A mina escura e funda do bolsonarismo

Carlos Dória em 3/5/2020

“Dentre as várias formas históricas de dominação, a que nos cabe sob o capitalismo moderno é a dominação burocrática, apoiada sobretudo na “vontade de obedecer” que nos faz, por exemplo, pagar impostos sem que seja necessário um cobrador do Estado vir pôr abaixo a nossa porta. A esta forma corresponde, na outra ponta, a desobediência civil, a emergência de uma contra-vontade de desobedecer – como essa que leva bolsonaristas às ruas, para confrontar as orientações públicas de confinamento durante a pandemia. Há razões pessoais e públicas para isso.

A alma humana é uma mina escura e funda. É na criatividade, na condição de adaptação às circunstâncias, que depositamos a esperança de não sucumbir. Isso vale também para o bolsonarista, que é um tipo social que acha que sua hora é agora. Mas ele não surgiu da noite para o dia – antes, é um tipo em gestação na sociedade brasileira há algum tempo. Parecem ter despertado para a política, mas carregam nas costas, há séculos, o “apoliticismo da plebe” (Oliveira Vianna) que os obriga a ter um condottiero para se mover. Mas não basta dizer que é uma personalidade autoritária, ou um tipo conservador. A questão é saber por que ele saiu do armário agora para ganhar a cena pública. É preciso acompanhar os seus passos, tentando entendê-los. Por exemplo, é avesso ao confinamento pregado por todos os especialistas nos quais podemos nos apoiar para enfrentar a pandemia e não basta identificar seu pensamento anticientífico. É preciso saber por que ele está disposto a desdenhar da ciência.

A intimidade cria monstros. Se o inferno são os outros, é preciso conviver estreitamente com eles para se aperceber. A vida cria tantas distâncias (a rotina do trabalho, os rituais sociais, as diversões das férias) que é difícil ter uma oportunidade de vê-lo emergir por inteiro. Aquelas crianças, que passamos a vida educando, mostrarão um tanto de voluntarismo, de desobediência, de teimosia, que porão a nu o fracasso da educação que receberam. O casal que convive há décadas, num acordo tácito de que “amor é renúncia”, precisa resgatar o fundo do “eu” de cada um para fazer frente à adversidade. Até o silêncio parece complacência. E o vizinho, que coloca música alta todos os dias, torna-se um inimigo da nossa sobrevivência. De repente, o inferno se instaurou sem que nos déssemos conta de que sempre esteve ali, silencioso, a corroer nossas fibras. Não por acaso a violência doméstica disparou no período da pandemia: são 50% a mais, só na cidade do Rio de Janeiro. No polo oposto, e como escreveu Kafka, o desejo leva para fora de casa.

Civilização é repressão. Para seguir o caminho da paz é necessário, todos os dias, matar em nós mesmos o monstro que quer ganhar o mundo. Só aqueles que creem que existe uma “essência humana”, diferente das circunstâncias objetivas em que somos obrigados a produzir a nossa vida, acreditam que isso é desnecessário. Poderão, até, achar que de vez em quando pecam, por terem diante de si quem esteja disposto a perdoá-los. Mas, no inferno, não há perdão.

Por que essa digressão é necessária? Porque me parece equivocado apostar que os bolsonarianos ganham as ruas para fugir à miséria da convivência, como se fossem expulsos por ela e por serem seres toscos, incapazes de se realizar lendo um livro, ouvindo uma música, ou fazendo um reles pão. No mínimo é tudo isso e mais um pouco – o que é o essencial.

Expor publicamente a miséria da própria vida, aderindo a uma carreata, ao grito histérico de palavras de ordem que até ontem não faziam sentido, é mais do que uma catarse. É o impulso incontido de querer transformar o mundo. Eles sabem o risco que correm e, mesmo assim, vão adiante. Move-os a ideia de auto-sacrifício. Por isso também a grande adesão de “velhos”, que já tentaram “de tudo” para consertar o mundo. Talvez necessitem de psicanálise, mas, na falta, vão para as ruas.

Não vai, portanto, porque não acredita na letalidade do vírus. Nem sempre é o imbecil que não acredita que o homem foi à lua ou a terra é plana. Vai para o auto-sacrifício em prol de algo. O auto-sacrifício é inerente à natureza de certas espécies animais e, entre os homens, assume a forma específica que vemos, por exemplo, no cristianismo (Patrick Tort, Théorie du sacrifice. Sélection sexuelle et naissance de la morale, 2017). Jesus, que “morreu para nos salvar”, descortina um horizonte novo que se anuncia para depois do sacrifício. Há gente que não vive sem a esperança de dias melhores.

Bolsonaro deu a essa gente a configuração simbólica desse horizonte: um mundo de moral sexual anacrônica, de valorização do individualismo sem o ônus da solidariedade social, de eliminação dos inimigos vermelhos, da “teologia” da prosperidade, etc. Ao enrolar-se na bandeira do Brasil, como transdresser da pátria, e aderir a essa aventura, o sujeito se sente em paz, sem culpa, por abandonar a intimidade onde o inferno dos outros se impôs de forma incontornável, e isso o estimula a conquistar essa nova ordem que deseja até mesmo para os seus íntimos e está disposto a impor aos seus inimigos ou “diferentes”.

Na nova ordem ele imagina que todas as conquistas que valoriza – como emprego, sua capacidade de compra etc. – estarão preservadas e enriquecidas por um horizonte social que antes estava ameaçado. As escolas, ameaçadas pela doutrinação comunista, estará protegida; os impulsos sexuais dos seus filhos serão devidamente reprimidos até poderem desabrochar no enclausuramento de um casamento; o Estado não será pilhado pelos políticos, nem terá o dinheiro “de todos” carreado para políticas sociais que privilegiam os discriminados ou fracassados. A nova ordem é a velha ordem que não se soube preservar, mas que, agora, conta com a doação do seu auto-sacrifício.

Ele sabe que tudo isso é um ideário “de direita” e que agora pode expressar essas suas opiniões livremente, contando com a proteção do Estado. Perdeu a inibição que é apresentar-se nu. Mas não é o rei que está nu e, sim, o povo. Depois de um longo período de farsa e autoengano, em que os poderosos fizeram dele gato e sapato, o bolsonarista pode apostar livremente no “emponderamento” do Zé-ninguém. Almeja uma política transparente na sua crueldade. Até tentaram organizá-los em partido, mas o apelo caiu no vazio. Os verdadeiros bolsonaristas não se enganam: acaso não é o partido uma antecipação das falcatruas que se farão pela conquista do Estado? O “espontâneo” das ruas é a garantia do bolsonarismo de raiz.

Mas o bolsonarista não vai à rua para integrar uma coletividade anônima que busca uma ruptura com o “obedecer” e, portanto, disposta a qualquer coisa. Vai, de modo ambíguo, em carreata: está na rua protegido pelo carro que é uma extensão da sua vida privada, único distintivo de status numa manada de Zé-ninguém. Contracena a carnavalização da morte e do auto-sacrifício.”

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