A anticiência e a diplomacia medieval desmontam estratégia de Bolsonaro e isolam país

Jamil Chade em 25/5/2020

Evidências científicas, a explosão de casos de covid-19 no Brasil, a pressão diplomática internacional e a deterioração sem precedentes da imagem do país desmontam a estratégia traçada pelo governo de Jair Bolsonaro para lidar com a pandemia do coronavírus. O resultado passou a ser um país isolado e, aos olhos do mundo, com sérias dificuldades para sair de sua crise.

Nos últimos dias, o Brasil passou o segundo país com maior número de casos no mundo e, nas últimas duas semanas, somou três vezes mais casos que todos os 27 países da UE (União Europeia), juntos. A cada dia, um a cada quatro mortes no mundo tem ocorrido no Brasil.

Os números que revelaram a dimensão da crise foram acompanhados por duros golpes contra as apostas que o Planalto tentou usar para justificar seu combate à pandemia.

Um deles foi a promessa do uso da cloroquina. Depois da queda de dois ministros da Saúde, o governo trocou o protocolo do Ministério da Saúde para incluir o medicamento. Na mesma semana, um estudo da revista científica The Lancet chegou à conclusão de que os riscos para a saúde superam as evidências positivas.

No sábado, foi a vez de a OMS (Organização Mundial de Saúde) reunir seus especialistas e, agora, a entidade divulgou sua decisão de suspender temporariamente todos os testes com o remédio que servia de carro-chefe para a política de Bolsonaro.

Outra evidência científica escancarada pela OMS foi a do distanciamento social. A entidade anunciou que não há provas de que um país com intensa transmissão simplesmente verá o desaparecimento do vírus. A única saída, segundo a agência, é a adoção de medidas sociais, como quarentenas ou lockdowns.

Uma vez mais, a proposta de Bolsonaro foi derrubada por evidências científicas. Para abrir mão de tais medidas, a OMS indica que um país precisa ter a capacidade de realizar milhares de testes diariamente, assim como isolar todos os casos positivos e ainda identificar todas as pessoas que tiveram contato com eventuais pacientes. O Brasil, no caso, não tem tal capacidade.

Num chamado velado ao governo federal, o chefe de emergências da OMS, Michael Ryan, ainda apelou para que “sociedade e governo” chegassem a um acordo sobre a estratégia para lidar com a crise nacional.

Isolamento, só o político
Politicamente, o país acumula derrotas internacionais. Na semana passada, o Itamaraty ficou de fora de uma aliança mundial criada para desenvolver uma vacina. Na América Latina, os protagonistas na reunião anual da OMS passaram a ser os presidentes da Costa Rica, Colômbia e Paraguai, todos comprometidos em lutar contra o vírus.

Desde terça-feira da semana passada, a coluna solicita ao Itamaraty um esclarecimento se Bolsonaro havia sido convidado para a reunião. Diplomatas em Brasília indicam que nenhum convite passou por eles. Mas, oficialmente, a chancelaria mantém um silêncio profundo sobre se esse convite foi realizado ao brasileiro ou não.

A exclusão foi resultado de semanas de ataques por parte do governo brasileiro contra a OMS, sugerindo que a entidade fizesse parte de um “plano comunista” para permitir uma maior influência da China num mundo pós-pandemia.

Em reuniões fechadas ou mesmo em público, o chanceler Ernesto Araújo vem defendendo a tese de que o vírus do comunismo precisa ser enfrentado.

No fim de semana, mais um golpe. E desta vez por parte do principal aliado: os EUA. O governo de Donald Trump anunciou a proibição de voos de brasileiros para os aeroportos americanos. Ainda que a medida tenha sido vendida pelo governo de Bolsonaro como uma questão “técnica”, a decisão desmontou a tese do Planalto de que existiria uma relação privilegiada entre Washington e Brasília.

A medida, aos olhos do restante do mundo, também foi interpretada como um sinal de que a pandemia, no Brasil, está hoje fora de controle.

Reputação internacional em crise
Na ONU, o governo Bolsonaro também sofreu um revés. Já em dezembro, o relator das Nações Unidas, Baskut Tuncak, estava preparando um informe sobre o Brasil. Mas decidiu ampliar suas investigações e incluir as respostas do governo à covid-19 em suas críticas.

O informe apontará para as violações de direitos humanos cometidas pelo governo ao não proteger sua população. Ainda que não haja uma consequência direta, a situação exigirá que o Brasil responda durante a reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em setembro. O gesto promete aprofundar uma imagem já desgastada.

Outros dois relatores também já criticaram o governo, deixando o Itamaraty irritado com a nova onda de pressão internacional. Até mesmo a Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, alertou que, se a postura negacionista do governo tivesse sido evitada, vidas teriam sido salvas.

Enquanto isso, no Parlamento Europeu, deputados têm proliferado cartas à Comissão Europeia pedindo que o bloco reveja suas relações com o Brasil. Isso, segundo fontes em Bruxelas, pode significar problemas sérios para eventualmente ratificar o acordo comercial entre UE e o Mercosul.

A pandemia também mergulha o país numa crise de reputação internacional. Pelos jornais internacionais, fotos de Bolsonaro são acompanhadas por palavras como “caos”, “catástrofe”, “morte” e “populismo”.

Não faltaram ainda protestos, como o que um artista organizou na fachada da embaixada do Brasil em Paris, sede justamente de um dos diplomatas mais vocais na defesa do bolsonarismo.

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: