Nem Trump fala mais da cloroquina, por que Bolsonaro insiste nela?

Mesmo sem provas, o presidente quer aval ao uso indiscriminado do remédio. Os motivos são ambíguos. Mas os efeitos podem ser catastróficos.

Thais Reis Oliveira, via CartaCapital em 16/5/2020

Em meio a uma pandemia cujo estrago é ainda inumerável, a cloroquina derrubou dois ministros da Saúde em um mês. Antes de demitir Luiz Henrique Mandetta, o presidente Bolsonaro conseguiu dele um protocolo de prescrição da droga para pacientes do SUS em estado grave. Em 7 de abril, a autorização se estendeu a todos os pacientes internados. Mandetta caiu dez dias depois. Os arautos da cloroquina advogam pelo uso ainda nos primeiros sintomas. E Bolsonaro está com eles.

Na queda de Nelson Teich, a droga teve papel mais central. Depois de cercá-lo de militares, o presidente esperava que o ministro afiançasse o sucesso do medicamento. Teich recusou. O ex-capitão bateu o pé, e o ministro deixou o cargo nesta sexta-feira [15/5].

Duas empresas fabricam a cloroquina no Brasil: a EMS produz a versão genérica – a patente da cloroquina venceu há décadas. A outra é Apsen, cujo dono é um aguerrido apoiador do governo. Para muita gente, a obsessão de Bolsonaro com a cloroquina esconde interesses financeiros escusos. A essa altura, porém, os lucros de um empresário amigo são preocupação de menor monta.

Mais preocupante é produzir montanhas de cloroquina com dinheiro público. No fim de março, Bolsonaro usou a caneta para determinar que o Exército multiplicasse a produção de cloroquina. Antes, o Exército produzia cerca de 250 mil comprimidos da droga a cada dois anos. Agora, concentra esforços para produzir 1 milhão de unidades por semana. O remédio vence em dois anos após a data de fabricação.

A recomendação como política pública e sem amparo científico pode provocar uma enxurrada de ações judiciais. Não só Bolsonaro pode ter problemas, mas o Estado brasileiro. Os familiares de pacientes de covid-19 que morram pelo uso da cloroquina poderiam, no futuro, pedir indenização.

A MP 966 – isenta de responsabilidade agentes públicos que cometerem erros durante o enfrentamento da pandemia – ofereceria um salvo-conduto a ele e outros envolvidos.

Os estudos mais elaborados concluídos até aqui rejeitam a eficácia da cloroquina contra o coronavírus. O maior deles, publicado no Journal of the American Medical Association, com 1.438 pacientes, indica não haver redução de mortalidade nem quando a cloroquina é associada a azitromicina. Outro, reproduzido no The New England Journal of Medicine, incluiu 1.376 pacientes e não encontrou evidências de que a droga influencie a redução de mortes e intubações causadas pela covid-19.

Além disso, a droga pode ser fatal para cardiopatas. Pode causar desmaios, convulsões ou, às vezes, parada cardíaca neste grupo de pacientes. No mês passado, um estudo do governo americano com veteranos de guerra mostrou que pacientes tratados com hidroxicloroquina morreram mais que os que não tomaram o remédio.

Apesar da ciência, o uso do medicamento é amplamente difundido. E não só no Brasil. Uma pesquisa global da rede social médica Sermo indica que 56% dos doutores receitam a cloroquina a pacientes de covid-19 no hospital. E 36% ainda nos primeiros sintomas. Recentemente, o Conselho Federal de Medicina deu guarida à prescrição por médicos, em casos leves ou graves, desde que informado ao paciente os riscos e ausência de evidências científicas. É mais garantia do que incentivo: evita que os doutores sejam punidos no futuro.

Rastro de desinformação
A trama que transformou a velha droga contra a malária em panaceia tem a cara da nova direita. Começou com uma conversa, no Twitter, entre um advogado e James Todaro, um investidor de criptomoedas dos EUA. A dupla discutia os bons resultados da cloroquina contra o covid-19. Baseavam-se em um estudo, de próprio punho, com o timbre de duas grandes universidades e da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (falso, descobriu-se depois), cuja referência eram estudos chineses. O papo rendeu à dupla a atenção do magnata tech Elon Musk e da Fox News. E de Donald Trump. No dia 17 de abril, o presidente americano chegou disse que a droga “viraria o jogo” na luta contra a covid-19.

Mas número de mortos e infectados não parou de crescer. E Trump baixou o tom. Há mais de três semanas não canta loas à cloroquina. Concentra esforços em uma vacina. Em coletiva nesta sexta, na Casa Branca, Donald Trump disse que os Estados Unidos vêm fazendo “todos os esforços” para obter imunização para a covid-19 até o fim do ano.

Na cruzada pela cloroquina, restou a Bolsonaro um único (e improvável) companheiro. Ontem, Nicolas Maduro publicou em rede social um agradecimento aos profissionais da saúde e de pesquisa da Venezuela pelo uso da cloroquina contra o novo coronavírus. “Com eles [cientistas e médicos], avançamos na produção de difosfato de cloroquina, um medicamento eficaz para o tratamento contra a covid-19. Sim, nós podemos, Venezuela.”

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