Bolsonaro caiu do cavalo ao querer comparar as mortes no Brasil e Argentina

O presidente Jair Bolsonaro, ao lado do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, em entrevista coletiva na saída do Palácio da Alvorada. Foto: Pedro Ladeira.

BOLSONARO PEDIU PARA COMPARAR AS MORTES DE BRASIL E ARGENTINA: O RESULTADO É PÉSSIMO PARA ELE
Presidente também citou Suécia como modelo, mas índice do país escandinavo é ainda pior.
Lucas Alonso, via Folha em 14/5/2020

Questionado na quinta-feira [14/5] sobre a diferença entre o número de mortes causadas pelo coronavírus no Brasil e na Argentina, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sugeriu que a comparação entre os dois países deve ser feita de maneira proporcional às suas populações, e não por números absolutos.

Até a noite da quinta, o Brasil registrava 13.993 óbitos por covid-19, enquanto o país vizinho havia confirmado 353 mortes, de acordo com dados compilados pela universidade americana Johns Hopkins.

“É só você fazer a conta por milhão de habitantes”, respondeu o presidente. A comparação sugerida por ele, entretanto, expressa de maneira ainda mais evidente o resultado da gravidade dos efeitos da pandemia sobre o país.

A taxa de mortes por milhão de habitantes na Argentina é de 8. No Brasil, o número é mais de sete vezes maior: são 66 mortes a cada 1 milhão de habitantes. O cálculo a partir desse índice permite comparar locais com diferentes tamanhos de população.

Enquanto o presidente argentino, Alberto Fernández, decretou quarentena total no país em março, quando havia 128 casos confirmados, e prorrogou nesta semana as medidas de isolamento até, pelo menos, 24 de maio, por aqui, Bolsonaro voltou a criticar as medidas restritivas adotadas pelos governadores dos estados.

“Tem que reabrir, nós vamos morrer de fome. A fome mata, a fome mata! Então, [é] o apelo que eu faço aos governadores: revejam essa política, eu estou pronto para conversar”, disse o presidente na quinta.

“Vamos preservar vidas, vamos. Mas dessa forma o preço lá na frente serão centenas a mais de vidas que vamos perder, por causa dessas medidas absurdas de fechar tudo.”

Ao responder ao questionamento do jornalista sobre as cifras de mortes no Brasil e na Argentina, Bolsonaro disse que o profissional estava “defendendo [o governo do país vizinho]”, porque “entrou para ideologia”.

“Você pegou um país que está caminhando para o socialismo.”

Fernández disse, em março, que “as declarações e ações de Bolsonaro levam a pensar que o Brasil pode entrar numa mesma espiral que a Itália” e acrescentou que se preocupa muito com o fato de que países “não entendam a gravidade do problema“, em referência ao governante brasileiro.

Ainda na quinta [14/5], Bolsonaro mencionou rapidamente a estratégia da Suécia no combate ao coronavírus.

“Vamos falar da Suécia? Pronto! A Suécia não fechou!”

Sem um contexto mais detalhado, a referência do presidente ao país escandinavo que contraria a tendência global de medidas rígidas de isolamento dá a entender que o governo sueco está sendo bem-sucedido no enfrentamento à pandemia.

Um diretor executivo da Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que a Suécia é um modelo a ser seguido por outros países.

A principal diferença foi que, em vez de decretar o fechamento dos estabelecimentos, o governo sueco confiou na população para tomar os cuidados com a infecção e se impor os limites necessários para combater a disseminação do vírus.

O país não decretou “lockdown”, mas estimulou ensino e trabalho a distância e o cancelamento de voos. A população que usa transporte público diminuiu cerca de 60% em Estocolmo, e os principais resorts de esqui fecharam voluntariamente.

Os números, entretanto, principalmente na comparação com Brasil e Argentina, não corroboram a insinuação de Bolsonaro.

Com menos de um quarto da população da Argentina, a Suécia tem um número de mortes por covid-19 quase dez vezes maior.

A taxa de mortes por milhão de habitantes é de 349, quatro vezes maior que a brasileira e quase 43 vezes maior que a argentina.

A Suécia adotou um método menos restritivo contra o coronavírus e manteve bares, restaurantes e lojas abertas, além de não proibir as pessoas de irem às ruas. O primeiro-ministro sueco, Stefan Lofven, disse que conta com o voluntarismo da população.

Países escandinavos – que adotaram medidas mais restritivas que a Suécia – tiveram menos mortes. Até a quinta [14/5], são 43 mortes por milhão de habitantes na Noruega, 52 na Finlândia e 93 na Dinamarca.

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