Além da PF, procuradores da Lava-Jato também devem ser investigados pela blindagem a Flávio Bolsonaro

Jeferson Miola em 19/5/2020

O Ministério Público Federal [MPF] instaurou investigação criminal para apurar a denúncia de Paulo Marinho acerca do delegado da PF que alertou Flávio Bolsonaro sobre a Operação Furna da Onça.

A investigação será fundamental para apurar os fatos, mas deixará lacunas importantes se não investigar o eventual envolvimento ilícito também de procuradores da Lava-Jato que atuaram na Furna da Onça com agentes da PF [aqui].

A Furna da Onça é um desdobramento da Lava-Jato no Rio de Janeiro. Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras [Coaf] entregue à PF e ao MPF em janeiro de 2018 sobre a movimentação financeira atípica de deputados estaduais e assessores parlamentares, deu origem à Operação.

Fabrício Queiroz, lotado no gabinete do Flávio Bolsonaro na Alerj, constava neste relatório do Coaf devido à movimentação sem origem comprovada de R$1,2 milhão [posteriormente chegou-se à estimativa de mais de R$6 milhões], inclusive com depósitos na conta de Michelle Bolsonaro.

Paulo Marinho denunciou, a partir do relato do Flávio Bolsonaro a ele, que:

  • uma semana depois do 1º turno da eleição de 2018, Flávio foi avisado por um delegado da PF sobre a deflagração da Furna da Onça, que atingiria Queiroz e a filha Nathalia, lotada no gabinete do Bolsonaro na Câmara dos Deputados;
  • o delegado, que se declarou “eleitor, adepto, simpatizante da campanha” de Bolsonaro, teria dito que “nós vamos segurar essa operação para não detoná-la agora, durante o segundo turno, porque isso pode atrapalhar o resultado da eleição”;
  • Flávio comunicou o episódio ao pai [Bolsonaro], que então mandou desligar Queiroz e a filha Nathália dos gabinetes do clã em 15 de outubro de 2018.

Em 8 de novembro de 2018, 11 dias depois do 2º turno da eleição, a ação da Furna da Onça foi finalmente deflagada com a participação de 200 policiais federais, 35 membros do Ministério Público Federal e 10 auditores da Receita Federal.

Nela, foram presos 10 deputados estaduais e 16 assessores parlamentares e agentes políticos. O incrível é que, apesar de apontados no relatório do Coaf, nem Flávio Bolsonaro nem Fabrício Queiroz foram alvos de mandados de prisão.

Somente em 6 de dezembro de 2018, depois de longo tempo abafada, a informação sobre o relatório do Coaf que incrimina Fabrício Queiroz vazou para a imprensa.

Com a repercussão do escândalo no noticiário, o chefe da Lava-Jato Deltan Dallagnol se esquivou do caso [e prevaricou]: “Relatório do Coaf apontou que 9 ex-assessores de Flávio Bolsonaro repassaram dinheiro para o seu motorista. Toda movimentação suspeita envolvendo políticos e pessoas a eles vinculadas precisa ser apurada com agilidade. É o papel do MP no RJ investigar” .

Uma investigação séria e isenta deve investigar toda a operação lavajatista Furna da Onça. A investigação deve abarcar, além de policiais federais, procuradores da Lava-Jato que eventualmente agiram para proteger os interesses do clã miliciano.

É preciso investigar por que a PF e o MPF, que receberam o relatório do Coaf ainda em janeiro de 2018, evitaram deflagar a operação tanto antes do 1º turno da eleição, como entre o 1º e o 2º turno; e por que, depois de retardarem a ação para não “atrapalhar o resultado da eleição”, excluíram Queiroz e Flávio Bolsonaro dos mandatos de prisão expedidos em 8 de novembro de 2018?

Deve ser esclarecido, além disso, por que Deltan Dallagnol defendeu que “É o papel do MP no RJ investigar” Queiroz e Flávio Bolsonaro, se todos demais citados no mesmo relatório do Coaf foram investigados e presos pelo MPF e pela PF no marco da sucursal da Lava-Jato no Rio de Janeiro?

Deltan sabia que Flávio havia cometido crime, conforme deixou escapar no diálogo via Telegram que manteve com comparsas da Lava-Jato em 8 de dezembro de 2018 publicado pelo site Intercept: “É óbvio o q aconteceu… E agora, José?”, exclamou ele, que depois mandou a investigação para o MP do Rio.

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