Em editorial, Le Monde diz que Bolsonaro causa “caos na saúde e semeia a morte”

Via RFI em 19/5/2020

“Tem alguma coisa de podre no reino do Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro pode afirmar que a covid-19 é uma ‘gripezinha’, um produto da imaginação histérica dos meios de comunicação”, diz o editorial do jornal Le Monde, em sua edição impressa de segunda [18/5].

Fazendo referência à famosa frase “há algo de podre no reino da Dinamarca”, escrita por Shakespeare em 1600 na tragédia “Hamlet”, o jornal francês condena com veemência o presidente brasileiro. O diário publicou que Bolsonaro participa de manifestações sem tomar a menor precaução com o distanciamento social, exorta prefeitos e governadores a abandonar as restrições contra o coronavírus e finge que a epidemia está acabando no país.

“Ora, em 72 horas, o Brasil ultrapassou 254 mil diagnósticos e se tornou o 3º país com mais casos da covid-19 no mundo, superando o Reino Unido, que tem cerca de 250 mil infectados, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da Rússia”, relata Le Monde.

“Tem algo de podre no Brasil quando o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, diz que o coronavírus é resultado de um complô comunista […] quando o ministro da Saúde Nelson Teich pede demissão no dia em que o país atinge 240 mil casos da covid-19.”

Para muita gente, o Brasil atravessa uma crise que lembra as horas mais sombrias da ditadura militar, destaca o editorial. Mas existe uma diferença importante, reitera: “Enquanto no passado os generais reivindicavam a defesa de uma democracia atacada, o Brasil de Bolsonaro habita um mundo paralelo, um teatro do absurdo onde os fatos e a realidade não existem mais. Nesse universo sob tensão, alimentado por calúnias, incoerências e provocações mortíferas, a opinião se polariza a partir de ideias simplistas, mas falsas”.

Risco de novo regime autoritário
“O negacionismo alimentado pelo poder […] e a aposta política inacreditável de Bolsonaro, que pensa que os efeitos devastadores da crise na saúde serão atribuídos a seus opositores, mostra que esse obscuro ex-deputado de extrema direita não tinha nada de um homem de Estado”, afirma o jornal.

As advertências do diário francês continuam: “Com o apoio de 25% do eleitorado, Bolsonaro sabe que sua margem de manobra é estreita. Depois de praticar o negacionismo histórico em prol da ditadura, de negar a existência de incêndios na Amazônia e da gravidade da epidemia da covid-19, Bolsonaro agora tenta levar o país para um novo regime autoritário”.

Além do editorial e de uma reportagem de página inteira, a charge de capa, assinada pelo desenhista Plantu, também mostra o descalabro no Brasil. Enquanto uma família francesa faz um passeio em uma floresta recém-aberta, com todos de máscara, Plantu mostra um pequeno indígena brasileiro sem defesas orgânicas em meio a tocos de árvores da Amazônia destruída.

Leia a íntegra.

BRASIL: A PERIGOSA FUGA DE BOLSONARO PARA A FRENTE
Editorial do Le Monde em 18/5/2020

Não há dúvida de que há algo podre no reino do Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro, pode afirmar sem se preocupar que o coronavírus é uma “gripezinha” ou uma “histeria” nascida da “imaginação” da mídia. Algo apodrecido quando se mistura à multidão, pede às autoridades locais que levantem restrições, afirma que a epidemia “começa a desaparecer” logo quando cemitérios mostram recordes de enterros. Quando seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, fala em “comunavírus”, alegando que a pandemia é o resultado de uma conspiração comunista. Quando o ministro da Saúde, Nelson Teich, renuncia em 15 de maio, quatro semanas após sua nomeação para esse portfólio crucial, por “diferenças de opinião”, no dia em que o país alcançou 240 mil casos confirmados e mais de 16 mil mortos.

Para muitos, as horas sombrias no Brasil, agora a quinta nação mais afetada pela pandemia, lembram as da ditadura militar, quando o país foi submetido ao medo e à arbitrariedade. Com uma diferença significativa: enquanto os generais reivindicavam a defesa de uma democracia atacada, segundo eles, pelo comunismo, o Brasil de Bolsonaro habita um mundo paralelo, um teatro do absurdo onde fatos e realidade não existem mais. Nesse universo tenso, alimentado por calúnias, inconsistências e provocações mortais, a opinião é polarizada em uma nuvem de ideias simples, mas falsas.

A negação da pandemia pelo governo dissuade metade da população de se confinar, enquanto os pedidos de distanciamento físico lançados por profissionais de saúde, governadores e prefeitos são apenas moderadamente obedecidos. A atividade econômica deve continuar a todo custo, diz Bolsonaro, que luta acima de tudo para medir a pandemia enquanto faz um cálculo político insano: os efeitos devastadores da crise serão atribuídos a seus oponentes, espera ele.

Caos sanitário
Oficial subalterno excluído do exército e obscuro deputado de extrema-direita, ridicularizado por seus pares durante três décadas, Bolsonaro não tinha nada de um estadista. Chegando ao poder, devorado pela amargura e pela nostalgia, o ex-capitão da reserva continuou acusando o odiado “sistema”. Postura que, durante uma pandemia aguda, causa caos na saúde e semeia a morte.

Traindo os fatos, os governantes populistas acabam acreditando em suas próprias mentiras. Vemos isso em outras partes do mundo. Mas aqui, neste país que surgiu há apenas vinte e cinco anos da ditadura, onde a democracia permanece frágil e até disfuncional, o fato de politizar dessa maneira uma crise de saúde excessiva é totalmente irresponsável.

Com uma base de 25% dos eleitores, Bolsonaro sabe que sua margem de manobra é estreita. Hoje, algumas pessoas evocam o cenário de um golpe institucional. Diante da multidão que veio apoiá-lo em Brasília, o presidente também deixou claro, em 3 de maio, que, no caso de uma investigação do Supremo Tribunal contra ele ou seus parentes, ele não respeitaria a decisão dos ministros. Depois de praticar o negacionismo histórico e elogiar a ditadura, negar a existência dos incêndios na Amazônia e a gravidade da pandemia de covid-19, Bolsonaro e sua tentação autoritária correm o risco de envolver o país em uma perigosa fuga para a frente.

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