Entrevista que, se soubesse que a reunião ministerial de 22 de abril se tornaria pública, teria se manifestado sobre a crise provocada pela pandemia do novo coronavírus. A conversa foi conduzida pelo colunista Diogo Schelp, do UOL.

No vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, tornado público na sexta-feira [22/5], Salles defendeu que o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) aproveitasse o foco da imprensa na cobertura da pandemia da covid-19 para aprovar reformas “infralegais” de todos os tipos. Para o ministro, essa seria a hora de “passar a boiada” e simplificar normas “de baciada”.

“Se soubesse que [o conteúdo da reunião] iria a público, apresentaria
as mesmas ideias, porque são ideias importantes, de desburocratização,
simplificação. Mas faria uma introdução para que o brasileiro
primeiro soubesse que temos muita preocupação, sim,
com a saúde das pessoas e com a pandemia”.

As declarações de Salles na reunião motivaram protestos de servidores e de diversas entidades ambientalistas. O PSOL acionou a Procuradoria Geral da República e a Comissão de Ética da Presidência pedindo o afastamento do ministro.

“A oportunidade que nós temos, que a imprensa está nos dando um pouco de alívio nos outros temas, é passar as reformas infralegais de desregulamentação, simplificação. Então, para isso, precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de covid-19, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De Iphan, de Ministério da Agricultura, de Ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo”, afirmou Salles na reunião.

Hoje, o ministro disse que se referia “às normas de 10, 20, 30 anos atrás, acerca de competitividade do Brasil, ou seja, custo Brasil”.

“Normas infralegais que deveriam ser revisadas porque se tornaram obsoletas. Normas que travam o desenvolvimento e a geração de empregos”, afirmou.

“Não tenho problema nenhum sobre a imprensa”
Em determinado momento, o ministro justificou que não quis dizer que a pandemia seria uma “oportunidade” para modificar normas, mas que o foco da imprensa na covid-19 poderia evitar o que ele chama de “polêmicas”.

“Eu não disse que pandemia é uma oportunidade.
O que eu disse é que a forma como a imprensa tem feito a cobertura…
Não tenho problema nenhum sobre a cobertura da imprensa.
Mas o volume de crítica, o nível de manipulação, isso atrapalha enormemente.
Não é cobertura justa. É militância. E isso atrapalha muito”.

“O que temos observado nos últimos tempos: a cobertura da imprensa, que é democrática e não incomoda, mas tem uma cobertura ativista, que desinforma a sociedade. Não é verdade que somos insensíveis. O que eu falei ali é que seria hora efetivamente de revisar as regras normativas”, acrescentou.

Em outro momento da entrevista, Salles afirmou que, sem a atenção da imprensa, o governo federal poderia fazer mudanças de forma mais “serena”.

Covid-19 na reunião ministerial
No dia 22 de abril, em quase duas horas de reunião, Bolsonaro e seus ministros falaram sobre a covid-19 por 19 minutos e 18 segundos —naquela data, o Brasil já tinha 2.906 mortes confirmadas.

“Eu queria fazer um comentário: ‘Ah, ninguém falou sobre a covid-19”
[na reunião], mas aquela era uma reunião para tratar do Pró-Brasil
[programa de estrutura lançado pelo governo]. Você repara que eu me
referia uma fala do slide do Braga Netto. Então, não cabia a mim
falar acerca do tema [coronavírus]”.

O vídeo da reunião foi alvo de críticas pela quantidade de palavrões proferidos pelos membros do governo federal. Salles saiu em defesa de seus pares: “Cada um tem um estilo. O governo Bolsonaro é marcado por posições fortes. Os ministros têm isso: posições fortes e técnicas. O Brasil passou 30 anos se curvando ao politicamente correto, que não nos permitiu discutir posições”.

“Relatório de ONG é militância”
Salles também classificou de “militância” um relatório da ONG Human Rights Watch (HRW) que, na quarta-feira [20/5], denunciou que as sanções a crimes ambientais estão paralisadas na parte brasileira da Amazônia desde outubro de 2019 em razão de decreto de Bolsonaro.

A suspensão de multas na prática, segundo a organização, “é uma das várias medidas que o governo Bolsonaro adotou para enfraquecer a aplicação das leis ambientais e a proteção do meio ambiente”.

“Esse relatório da ONG é típico de militância. Há um relatório da CGU
[Controladoria Geral da União], em março de 2019, que os
processos [administrativos] do Ibama demoram sete anos para
serem concluídos. Ou seja, não sou eu ou a atual gestão do
Ibama para protelar. É o antigo modelo”.

A repercussão negativa no exterior das ações do governo federal na área ambiental, na avaliação do ministro, é em parte planejada por organizações do setor.

“Parte da repercussão no exterior é propositalmente orquestrada por entidades que querem levantar projetos sociais, querem dinheiro lá fora. Mas tudo bem, isso faz parte. Primeiro: o governo tem um projeto sustentável para a Amazônia”, argumentou. Salles disse que boicotes a produtos brasileiros pioram a situação, pois, segundo ele, nos locais onde há mais pobreza, há mais desrespeito à natureza.

Salles cita medidas inativas, e prevê fim do desmatamento ilegal
Durante a entrevista ao UOL, o ministro do Meio Ambiente previu que o desmatamento ilegal poderia acabar em dois anos. Para isso ser realizado, porém, Salles colocou uma série de entraves, e só depois de resolvidos esses entraves, segundo o ministro, se poderia acabar com o problema.

“Nossa expectativa era de que iniciadas essas medidas de maneira contundente, para atacar as causas do desmatamento, em dois anos já não teremos mais desmatamento ilegal na Amazônia”, afirmou Salles, citando medidas que até hoje não foram implementadas. São elas: regularização fundiária, zoneamento econômico e ecológico, pagamento pelos serviços ambientais e agenda da bioeconomia. “Quando a gente tiver tudo isso, tem uma perspectiva bastante positiva para resolver esse problema”, analisou.

“O Conselho da Amazônia, que foi uma ideia que nós elaboramos na reunião de ministros no final do ano passado, é realmente uma resposta importante que o presidente Bolsonaro dá. Os temas necessários à solução do problema da Amazônia são transversais, estão em vários ministérios”, justificou.

“Regularização fundiária, um tema preponderante do Incra, no Ministério da Agricultura; agenda da bioeconomia, um tema que envolve o Ministério da Economia; o tema de monitoramento da Amazônia, que envolve o Ministério da Ciência e Tecnologia. A questão indígena, que envolve o Ministério da Justiça e a Funai, e assim sucessivamente”, relatou.

“Isso precisa de uma centralização. Essa centralização está sendo muito bem representada pelo vice-presidente [Hamilton Mourão]. Ele conhece a Amazônia, tem ascendência. Tem uma interlocução com os investidores, governadores, prefeitos. Então, o Conselho é essencial para resolver o problema do desmatamento da Amazônia”, completou Salles.

Pelo Twitter, o Greenpeace Brasil respondeu aos comentários feitos pelo ministro sobre a composição do Conselho da Amazônia. “Conselho da Amazônia: Os governadores, indígenas e a sociedade civil não fazem parte da sua composição. Ele é apenas uma tentativa de minimizar o impacto negativo da gestão do ministro Ricardo Salles”, diz o post.

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