Bolsonaro usa informação fake para desmentir notícia de que compartilhou vídeo sobre ato contra Congresso

Via Diário da Paraíba em 28/2/2020

O presidente Jair Bolsonaro passou a maior parte dos 34 minutos da transmissão ao vivo pela internet na noite de ontem fazendo ataques a jornalistas e à imprensa, contrariado com reportagens sobre ele e seu governo.

Acusou a jornalista Vera Magalhães, de  O Estado de S.Paulo, de ter mentido. Ela revelou na terça-feira [25/2] que o presidente repassou no WhatsApp um vídeo relacionado ao ato convocado contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro afirmou que a convocação seria de 2015, mas o vídeo publicado pela jornalista, e também obtido por O Globo, trata do atentado sofrido por ele em 2018 e de sua posse no ano passado.

O presidente disse estar “apanhando” de “praticamente quase toda a mídia brasileira” há três dias, e citou os jornais O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo e o Jornal Nacional, da TV Globo:

– Então esse vídeo deve estar rodando por aí, vou botar no meu Facebook daqui a pouco. É um vídeo que eu peço o comparecimento do pessoal no dia 15 de março de 2015, que, por coincidência, foi num domingo, e daí, pelo que parece, né, Vera Magalhães, você pegou esse vídeo.

Para comprovar que o vídeo era de 2015, o presidente citou que até o seu semblante estava diferente, mais jovem. Até a conclusão desta edição, no entanto, ele não divulgou essa gravação que prometeu.

Na verdade, a reportagem apontou que o presidente enviou um vídeo em tom emotivo, com uma mensagem dizendo que “o Brasil é nosso, não dos políticos de sempre”. Consta também o nome do general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que na semana passada foi flagrado acusando o Congresso de chantagear o governo. Bolsonaro prosseguiu dizendo que Vera conseguiu só um print do vídeo, mas a jornalista publicou a gravação.

Em nota, “O Estado de S.Paulo” lamentou o ataque. “Ao agir assim, ignorando os fatos, endossa conteúdos falsos”, diz o texto.

O primeiro tópico da transmissão ao vivo foi um ataque ao colunista da Época Guilherme Amado. O jornalista publicou uma nota de que as “mesas de café da manhã de Jair Bolsonaro na eleição eram fakes”, pensadas em passar a imagem de uma pessoa simples, citando ter recebido a informação de uma pessoa com livre acesso à família do presidente.

– Não vou baixar o nível aqui para dizer quem é essa fonte. Essa fonte, com toda a certeza, conhece o Guilherme desde quando ele nasceu. Mas tudo bem – declarou Bolsonaro, que ainda chamou Amado de “bocó da mídia”.

Amado respondeu que sua informação tem origem em uma fonte até hoje próxima à família do presidente, que pediu anonimato, e foi confirmada com outras duas pessoas.

Ao fazer ataques a Vera Magalhães, o presidente afirmou que sofre críticas da imprensa por ter reduzido gastos com publicidade. Bolsonaro disse na sequência que vai se reunir com empresários em São Paulo no mês que vem e pedirá que eles não anunciem em jornais e revistas como a Época e a “Folha de S.Paulo”.

– Pô, não anunciem lá, porque um jornal que só mente o tempo todo, trabalha contra o governo.

Em meio às críticas à imprensa na transmissão, Bolsonaro falou sobre a estreia da CNN Brasil e disse que será uma rede diferente da Globo, “pelo que eu estou sabendo”. Ele sugeriu que seus ministros não concedam entrevistas para emissoras sem “compromisso com a verdade”:

– Torço para que isso seja real, realmente, para que a gente possa fazer com o que os nossos ministros vão dar entrevista para essa televisão.

***

VERA MAGALHÃES DIVULGA OS VÍDEOS QUE O PRESIDENTE DISPAROU NO WHATSAPP
“Portanto aqui está a minha vergonha na cara. O senhor foi aconselhado a fazer essa live nesses termos? Acho perigoso a um presidente mentir em rede nacional”, publicou a jornalista, com uma série de vídeos e prints que desmentem o presidente.
Via Revista Fórum em 27/2/2020

Após Jair Bolsonaro utilizar sua live semanal de quinta-feira [27/2] para voltar atrás e mentir que o vídeo que disparou no WhatsApp convocando para manifestações contra o STF e o Congresso era, na verdade, de 2015, a jornalista Vera Magalhães fez uma sequência de tuítes desmentindo o presidente.

A notícia de que o presidente incentivou atos contra o Congresso e o STF entre seus apoiadores tem gerado, inclusive, articulações para um impeachment de Bolsonaro por crime de responsabilidade.

“A Vera mentiu. Eu quero que a Vera mostre o vídeo em que eu estou convocando as pessoas para isso”, afirmou o presidente. Segundo ele, o vídeo compartilhado teria sido produzido em 2015: “Tem um (vídeo) de 2015, que, por coincidência, no 15 de março houve um movimento, que foi num domingo”, disse durante a live.

Os vídeos que Bolsonaro disparou, no entanto, mostram cenas da facada em Juiz de Fora, em 2018, e até mesmo o presidente com a faixa presidencial, o que evidencia que o capitão da reserva mente ao afirmar que os vídeos são de 2015.

Vera Magalhães, no entanto, foi além e postou, além dos vídeos, prints que desmontam ainda mais a versão do presidente.

“O presidente @jairbolsonaro me atacou na live semanal e, antes, na porta do Alvorada. ‘Já que você é mulher, se eu falar qualquer coisa vão falar que eu estou agredindo as mulheres, tenha mais vergonha na cara’. Eu tenho vergonha na cara, presidente. E espero o mesmo do senhor”, escreveu a jornalista ao iniciar a sequência de postagens.

Confira.

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